quinta-feira, 13 de agosto de 2020

ZAMBÉ

- O que estás a desenhar?
- Deus.
- Mas ninguém sabe qual é o aspecto de Deus.
- Esperem uns segundos que já ficam a saber.

Foi assim que conheci o Zambé, o puto de quem hoje vos quero falar. Miúdo traquina, uma cabeça linda, a vida toda no interior dos olhos quando me olhava, naquela sala daquele colégio, e quando me fazia crer que só não existia aquilo que não se imaginava. Com o Zambé aprendi a ser criança e estimo bem que não haja ensinamento mais valioso do que esse. 

- O que queres ser quando fores grande?
- Pequeno outra vez. 

E foi. Foi-o mesmo. Ainda há uns meses, quando me cruzei com ele, ele lá estava, o mesmo olhar, a mesma vontade de descobrir tudo pela primeira vez, levava uma criança ao colo e eu percebi que só foi pai para ter uma desculpa para não crescer. 

- Então o que fazes?
- Invento.
- O que inventaste hoje?
- Uma nova maneira de abraçar.

Ensinou-me logo ali aquele abraço, a rua toda imóvel a rir-se de nós, alguns olhares de escárnio, e o Zambé e eu aos saltos numa forma de abraço que ninguém entendia mas que sabia bem comó caraças. No final das contas, o que levamos da vida é aquilo que ninguém entende mas que sabe bem comó caraças. 

- O que estás a fazer?
- A ensinar o meu filho a ler.
- Mas tem dois anos.
- Sim, mas ainda vai a tempo.
- E já sabe as letras?
- Quem precisa de saber as letras para saber ler?

E lá ficou ele, aquele sorriso inconsequente como só as pessoas livres conseguem ter, uma criança de dois anos ao colo no meio do jardim público onde toda a gente pensava em contas, em crises, em coisas tão insignificantes como sobreviver, esquecidas de que o mais importante estava a acontecer e chamava-se vida, e já agora o sol que estava bem alto a brilhar. No final das contas, o que levamos da vida é ela acontecer e o sol bem alto a brilhar.

- O que lhe vais dar no Natal?
- Estava a pensar dar-lhe um beijo.

Com toda a seriedade do mundo, Zambé brincava, talvez estivesse nisso o segredo para a felicidade das crianças, há lá algo mais sério para uma criança do que brincar?

- Gostava de assistir ao meu funeral.
- Mas porquê?
- Era a prova de que ainda estava vivo.

Zambé era, passe o pleonasmo, uma criança filósofa. 

- Tens medo da morte.
- Não.
- Porquê?
- Quando ela chegar sei que não me vai apanhar vivo. 

E não apanhou.



Pedro Chagas Freitas

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