sábado, 22 de agosto de 2020

Bielorrússia -De protestos espontâneos a "revolução colorida"

Lukashenko é presidente da Bielorrússia desde 1994, quer dizer, desde as primeiras eleições que se realizaram, no país já como nação independente, depois do derrube da União Soviética. 
Durante quase todos os anos, excepto nos primeiros no poder, as únicas noticias que chegavam sobre o país, no Ocidente, foram basicamente de três tipos: 1) - "Lukashenko é o último ditador da Europa que se apresenta a uma eleição" , 2)- "ganha as eleições por uma margem muito ampla" ; 3)-a comunidade internacional duvida da limpeza dos resultados e aplica sanções, é assim até às próximas eleições.

Dificilmente este ano terão visto noticias sobre a Bielorrússia durante mais de dois dias seguidos. Agora houve algo novo que rompeu essa previsível dinâmica noticiosa massiva e persistente manifestação de protestos perante o anuncio dos resultados.
Quem conhece bem a realidade  da Bielorrússia sabe que a popularidade de Lukashenko,durante todo o tempo que está à frente do governo, tem sido inegável, tão inegável como é o desgaste por 26 anos no poder. 

Assim que acedeu à presidência, Lukashenko, parou a iminente privatização das industrias nacionais a preços de galinha magra, evitando um cenário de profunda crise ao que aconteceu na Rússia   e que levou anos a concertar.

Grande parte da base eleitoral de Lukashenko encontra-se, precisamente, nos trabalhadores das empresas estatais. O modelo económico que desenhou baseia-se numa regulação estatal do mercado, controlo estatal das empresas e sectores chave e um alto nível de redistribuição que, além disso, garante taxas de pobreza e desemprego muito baixas.


Porém, os menores de 30 anos não conhecem outro presidente e não se lembram dos  cinzentos anos 90.

Embora os serviços como :  de electricidade, alugues, gás, etc sejam muito baixos na Bielorrússia, os salários não são competitivos em relação a alguns países vizinhos e muitos jovens preferem emigrar.

Outro motivo de descontentamento, que também aqueceu o ambiente eleitoral, foi não terem aceitado as inscrições de vários candidatos opositores, alguns deles que provenientes de anteriores gabinetes ministeriais  do próprio Lukashenko. Um  fugiu do país quando começou a sser investigado e outros foram presos  por invasão fiscal, corrupção e outros motivos.

Estas medidas levaram a oposição a aglutinar-se  em torno de uma única candidata - Svetlana Tijanóvskaya - cuja única carta de apresentação politica é ser esposa de um dos candidatos opositores preso.
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Desde que chegou ao poder, Lukashenko , sempre obteve entre 75 e 80 % de votos, são dados oficiais, as eleições de 1994 e 2015 também com resultados dessa grandeza nunca foram desconhecidos da União Europeia. E se os dados de 2020 foram falsificados e manipulados para o favorecerem, isso não implica necessariamente que Lukashenko não tenha obtido uma maioria de votos.
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O caso Bielorrusso, não se trata de "revolução colorida" e isso parece certo mas poderá converter-se numa. Mais como forma de prejudicar o Kremlin e o que consideram a sua área de influência como um objectivo em si mesmo.


Ainda que o Ocidente, inicialmente  e de forma incomum, reagiram com algum equilíbrio e pouco entusiasmo pela candidata que se declarou vencedora isso pode estar a mudar e o crescente ênfase mediático aponta para aí. Além disso há outros indicadores, desde a Lituânia Svetlana Tijanóvskaya anunciou a criação de  um gabinete para forçar a passagem do poder, basicamente uma estrutura de poder paralelo, uma óbvia piscadela a Washington e Bruxelas para que reconheçam  esse órgão auto proclamado como governo legitimo em lugar do Lukashenko, isto já é conhecido em situações anteriores e aplicar a formula Juan Gaidó  em Bielorrússia seguramente chegaríamos a 2022 com Svetlana Tijanóvskaya num périplo mundial anunciando que o fim  a usurpação está mais perto que nunca enquanto se vão somando as sanções internacionais supostamente contra Lukashenko que realmente afectam as pessoas comuns.
Com é de ver, trata-se de uma situação geopolítica muito complexa e cheia de matizes. Embora a conclusão perante este tipo de cenários não seja nova não é demais recordar-la uma vez mais.
A crise interna da Bielorrússia devem resolvê-la os bielorrussos sem que o país se transforme num tabuleiro de jogos de interesses   externos donde dificilmente alguém ganha alguma coisa e os que estão dentro têm tudo a perder.




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