[José António Pinto (aka Chalana) - Assistente Social]
© Por Manuel Roberto (fotografia) e Mariana Correia Pinto (texto)
Portugal, Porto, 24 de Setembro de 2015
“Nasci em Macieira da Lixa, em 1965, e, honestamente, aquela terra não tinha muito a ver comigo. Um lugar onde se valoriza a cultura dos livros de cheque, uma zona industrial onde o dinheiro tem muita força e onde quem não constrói uma identidade positiva através da posse é penalizado e discriminado. Havia coisas que tinha vontade de fazer e que lá nunca seriam possíveis ou valorizadas. Mas lá passei a infância. O meu pai partiu cedo. Eu tinha apenas nove anos. Era músico, um homem bonito que falava bem em público e era muito boémio — tenho a certeza de que ele iria gostar muito de mim e eu muito dele. Tenho muita pena que não esteja cá. Por o meu pai ter desaparecido, os meus dois irmãos preocupavam-se mais comigo e assumiram um papel muito importante. Eu era um puto rebelde, faltava à escola, metia-me em projectos de música. A nossa casa foi sempre um espaço aberto. O sítio onde toda a gente ia comer à noite, onde se falava e discutia muito, onde se tocava música. Onde comecei a tropeçar nas argolinhas da APU. Era muito pequenino. Queria assistir às reuniões e não me deixavam, queria ir fazer colagens e não me deixavam. Era a casa dos pintinhos, uma espécie de sede do PCP, onde se guardavam as latas da tinta, os painéis e a propaganda. Fui crescendo com aquilo. E comecei a identificar-me com aqueles princípios. Aquela gente sempre associou a luta e a questão política à borga e ao prazer. Nunca havia uma reunião sem um salpicãozinho, uma discussão sem uma garrafinha. Os camaradas não eram camaradas apenas por serem do partido, eram nossos amigos. Discutia-se muito os problemas da vida e não numa perspectiva única de protesto, mas também de construção. Faziam-se coisas. Isso influenciou-me imenso. Percebi muito cedo que ninguém muda nada sozinho. Da ditadura não tenho muita memória. Lembro-me de não haver escola no 25 de Abril e de ter ficado todo contente. Discutimos muito sobre aqueles dias em casa. A Câmara de Felgueiras promoveu, através da escola, um concurso de redacções sobre liberdade e eu ganhei uma menção honrosa. Foi o primeiro prémio da minha vida. Fui recebê-lo com uns calções de veludo preto e uma t-shirt linda que a minha mãe me deu para aquele dia. A liberdade percebi-a aí. E depois com o padre Mário, outra grande influência da minha vida. Ele dizia: 'Quem é que está aqui e tem filhos que vão para a Guerra Colonial? Esta guerra é injusta. Não podemos ir para lá matar as pessoas, porque o território é delas.' Achei aquilo muito interessante. Naquela altura, via os amigos dos meus irmãos a irem para a guerra, as mães e as namoradas a despedirem-se e a chorarem, e o discurso do padre Mário tocou-me muito. Pensei que aquele padre era muito fixe. Criou grupos de jovens para fazer teatro de consciencialização, construímos músicas como a 'O Manuel partiu para a guerra', que ainda hoje toco. Foi muito importante. Ele depois ‘desapareceu’ e passado uma temporada, tinha já eu uns vinte e tal anos, fui buscá-lo. Estava em Braga, no Correio do Minho, e fizemos uma grande festa na Casa do Povo. O padre Mário ficou tão encantado que quis ir viver para lá e construir uma comunidade de cristãos de base, muito à semelhança da teologia da libertação do Brasil. Criámos logo uns problemas com o padre da freguesia, mas foi uma coisa muito gira. Acredito num Deus vivo. Numa coisa que me diz que se recebo muito da vida também devo dar muito. Há coisas que são sinais e, provavelmente, têm a ver com ele. O facto de ser tão apaixonado pela vida por causa das pessoas, da arte e da natureza deve ter algo a ver com esse Deus. Há qualquer coisa que me diz para aproveitar, para realizar sonhos, para transformar as coisas. Noutro dia aconteceu-me uma coisa interessante. Tinha um amigo que, como eu, fazia voluntariado como palhacinho num hospital. Ele era muito religioso. Aliás, ele liderou aquele movimento do partido pró-vida, uma batalha que nos separou profundamente porque lutei de forma muito activa pela despenalização voluntária da gravidez e ele era contra. É interessante como é que, apesar desta divergência, éramos amigos... Aconteceu porque tínhamos aquela coisa comum de ir ao hospital fazer de palhacinho. Um dia ele ficou muito doente. A gente entrava no quarto e não acreditava que fosse o Luís Botelho, carequinha e frágil. A primeira vez que o visitei perguntei-lhe: 'Fogo Luís, o que aconteceu contigo e com Deus? Tu és tão religioso e Deus faz-te uma coisa destas? Explica-me como é possível...' E ele disse: 'Oh Chalana, sabes que, por acaso, um dia estava no Joãozinho e lembrei-me do meu filho. Disse a Deus que se algum dia tivesse de acontecer alguma coisa que não se atrevesse a tocar no meu filho, que mandasse isso para mim. Está a honrar esse compromisso.' Ele dizia-me que se acreditasse em Deus era muito mais fácil lidar com a dor. E, se é assim, faz muito bem. Se o facto de acreditar em Deus dá força a estas pessoas, porque não? A minha preocupação relativamente às crenças e à fé é que elas sejam atrofiadoras e castradoras. E de a Igreja usar isso para assustar as pessoas. Mas se for um Deus libertador, um Deus Red Bull que te dê asas, acho que não faz mal nenhum. A doutrina social da igreja é uma coisa espectacular. Há muitos comunistas que se formaram nessa doutrina. Temos a CGTP, que tem uma ala vinda daí. O próprio Manuel Carvalho da Silva diz que a Juventude Operária Católica foi super importante na vida dele. Portanto, não tenho nada contra a não ser a incoerência. E incoerente eu não sou. Por isso não casei na Igreja nem baptizei as minhas filhas. Porque são esses gajos que andam sempre a dizer para não se votar nos partidos de esquerda, que os comunistas matam as criancinhas e que deram colinho ao fascismo. Estou a falar da Igreja conservadora e reaccionária, claro. Se a Igreja se revolucionasse, se abrisse e tivesse outra atitude de combate e denuncia, seria uma força magnífica. Aí estaria todos os domingos no coro da igreja com o meu projecto de música revolucionária Troika. De Macieira da Lixa, fui para Amarante. O 9º ano já o faço lá. Pedi à minha mãe, porque não aguentava andar na Lixa. Em Amarante havia um rio lindo, turistas, Amadeu de Sousa Cardoso, muita gente de cultura. Foi a melhor fase de crescimento da minha vida. Foi lá que encontrei gente que me disse para ler 'Os Capitães da Areia', me apresentou a Caetano Veloso, a Chico Buarque, ao cinema. Aí sim, fui o rei das bifanas. Fui presidente da associação de estudantes, tinha um programa na rádio, organizava o festival da juventude, era da direcção central da JCP, fui à União Soviética com o Álvaro Cunhal e, ainda por cima, tinha um grupo de música tradicional portuguesa. Era mesmo o rei! A ida a Moscovo foi um prémio. Tinha 20 aninhos. Fiz a viagem no mesmo avião do Álvaro Cunhal. Foi assustador e lindo. Sentia-me muito pequenino. Ele sabia de cinema, de política. Sabia de tudo e falava de tudo com uma consistência fantástica. Dizia que aquela era a melhor fase das nossas vidas e tínhamos de aproveitar. Depois da viagem pediram para fazermos relatórios sobre o que tínhamos gostado e o que não tínhamos gostado. Escrevi que não gostava de chegar às lojas e não encontrar nada. Os camaradas diziam-me: 'Pois Chalana, o capitalismo tem os produtos nas prateleiras, o socialismo tem nas famílias.' Mentira. Não havia nem num lado nem no outro. Não gostei disso. Nem gostei da pobreza. Mas percebi que o PCP não tinha nada a ver com aquilo e que se devia demarcar o mais rapidamente possível de algumas coisas. Nunca teve essa coragem. Ainda hoje apanhamos nas orelhas por causa disso. E não faz sentido. O partido precisa dizer que o que está a acontecer na China é mau, que o que aconteceu na União Soviética foi péssimo. Nós não temos nada a ver com isso. Tenho uma profunda admiração por funcionários do partido que hipotecaram a família, a carreira profissional e académica para dar a vida pelo partido. E depois ainda eram presos e torturados. Em nome de um ideal. Nunca tive ambições políticas e sempre adorei ser assistente social, o que me dá uma independência enorme para dizer o que quero. Eles dizem-me que sou um pato bravo — ou seja, um preguiçoso — e que podia ajudar muito mais o partido. E aí fico com remorsos, penso que de facto podia fazer mais. Mas depois dizem-me que querem que seja candidato e fico todo orgulhoso. O melhor partido do mundo escolher-me: que pinta! Na Europa e no mundo, o nosso é o mais marxista-leninista. A escola maior que tenho é o PCP — qual Instituto Superior de Serviço Social do Porto, qual mestrado em sociologia. Foi lá que me formei, a todos os níveis. A questão do umbigo, por exemplo, o perceber que somos um colectivo e que a força está aí. Há muita gente que saiu do PCP porque não tinha espaço para o umbigo. Depois, a questão de não ser egoísta, de que ninguém muda o mundo sozinho. E o vazio. É das coisas mais bonitas que existe: quando se tem um ideal nunca se tem vazio. Há sempre um sentido para a vida. Aquela coisa que o Álvaro Cunhal falava, da paixão de viver. Ele dizia: 'Porque me meti nisto de dar a minha vida ao PCP? Porque a vida é uma coisa tão espectacular que deve sê-lo para todos. Portanto, só há uma forma: é a gente tentar transformar isto para que todos tenham vida e vida em abundância.' Encontrei isso no meu emprego. Mas percebi rapidamente que não era como assistente social que ia mudar o que quer que fosse. Tenho de ir à raiz do problema. Mudar a estrutura e o modelo de desenvolvimento económico. E, para isso, preciso do partido. Naqueles dias em que ando triste e acho que estou a ficar maluco, chego ali ao meu ‘rancho folclórico’ na Avenida da Boavista e percebo que não estou maluquinho nem sozinho. Sou marxista e tenho o privilégio de pertencer a um colectivo que se chama PCP. Orgulhosamente. A qualquer sítio que vá faço questão de dizer isto. Ao Porto cheguei em 1989. Vim estudar. Inclinei-me inicialmente para a sociologia mas percebi que ia ser muito teórico. O Marx dizia que os filósofos interpretavam o mundo, a questão era transformá-lo. Portanto, já tinha alguns amigos assistentes sociais — como o Júlio, de Amarante, que queria ser director de uma cadeia e hoje é director de Custóias — e lá concorri. Tinha uma média baixa, porque só queria borga e fiquei em suplente. O primeiro da lista. Passado uns tempos, ligaram-me. Nunca mais me esqueço do senhor Mário a dizer que tinha entrado. Foi das maiores alegrias da minha vida. Ainda para mais estava a namorar com uma miúda giríssima que entrou nesse ano também. Andávamos na escola secundária juntos e viemos juntos para cá. As pessoas preocupadas a perguntar onde ia dormir no Porto e eu: 'Em casa da Cristina, claro.' Fiquei lá uma temporada, mas ela depois mandou-me dar uma volta com medo que os pais descobrissem. Então o que é que eu fiz? Havia uma casa na Constituição que pertencia à Mota-Engil, que tinha sede em Amarante. Fui falar com o fundador, de quem era amigo, e ele acabou a ceder a casa para todos os estudantes que iam de Amarante para o Porto e não conseguiam alojamento. Era uma casa enorme, antiga. Chamávamos-lhe 'a assombrada'. Cada um foi restaurando o seu quartinho e assim fizemos a nossa república. Eu era o governador civil da casa. Numa altura, a Câmara do Porto queria demolir aquilo. Eu estava a estagiar no Pelouro da Animação, com a Manuela de Melo. Fui lá falar com ela: 'Oh senhora vereadora, então estamos ali não sei quantos jovens a tentar construir um futuro, com grande esforço das nossas famílias, e querem deitar-nos a casa abaixo?' Ela ligava ao chefe da polícia e dava ordens para nunca mais nos perturbarem. Depois chegava à casa e dizia: 'Meninos, se esta residência existe deve-se a uma única pessoa.' Era mesmo o rei. Gostei do Porto à primeira vista. Andava muito pela Ribeira, no ambiente boémio. Às tantas, o partido chama-me para me dizer que tinha um grande desafio na associação de estudantes. A Federação Académica do Porto tinha malta muito mais velha do que eu e muito politizada. Estávamos a discutir uma questão e eles pegavam nos cartões: da JS, da JSD... Eu, admirado com aquilo, não tenho mais nada: vou à carteira e saco do meu. Ora aqui está a estrelinha. Quem não tivesse um cartão de uma juventude partidária não tinha bilhete de identidade. Andei logo à porrada com o falecido Diogo Vasconcelos e disse-lhe que ia ganhar a associação de estudantes do ISSSP. Metemos uma freira na nossa lista, uma cabo-verdiana que tocava música maravilhosamente e a mãe das minhas filhas aparece nesse filme. Ela era muito dinâmica e muito inteligente e nunca estava de acordo comigo. Para lhe dar a volta convidei-a para a associação de estudantes. E assim ganhamos. Com aquele percurso, todos pensavam que ia fazer uma carreira política. Mas isso nunca foi uma ideia na minha cabeça. O PCP ficou encantado por eu ganhar, era a única associação comunista da cidade. Quando acabo o curso, mais uma vez o partido aparece. Queriam que fosse para Felgueiras, para a associação João Paulo II, dirigida por um camarada — olha a ironia! — e que depois fosse candidato à câmara e passasse a vereador. Não queria nada daquilo. E eles diziam: 'Mas tens algum plano diferente?' E eu não tinha. Regressar a Felgueiras era pior do que ser atropelado nos Aliados... Mas lá fui. Para um projecto chamado Liga de Deficientes e Amigos de Felgueiras. A parte mais positiva foi trabalhar com a Fátima Felgueiras. Tinha uma capacidade de trabalho incrível e preparava-se muito bem. Corrupções à parte. Fiquei lá um ano. Entretanto uma empresa de Amarante queria que fosse trabalhar para lá. Fiquei contente, porque sempre era fora da Lixa. Acontece que a coisa não correu bem e acabei despedido por difamação. O Vítor Monteiro, um camarada que tinha uma colectividade no Lagarteiro que se chamava ‘O Gabinete’, um projecto para crianças, convidou-me para ir trabalhar com ele. A segurança social disse-lhe que se fosse essa a escolha dele ficava sem apoios. Por eu ser do PCP. O Vítor disse-lhes: 'Então não queremos financiamento nenhum.' E eles cederam. Aí fui animador socio-cultural — das coisas mais bonitas que fiz. Música e teatro com os putos do Lagarteiro. Era muito mais feliz do que aquilo que sou agora. Recebia de quatro em quatro meses, mas fazia coisas lindas. A junta de freguesia de Campanhã era parceira do projecto e reunia-me muitas vezes com o presidente, o senhor Rodrigo de Oliveira. Um dia, por desafio do padre Mário, fui tocar no Natal dos sem-abrigo na estação de São Bento. Noite de 24. E o senhor Rodrigo viu-me na televisão. Ligou-me a dizer que precisava de falar comigo. 'Vem aí uma coisa nova chamava Rendimento Mínimo Garantido e preciso de ti a trabalhar aqui.' Disse-lhe que não queria. Ele ficou doido: 'Não imaginas as cunhas que tenho para empregar gente aqui, para ser funcionário público, por um lugar nos quadros.' Fui para casa pensar. Não me imaginava como funcionário público. Mas depois aceitei. Ele fez um acordo comigo: "Vens para aqui, mas não há futebol, com Chalanas para a frente e para trás, e ai de ti que te apanhe a fazer política e a dizer aos pobres para votarem no PCP. Corto-te a coisa às rodelas como uma cenourinha.' Estávamos em 97. Nunca mais me esqueço porque, por ter um emprego mais certo, fui logo a Cuba. Adorei a capacidade cultural das pessoas e o nível de consciencialização política. Não há hipótese: aquele país nunca vai cair por causa disso. Agora, claro que íamos comer lagosta clandestina e havia o código da 'toalha' na piscina para se pedir uma menina. Eu fui com a mãe das minhas filhas e não houve toalhas para ninguém! Mas isto para dizer que, na altura, a prostituição era um fenómeno com grande dimensão. É uma coisa real. Não vale a pena dizer que era companhia para ver monumentos. Os monumentos era uma perna no volante e outra no vidro. Isto foi há quase vinte anos, os mesmos anos que tenho de trabalho em Campanhã. Tempo suficiente para perceber que sofro da síndrome do egoísmo saudável. Sou muito feliz quando faço os outros felizes. Muita gente diz-me que só faço isto porque me dá um gozo do caraças. E é verdade. Mas também é verdade que me podia dar gozo ir andar de moto. Quando consigo mudar a vida de alguém mudo a minha também. Tenho um caderninho dos pequenos e grandes troféus. O meu trabalho é tão frustrante a maior parte do tempo que, quando consigo uma coisa boa, aponto. E depois, nos dias maus, chego à junta e leio o caderninho. Às vezes, questiono-me o que ando cá a fazer: se ciência, entretenimento, política... Pergunto-me se vale a pena. E que mudança já criei. Então, vou ao meu caderninho e lá está: o que não foi preso por minha causa, o que encontrou emprego, o que deixou a droga. Tenho tantos casos. Um dia estava a chegar ao Rivoli e aparece um rapaz aflito. Dei-lhe uma moeda e disse-lhe para passar na junta de freguesia no dia seguinte. Claro que um ‘ressaca’ nunca passa em lado nenhum! Mas, para meu espanto, no dia seguinte ele lá estava. Não tinha documentos e consegui-lhe documentos, tinha situações gravíssimas com a justiça e consegui arquivá-las, consumia como um leão e consegui interná-lo. Quando saiu da comunidade terapêutica construiu laços familiares e começou a trabalhar. Nunca mais o vi. Um dia aparece-me na junta com a mulher e o filho e diz-me: 'Quero que seja padrinho do meu bebé.' Sou muito bom à peça — se fosse pago por resultado e à peça estava podre de rico. Mas não quero trabalhar à peça, quero trabalhar com políticas. Qualquer assistente social devia atender as pessoas e dizer-lhes que ia resolver o problema. Agora, esta questão da sorte não faz sentido. ‘Caíste na mão do doutor Pinto, tiveste sorte. Se caísses na mão de outra aleijadinha estavas fodido.' Muitas vezes brinco com os utentes, quando me dizem que a assistente deles é uma das ranhosas. Digo-lhes: 'Olhe para mim homem, uma desgraça nunca vem só. Você tem o capitalismo, as más políticas sociais, o mau funcionamento do sistema... e ainda por cima tem essa técnica?! Oh Santo Deus! Mais desgraça não lhe podia acontecer.' Digo muito mal das minhas colegas. Da maioria, porque há gente muito boa também. Não sou melhor, mas sou diferente. Crio relações. E os utentes pensam: ‘Ninguém me ouve, o doutor Pinto ouve-me, ninguém me valoriza, o doutor Pinto valoriza-me, ninguém acredita em mim, o doutor Pinto acredita, ninguém se esfola, ele esfola-se.’ Parecendo que não, esta relação faz toda a diferença. Tenho utentes que vão à junta só para conversar comigo. Nunca lhes digo que não é possível. Digo: 'Isso é difícil mas vamos tentar.' Às vezes consigo, outras não. Mas marco a diferença. Esta cena de meter gente no carro, de ir com os meus ‘tóxicos’ à metadona, nem sempre corre bem. Um dia levei um e, como não o podia trazer de volta, disse-lhe que lhe pagava uma senha. Enquanto a fui comprar lá foi o CD do Jorge Palma. Noutra altura, tinha uma senhora do Lagarteiro que queria uns óculos e não tinha dinheiro. Lembrei-me do 'Todo o homem é meu irmão', rubrica do JN, fiz uma candidatura e ganhei. Fiquei todo contente. Vou buscar a senhora a casa, lavadinha, levo-a no meu carrinho ao som de 'quem é o pai da criança' até à óptica. Quando chego, o senhor da óptica faz uma piada do Lagarteiro e ela ‘estoura’ logo com o tipo. Acalmei as coisas e lá passou. Passado uns dias vou à óptica buscar os óculos e entregá-los ao Lagarteiro. A mulher abre a caixa e diz: 'Está a ver aquele porco, dá-me as lentes e não me troca a armação. Amanhã vou lá e vou-lhe partir a boca.' Eu, aflito, peço-lhe que não faça isso. Entra o neto, diz para eu não me preocupar... O problema é que isto foi numa sexta-feira. Na segunda-feira ligam-me da óptica de Campanhã e dizem-me: 'Oh doutor Pinto, era só para dizer que esteve aqui uma senhora do Lagarteiro, levou uma armação e pôs na sua conta.' Conto isto às minhas colegas e elas acham que mereci, porque nunca se mete os utentes no carro, porque não se vai levá-los, buscá-los... Eu não me arrependo. Primeiro, quando a mocinha da óptica desligou o telefone, parti-me a rir. Que pinta do caralho! Eu quando compro óculos também quero que sejam bonitos. A senhora até tem razão. Na primeira semana, zanguei-me com ela. Mas depois ela apareceu-me na junta, abraçou-se a mim a chorar e eu perdoei-lhe. Assim como aquela miúda que um dia apareceu no atendimento do Lagarteiro. 'Oh doutor Pinto, desculpe lá, sabe que ando naquela vida, estou na Circunvalação e vou com os homens dentro do carro... Estou a consumir, não há outra forma de ganhar dinheiro. Mas sabe que tive um filho lindo de morrer. Está na maternidade. E uma coisa lhe vou dizer: eu estou cheia de doenças, mas o meu filho é lindo e não tem nada. Mas eu estou a viver dentro do carro e eles não me deixam trazer o bebé. A doutora disse-me que o peito era fundamental e que o meu leite era bom. Se o doutor Pinto me desse o passe, só para eu ir lá dar a maminha, não queria mais nada.' Disse-lhe logo que sim. Mas sou daquele género que sai dali e quer ir ver o puto e dar-lhe uma prenda. Então ligo para a minha colega da maternidade. E ela diz-me que não tem lá ninguém com aquele nome... Conclusão, o que é que ela fez? Chegou à sala com o passe — no tempo em que ainda se vendia com selo — e vendeu-o. Eu penso: como é que me fazem isto a mim? Se fosse às mijonas da Segurança Social, aquelas badalhocas! Agora a mim? Que faço disto sacerdócio?! Então lá vou eu ao meu Pierre Bordieu, meu sociólogo preferido marxista, e a todos os teóricos que conheço, estudar, estudar,estudar. E quanto mais estudo mais tolerância tenho. Melhor compreendo as situações, melhor sei lidar com elas. O que temos agora é um Plano Ideológico de Perseguição aos Pobres, o PIPP. É verdade que a segurança social não tem dinheiro, mas isso aconteceu porque ele foi utilizado para recapitalizar os bancos, para pagar a dívida e os juros da dívida e as parcerias público-privadas. Foram os pobres que criaram a crise? Não. Mas são eles que estão a pagá-la: corta-se nas reformas, no abono, nas prestações sociais. Faz-se uma perseguição, no RSI, por exemplo, em que as pessoas têm de provar que são pobres. Recebe 178 euros por mês. Mas já renovou? Alguém que está a arrumar carros tem consciência que tem de renovar o RSI? Criaram uma lei com um conjunto de expedientes tão difíceis que a pessoa perde o direito ao subsídio. É preciso um atestado da junta, um impresso, uma declaração do centro de emprego. Só o atestado custa 4,5 euros. A pessoa não vai renovar. Isto chama-se perseguição ideológica aos pobres. É uma questão ideológica, não de falta de recursos. Porque há recursos para isentar a Brisa ou a PT, porque o senhor do Pingo Doce foge com não sei quantos milhões e não lhe acontece rigorosamente nada. E estes miseráveis levam na cabeça. Acontecem coisas como as pessoas ficarem sem apoio porque o marido faz uns casamentos ao fim-de-semana ou a senhora faz umas limpezas... Eu vou logo à Segurança Social e insulto as minhas colegas. 'Não tens vergonha na cara de ter apontado isto para destruir a vida da senhora? O RSI foi cortado porque disseste que o marido faz casamentos ao fim-de-semana? Não tens vergonha na cara? Então tu achas que o RSI, que é uma esmola, humilhante, é suficiente para ter uma vida digna?' As minhas colegas são muito boas e eficazes a fazer mal. A encontrar planos de vida não, mas para fazer mal... Têm aquela frustração de serem assistentes sociais, sentem-se as 'doutoras', com poder, e afirmam-se assim. Em vez de se afirmarem por conseguirem coisas boas pelas pessoas, fazem-no pelo medo. São umas frustradas. Digo-lhe logo: 'Os meus utentes não têm culpa que vocês sejam mal casadas! Não confundas a tua vida com isto.' Chamo-lhes de tudo. É verdade que a cultura da pobreza é dolorosa. Depois da questão do capitalismo, é o pior que pode haver. São um conjunto de atitudes e de modos de vida que resultam das condições objectivas de existência. Quando não se tem acesso a oportunidades, recursos ou um processo de socialização com uma família e uma escola boas, de certeza absoluta que a coisa não vai funcionar. Se o pai escarra para o chão, o filho faz igual. Se o pai fode as beiças à mãe em casa, o filho tem tendência a fazer o mesmo. Esta cultura de não saber estar, fazer e ser existe mesmo. É verdade que há pessoas que, por terem tido um percurso de vida e um processo de socialização muito deficitário a nível de oportunidade e recursos e condições, incorporaram uma série de práticas muito más. Pessoas a quem arranjo oportunidade de trabalho e faltam, roubam, são mal educadas... O que é que temos de perceber aqui? Por que razão é que as pessoas têm este comportamento e o que podemos fazer para as mudar. Que os pobres são ingratos, moinas e não sabem gerir dinheiro? Sim, é verdade. Os meus pobres recebem o RSI e compram um telemóvel antes de pagar o infantário. Ou vão comer uma francesinha e meter jantes no carro antes de pagarem as dívidas. Agora, eu tenho obrigação de perguntar: porque é que eles fazem isso? Porque quem tem uma identidade esfarrapada, que trunfos tem para mostrar à sociedade que é uma pessoa a sério? O pai está preso, a mãe coitadinha, a irmã anda na rua... Então ele mostra o telemóvel. Quando me perguntam como se acaba com a pobreza eu respondo: com outras políticas sociais e com envolvimento da sociedade civil. Mas se pedirmos à sociedade civil para delinear um plano para combater a pobreza ninguém está interessado. 'Desculpe lá, mas tenho uma vizinha que ganha o dobro do que eu ganho e vai para o café e fuma dois maços de cigarros.' No Lagarteiro, tenho cenas de ir a casa das pessoas e ter a vizinha do lado a dizer-me que devia ter vergonha na cara. 'Eu ponho-me a pé às seis da manhã, apanho três transportes, e trago para casa 400 e tal euros. Essa badalhoca põe-se a pé ao meio-dia, tem ligação directa e não lhe falta nada porque vocês passam a vida a ajudá-la.' Esta solidariedade é muito difícil de montar. As pessoas acham que a culpa é delas, porque de facto os pobres têm atitudes difíceis de perceber. E é isso que os vai matar. A falta de consciencialização política — não sabem e não querem saber o que é esquerda e o que é direita e, por isso, não sabem a causa dos problemas que têm — e a falta de capacidade de se organizarem. E a atitude. 'Oh doutor Pinto, vai demorar a atender-me? É que tenho lá fora o táxi a contar.' Então você vem buscar compras, ajuda, de táxi?’ Cabe na cabeça de alguém? Isto é muito complexo de combater. É preciso politizar as pessoas — mas como se faz isso é das perguntas mais complexas que existe. A única coisa em que ainda acredito é em criar uma relação de afecto e de proximidade e entrar por aí. Posso chegar à beira dos meus utentes e dizer-lhes: 'Hoje vieste aqui pedir-me uma vacina da Prevenar e não tive dinheiro, mas há dinheiro para submarinos. Achas isto bem?' E eles percebem. Mas eles só me ouvem se já tiver um capital de investimento neles. Portanto, é preciso criar relações de afecto e espaços de participação. Um grupo de teatro, um coro, associações. Não tenho conseguido essa parte — o que é das minhas maiores frustrações. Tenho uma relação muito boa, mas não consigo o passo seguinte. Está contra mim a novela, o centro comercial, o futebol. Tudo. Mas sei que se tocar no coração das pessoas — se utilizar uma ferramenta chamada afecto — eles vão ouvindo e vai ficando qualquer coisa. Os ciganos, por exemplo, com esta relação de os visitar nas cadeias e de os safar, tenho uma autoridade que não seria possível de outra forma. Na Galp do Freixo, eles cagavam aquilo tudo. Um dia, fui ao acampamento e disse-lhes que aquilo tinha de acabar, que tinham de respeitar para serem respeitados, que eram uns porcos. Ninguém chama porco a um cigano sem levar um murro na cara. Porque é que eu o fazia? Porque lhes arranjava as vacinas, o RSI, as casas. Este capital pode também ser utilizado para politizar as pessoas. Agora, isso não chega. Quando cheguei a Campanhã, existiam 18 barracos no Lagarteiro, atrás do Bloco 13. Então criei uma associação de moradores dos barracos do Lagarteiro. A partir daí começamos a pensar o que íamos fazer: ir à assembleia municipal, escrever, nomear representantes... Fizemos isto até todas as pessoas terem casas. Foi das coisas mais fixes que fiz. Mais proletária, de raça, de 'o povo unido jamais será vencido'. Saía de lá à meia-noite, duas da manhã. Todo partido, mas feliz. Quando se tem um ideal marxista e um partido por trás, que nos explica que é por ali o caminho, corre tudo bem. Se não tivesse provavelmente estava a borrifar-me. Depois há a comunicação social. Tinha uma associação de toxicodependentes, a CAOS, e num ano fizemos um Natal numa fábrica abandonada com ‘ressacados’. Aparece-me lá a Ana Cristina Pereira e o Paulo Pimenta, do PÚBLICO. A partir daí comecei a criar uma relação com muitos jornalistas. Vinham ter comigo para me pedir ajuda em trabalhos. No cinema, na fotografia, no teatro. Percebi que isso também me ajudava muito: a desmascarar, a influenciar e a envergonhar políticos. A arte como ferramenta de intervenção. E a minha visibilidade como força, prestígio e credibilidade. Quando sabem que o técnico sou eu mudam logo de atitude. Rentabilizo as minhas divisas para puxar a brasa à sardinha dos utentes. Pessoalmente, nunca ganhei nada com isso. Os meus amigos perguntam: 'Essa cena da comunicação social, dá dinheiro e gajas?' E eu: 'Nada, zero.' Agora, ganho para os meus utentes. Entre os meus colegas de profissão, há três grupos de pessoas: as que me adoram, as que me odeiam e as que me têm medo. As que me adoram dizem que quando forem grandes querem ser como eu, as que me odeiam querem partir-me as pernas numa passadeira, e as que me têm medo dizem: 'Foi o Chalana que ligou? Então trata já disso porque se não amanhã ele arma um estouro, vai ao provedor, chama as televisões, fode-te a vida toda.' Não fazem por respeito aos utentes, fazem por medo. É triste. A medalha de ouro comemorativa do 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que a Assembleia da República me deu, emocionou-me muito. Primeiro porque aquilo é uma comissão onde estão todos os partidos e tem de ser por unanimidade. Todos disseram que eu era um fenómeno. Para o meu ‘rancho’ aquilo foi a loucura — na história do prémio, o PCP nunca tinha tido um nome. Ter ali um comuna a ganhar a medalha, ainda por cima nos cinquenta anos, foi muito importante. Depois, o impacto do discurso. Nunca pensei que aquilo acontecesse. De repente, chego à junta de freguesia e está lá toda a gente como se eu fosse o Tino de Rãs ou tivesse ganho o Big Brother. Ninguém falava de outra coisa. Fiquei assustadíssimo. Aquele prestígio responsabilizou-me ainda mais: se ganhei isto então agora é que não posso mesmo falhar com os meus pobres. Se dava cinco, agora tenho de dar dez. Sou bom nisto, mas no que sou mesmo, mesmo bom é noutra coisa. Aos domingos, uma vez por mês, sou palhacinho no hospital. É das coisas mais bonitas que faço — onde tenho mesmo pinta é ali, a ser PCH: palhaço em contexto hospitalar. Um dia, uma amiga do Hospital de São João telefona-me e fala-me do projecto do Nariz Vermelho. 'Acho que um dia devias fazer uma experiência com eles. Agora há aí uma gente nova, chamada 'Cor é Vida', de uma brasileira que viveu em favelas e trabalhou como assistente social. Vais adorá-la.' Ouvi brasileira e lá fui. Pensei num mulherão e apareceu-me uma de 70 anos. Estou a brincar: é uma mulheraça do caraças! Convidou-me para fazer parte do projecto. Disse-lhe logo que não. Tenho uma filha de oito e outra de 12 e ser confrontado com aquela doença era impensável para mim. Se um dia me dissessem que uma das minhas filhas tinha um cancro eu não aguentava. Já quando têm febre eu morro. Disse-lhe para esquecer: que era palhaço e músico, mas não tinha tomates para aquilo. Nas vésperas de Natal ela liga-me e volta a desafiar-me. Foi no dia 12 de Dezembro. Entrar num hospital com uma viola é como entrar nu. Nunca mais me esqueço da minha primeira menina. Chamava-se Lara, tinha um papo na cabeça e um laço. Comecei a cantar a ‘olha a bola Manel' e ela começou a rir-se. A mãe ficou em êxtase. Eu fiquei com uma lagrimita no olho. Pensei: 'Deixa ver se me aguento aqui... Se me aguentar passo à segunda.' E passei. Passei, passei, passei. Fiquei viciadíssimo naquilo. Temos uma vida super abençoada e não temos noção de que temos uma vida super abençoada. As minhas estagiárias choram porque o Fiat 500 que o papá deu não dispara o isqueiro. O 'Cor é Vida' ajudou-me muito a perceber que tenho uma vida espectacular e que, muitas vezes, não a valorizo. Já aconteceu a todos. Deixar cair a meia de leite numa blusa lavadinha e ficar muito triste com aquilo... De repente penso: 'Ei, espera lá, ficar triste por isto?!' O que dói mesmo é ter um filho em fase terminal. Depois, aquilo fez-me perceber que, no limite do sofrimento, ainda posso resistir. Aqueles pais, apesar de os filhos estarem no fim, não desistem de ser felizes nem estão amuados com a vida. Isto é uma lição do caraças. E os meninos sorriem. Eles não mandam no médico nem no enfermeiro, mas no palhaço sim. Se me querem lá querem, se não querem eu vou embora. Esse poder é lindo. E não há uma receita. Entro no quarto e vou percebendo: aqui funcionam umas cócegas, aqui uma tanga com a enfermeira, aqui com a médica, aqui uma cantiga. Vou mudando de estratégia. Já funcionou ter uma freira a visitar os miúdos e meter-me debaixo da saia dela. Mas fazer aquilo com pinta o suficiente para ninguém me levar a mal: 'Oh irmã, que escuridão aqui em baixo!' Outras vezes, não funciona nada. Vou sempre com medo de não conseguir e essa aprendizagem e desafio constantes são fantásticos. E o gozo que dá quando eles se riem e dão gargalhadas e se penduram em nós. Para segurar as lágrimas não há técnica. É preciso perceber que, se acontecesse, fazia mal ao miúdo e aos pais e portanto há que aguentar. E, se não aguentar, vou fazer xixi ou digo que entrou um chisco no olho. Quando eles se esquecem da doença mesmo que seja por momentos pequeninos está ganho. E os pais são uns castiços. Pedem-me músicas e eu faço o trabalho de casa. Tenho uma capinha onde guardo o repertório, com José Cid e coisas afins. E depois chego ao hospital e vou procurá-los para lhes cantar. Quando ainda não tiveram alta ou não partiram. Já perdi três. A última, a Cristiana, ficou tão mal que foi transferida para o IPO. Ficou em isolamento. Então tentamos alugar uma grua à Mota-Engil para subir numa plataforma, bater no vidro e cantar-lhe os parabéns. Não conseguimos a grua, porque o terreno não tinha consistência. Mas soltámos balões e cantámos cá de baixo. Ela acabou por partir. É duro. Mas sinto que quando estou lá sou útil. E, por isso, chego a casa com uma leveza... É o melhor dia do mês. Além de gostar muito daquilo, percebi que a questão técnica era muito importante Fui ter aulas com o Pedro Fabian, o grande professor do Nariz Vermelho. A pagar do meu salariozinho. Ele disse-me: 'Chalaninha, todos nós temos um palhaço dentro de nós. A possibilidade de ele crescer como um bebé acontece à medida que perdes o medo de ser ridículo.' Porque, às vezes, apetece-nos dar um peido e penso 'oh, é ridículo'. E não dou. Aí mato o palhacinho. O Ministério da Saúde considerou que o trabalho que estas pessoas fazem nos hospitais é terapêutico e por isso deu apoio ao Nariz Vermelho. Eu não ganho nada mas farto-me de ganhar. Muita gente pergunta-me como arranjo tempo e respondo-lhes que arranjo porque aquilo me faz um bem imenso. Chego a casa, sento as minhas duas filhas ao colo. E elas: 'Pronto, lá vem este, vê-se logo que é dia de hospital. Oh Pintinho, precisava de umas Nike.' Naquele dia vale tudo. Isto torna-me um ser humano muito melhor. Esta coisa do mundo contemporâneo, com tudo muito tecnológico e mercantilizado, é horrível. Parece que as relações sociais são feitas com base no que se ganha. Tenho muita pena disso. E do imediatismo: já ninguém sabe esperar. Ninguém semeia e faz crescer. E tudo se baseia na tecnologia. Vamos a um jantar de amigos e, de repente, está tudo com os telemóveis. Isto é mau. Portanto, as pessoas hoje têm tecnologia, mercantilização das relações sociais, imediatismo... E depois? Qual é o resultado? O vazio. E aí o ciclo recomeça: ficam deprimidas e vão para o e-mail e para o Facebook tentar encontrar lá o que não têm dentro delas. Este mundo é assustador. Tenho esta angústia em relação às minhas filhas. Penso: será que elas vão ser o meu prolongamento? O pai é divertido, se elas forem umas enjoadas vou ficar triste. O pai é revolucionário e solidário, se elas não forem vou ficar triste. Compenso-as sempre que elas vão pelo caminho certo. Tento ser pedagógico. Mas a televisão está contra mim, a novela está contra mim, a Teresa Guilherme está contra mim. Chorava muito se um dia a minha filha me aparecesse em casa com um 'Franzen' qualquer, alemão, de crista e brincos, a organizar uma manif de extrema-direita. Tenho muito medo disso. Mas acredito que se puser a sementinha a coisa vai lá. Quero que elas sejam felizes, acima de tudo. Mas se forem felizes a lutar, como eu, melhor. Como dizia o Vinicius — eu só sei viver de forma apaixonada. Posso estar apaixonado por um projecto hoje, por uma causa amanhã, por uma miúda depois. Sem paixão, não consigo. Então, a minha capacidade é: quando saio de uma paixão, já estou a micar outra. Agora estou apaixonadíssimo pelo meu projecto Troika, um grupo de intervenção com as músicas do PREC. Onde vamos, arrasamos. Estou até a construir um estúdio com as minhas poupanças. Depois, outras paixões virão. É este o meu segredo para continuar sempre. Porque a vida é uma coisa espantosa. E eu quero que o seja para todos, não para meia dúzia."