quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Redução de 3,5% confirma que é possível baixar os custos da electricidade



NOTA DO GABINETE DE IMPRENSA DO PCP 
Redução de 3,5% confirma que é possível baixar os custos da electricidade 

18 Dezembro 2018 

A privatização da EDP e da REN, a liberalização dos preços, a par da introdução de complexos mecanismos ditos de compensação que asseguram superlucros às empresas electroprodutoras, assim como, o agravamento do IVA de 6% para 23% sobre a electricidade levado a cabo pelo anterior Governo PSD/CDS, traduziram-se num agravamento brutal dos custos da energia eléctrica, dos mais elevados na Europa, penalizadores das condições de vida do povo português e da competitividade da economia nacional.

O PCP sempre combateu esse rumo e nunca se conformou, nem com a perda de controlo público sobre o sector, nem com o contínuo agravamento das tarifas, nem com os lucros escandalosos que à sua conta foram alcançados. Foi nesse sentido que se bateu ao longo dos anos, incluindo na discussão sobre o Orçamento do Estado para 2019.

No seguimento da aprovação do Orçamento do Estado, o comunicado emitido pela ERSE, onde se confirma a descida do preço da electricidade para o próximo ano, designadamente com uma redução de 3,5% para todos os consumidores que se encontram na tarifa regulada - e não estando aqui contabilizada a redução do IVA de 23% para 6% na potência contratada dos contadores de 3,45KW – vem confirmar que é possível baixar o peso da factura da electricidade para as famílias e para as empresas, como o PCP há muito vem exigindo.

O PCP sublinha que se poderia ter ido mais longe, designadamente, se muitas das suas propostas na discussão do Orçamento do Estado não tivessem esbarrado na resistência do Governo PS, que convergiu em vários momentos com PSD para travar essa possibilidade. Mas isso não desvaloriza o facto de, em 2019, e por intervenção decisiva do PCP – com a redução do IVA na potência contratada, o alargamento da CESE, o alargamento do período de vigência das tarifas reguladas - se vir a concretizar a maior descida do preço da energia eléctrica desde a liberalização dos preços.

É no entanto necessário aprofundar este caminho, incluindo a criação de condições de novas reduções nos próximos anos. Para o PCP, a margem que existe para continuar a reduzir os preços da electricidade é tanto maior, quanto se esteja disponível para assumir uma política comprometida com os interesses nacionais e não com os superlucros das empresas electroprodutoras. A reposição do IVA à taxa de 6%, a regulação dos preços, a eliminação das chamadas “rendas excessivas” com reflexo nas tarifas, a devolução das sobrecompensações pagas às empresas com efeito na redução das tarifas, são objectivos pelos quais o PCP se irá bater.

Greve «cirúrgica»: muita perplexidade e pouca acção

Há muitos interesses em jogo, alguns bem endinheirados, aos quais interessa o desprestígio das unidades mais capacitadas do SNS, visando a transferência de actos clínicos do público para o privado.

os últimos 45 anos estive na decisão de muitíssimas, algumas das maiores e mais prolongadas, greves realizadas em Portugal.
Sempre tive a preocupação de que fossem claros e transparentes os objectivos da greve, provocasse o maior custo aos patrões e ou governos responsáveis pelo seu desencadear, e tivesse o menor impacto colateral nos utentes das empresas e serviços afectados pela greve.
Os piquetes de greve eram constituídos e instruídos para garantir a segurança dos equipamentos e instalações, e no caso de serviços públicos e sociais serem afectados, sempre se tomavam medidas e despenderam valores significativos para produzir informação a esclarecer os utentes para lhe permitir atenuar as consequências e impacto da greve.
Ainda assim, quando as greves eram de maior impacto, sempre as vi serem zurzidas pelos partidos da direita, PSD e CDS-PP, pela maioria da comunicação social e «opinadores» de serviço.
Desde finais de Novembro, assistimos à greve dita «cirúrgica» envolvendo umas dezenas de enfermeiros dos blocos operatórios de cinco unidades do SNS, formalmente declarada pela novel Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros (ASPE), constituída em finais de Junho de 2017, com sede em Ovar, e, também pelo novel Sindicato Democrático dos Enfermeiros Portugueses (SINDEPOR), constituído em Setembro do mesmo ano, com sede em Évora, patrocinada pela Ordem dos Enfermeiros Portugueses – onde os ditos sindicatos, é público, reúnem.
Extraordinário que esta greve não tenha sido objecto de critica intensa, ao contrário conta com o apoio embevecido do PSD e CDS-PP, embora seja claramente contra os utentes dos blocos cirúrgicos de cinco das principais instituições de saúde pública portuguesa, como qualquer pessoa com um mínimo de experiência facilmente constata, especialmente se reflectir sobre as alarmistas declarações dos dirigentes ditos sindicais e da senhora Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, conhecida activista e ex-dirigente do PSD.
Bastonária que em vez de falar de como salvaguardar os cuidados de saúde aos doentes necessitados, eventualmente da justeza das reivindicações e da adesão dos profissionais à greve, vem agitar a opinião pública com as consequências das greves sobre os utentes, mais de 5 mil actos cirúrgicos por realizar.
Sobre este alarmista parlar, não vi os «opinadores» zurzir os promotores da greve, e já soube haver apelos para a reflexão sobre o direito à greve dos trabalhadores da administração pública.
Com sinceridade, depois duma greve tão irresponsável e oportunista, com consequências tão dramáticas, os apelos à reflexão sobre o direito à greve, obviamente, visam liquidar o direito, não é preciso tirar nenhum «doutoramento» em reflexão para enxergar tal desiderato.
Há situações em que não podemos ficar-nos pelas manifestações de muita perplexidade e pouca acção.
Não questiono as reivindicações dos enfermeiros portugueses, que me parecem justas e oportunas, nem o direito básico dos enfermeiros lutarem por elas, incluindo o recurso à greve, porque isso é básico para um ex-sindicalista defensor do sindicalismo de classe e dos direitos e interesses dos trabalhadores, sejam eles enfermeiros, empregados de super's, hipermercados e logísticas, médicos, juízes, guardas prisionais, magistrados do ministério público, ferroviários, metalúrgicos ou outros.
Questiono a actuação da senhora ministra da Saúde e do Governo porque essa, sim, me deixou perplexo, quando, depois do que vimos e ouvimos das «Ordens» sobre as greves, a propósito das consequências para os utentes, oiço a mesma garantir que «tenho a certeza de que, se estiverem em causa riscos deontológicos, as ordens profissionais garantirão que os doentes não são colocados em risco».
Não! Quem tem de dar garantias de que os utentes são bem e adequadamente tratados, em tempo oportuno, é a senhora ministra da Saúde e o Governo.

Outra anormalidade desta greve!

É mesmo uma anormalidade, porque não conheço que alguma vez tenham sido pagos dias de greve com fundos recolhidos directamente ou via internet, como é anunciado ter acontecido com esta.
Anunciam, com a greve ainda em curso, que já recolheram, em poucos dias, mais de 360 mil euros para pagar os dias de greve. Dizem que vão fazer uma recolha, ainda maior, para pagar aos grevistas da próxima greve, já anunciada para Janeiro, nos blocos operatórios de mais unidades do SNS.
Participei em algumas campanhas de recolha de fundos, com destinos bem mais populares do que para financiamento de greves impopulares, e nunca tive notícia que se tenham recolhido, em tão pouco tempo, valores tão significativos.
Não acredito em bruxas, mas que as há, há!
Por isso, é preciso saber quem financia quem, e não é porque a recolha é feita via net, que não deve ser possível saber da origem das transferências para estes pagamentos.
Há muitos interesses em jogo, alguns bem endinheirados, aos quais muito interessa o desprestígio do SNS e das suas unidades mais apetrechadas e capacitadas, a transferência dos actos clínicos por fazer no público para o privado, bem como a liquidação do direito à greve.
É altura de agir, travar o passo a aventuras que usando e abusando da liberdade e da democracia, criam as condições para o seu funeral, e o retorno a tempos que queremos nunca mais ver repetidos!
Retirado daqui:

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

DIZ-ME COM QUEM ANDAS...


António Tomás Correia voltou, pela quarta vez, a ganhar a eleição para presidir à Associação Mutualista Montepio Geral no próximo triénio, de 2019 a 2021, com 43,2% dos cerca de 43.200 votos declarados elegíveis para efeitos de contagem (o que exclui 3.585 boletins considerados inválidos).


Os círculos do poder na corrida ao Montepio

As eleições para a Associação Mutualista atraíram políticos de várias sensibilidades. À volta de Tomás Correia gravitam figuras dos partidos e da economia. António Godinho atrai independentes, à direita e à esquerda, para além de rostos do PCP. Ribeiro Mendes garante nomes da academia e da sociedade.




Ver aqui a lista:

Na lista (C) a caldeirada é para todos os gostos. Tem robalo; tem sardinha; tem raia miúda; tem fanecas; tem tubarões; tem pescada de rabo na boca; tem petinga..


Ver aqui lista C

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

As Traições de Mário Soares e do PS


Mário Soares e o PSAntes do 25 de Abril

“(…) O marcelismo confirmava plenamente o que o PCP lhe chamou: o salazarismo sem Salazar.
“Mário Soares e outros participantes na oposição à ditadura tinham alimentado ilusões sobre Marcelo Caetano, procurando até um compromisso com ele de «legalidade preferencial»
Esta rigorosa e verdadeira apreciação era contrariada por sectores da Oposição antifascista, que iludidos pela demagogia «liberalizante» de Marcelo Caetano, procuravam (como adiante se verá) um compromisso com ele e uma «legalidade preferencial»
Surpreendente é que Mário Soares e outros participantes na Oposição à ditadura tenham alimentado tais ilusões, quando até no grupo de deputados da Assembleia Nacional fascista, eleitos pelo partido do poder, uma voz classificou o governo de Caetano como «governo herdado com tudo o mais do pensamento salazarista» (intervenção de Miller Guerra na Assembleia Nacional em 6 de fevereiro de 1973, pedindo a renuncia do mandato.) ”(…) A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril, A. Cunhal, pág. 30
(…)” Mário Soares em declarações a um programa da SIC diz que Salazar não era fascista” forma de branqueamento do fascismo. (pp pág. 40)
…No 25º Aniversário do 25 da Revolução de Abril, a contra – revolução renovou a propaganda da estafada tese de que, em Portugal, se poderia ter passado pacificamente da ditadura para a democracia sem ar e Revolução de Abril…
…A este respeito não se pode deixar de considerar significativa a realização de um colóquio, tendo como tema A transição democrática em Espanha, realizado em Lisboa, nos dias 26 e 27 de Setembro de 1998, por iniciativa conjunta da Fundação Mário Soares e da Fundação BBV, espanhola.
Dos participantes portugueses, citem-se o próprio Mário Soares, Freitas do Amaral e Marcelo Rebelo de Sousa.
Dos participantes espanhóis, citem-se Fraga Iribarne, Felipe González e, com particular sabor, Santiago Carrillo.
Falou-se muito da «transição democrática em Espanha», mas não consta que se tenha falado, e é pena que o não tenha sido, do que, nos anos de 1974 e 1975, a Espanha fascista de Franco representou com o activo apoio que prestou às forças contra-revolucionárias em Portugal… (pp pág. 46)

Para sugerir a tese, implícita do Colóquio, de que também em Portugal teria sido possível a «transição pacífica» e induzir a ideia de que a Revolução de Abril e suas conquistas foram um «erro», de que o PCP foi o principal responsável, a mais significativa participação foi de Santiago Carrillo…… (pp pág. 46)

(…) Os socialistas acolhem a formação do governo de Marcelo Caetano como «um pequeno raio de luz» que «abre um horizonte de esperança para o nosso povo». Consideram que a política anunciada por Caetano era «a única possível», «uma saída pacífica», «uma transição inteligente e gradual» (Portugal Socialista, outubro de 1968). Mário Soares em entrevista em fins Dezembro de 1968, respondendo ao seu camarada e amigo Raul Rego, respondendo à pergunta se estava «disposto a colaborar com o governo de Caetano», não gostou da palavra «colaborar», que «não é das mais felizes pelas ressonâncias que desperta», mas respondeu, «sem equívocos, que sim» (Mário Soares, escritos políticos, 2ª, ed, edição do autor, Lisboa, 1969, p. 117).
Vinte anos passados, Soares confirma no essencial essa ilusão embora, como sempre, procure descartar-se dos piores aspectos da atitude «colaboracionista»
Quando Marcelo Caetano fez o seu primeiro discurso como Presidente do Conselho, Soares, que entretanto se separara da ADS e do Dirctório Democrata- Social e fundara a ASP, reagiu ao discurso da forma que ele próprio conta:
«Ouvi pela rádio, esse primeiro discurso – e gostei!». E, embora afirme que «nunca teve grandes ilusões sobre a “Primavera caetanista”» (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução, ed. cit, p209), essas ilusões são comprovadas por dados concretas que o desmente. (pp. pág. 76)
Em 19 de abril de 1973, o Partido Socialista foi fundado na Alemanha Federal.
Nesse mesmo ano, em Setembro, por proposta do PS, realizou-se em Paris um encontro de delegações do PCP e do PS, com Álvaro Cunhal, e Mário Soares. Já portanto em plena crise final da ditadura fascista e quando a situação se encaminhava rapidamente para uma solução insurrecional.
Mário Soares fez nesse encontro uma surpreendente sondagem que retomava 27 anos depois os objectivos atrás citados de Cunha Leal e Nuno Simões em 1947 e de outros dirigentes da burguesia em várias datas.
Que havia possibilidade de o governo permitir a actuação legal do PS, mas o obstáculo a tal abertura era o receio que inspiravam ao governo as greves e a imprensa e a actividade clandestina do PCP. Se o PCP cessasse essas actividades, o PS poderia obter a autorização de acção legal, então seria o pioneiro, iria à frente a abrir caminho à legalização de outros partidos.
Rejeitando tal sugestão foi dito que segundo PCP amadureciam as condições para o derrubamento insurrecional da ditadura. (pp. Pág. 78).
…O Congresso de Aveiro, realizado de 4 a 8 de Abril de 1973, confirmou a já então evidente fragilidade da ditadura e a força dominante da opinião democrática. Uma Comissão Nacional de 50 membros, 150 participantes, 200 teses apresentadas, grande parte das quais elaboradas colectivamente, uma grande manifestação de rua violentamente reprimida, testemunharam a força, determinação e confiança do movimento democrático.
Seis meses depois, fazendo frente à repressão (prisões, proibição de reuniões, intervenção de forças policiais em iniciativas interrompendo ou silenciando oradores) candidatos do movimento democrático concorreram às «eleições» para a Assembleia Nacional. A campanha apresentou dois aspectos contraditórios. Um, a força da luta pela liberdade com confiança na vitória próxima. Outro, as contradições e reais divergências que, apesar de novas expressões de unidade, continuaram a existir desde a ruptura da unidade das Comissões Democráticas Eleitorais (CDE) por iniciativa de Mário Soares e o consequente concorrer em separado às eleições de 1969. Inquietante prenúncio de posições divisionistas, que vieram a verificar-se após o 25 de Abril. (pp. Pág. 94 e 95).


As Traições de Mário Soares e do PS Pós 25 de Abril
Spínola
Papel e Intervenção

Spínola teve, na Revolução de Abril, uma intervenção singular. Abusando das altas funções, que na conjuntura do dia 25 lhe foram atribuídas, procurou, desde as primeiras horas, manter estruturas e instituições fundamentais da ditadura (incluindo a PIDE) e impedir a conquista no imediato das liberdades democráticas, nomeadamente a legalidade de partidos, o direito de manifestação e a liberdade de imprensa. Não o conseguindo, lançou-se no caminho da absolutização do poder, de conspirações e de tentativas de golpe para impor uma ditadura pessoal apoiada pelas forças armadas e por alguns partidos.

(…)

Spínola foi o principal conspirador e o principal impulsionador das conspirações.

(…) 

Apoios e Cumplicidade

Spínola era um defensor declarado do poder económico dos grandes grupos monopolistas e dos[JT1] latifundiários.

(…)

Spínola contou de imediato com o apoio, declarado ou não, dos sectores políticos com responsabilidades na ditadura fascista derrubada e extinta com o 25 de Abril.

Contou com a participação activa, nas conspirações, dos fascistas vindos da ANP, da legião, da PIDE, dos governos de Salazar e Caetano, da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa.

(…)

Contou com o apoio e participação diligente e pronta do CDS e dos seus dirigentes. 

(…)

Contou com a estreita colaboração, participação activa e empenhada do PPD.

(…)

E, a partir de um momento concreto ainda não totalmente esclarecido, contou com a colaboração e participação de Mário Soares e do PS. Momento ainda não totalmente esclarecido, porque, nos primeiros tempos após 25 de Abril de 1974, Spínola confiava publicamente em Sá Carneiro, menos em Mário Soares, como nos conta Hall Themido, embaixador da ditadura em Washington, reconduzido no seu cargo por Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Provisório.

(…)

A aliança (chamemos-lhe assim) Spínola-Mário Soares, embora derrotada em sucessivas e variadas tentativas de golpes, constitui uma das mais estáveis e duradouras alianças político-militares do processo contra-revolucionário.

(…)

Gratidão e Homenagem

De Mário Soares que, ao longo dos anos, se soube desresponsabilizar da cumplicidade nos golpes, que entretanto lhe abriram o caminho do poder, de Soares, quando Presidente da República, Spínola recebera, como preito de gratidão, ir para Belém com a sua gente. Almeida Bruno como Chefe da Casa Civil, Manuel Monge como ajudante- de – Campo. Sendo o primeiro, no fim do segundo mandato do Presidente, nomeado Presidente Supremo do Tribunal Militar. Como Chefe da Casa Militar a escolha de Soares não foi significativa: o general Azeredo, que, não há muito tempo (1979, como candidato a deputado do PSD na cidade do Porto, viria a confirmar-se e a distinguir-se pelas suas retumbantes confissões pró-nazis, anti-semitas e anticomunistas, pondo em causa a derrota de Hitler na Segunda Guerra Mundial e quase o absolvendo do genocídio dos judeus…sem falar do genocídio de comunistas.

(A Verdade e a Mentira na Revolução de abril. A. Cunhal. Pág. 126, 127, 128 e 129)

O Golpe Palma Carlos

(…)

Mário Soares, nas suas «confissões», embora declare que «esteve contra ele [Spínola] no chamado “Golpe Palma Carlos”» acrescentou algumas informações contraditórias e até então desconhecidas.

Diz que, acompanhado por Almeida Santo, foi chamado a casa de Palma Carlos para uma reunião, em que este propôs um plano para «realizar rapidamente» […] a eleição do Presidente da República. Para que o general Spínola tenha uma legitimidade própria e, a partir daí, a legitimidade do Governo decorra da própria legitimidade da eleição do presidente»

Acrescenta que discordou, embora isso «não pressupusesse a sua vontade de que o general Spínola caísse ou saísse de cena». «Queríamos aguentá-lo», confessa.

Desde já é de sublinhar ser comprometedor que não tenha comunicado ao Governo, de que fazia parte, o plano de Spínola exposto por Palma Carlos nessa reunião em que participou.

Igualmente comprometedor é que tenha ocultado que, antes da tentativa do golpe, ele próprio se encontrara com Spínola e também não tenha comunicado ao Governo.

Não é dele a informação. É próprio Spínola que, vinte anos depois, revela falando das suas relações com Soares.

«Nunca tive reserva em relação ao dr. Mário Soares. Foi um homem que, durante o Governo Palma Carlos, sempre me expôs [!], com a máxima lealdade, as suas opiniões e me alertou para perigos que o País estava correr com base na actuação do PC» (entrevista ao Expresso, 30-4-1994)

(A Verdade e a Mentira na Revolução de abril. A. Cunhal. Pág. 136 e 137)


O 28 de Setembro – Maioria Silenciosa












terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dos textos mais bonitos que li


[José António Pinto (aka Chalana) - Assistente Social]
© Por Manuel Roberto (fotografia) e Mariana Correia Pinto (texto)
Portugal, Porto, 24 de Setembro de 2015


“Nasci em Macieira da Lixa, em 1965, e, honestamente, aquela terra não tinha muito a ver comigo. Um lugar onde se valoriza a cultura dos livros de cheque, uma zona industrial onde o dinheiro tem muita força e onde quem não constrói uma identidade positiva através da posse é penalizado e discriminado. Havia coisas que tinha vontade de fazer e que lá nunca seriam possíveis ou valorizadas. Mas lá passei a infância. O meu pai partiu cedo. Eu tinha apenas nove anos. Era músico, um homem bonito que falava bem em público e era muito boémio — tenho a certeza de que ele iria gostar muito de mim e eu muito dele. Tenho muita pena que não esteja cá. Por o meu pai ter desaparecido, os meus dois irmãos preocupavam-se mais comigo e assumiram um papel muito importante. Eu era um puto rebelde, faltava à escola, metia-me em projectos de música. A nossa casa foi sempre um espaço aberto. O sítio onde toda a gente ia comer à noite, onde se falava e discutia muito, onde se tocava música. Onde comecei a tropeçar nas argolinhas da APU. Era muito pequenino. Queria assistir às reuniões e não me deixavam, queria ir fazer colagens e não me deixavam. Era a casa dos pintinhos, uma espécie de sede do PCP, onde se guardavam as latas da tinta, os painéis e a propaganda. Fui crescendo com aquilo. E comecei a identificar-me com aqueles princípios. Aquela gente sempre associou a luta e a questão política à borga e ao prazer. Nunca havia uma reunião sem um salpicãozinho, uma discussão sem uma garrafinha. Os camaradas não eram camaradas apenas por serem do partido, eram nossos amigos. Discutia-se muito os problemas da vida e não numa perspectiva única de protesto, mas também de construção. Faziam-se coisas. Isso influenciou-me imenso. Percebi muito cedo que ninguém muda nada sozinho. Da ditadura não tenho muita memória. Lembro-me de não haver escola no 25 de Abril e de ter ficado todo contente. Discutimos muito sobre aqueles dias em casa. A Câmara de Felgueiras promoveu, através da escola, um concurso de redacções sobre liberdade e eu ganhei uma menção honrosa. Foi o primeiro prémio da minha vida. Fui recebê-lo com uns calções de veludo preto e uma t-shirt linda que a minha mãe me deu para aquele dia. A liberdade percebi-a aí. E depois com o padre Mário, outra grande influência da minha vida. Ele dizia: 'Quem é que está aqui e tem filhos que vão para a Guerra Colonial? Esta guerra é injusta. Não podemos ir para lá matar as pessoas, porque o território é delas.' Achei aquilo muito interessante. Naquela altura, via os amigos dos meus irmãos a irem para a guerra, as mães e as namoradas a despedirem-se e a chorarem, e o discurso do padre Mário tocou-me muito. Pensei que aquele padre era muito fixe. Criou grupos de jovens para fazer teatro de consciencialização, construímos músicas como a 'O Manuel partiu para a guerra', que ainda hoje toco. Foi muito importante. Ele depois ‘desapareceu’ e passado uma temporada, tinha já eu uns vinte e tal anos, fui buscá-lo. Estava em Braga, no Correio do Minho, e fizemos uma grande festa na Casa do Povo. O padre Mário ficou tão encantado que quis ir viver para lá e construir uma comunidade de cristãos de base, muito à semelhança da teologia da libertação do Brasil. Criámos logo uns problemas com o padre da freguesia, mas foi uma coisa muito gira. Acredito num Deus vivo. Numa coisa que me diz que se recebo muito da vida também devo dar muito. Há coisas que são sinais e, provavelmente, têm a ver com ele. O facto de ser tão apaixonado pela vida por causa das pessoas, da arte e da natureza deve ter algo a ver com esse Deus. Há qualquer coisa que me diz para aproveitar, para realizar sonhos, para transformar as coisas. Noutro dia aconteceu-me uma coisa interessante. Tinha um amigo que, como eu, fazia voluntariado como palhacinho num hospital. Ele era muito religioso. Aliás, ele liderou aquele movimento do partido pró-vida, uma batalha que nos separou profundamente porque lutei de forma muito activa pela despenalização voluntária da gravidez e ele era contra. É interessante como é que, apesar desta divergência, éramos amigos... Aconteceu porque tínhamos aquela coisa comum de ir ao hospital fazer de palhacinho. Um dia ele ficou muito doente. A gente entrava no quarto e não acreditava que fosse o Luís Botelho, carequinha e frágil. A primeira vez que o visitei perguntei-lhe: 'Fogo Luís, o que aconteceu contigo e com Deus? Tu és tão religioso e Deus faz-te uma coisa destas? Explica-me como é possível...' E ele disse: 'Oh Chalana, sabes que, por acaso, um dia estava no Joãozinho e lembrei-me do meu filho. Disse a Deus que se algum dia tivesse de acontecer alguma coisa que não se atrevesse a tocar no meu filho, que mandasse isso para mim. Está a honrar esse compromisso.' Ele dizia-me que se acreditasse em Deus era muito mais fácil lidar com a dor. E, se é assim, faz muito bem. Se o facto de acreditar em Deus dá força a estas pessoas, porque não? A minha preocupação relativamente às crenças e à fé é que elas sejam atrofiadoras e castradoras. E de a Igreja usar isso para assustar as pessoas. Mas se for um Deus libertador, um Deus Red Bull que te dê asas, acho que não faz mal nenhum. A doutrina social da igreja é uma coisa espectacular. Há muitos comunistas que se formaram nessa doutrina. Temos a CGTP, que tem uma ala vinda daí. O próprio Manuel Carvalho da Silva diz que a Juventude Operária Católica foi super importante na vida dele. Portanto, não tenho nada contra a não ser a incoerência. E incoerente eu não sou. Por isso não casei na Igreja nem baptizei as minhas filhas. Porque são esses gajos que andam sempre a dizer para não se votar nos partidos de esquerda, que os comunistas matam as criancinhas e que deram colinho ao fascismo. Estou a falar da Igreja conservadora e reaccionária, claro. Se a Igreja se revolucionasse, se abrisse e tivesse outra atitude de combate e denuncia, seria uma força magnífica. Aí estaria todos os domingos no coro da igreja com o meu projecto de música revolucionária Troika. De Macieira da Lixa, fui para Amarante. O 9º ano já o faço lá. Pedi à minha mãe, porque não aguentava andar na Lixa. Em Amarante havia um rio lindo, turistas, Amadeu de Sousa Cardoso, muita gente de cultura. Foi a melhor fase de crescimento da minha vida. Foi lá que encontrei gente que me disse para ler 'Os Capitães da Areia', me apresentou a Caetano Veloso, a Chico Buarque, ao cinema. Aí sim, fui o rei das bifanas. Fui presidente da associação de estudantes, tinha um programa na rádio, organizava o festival da juventude, era da direcção central da JCP, fui à União Soviética com o Álvaro Cunhal e, ainda por cima, tinha um grupo de música tradicional portuguesa. Era mesmo o rei! A ida a Moscovo foi um prémio. Tinha 20 aninhos. Fiz a viagem no mesmo avião do Álvaro Cunhal. Foi assustador e lindo. Sentia-me muito pequenino. Ele sabia de cinema, de política. Sabia de tudo e falava de tudo com uma consistência fantástica. Dizia que aquela era a melhor fase das nossas vidas e tínhamos de aproveitar. Depois da viagem pediram para fazermos relatórios sobre o que tínhamos gostado e o que não tínhamos gostado. Escrevi que não gostava de chegar às lojas e não encontrar nada. Os camaradas diziam-me: 'Pois Chalana, o capitalismo tem os produtos nas prateleiras, o socialismo tem nas famílias.' Mentira. Não havia nem num lado nem no outro. Não gostei disso. Nem gostei da pobreza. Mas percebi que o PCP não tinha nada a ver com aquilo e que se devia demarcar o mais rapidamente possível de algumas coisas. Nunca teve essa coragem. Ainda hoje apanhamos nas orelhas por causa disso. E não faz sentido. O partido precisa dizer que o que está a acontecer na China é mau, que o que aconteceu na União Soviética foi péssimo. Nós não temos nada a ver com isso. Tenho uma profunda admiração por funcionários do partido que hipotecaram a família, a carreira profissional e académica para dar a vida pelo partido. E depois ainda eram presos e torturados. Em nome de um ideal. Nunca tive ambições políticas e sempre adorei ser assistente social, o que me dá uma independência enorme para dizer o que quero. Eles dizem-me que sou um pato bravo — ou seja, um preguiçoso — e que podia ajudar muito mais o partido. E aí fico com remorsos, penso que de facto podia fazer mais. Mas depois dizem-me que querem que seja candidato e fico todo orgulhoso. O melhor partido do mundo escolher-me: que pinta! Na Europa e no mundo, o nosso é o mais marxista-leninista. A escola maior que tenho é o PCP — qual Instituto Superior de Serviço Social do Porto, qual mestrado em sociologia. Foi lá que me formei, a todos os níveis. A questão do umbigo, por exemplo, o perceber que somos um colectivo e que a força está aí. Há muita gente que saiu do PCP porque não tinha espaço para o umbigo. Depois, a questão de não ser egoísta, de que ninguém muda o mundo sozinho. E o vazio. É das coisas mais bonitas que existe: quando se tem um ideal nunca se tem vazio. Há sempre um sentido para a vida. Aquela coisa que o Álvaro Cunhal falava, da paixão de viver. Ele dizia: 'Porque me meti nisto de dar a minha vida ao PCP? Porque a vida é uma coisa tão espectacular que deve sê-lo para todos. Portanto, só há uma forma: é a gente tentar transformar isto para que todos tenham vida e vida em abundância.' Encontrei isso no meu emprego. Mas percebi rapidamente que não era como assistente social que ia mudar o que quer que fosse. Tenho de ir à raiz do problema. Mudar a estrutura e o modelo de desenvolvimento económico. E, para isso, preciso do partido. Naqueles dias em que ando triste e acho que estou a ficar maluco, chego ali ao meu ‘rancho folclórico’ na Avenida da Boavista e percebo que não estou maluquinho nem sozinho. Sou marxista e tenho o privilégio de pertencer a um colectivo que se chama PCP. Orgulhosamente. A qualquer sítio que vá faço questão de dizer isto. Ao Porto cheguei em 1989. Vim estudar. Inclinei-me inicialmente para a sociologia mas percebi que ia ser muito teórico. O Marx dizia que os filósofos interpretavam o mundo, a questão era transformá-lo. Portanto, já tinha alguns amigos assistentes sociais — como o Júlio, de Amarante, que queria ser director de uma cadeia e hoje é director de Custóias — e lá concorri. Tinha uma média baixa, porque só queria borga e fiquei em suplente. O primeiro da lista. Passado uns tempos, ligaram-me. Nunca mais me esqueço do senhor Mário a dizer que tinha entrado. Foi das maiores alegrias da minha vida. Ainda para mais estava a namorar com uma miúda giríssima que entrou nesse ano também. Andávamos na escola secundária juntos e viemos juntos para cá. As pessoas preocupadas a perguntar onde ia dormir no Porto e eu: 'Em casa da Cristina, claro.' Fiquei lá uma temporada, mas ela depois mandou-me dar uma volta com medo que os pais descobrissem. Então o que é que eu fiz? Havia uma casa na Constituição que pertencia à Mota-Engil, que tinha sede em Amarante. Fui falar com o fundador, de quem era amigo, e ele acabou a ceder a casa para todos os estudantes que iam de Amarante para o Porto e não conseguiam alojamento. Era uma casa enorme, antiga. Chamávamos-lhe 'a assombrada'. Cada um foi restaurando o seu quartinho e assim fizemos a nossa república. Eu era o governador civil da casa. Numa altura, a Câmara do Porto queria demolir aquilo. Eu estava a estagiar no Pelouro da Animação, com a Manuela de Melo. Fui lá falar com ela: 'Oh senhora vereadora, então estamos ali não sei quantos jovens a tentar construir um futuro, com grande esforço das nossas famílias, e querem deitar-nos a casa abaixo?' Ela ligava ao chefe da polícia e dava ordens para nunca mais nos perturbarem. Depois chegava à casa e dizia: 'Meninos, se esta residência existe deve-se a uma única pessoa.' Era mesmo o rei. Gostei do Porto à primeira vista. Andava muito pela Ribeira, no ambiente boémio. Às tantas, o partido chama-me para me dizer que tinha um grande desafio na associação de estudantes. A Federação Académica do Porto tinha malta muito mais velha do que eu e muito politizada. Estávamos a discutir uma questão e eles pegavam nos cartões: da JS, da JSD... Eu, admirado com aquilo, não tenho mais nada: vou à carteira e saco do meu. Ora aqui está a estrelinha. Quem não tivesse um cartão de uma juventude partidária não tinha bilhete de identidade. Andei logo à porrada com o falecido Diogo Vasconcelos e disse-lhe que ia ganhar a associação de estudantes do ISSSP. Metemos uma freira na nossa lista, uma cabo-verdiana que tocava música maravilhosamente e a mãe das minhas filhas aparece nesse filme. Ela era muito dinâmica e muito inteligente e nunca estava de acordo comigo. Para lhe dar a volta convidei-a para a associação de estudantes. E assim ganhamos. Com aquele percurso, todos pensavam que ia fazer uma carreira política. Mas isso nunca foi uma ideia na minha cabeça. O PCP ficou encantado por eu ganhar, era a única associação comunista da cidade. Quando acabo o curso, mais uma vez o partido aparece. Queriam que fosse para Felgueiras, para a associação João Paulo II, dirigida por um camarada — olha a ironia! — e que depois fosse candidato à câmara e passasse a vereador. Não queria nada daquilo. E eles diziam: 'Mas tens algum plano diferente?' E eu não tinha. Regressar a Felgueiras era pior do que ser atropelado nos Aliados... Mas lá fui. Para um projecto chamado Liga de Deficientes e Amigos de Felgueiras. A parte mais positiva foi trabalhar com a Fátima Felgueiras. Tinha uma capacidade de trabalho incrível e preparava-se muito bem. Corrupções à parte. Fiquei lá um ano. Entretanto uma empresa de Amarante queria que fosse trabalhar para lá. Fiquei contente, porque sempre era fora da Lixa. Acontece que a coisa não correu bem e acabei despedido por difamação. O Vítor Monteiro, um camarada que tinha uma colectividade no Lagarteiro que se chamava ‘O Gabinete’, um projecto para crianças, convidou-me para ir trabalhar com ele. A segurança social disse-lhe que se fosse essa a escolha dele ficava sem apoios. Por eu ser do PCP. O Vítor disse-lhes: 'Então não queremos financiamento nenhum.' E eles cederam. Aí fui animador socio-cultural — das coisas mais bonitas que fiz. Música e teatro com os putos do Lagarteiro. Era muito mais feliz do que aquilo que sou agora. Recebia de quatro em quatro meses, mas fazia coisas lindas. A junta de freguesia de Campanhã era parceira do projecto e reunia-me muitas vezes com o presidente, o senhor Rodrigo de Oliveira. Um dia, por desafio do padre Mário, fui tocar no Natal dos sem-abrigo na estação de São Bento. Noite de 24. E o senhor Rodrigo viu-me na televisão. Ligou-me a dizer que precisava de falar comigo. 'Vem aí uma coisa nova chamava Rendimento Mínimo Garantido e preciso de ti a trabalhar aqui.' Disse-lhe que não queria. Ele ficou doido: 'Não imaginas as cunhas que tenho para empregar gente aqui, para ser funcionário público, por um lugar nos quadros.' Fui para casa pensar. Não me imaginava como funcionário público. Mas depois aceitei. Ele fez um acordo comigo: "Vens para aqui, mas não há futebol, com Chalanas para a frente e para trás, e ai de ti que te apanhe a fazer política e a dizer aos pobres para votarem no PCP. Corto-te a coisa às rodelas como uma cenourinha.' Estávamos em 97. Nunca mais me esqueço porque, por ter um emprego mais certo, fui logo a Cuba. Adorei a capacidade cultural das pessoas e o nível de consciencialização política. Não há hipótese: aquele país nunca vai cair por causa disso. Agora, claro que íamos comer lagosta clandestina e havia o código da 'toalha' na piscina para se pedir uma menina. Eu fui com a mãe das minhas filhas e não houve toalhas para ninguém! Mas isto para dizer que, na altura, a prostituição era um fenómeno com grande dimensão. É uma coisa real. Não vale a pena dizer que era companhia para ver monumentos. Os monumentos era uma perna no volante e outra no vidro. Isto foi há quase vinte anos, os mesmos anos que tenho de trabalho em Campanhã. Tempo suficiente para perceber que sofro da síndrome do egoísmo saudável. Sou muito feliz quando faço os outros felizes. Muita gente diz-me que só faço isto porque me dá um gozo do caraças. E é verdade. Mas também é verdade que me podia dar gozo ir andar de moto. Quando consigo mudar a vida de alguém mudo a minha também. Tenho um caderninho dos pequenos e grandes troféus. O meu trabalho é tão frustrante a maior parte do tempo que, quando consigo uma coisa boa, aponto. E depois, nos dias maus, chego à junta e leio o caderninho. Às vezes, questiono-me o que ando cá a fazer: se ciência, entretenimento, política... Pergunto-me se vale a pena. E que mudança já criei. Então, vou ao meu caderninho e lá está: o que não foi preso por minha causa, o que encontrou emprego, o que deixou a droga. Tenho tantos casos. Um dia estava a chegar ao Rivoli e aparece um rapaz aflito. Dei-lhe uma moeda e disse-lhe para passar na junta de freguesia no dia seguinte. Claro que um ‘ressaca’ nunca passa em lado nenhum! Mas, para meu espanto, no dia seguinte ele lá estava. Não tinha documentos e consegui-lhe documentos, tinha situações gravíssimas com a justiça e consegui arquivá-las, consumia como um leão e consegui interná-lo. Quando saiu da comunidade terapêutica construiu laços familiares e começou a trabalhar. Nunca mais o vi. Um dia aparece-me na junta com a mulher e o filho e diz-me: 'Quero que seja padrinho do meu bebé.' Sou muito bom à peça — se fosse pago por resultado e à peça estava podre de rico. Mas não quero trabalhar à peça, quero trabalhar com políticas. Qualquer assistente social devia atender as pessoas e dizer-lhes que ia resolver o problema. Agora, esta questão da sorte não faz sentido. ‘Caíste na mão do doutor Pinto, tiveste sorte. Se caísses na mão de outra aleijadinha estavas fodido.' Muitas vezes brinco com os utentes, quando me dizem que a assistente deles é uma das ranhosas. Digo-lhes: 'Olhe para mim homem, uma desgraça nunca vem só. Você tem o capitalismo, as más políticas sociais, o mau funcionamento do sistema... e ainda por cima tem essa técnica?! Oh Santo Deus! Mais desgraça não lhe podia acontecer.' Digo muito mal das minhas colegas. Da maioria, porque há gente muito boa também. Não sou melhor, mas sou diferente. Crio relações. E os utentes pensam: ‘Ninguém me ouve, o doutor Pinto ouve-me, ninguém me valoriza, o doutor Pinto valoriza-me, ninguém acredita em mim, o doutor Pinto acredita, ninguém se esfola, ele esfola-se.’ Parecendo que não, esta relação faz toda a diferença. Tenho utentes que vão à junta só para conversar comigo. Nunca lhes digo que não é possível. Digo: 'Isso é difícil mas vamos tentar.' Às vezes consigo, outras não. Mas marco a diferença. Esta cena de meter gente no carro, de ir com os meus ‘tóxicos’ à metadona, nem sempre corre bem. Um dia levei um e, como não o podia trazer de volta, disse-lhe que lhe pagava uma senha. Enquanto a fui comprar lá foi o CD do Jorge Palma. Noutra altura, tinha uma senhora do Lagarteiro que queria uns óculos e não tinha dinheiro. Lembrei-me do 'Todo o homem é meu irmão', rubrica do JN, fiz uma candidatura e ganhei. Fiquei todo contente. Vou buscar a senhora a casa, lavadinha, levo-a no meu carrinho ao som de 'quem é o pai da criança' até à óptica. Quando chego, o senhor da óptica faz uma piada do Lagarteiro e ela ‘estoura’ logo com o tipo. Acalmei as coisas e lá passou. Passado uns dias vou à óptica buscar os óculos e entregá-los ao Lagarteiro. A mulher abre a caixa e diz: 'Está a ver aquele porco, dá-me as lentes e não me troca a armação. Amanhã vou lá e vou-lhe partir a boca.' Eu, aflito, peço-lhe que não faça isso. Entra o neto, diz para eu não me preocupar... O problema é que isto foi numa sexta-feira. Na segunda-feira ligam-me da óptica de Campanhã e dizem-me: 'Oh doutor Pinto, era só para dizer que esteve aqui uma senhora do Lagarteiro, levou uma armação e pôs na sua conta.' Conto isto às minhas colegas e elas acham que mereci, porque nunca se mete os utentes no carro, porque não se vai levá-los, buscá-los... Eu não me arrependo. Primeiro, quando a mocinha da óptica desligou o telefone, parti-me a rir. Que pinta do caralho! Eu quando compro óculos também quero que sejam bonitos. A senhora até tem razão. Na primeira semana, zanguei-me com ela. Mas depois ela apareceu-me na junta, abraçou-se a mim a chorar e eu perdoei-lhe. Assim como aquela miúda que um dia apareceu no atendimento do Lagarteiro. 'Oh doutor Pinto, desculpe lá, sabe que ando naquela vida, estou na Circunvalação e vou com os homens dentro do carro... Estou a consumir, não há outra forma de ganhar dinheiro. Mas sabe que tive um filho lindo de morrer. Está na maternidade. E uma coisa lhe vou dizer: eu estou cheia de doenças, mas o meu filho é lindo e não tem nada. Mas eu estou a viver dentro do carro e eles não me deixam trazer o bebé. A doutora disse-me que o peito era fundamental e que o meu leite era bom. Se o doutor Pinto me desse o passe, só para eu ir lá dar a maminha, não queria mais nada.' Disse-lhe logo que sim. Mas sou daquele género que sai dali e quer ir ver o puto e dar-lhe uma prenda. Então ligo para a minha colega da maternidade. E ela diz-me que não tem lá ninguém com aquele nome... Conclusão, o que é que ela fez? Chegou à sala com o passe — no tempo em que ainda se vendia com selo — e vendeu-o. Eu penso: como é que me fazem isto a mim? Se fosse às mijonas da Segurança Social, aquelas badalhocas! Agora a mim? Que faço disto sacerdócio?! Então lá vou eu ao meu Pierre Bordieu, meu sociólogo preferido marxista, e a todos os teóricos que conheço, estudar, estudar,estudar. E quanto mais estudo mais tolerância tenho. Melhor compreendo as situações, melhor sei lidar com elas. O que temos agora é um Plano Ideológico de Perseguição aos Pobres, o PIPP. É verdade que a segurança social não tem dinheiro, mas isso aconteceu porque ele foi utilizado para recapitalizar os bancos, para pagar a dívida e os juros da dívida e as parcerias público-privadas. Foram os pobres que criaram a crise? Não. Mas são eles que estão a pagá-la: corta-se nas reformas, no abono, nas prestações sociais. Faz-se uma perseguição, no RSI, por exemplo, em que as pessoas têm de provar que são pobres. Recebe 178 euros por mês. Mas já renovou? Alguém que está a arrumar carros tem consciência que tem de renovar o RSI? Criaram uma lei com um conjunto de expedientes tão difíceis que a pessoa perde o direito ao subsídio. É preciso um atestado da junta, um impresso, uma declaração do centro de emprego. Só o atestado custa 4,5 euros. A pessoa não vai renovar. Isto chama-se perseguição ideológica aos pobres. É uma questão ideológica, não de falta de recursos. Porque há recursos para isentar a Brisa ou a PT, porque o senhor do Pingo Doce foge com não sei quantos milhões e não lhe acontece rigorosamente nada. E estes miseráveis levam na cabeça. Acontecem coisas como as pessoas ficarem sem apoio porque o marido faz uns casamentos ao fim-de-semana ou a senhora faz umas limpezas... Eu vou logo à Segurança Social e insulto as minhas colegas. 'Não tens vergonha na cara de ter apontado isto para destruir a vida da senhora? O RSI foi cortado porque disseste que o marido faz casamentos ao fim-de-semana? Não tens vergonha na cara? Então tu achas que o RSI, que é uma esmola, humilhante, é suficiente para ter uma vida digna?' As minhas colegas são muito boas e eficazes a fazer mal. A encontrar planos de vida não, mas para fazer mal... Têm aquela frustração de serem assistentes sociais, sentem-se as 'doutoras', com poder, e afirmam-se assim. Em vez de se afirmarem por conseguirem coisas boas pelas pessoas, fazem-no pelo medo. São umas frustradas. Digo-lhe logo: 'Os meus utentes não têm culpa que vocês sejam mal casadas! Não confundas a tua vida com isto.' Chamo-lhes de tudo. É verdade que a cultura da pobreza é dolorosa. Depois da questão do capitalismo, é o pior que pode haver. São um conjunto de atitudes e de modos de vida que resultam das condições objectivas de existência. Quando não se tem acesso a oportunidades, recursos ou um processo de socialização com uma família e uma escola boas, de certeza absoluta que a coisa não vai funcionar. Se o pai escarra para o chão, o filho faz igual. Se o pai fode as beiças à mãe em casa, o filho tem tendência a fazer o mesmo. Esta cultura de não saber estar, fazer e ser existe mesmo. É verdade que há pessoas que, por terem tido um percurso de vida e um processo de socialização muito deficitário a nível de oportunidade e recursos e condições, incorporaram uma série de práticas muito más. Pessoas a quem arranjo oportunidade de trabalho e faltam, roubam, são mal educadas... O que é que temos de perceber aqui? Por que razão é que as pessoas têm este comportamento e o que podemos fazer para as mudar. Que os pobres são ingratos, moinas e não sabem gerir dinheiro? Sim, é verdade. Os meus pobres recebem o RSI e compram um telemóvel antes de pagar o infantário. Ou vão comer uma francesinha e meter jantes no carro antes de pagarem as dívidas. Agora, eu tenho obrigação de perguntar: porque é que eles fazem isso? Porque quem tem uma identidade esfarrapada, que trunfos tem para mostrar à sociedade que é uma pessoa a sério? O pai está preso, a mãe coitadinha, a irmã anda na rua... Então ele mostra o telemóvel. Quando me perguntam como se acaba com a pobreza eu respondo: com outras políticas sociais e com envolvimento da sociedade civil. Mas se pedirmos à sociedade civil para delinear um plano para combater a pobreza ninguém está interessado. 'Desculpe lá, mas tenho uma vizinha que ganha o dobro do que eu ganho e vai para o café e fuma dois maços de cigarros.' No Lagarteiro, tenho cenas de ir a casa das pessoas e ter a vizinha do lado a dizer-me que devia ter vergonha na cara. 'Eu ponho-me a pé às seis da manhã, apanho três transportes, e trago para casa 400 e tal euros. Essa badalhoca põe-se a pé ao meio-dia, tem ligação directa e não lhe falta nada porque vocês passam a vida a ajudá-la.' Esta solidariedade é muito difícil de montar. As pessoas acham que a culpa é delas, porque de facto os pobres têm atitudes difíceis de perceber. E é isso que os vai matar. A falta de consciencialização política — não sabem e não querem saber o que é esquerda e o que é direita e, por isso, não sabem a causa dos problemas que têm — e a falta de capacidade de se organizarem. E a atitude. 'Oh doutor Pinto, vai demorar a atender-me? É que tenho lá fora o táxi a contar.' Então você vem buscar compras, ajuda, de táxi?’ Cabe na cabeça de alguém? Isto é muito complexo de combater. É preciso politizar as pessoas — mas como se faz isso é das perguntas mais complexas que existe. A única coisa em que ainda acredito é em criar uma relação de afecto e de proximidade e entrar por aí. Posso chegar à beira dos meus utentes e dizer-lhes: 'Hoje vieste aqui pedir-me uma vacina da Prevenar e não tive dinheiro, mas há dinheiro para submarinos. Achas isto bem?' E eles percebem. Mas eles só me ouvem se já tiver um capital de investimento neles. Portanto, é preciso criar relações de afecto e espaços de participação. Um grupo de teatro, um coro, associações. Não tenho conseguido essa parte — o que é das minhas maiores frustrações. Tenho uma relação muito boa, mas não consigo o passo seguinte. Está contra mim a novela, o centro comercial, o futebol. Tudo. Mas sei que se tocar no coração das pessoas — se utilizar uma ferramenta chamada afecto — eles vão ouvindo e vai ficando qualquer coisa. Os ciganos, por exemplo, com esta relação de os visitar nas cadeias e de os safar, tenho uma autoridade que não seria possível de outra forma. Na Galp do Freixo, eles cagavam aquilo tudo. Um dia, fui ao acampamento e disse-lhes que aquilo tinha de acabar, que tinham de respeitar para serem respeitados, que eram uns porcos. Ninguém chama porco a um cigano sem levar um murro na cara. Porque é que eu o fazia? Porque lhes arranjava as vacinas, o RSI, as casas. Este capital pode também ser utilizado para politizar as pessoas. Agora, isso não chega. Quando cheguei a Campanhã, existiam 18 barracos no Lagarteiro, atrás do Bloco 13. Então criei uma associação de moradores dos barracos do Lagarteiro. A partir daí começamos a pensar o que íamos fazer: ir à assembleia municipal, escrever, nomear representantes... Fizemos isto até todas as pessoas terem casas. Foi das coisas mais fixes que fiz. Mais proletária, de raça, de 'o povo unido jamais será vencido'. Saía de lá à meia-noite, duas da manhã. Todo partido, mas feliz. Quando se tem um ideal marxista e um partido por trás, que nos explica que é por ali o caminho, corre tudo bem. Se não tivesse provavelmente estava a borrifar-me. Depois há a comunicação social. Tinha uma associação de toxicodependentes, a CAOS, e num ano fizemos um Natal numa fábrica abandonada com ‘ressacados’. Aparece-me lá a Ana Cristina Pereira e o Paulo Pimenta, do PÚBLICO. A partir daí comecei a criar uma relação com muitos jornalistas. Vinham ter comigo para me pedir ajuda em trabalhos. No cinema, na fotografia, no teatro. Percebi que isso também me ajudava muito: a desmascarar, a influenciar e a envergonhar políticos. A arte como ferramenta de intervenção. E a minha visibilidade como força, prestígio e credibilidade. Quando sabem que o técnico sou eu mudam logo de atitude. Rentabilizo as minhas divisas para puxar a brasa à sardinha dos utentes. Pessoalmente, nunca ganhei nada com isso. Os meus amigos perguntam: 'Essa cena da comunicação social, dá dinheiro e gajas?' E eu: 'Nada, zero.' Agora, ganho para os meus utentes. Entre os meus colegas de profissão, há três grupos de pessoas: as que me adoram, as que me odeiam e as que me têm medo. As que me adoram dizem que quando forem grandes querem ser como eu, as que me odeiam querem partir-me as pernas numa passadeira, e as que me têm medo dizem: 'Foi o Chalana que ligou? Então trata já disso porque se não amanhã ele arma um estouro, vai ao provedor, chama as televisões, fode-te a vida toda.' Não fazem por respeito aos utentes, fazem por medo. É triste. A medalha de ouro comemorativa do 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que a Assembleia da República me deu, emocionou-me muito. Primeiro porque aquilo é uma comissão onde estão todos os partidos e tem de ser por unanimidade. Todos disseram que eu era um fenómeno. Para o meu ‘rancho’ aquilo foi a loucura — na história do prémio, o PCP nunca tinha tido um nome. Ter ali um comuna a ganhar a medalha, ainda por cima nos cinquenta anos, foi muito importante. Depois, o impacto do discurso. Nunca pensei que aquilo acontecesse. De repente, chego à junta de freguesia e está lá toda a gente como se eu fosse o Tino de Rãs ou tivesse ganho o Big Brother. Ninguém falava de outra coisa. Fiquei assustadíssimo. Aquele prestígio responsabilizou-me ainda mais: se ganhei isto então agora é que não posso mesmo falhar com os meus pobres. Se dava cinco, agora tenho de dar dez. Sou bom nisto, mas no que sou mesmo, mesmo bom é noutra coisa. Aos domingos, uma vez por mês, sou palhacinho no hospital. É das coisas mais bonitas que faço — onde tenho mesmo pinta é ali, a ser PCH: palhaço em contexto hospitalar. Um dia, uma amiga do Hospital de São João telefona-me e fala-me do projecto do Nariz Vermelho. 'Acho que um dia devias fazer uma experiência com eles. Agora há aí uma gente nova, chamada 'Cor é Vida', de uma brasileira que viveu em favelas e trabalhou como assistente social. Vais adorá-la.' Ouvi brasileira e lá fui. Pensei num mulherão e apareceu-me uma de 70 anos. Estou a brincar: é uma mulheraça do caraças! Convidou-me para fazer parte do projecto. Disse-lhe logo que não. Tenho uma filha de oito e outra de 12 e ser confrontado com aquela doença era impensável para mim. Se um dia me dissessem que uma das minhas filhas tinha um cancro eu não aguentava. Já quando têm febre eu morro. Disse-lhe para esquecer: que era palhaço e músico, mas não tinha tomates para aquilo. Nas vésperas de Natal ela liga-me e volta a desafiar-me. Foi no dia 12 de Dezembro. Entrar num hospital com uma viola é como entrar nu. Nunca mais me esqueço da minha primeira menina. Chamava-se Lara, tinha um papo na cabeça e um laço. Comecei a cantar a ‘olha a bola Manel' e ela começou a rir-se. A mãe ficou em êxtase. Eu fiquei com uma lagrimita no olho. Pensei: 'Deixa ver se me aguento aqui... Se me aguentar passo à segunda.' E passei. Passei, passei, passei. Fiquei viciadíssimo naquilo. Temos uma vida super abençoada e não temos noção de que temos uma vida super abençoada. As minhas estagiárias choram porque o Fiat 500 que o papá deu não dispara o isqueiro. O 'Cor é Vida' ajudou-me muito a perceber que tenho uma vida espectacular e que, muitas vezes, não a valorizo. Já aconteceu a todos. Deixar cair a meia de leite numa blusa lavadinha e ficar muito triste com aquilo... De repente penso: 'Ei, espera lá, ficar triste por isto?!' O que dói mesmo é ter um filho em fase terminal. Depois, aquilo fez-me perceber que, no limite do sofrimento, ainda posso resistir. Aqueles pais, apesar de os filhos estarem no fim, não desistem de ser felizes nem estão amuados com a vida. Isto é uma lição do caraças. E os meninos sorriem. Eles não mandam no médico nem no enfermeiro, mas no palhaço sim. Se me querem lá querem, se não querem eu vou embora. Esse poder é lindo. E não há uma receita. Entro no quarto e vou percebendo: aqui funcionam umas cócegas, aqui uma tanga com a enfermeira, aqui com a médica, aqui uma cantiga. Vou mudando de estratégia. Já funcionou ter uma freira a visitar os miúdos e meter-me debaixo da saia dela. Mas fazer aquilo com pinta o suficiente para ninguém me levar a mal: 'Oh irmã, que escuridão aqui em baixo!' Outras vezes, não funciona nada. Vou sempre com medo de não conseguir e essa aprendizagem e desafio constantes são fantásticos. E o gozo que dá quando eles se riem e dão gargalhadas e se penduram em nós. Para segurar as lágrimas não há técnica. É preciso perceber que, se acontecesse, fazia mal ao miúdo e aos pais e portanto há que aguentar. E, se não aguentar, vou fazer xixi ou digo que entrou um chisco no olho. Quando eles se esquecem da doença mesmo que seja por momentos pequeninos está ganho. E os pais são uns castiços. Pedem-me músicas e eu faço o trabalho de casa. Tenho uma capinha onde guardo o repertório, com José Cid e coisas afins. E depois chego ao hospital e vou procurá-los para lhes cantar. Quando ainda não tiveram alta ou não partiram. Já perdi três. A última, a Cristiana, ficou tão mal que foi transferida para o IPO. Ficou em isolamento. Então tentamos alugar uma grua à Mota-Engil para subir numa plataforma, bater no vidro e cantar-lhe os parabéns. Não conseguimos a grua, porque o terreno não tinha consistência. Mas soltámos balões e cantámos cá de baixo. Ela acabou por partir. É duro. Mas sinto que quando estou lá sou útil. E, por isso, chego a casa com uma leveza... É o melhor dia do mês. Além de gostar muito daquilo, percebi que a questão técnica era muito importante Fui ter aulas com o Pedro Fabian, o grande professor do Nariz Vermelho. A pagar do meu salariozinho. Ele disse-me: 'Chalaninha, todos nós temos um palhaço dentro de nós. A possibilidade de ele crescer como um bebé acontece à medida que perdes o medo de ser ridículo.' Porque, às vezes, apetece-nos dar um peido e penso 'oh, é ridículo'. E não dou. Aí mato o palhacinho. O Ministério da Saúde considerou que o trabalho que estas pessoas fazem nos hospitais é terapêutico e por isso deu apoio ao Nariz Vermelho. Eu não ganho nada mas farto-me de ganhar. Muita gente pergunta-me como arranjo tempo e respondo-lhes que arranjo porque aquilo me faz um bem imenso. Chego a casa, sento as minhas duas filhas ao colo. E elas: 'Pronto, lá vem este, vê-se logo que é dia de hospital. Oh Pintinho, precisava de umas Nike.' Naquele dia vale tudo. Isto torna-me um ser humano muito melhor. Esta coisa do mundo contemporâneo, com tudo muito tecnológico e mercantilizado, é horrível. Parece que as relações sociais são feitas com base no que se ganha. Tenho muita pena disso. E do imediatismo: já ninguém sabe esperar. Ninguém semeia e faz crescer. E tudo se baseia na tecnologia. Vamos a um jantar de amigos e, de repente, está tudo com os telemóveis. Isto é mau. Portanto, as pessoas hoje têm tecnologia, mercantilização das relações sociais, imediatismo... E depois? Qual é o resultado? O vazio. E aí o ciclo recomeça: ficam deprimidas e vão para o e-mail e para o Facebook tentar encontrar lá o que não têm dentro delas. Este mundo é assustador. Tenho esta angústia em relação às minhas filhas. Penso: será que elas vão ser o meu prolongamento? O pai é divertido, se elas forem umas enjoadas vou ficar triste. O pai é revolucionário e solidário, se elas não forem vou ficar triste. Compenso-as sempre que elas vão pelo caminho certo. Tento ser pedagógico. Mas a televisão está contra mim, a novela está contra mim, a Teresa Guilherme está contra mim. Chorava muito se um dia a minha filha me aparecesse em casa com um 'Franzen' qualquer, alemão, de crista e brincos, a organizar uma manif de extrema-direita. Tenho muito medo disso. Mas acredito que se puser a sementinha a coisa vai lá. Quero que elas sejam felizes, acima de tudo. Mas se forem felizes a lutar, como eu, melhor. Como dizia o Vinicius — eu só sei viver de forma apaixonada. Posso estar apaixonado por um projecto hoje, por uma causa amanhã, por uma miúda depois. Sem paixão, não consigo. Então, a minha capacidade é: quando saio de uma paixão, já estou a micar outra. Agora estou apaixonadíssimo pelo meu projecto Troika, um grupo de intervenção com as músicas do PREC. Onde vamos, arrasamos. Estou até a construir um estúdio com as minhas poupanças. Depois, outras paixões virão. É este o meu segredo para continuar sempre. Porque a vida é uma coisa espantosa. E eu quero que o seja para todos, não para meia dúzia." 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

SEGURANÇA SOCIAL quer encafuar 1500 trabalhadores num edifício repleto de AMIANTO
Há cerca de um ano e meio o Fundo de Estabilização da Segurança Social (uma reserva para o pagamento da pensões) gerido pelo Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social (IGFCSS), comprou ao Fundo de Pensões da CGD, por € 50 milhões, um volumoso edifício, em grande parte devoluto, na esquina da Avenida de Berna com a Avenida 5 de Outubro, em Lisboa.

(...) Em outubro de 2010 a CGD vendeu ao Fundo de Pensões da CGD o referido edifício – já esvaziado - por € 251.8 milhões, revelando uma mais-valia de € 103.7 milhões, um valor próximo dos lucros do banco público no primeiro semestre daquele ano. Depois, até recentemente, o edifício continuou desocupado, excepto na parte onde esteve instalada a Caixa Geral de Aposentações, que gere as pensões dos funcionários públicos e, que sempre funcionou na órbita da CGD; para além do próprio Fundo de Pensões da CGD que passou a viver em casa própria.

Em 2017, o mesmo Fundo vende por € 50 milhões um edifício pelo qual pagara € 251.8 M, sete anos antes. Estranho, não?

Numa conjuntura de crescimento dos preços do imobiliário em que qualquer pardieiro passa a habitação para turistas; quando se evidencia a falta de espaços para escritórios na parte central da cidade de Lisboa (veja-se a apetência pelos terrenos da antiga Feira Popular), um edifício projetado por Tomás Taveira e com uma menção honrosa pela sua qualidade arquitetónica deveria, hoje, valer algo mais do que os € 251.8 milhões da transação de 2010, quando se anunciava o fracasso dos planos de austeridade – os célebres PEC que vieram a atapetar a chegada da troika. Porque será, então, que em 2017 o prédio foi vendido pela quinta parte do seu custo em 2010? (...)

domingo, 9 de dezembro de 2018

AS CÉLULAS DE EMPRESA

Partido cresce e reforça-se no Complexo Industrial de Sines

REFORÇO A organização do Partido no Complexo Industrial de Sines tem vindo a crescer, com novos militantes, células reforçadas e uma maior intervenção na luta dos trabalhadores.


O Complexo Industrial de Sines, que inclui o Centro Petroquímico, o Porto de Sines e a Central Termoeléctrica, é o maior local de trabalho do Alentejo, com relevância estratégica a nível nacional. O número dos que trabalham na imensidão de empresas que o compõem varia entre os oito e os dez mil, muitos dos quais com vínculos precários e laboração eventual.

Há muito que o Partido está presente no Complexo, tanto no interior como junto aos portões das várias empresas. Pedro Martins, do Comité Central, realça que não passa um mês sem que militantes do Partido contactem com estes trabalhadores, ora para lhes fazer chegar boletins e comunicados específicos sobre os seus problemas e lutas, ora distribuindo folhetos de campanhas nacionais do Partido, ora, ainda, em acções de venda especial do Avante!.


Mas é no interior das empresas que o Partido mais cresce, acrescenta o jovem dirigente do PCP, sublinhando que os últimos meses foram de avanços organizativos. Graças a eles, realçou, foi reactivado o organismo intermédio do Complexo, que se revelou indispensável para alavancar o reforço do Partido em algumas das empresas. Este organismo editou vários números do seu boletim, O Complexo, ao longo deste ano.

Reforçar e consolidar

Na Petrogal, os três recrutamentos realizados desde o inicio do ano permitiram «reforçar e consolidar o trabalho da célula», que hoje reúne periodicamente, tem tarefas distribuídas pelos seus membros e edita, «com muita regularidade», o seu boletim, o qual, acrescenta Pedro Martins, contribui decisivamente para a afirmação do Partido na refinaria. Isto além de ter permitido a difusão de mais três jornais Avante!.

Para além da campanha dos 5000 contactos com trabalhadores, que se está a revelar determinante para o reforço da célula da Petrogal, também o ambiente de luta que há muito ali se vive contribuiu para os avanços registados: pelo menos desde 2014 que os trabalhadores da Petrogal exigem o fim da imposição da caducidade do seu Acordo de Empresa, tendo por essa reivindicação central desenvolvido muitas acções de luta, com forte impacto em Sines.

Na Petrogal, garante, é hoje evidente para a generalidade dos trabalhadores a importância do PCP e da sua célula na dinamização da luta pelos seus direitos e no reforço das suas organizações unitárias de classe.

Muito por onde crescer

Na APS – Administração dos Portos de Sines e do Algarve, SA, o Partido conta também com uma célula que, entre outras tarefas, distribui o Avante! pelos militantes. Aqui,os comunistas e a sua célula desempenharam um papel activo nas duas greves realizadas este ano.

Na Repsol, o novo militante recrutado recentemente será, confia Pedro Martins, o «ponto de partida para a criação de uma célula no complexo petroquímico». Com esta «ponta», o Partido ficará a conhecer mais ao pormenor a situação que se vive naquele local de trabalho, o que lhe permitirá editar um boletim específico e «trabalhar a partir daí».

Também na PSA – Terminal XXI foram feitos dois recrutamentos: um no final de 2017 e outro já este ano. Nesta que é uma empresa prioritária no quadro do complexo, com perto de 1000 trabalhadores, «está-se a reunir com os dois camaradas e a planificar o trabalho do Partido», afirma Pedro Martins. «Estou convencido de que em breve teremos aí uma célula».

Por outro lado, na REN, empresa estratégica a nível nacional, a partir de um novo militante, adianta também o membro do Comité Central, procura-se desde já desenvolver a intervenção unitária e partidária, visando alargar a organização e constituir, também aí, uma célula do Partido.

Na Euroresinas e na Indorama o objectivo é semelhante.


NUNCA É TARDE!

É interessante ler este artigo sobre as células de empresa no parque industrial de Sines. Nunca é tarde para começar um trabalho empenhado de organização dos trabalhadores nos locais de trabalho. 

Há anos, mas há muitos anos, que as conclusões do Comité Central e de outros órgãos superiores do Partido vêm apelando ao trabalho organizativo dos trabalhadores pelos locais de trabalho, há uns anos , talvez uns oito, foram destacados funcionários especificamente para esta tarefa. O resultado, pelo que tenho observado e analisado, parece-me fraco: ao destacarem funcionários para as células de empresa desresponsabilizaram as Comissões Concelhias e outros organismos intermédios sobre esta questão; alguns destes quadros, desconhecedores das realidades de cada empresa e região, limitaram-se, durante anos, à distribuição de panfletos elaborados centralmente sem qualquer ligação com os problemas específicos dos trabalhadores em cada empresa. 

Por aqui, Spal e Crisal, houve há uns anos uma entrevista, do responsável distrital por esta tarefa, ao Avante, que indicava haver em cada uma destas empresas células a funcionarem, o que não corresponde à verdade porque há muitos anos que não existe organização do Partido nessa empresas -para mostrar trabalho que não existe, mente-se.

É positivo haver este trabalho que o artigo do Avante salienta? É!O caminho é esse, ir ao encontro dos trabalhadores, conhecer os seus problemas, organizá-los e incentivá-los à luta. 

O artigo do Avante evidencia com toda a clareza a falta de organização, o trabalho constante que tem sido inexistente junto dos trabalhadores.