Depois
de voltar a ler o livro de Álvaro Cunhal, “ A Verdade e a Mentira na Revolução
de Abril”, fiquei com uma opinião mais clara e objectiva do que se passou no 25
de Novembro.
Arrumação E Correlação de Forças
Contrariamente
ao que antes pensava, hoje, sou de opinião que tudo foi feito para agregar
forças no sentido de impedir que o golpe reacionário de 25 de Novembro tivesse
como resultado o regresso a uma nova ditadura reacionária e fascista.
Poderia
ter sido evitado o golpe e a situação política ter evoluído num sentido
revolucionário, numa linha de reforça das conquista alcançadas e até, prosseguir
para uma posição superior? Claro que poderia!
Mas,
com as diversas forças militares desorganizadas, em confronto permanente, desunidas,
com o PS envolvido na conspiração e envolvido no golpe, com os esquerdistas
radicalizados e num ataque permanente ao PCP, a Vasco Gonçalves e às conquistas
revolucionárias qualquer solução mais radical levaria a uma guerra civil de
desfecho imprevisível. J.C. Tofes Arrumação E Correlação de Forças
O golpe militar contra-revolucionário de 11 de Março e a sua
derrota revelaram e aprofundaram bruscas rupturas no MFA, entre os partidos e
no IV Governo Provisório. Extremaram-se e radicalizaram-se posições. No MFA
agudizou-se o conflito entre a esquerda militar, o COPCON e o «Grupo dos Nove»
a partir do verão quente. Sectores
mais hesitantes afastaram-se do processo revolucionário. Acompanhando o PPD,
directamente comprometido nos golpes de Spínola, o PS tornou-se abertamente o
campeão da desestabilização, do anti comunismo e do confronto.
Com a nova arrumação de forças e substituições e as mudanças
favoráveis à direita nas chefias das Forças Armadas, o estéril aventureirismo
esquerdista, as divisões e crescente inoperacionalidade da esquerda militar – a
situação evoluiu rapidamente num sentido desfavorável à revolução.
Já neste ensaio apresentámos um quadro dos acontecimentos, nomeadamente
a partir da provocação do PS no comício do 1º de Maio. Derrotadas no 11 de Março, as forças contra-revolucionárias passaram à ofensiva. Nas forças
Armadas, em 4 de Agosto, a reintegração, por Otelo, de Jaime Neves nos Comandos
da Amadora, dos quais tinha saído em 31 de Julho, e a baixa operacionalidade
das unidades da esquerda militar, marcaram o desequilíbrio de forças a favor da
contra-revolução. Um situação militar favorável à revolução era irrecuperável
na situação existente. A ruptura de Otelo com forças da revolução marcou a
agudização dos conflitos que culminaram no pronunciamento de Tancos, no
afastamento de Vasco Gonçalves, na derrota da esquerda militar e na prática
desorganização, desagregação e dissolução do MFA.
A contra-revolução avançava rapidamente para impor, através de um
golpe militar, a instauração de uma nova ditadura e o desencadeamento de uma repressão
violenta do PCP, da esquerda militar, do movimento sindical e de outras forças
da revolução.
Tem-se perguntado se, nesta situação, em que cada qual «contava as
espingardas», o PCP, tendo concluído que a contra-revolução preparava um novo
golpe, não considerou a possibilidade de se lhe fazer frente e de o derrotar
militarmente.
Segundo a nossa avaliação, desde há muitos meses a correlação de
forças militares evoluía favoravelmente à contra-revolução. Realizámos contactos, a alto nível de responsabilidade, e não
só, com os principais sectores ligados ao 25 de Abril.
Os encontros mostraram que a situação das forças militares,
favoráveis à Revolução de Abril, se caracterizava por grande desorganização
interna, falta de accão comum, coordenada ou confluente, luta de uns contra os
outros, e cada um internamente dividido. Cada qual fazia o que entendia. Em
geral apáticos, sem reflexão séria e sem plano de carácter operacional. Organizações
esquerdistas colaboravam com a direita nas campanhas e provocações conta o PCP
e contra a esquerda militar, constituíam factor permanente de desorganização e
inoperacionalidade. Oficiais com altas responsabilidades na Esquerda, salvo
algumas excepções, discorriam muito, discutiam muito, teorizavam muito, mas sem
consideração concreta que desse resposta a questões inadiáveis.
Se havia ou não forças para impedir ou resistir a um golpe militar
da direita, que reconhecidamente estava em gestação. Se havia ou não disposição,
não só de resistir, mas vencer – avaliação indispensável, porque, em caso de
confronto militar, não se combatem armas com palavras, mas com armas e
determinação de utilizá-las.
Perante tal situação, o PCP concluiu que, nas condições criadas,
se caminhava para um golpe militar contra-revolucionário promovido por uma
vasta coligação de diversos sectores militares e políticos, entretanto não
coincidentes nos seus objectivos. O golpe era facilitado pelas atitudes e
decisões divisionistas de Otelo e do COPCON sistemática e objectivamente
favoráveis à direita, embora envolvidos por vezes numa exaltada linguagem
esquerdista, invariavelmente anti-PCP.
A esquerda não estava manifestamente em condições de responder, em
termos militares, ao golpe militar contra-revolucionário, que se preparava.
Correspondendo à orientação geral, sempre defendida ao longo de
todo o processo revolucionário, e no seguimento de continuados esforços, nos convulsionados
meses da crise-militar do chamado verão
quente de 1975, para evitar que se caminhasse para tal confronto, o PCP
tomou a decisão de avançar a proposta de uma solução política «negociada» para
a crise político-militar.
Tínhamos consciência de que, dada a profundidade das rupturas e divisões
e a radicalização das posições de praticamente todos os sectores, e também das
forças já envolvidas na violenta ofensiva contra-revolucionária, a solução
proposta seria de difícil concretização. A proposta podia entretanto ser (e veio
a ser) uma decisiva contribuição para diversos sectores, empenhados na
preparação do golpe contra-revolucionário, se distanciassem e contrariassem os
objectivos das forças fascistas e outras de extrema-direita às quais estavam
entretanto aliados.” Pág. 202, 203 e 204 do livro a
Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A. Cunhal)
..."“Numa tão complexa e perigosa situação militar, objecto de constantes atentados terroristas, de constantes campanhas e provocações, o PCP, ao mesmo tempo que insistia constantemente nas suas declarações, comunicados, comícios, em explicar e defender a orientação definida pelo Comité Central em 10 de Agosto e multiplicava diligências e contactos com diversos sectores militares e políticos, organizava a resistência de massa, passo a passo, à ofensiva contra-revolucionária.”
..."“Numa tão complexa e perigosa situação militar, objecto de constantes atentados terroristas, de constantes campanhas e provocações, o PCP, ao mesmo tempo que insistia constantemente nas suas declarações, comunicados, comícios, em explicar e defender a orientação definida pelo Comité Central em 10 de Agosto e multiplicava diligências e contactos com diversos sectores militares e políticos, organizava a resistência de massa, passo a passo, à ofensiva contra-revolucionária.”
Pág. 208 do livro a Verdade e
a Mentira na Revolução de Abril (A. Cunhal)
Ver aqui:
Eaqui:
Eaqui:
“ENCONTROS COM TODOS OS SECTORES”
“ Nos esforços para evitar um confronto militar e conseguir uma saída
politica para a crise, impedindo a instauração de uma nova ditadura, o PCP, ao
mesmo tempo que fazia frente às campanhas, ao terrorismo bombista e à furiosa
contra-revolução anti-comunista, e que desenvolvia a luta de massas, procurava
influenciar positivamente a situação nas forças armadas no sentido de encontrar
uma saída politica negociada para a crise. Com esse objectivo realizou
numerosos encontros com diversos sectores militares e políticos, cujo
compromisso, segundo a «Proposta de solução política» de 29 de Agosto, seria
indispensável. Ou seja: Vasco Gonçalves e a esquerda militar; Otelo, os
militares esquerdistas do COPCON e partidos políticos a eles ligados; Grupo dos
Nove; PCP e o PS.
A partir da reunião do C. Central de 10 de Agosto, realizaram-se
encontros com todos os sectores com uma excepção: a excepção do PS que, lançado
por Mário Soares no projecto de um golpe militar contra-revolucionário e mesmo
numa guerra civil, que ilegalizasse e reprimisse o PCP, recusou quaisquer encontros,
como aliás há muito recusava.
Nenhuma das forças referidas ou qualquer dos seus elementos,
embora alguns mantivessem uma ligação com o PCP e examinassem os perigos de
direita, se mostrou aberta a uma solução política negociada, nem mesmo a
encontros multilaterais proposto para encarar tal possibilidade.
Todos se fecharam em posições radicais definitivas.
Logo a seguir à reunião do CC de 10 de Agosto, no dia 25 de Agosto,
tinha havido um encontro com partidos e agrupamentos de esquerda e
esquerdistas, alguns estreitamente ligados a Otelo (MDP/CDE,MES; LCI,
FSP,LUAR,PRP-BR, «4 de Maio») Mas a uma primeira aceitação, com importantes
reservas e apenas como base de trabalho, de um documento do COPCON e à criação
de um Secretariado Provisório de Coordenação para a formação de uma «frente»
que, segundo o PCP, deveria inserir-se no
entendimento com outras forças, logo, ao ser apresentada no dia 29 pelo PCP
a «Proposta de solução política», sucedeu o assalto dessa estrutura pelos
esquerdistas e a sua utilização abusiva numa linha abertamente anti-PCP e
aventureirista. O PCP, naturalmente desligou-se e afastou-se de imediato dessa
iniciativa."
(sublinhados meus, Caetano)
Pág. 209 e 210 do livro a
Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A. Cunhal)

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