quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

GREVES

Em todo o mundo os trabalhadores, assalariados por conta de outrem recorrem à greve para obrigar as entidades patronais a respeitarem os seus direitos ou para reivindicarem melhores condições de trabalho.

Em greve os vínculos laborais são suspensos e os trabalhadores perdem direito ao salário pelos dias em que esta decorre. Por isto e pelo facto de quase sempre se desencadearem fortes ataques aos trabalhadores em greve por parte do sistema dominante em que patrões, governos e boa parte da comunicação social – quase sempre aliados – tratam de denegrir os movimentos grevistas, pode-se constatar as dificuldades com que lutam a generalidade dos trabalhadores.

Se atentarmos como a comunicação social, na maioria dos casos, noticia as greves facilmente constatamos a parcialidade com que o fazem transmitindo uma má imagem dos grevistas e dos sindicatos. A cobertura noticiosa, principalmente nas televisões, assenta quase em exclusivo nas dificuldades que as greves colocam aos cidadãos. Responsabilizam os trabalhadores e os sindicatos pela situação ao mesmo tempo que escamoteiam as razões das lutas, as responsabilidades patronais e dos governos que jogam com as dificuldades que são causadas para tentarem virar a opinião pública contra quem luta pelos seus direitos.

Actualmente em Portugal decorrem algumas greves que merecem uma atenção muito especial pelos contornos e pelo enquadramento social e político em que decorrem.

Greve dos Juízes – decorre sem que se debata com clareza as suas razões e se os magistrados na sua qualidade de titulares de órgãos de soberania podem ou não exercerem este direito.

Como se trata de uma classe muito importante e com um peso social enorme poucos se atrevem a questionar esta situação que se vai arrastando.

Greve dos trabalhadores precários do Porto de Setúbal – Os trabalhadores precários lutam contra a indignidade que já dura há muitos anos. São contratados à jorna – ao dia, por turno – e despedidos de imediato logo que terminam o dia ou turno de trabalho para voltarem a ser contratados e sucessivamente despedidos. Isto acarreta incerteza, ausência de direitos sociais, intranquilidade familiar, um presente incerto e um futuro sem esperança.

Verdadeiramente estes trabalhadores nem em greve estão já que não têm qualquer vínculo laboral. Portanto, o que sucede é que os trabalhadores se recusam, e bem, a trabalhar em condições indignas anos a fio, com total insegurança, sem direitos sociais e com as suas vidas em suspenso.

O porto de Setúbal é uma estrutura muito importante para a economia do país. Mais, a Autoeuropa necessita do porto operacional para poder mais facilmente exportar os automóveis que fabrica. Governo e patrões reclamam que a paralisação do porto tem um custo enorme para o país. Seria lógico que atendessem às mais do que razoáveis reivindicações dos trabalhadores e lhes garantissem um vínculo estável e um contrato de trabalho com direitos sociais e obviamente com obrigações daí decorrentes.

Porém, o que fazem os patrões portuários e o governo? O porto de Setúbal é muito importante e então em vez de acabarem com a precariedade o patronato e o governo de mãos dadas tentam persistir na imoralidade laboral existente, confrontando os trabalhadores em luta com a polícia para conseguir, com elevados custos, os substituir e assim fazerem prevalecer condições de trabalho vergonhosas que só servem para alimentar a ganância dos patrões. Está à vista de todos que pese embora a importância para a economia do país do porto de Setúbal, patronato e governo parecem que não se importam de o escaqueirar para mais uma vez, como exemplo e vacina, tentarem “partir a espinha” aos trabalhadores.

Greve dos guardas prisionais – A falta de condições de trabalho destes profissionais arrastam-se há longos anos. Há longos anos também que as condições nas cadeias sobrelotadas do sistema prisional são muito más. Os prisioneiros estão a cumprir penas por crimes que cometeram mas não podem ser tratados como lixo. As suas condições de detenção não lhes podem negar os direitos que lhes assistem. Não podem ficar abandonados à sua sorte e continuarem, uma boa parte deles, a serem coagidos por outros que continuam impunemente a partir das suas celas a organizar e a dirigir todo o tipo de acções criminosas. Tudo isto sob o olhar complacente dos responsáveis e perante a indiferença do país que tende a não querer saber da sua existência. Isto, em termos de reinserção social tem custos elevadíssimos.

Greve dos enfermeiros “Crowdfunding” – Esta situação é um pouco intrigante. Não estão em causa as reivindicações dos enfermeiros que têm muitas e boas razões para lutarem. Estranho é que os sindicatos mais representativos do sector estejam ausentes desta luta, aparentemente com dificuldades e até algum embaraço para darem a cara por ela. Creio que fundamentalmente o que carece de esclarecimento é o facto do financiamento desta greve estar a ser feito de forma anónima dando ligar a especulações que em nada abonam os promotores desta acção.

Na verdade, estando o Serviço Nacional de Saúde (SNS) debaixo do fogo dos interesses dos privados que olham para o sector da Saúde como um grande negócio, procurando desmantelar o SNS para assim o substituir era de todo aconselhável que o financiamento da greve não deixasse margem para dúvidas. Milhares de cirurgias adiadas caem como sopa no mel para os interesses dos privados que se propõem fazer aquilo que o SNS deixa de fazer com os custos daí inerentes.

É claro que isto remete para muitos outros assuntos como, por exemplo, o da representatividade dos sindicatos nunca aferida, o que permite promover a parceiros de negociação quem pouco ou nada representa mas está disposto a tudo para, manipulando justos anseios dos trabalhadores, conseguir atingir objectivos, se calhar, inconfessáveis.

Porém, a questão da representatividade dos sindicatos é assunto que merece uma grande reflexão. Debate e reflexão que é do próprio interesse dos sindicatos que devem tomar a iniciativa e pôr a nu o oportunismo de umas quantas organizações sindicais que tão mau serviço prestam aos trabalhadores e às suas lutas e dão argumentos aos detractores do movimento sindical.
Ver aqui:

Nota: Não entendo este silêncio "ensurdecedor" do PCP e do Bloco de Esquerda. O PS, através da ministra da saúde, limita-se a dizer que vai pedir parecer sobre a legalidade da greve, nem uma palavra para a condenar. O Presidente da República, tão atento a tudo, nem pia. O PSD e CDS, naturalmente estão calados porque são eles os mentores da greve dos enfermeiros. A comunicação social, sempre tão enérgica a entrevistar a população, as pessoa sobre os transtornos desta ou daquela greve, limitam-se a entrevistas à Bastonária da Ordem dos Enfermeiros - que pertence à direcção Nacional do PSD e declara que a greve foi decidida dentro do PSD. 
Para mim está em causa a desestabilizarão do Serviço Nacional de Saúde com o objectivo da sua privatização, o desvio das cirurgias para os privados onde vão ganhar médicos e enfermeiros. Está em casa colocar a população conta as greves. Este esquema já é velho e foi organizado no passado, não só em Portugal como noutros países. 


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