Mário Soares e o PSAntes do 25 de Abril
“(…)
O marcelismo confirmava plenamente o que o PCP lhe chamou: o salazarismo
sem Salazar.
“Mário
Soares e outros participantes na oposição à ditadura tinham alimentado ilusões
sobre Marcelo Caetano, procurando até um compromisso com ele de «legalidade preferencial»
Esta rigorosa e verdadeira apreciação
era contrariada por sectores da Oposição antifascista, que iludidos pela
demagogia «liberalizante» de Marcelo Caetano, procuravam (como adiante se verá)
um compromisso com ele e uma «legalidade preferencial»
Surpreendente é que Mário
Soares e outros participantes na Oposição à ditadura tenham alimentado
tais ilusões, quando até no grupo de deputados da Assembleia Nacional fascista,
eleitos pelo partido do poder, uma voz classificou o governo de Caetano como
«governo herdado com tudo o mais do pensamento salazarista» (intervenção de Miller Guerra na
Assembleia Nacional em 6 de fevereiro de 1973, pedindo a renuncia do mandato.) ”(…)
A Verdade e a Mentira na
Revolução de Abril, A. Cunhal, pág. 30
(…)”
Mário
Soares em declarações a um programa da SIC diz que Salazar não
era fascista” forma de
branqueamento do fascismo. (pp
pág. 40)
…No 25º Aniversário do 25 da
Revolução de Abril, a contra – revolução renovou a propaganda da estafada tese
de que, em Portugal, se poderia ter passado pacificamente da ditadura para a
democracia sem ar e Revolução de Abril…
…A este respeito não se pode
deixar de considerar significativa a realização de um colóquio, tendo como tema
A transição democrática em Espanha, realizado
em Lisboa, nos dias 26 e 27 de Setembro de 1998, por iniciativa conjunta da Fundação
Mário Soares e da Fundação BBV, espanhola.
Dos participantes
portugueses, citem-se o próprio Mário Soares, Freitas do Amaral e
Marcelo Rebelo de Sousa.
Dos participantes espanhóis,
citem-se Fraga Iribarne, Felipe González e, com particular sabor, Santiago
Carrillo.
Falou-se muito da «transição
democrática em Espanha», mas não consta que se tenha falado, e é pena que o não
tenha sido, do que, nos anos de 1974 e 1975, a Espanha fascista de Franco
representou com o activo apoio que prestou às forças contra-revolucionárias em
Portugal… (pp pág. 46)
Para sugerir a tese,
implícita do Colóquio, de que também em Portugal teria sido possível a
«transição pacífica» e induzir a ideia de que a Revolução de Abril e suas
conquistas foram um «erro», de que o PCP foi o principal responsável, a mais
significativa participação foi de Santiago Carrillo…… (pp pág. 46)
(…) Os socialistas acolhem a
formação do governo de Marcelo Caetano como «um pequeno raio de luz» que «abre
um horizonte de esperança para o nosso povo». Consideram que a política
anunciada por Caetano era «a única possível», «uma saída pacífica», «uma
transição inteligente e gradual» (Portugal
Socialista, outubro de 1968). Mário Soares em entrevista em fins
Dezembro de 1968, respondendo ao seu camarada e amigo Raul Rego, respondendo à
pergunta se estava «disposto a colaborar
com o governo de Caetano», não gostou da palavra «colaborar», que «não é
das mais felizes pelas ressonâncias que desperta», mas respondeu, «sem
equívocos, que sim» (Mário Soares, escritos políticos, 2ª, ed, edição do autor,
Lisboa, 1969, p. 117).
Vinte anos passados, Soares
confirma no essencial essa ilusão embora, como sempre, procure descartar-se dos
piores aspectos da atitude «colaboracionista»
Quando Marcelo Caetano fez o
seu primeiro discurso como Presidente do Conselho, Soares, que entretanto se
separara da ADS e do Dirctório Democrata- Social e fundara a ASP, reagiu ao
discurso da forma que ele próprio conta:
«Ouvi pela rádio, esse
primeiro discurso – e gostei!». E,
embora afirme que «nunca teve grandes ilusões sobre a “Primavera caetanista”»
(Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução, ed. cit, p209), essas
ilusões são comprovadas por dados concretas que o desmente. (pp.
pág. 76)
Em 19 de abril de 1973, o
Partido Socialista foi fundado na Alemanha Federal.
Nesse mesmo ano, em
Setembro, por proposta do PS, realizou-se em Paris um encontro de delegações do
PCP e do PS, com Álvaro Cunhal, e Mário Soares. Já portanto em plena crise
final da ditadura fascista e quando a situação se encaminhava rapidamente para
uma solução insurrecional.
Mário Soares fez
nesse encontro uma surpreendente sondagem que retomava 27 anos depois os
objectivos atrás citados de Cunha Leal e Nuno Simões em 1947 e de outros
dirigentes da burguesia em várias datas.
Que
havia possibilidade de o governo permitir a actuação legal do PS, mas o
obstáculo a tal abertura era o receio que inspiravam ao governo as greves e a
imprensa e a actividade clandestina do PCP. Se o PCP cessasse essas actividades,
o PS poderia obter a autorização de acção legal, então seria o pioneiro, iria à
frente a abrir caminho à legalização de outros partidos.
Rejeitando tal sugestão foi
dito que segundo PCP amadureciam as condições para o derrubamento insurrecional
da ditadura. (pp. Pág. 78).
…O
Congresso de Aveiro, realizado de 4 a 8 de Abril
de 1973, confirmou a já então evidente fragilidade da ditadura e a força
dominante da opinião democrática. Uma Comissão Nacional de 50 membros, 150
participantes, 200 teses apresentadas, grande parte das quais elaboradas
colectivamente, uma grande manifestação de rua violentamente reprimida,
testemunharam a força, determinação e confiança do movimento democrático.
Seis meses depois, fazendo
frente à repressão (prisões, proibição de reuniões, intervenção de forças
policiais em iniciativas interrompendo ou silenciando oradores) candidatos do
movimento democrático concorreram às «eleições» para a Assembleia Nacional. A
campanha apresentou dois aspectos contraditórios. Um, a força da luta pela liberdade
com confiança na vitória próxima. Outro, as contradições e reais divergências
que, apesar de novas expressões de unidade, continuaram
a existir desde a ruptura da unidade das Comissões Democráticas Eleitorais
(CDE) por iniciativa de Mário Soares e o consequente concorrer em separado às
eleições de 1969. Inquietante prenúncio de posições divisionistas, que
vieram a verificar-se após o 25 de Abril. (pp.
Pág. 94 e 95).
As Traições de Mário Soares e do PS Pós 25 de Abril
Spínola
Papel e Intervenção
Spínola teve, na Revolução de Abril, uma intervenção singular. Abusando das altas funções, que na conjuntura do dia 25 lhe foram atribuídas, procurou, desde as primeiras horas, manter estruturas e instituições fundamentais da ditadura (incluindo a PIDE) e impedir a conquista no imediato das liberdades democráticas, nomeadamente a legalidade de partidos, o direito de manifestação e a liberdade de imprensa. Não o conseguindo, lançou-se no caminho da absolutização do poder, de conspirações e de tentativas de golpe para impor uma ditadura pessoal apoiada pelas forças armadas e por alguns partidos.
(…)
Spínola foi o principal conspirador e o principal impulsionador das conspirações.
(…)
Apoios e Cumplicidade
Spínola era um defensor declarado do poder económico dos grandes grupos monopolistas e dos[JT1] latifundiários.
(…)
Spínola contou de imediato com o apoio, declarado ou não, dos sectores políticos com responsabilidades na ditadura fascista derrubada e extinta com o 25 de Abril.
Contou com a participação activa, nas conspirações, dos fascistas vindos da ANP, da legião, da PIDE, dos governos de Salazar e Caetano, da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa.
(…)
Contou com o apoio e participação diligente e pronta do CDS e dos seus dirigentes.
(…)
Contou com a estreita colaboração, participação activa e empenhada do PPD.
(…)
E, a partir de um momento concreto ainda não totalmente esclarecido, contou com a colaboração e participação de Mário Soares e do PS. Momento ainda não totalmente esclarecido, porque, nos primeiros tempos após 25 de Abril de 1974, Spínola confiava publicamente em Sá Carneiro, menos em Mário Soares, como nos conta Hall Themido, embaixador da ditadura em Washington, reconduzido no seu cargo por Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Provisório.
(…)
A aliança (chamemos-lhe assim) Spínola-Mário Soares, embora derrotada em sucessivas e variadas tentativas de golpes, constitui uma das mais estáveis e duradouras alianças político-militares do processo contra-revolucionário.
(…)
Gratidão e Homenagem
De Mário Soares que, ao longo dos anos, se soube desresponsabilizar da cumplicidade nos golpes, que entretanto lhe abriram o caminho do poder, de Soares, quando Presidente da República, Spínola recebera, como preito de gratidão, ir para Belém com a sua gente. Almeida Bruno como Chefe da Casa Civil, Manuel Monge como ajudante- de – Campo. Sendo o primeiro, no fim do segundo mandato do Presidente, nomeado Presidente Supremo do Tribunal Militar. Como Chefe da Casa Militar a escolha de Soares não foi significativa: o general Azeredo, que, não há muito tempo (1979, como candidato a deputado do PSD na cidade do Porto, viria a confirmar-se e a distinguir-se pelas suas retumbantes confissões pró-nazis, anti-semitas e anticomunistas, pondo em causa a derrota de Hitler na Segunda Guerra Mundial e quase o absolvendo do genocídio dos judeus…sem falar do genocídio de comunistas.
(A Verdade e a Mentira na Revolução de abril. A. Cunhal. Pág. 126, 127, 128 e 129)
O Golpe Palma Carlos
(…)
Mário Soares, nas suas «confissões», embora declare que «esteve contra ele [Spínola] no chamado “Golpe Palma Carlos”» acrescentou algumas informações contraditórias e até então desconhecidas.
Diz que, acompanhado por Almeida Santo, foi chamado a casa de Palma Carlos para uma reunião, em que este propôs um plano para «realizar rapidamente» […] a eleição do Presidente da República. Para que o general Spínola tenha uma legitimidade própria e, a partir daí, a legitimidade do Governo decorra da própria legitimidade da eleição do presidente»
Acrescenta que discordou, embora isso «não pressupusesse a sua vontade de que o general Spínola caísse ou saísse de cena». «Queríamos aguentá-lo», confessa.
Desde já é de sublinhar ser comprometedor que não tenha comunicado ao Governo, de que fazia parte, o plano de Spínola exposto por Palma Carlos nessa reunião em que participou.
Igualmente comprometedor é que tenha ocultado que, antes da tentativa do golpe, ele próprio se encontrara com Spínola e também não tenha comunicado ao Governo.
Não é dele a informação. É próprio Spínola que, vinte anos depois, revela falando das suas relações com Soares.
«Nunca tive reserva em relação ao dr. Mário Soares. Foi um homem que, durante o Governo Palma Carlos, sempre me expôs [!], com a máxima lealdade, as suas opiniões e me alertou para perigos que o País estava correr com base na actuação do PC» (entrevista ao Expresso, 30-4-1994)
(A Verdade e a Mentira na Revolução de abril. A. Cunhal. Pág. 136 e 137)
O 28 de Setembro – Maioria Silenciosa

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