Acabada
a II Guerra Mundial e nos anos posteriores, a percepção na grande parte dos
países era quase unânime: A União Soviética tinha sido a protagonista na
derrota do nazismo.
Porém,
75 anos passados e ano após ano, no cinema, na imprensa e até em aulas de
classe de dezenas de países, o seu papel foi paulatinamente diminuindo, porto
em dúvida até ser praticamente reduzido a caricatura de cúmplice e espelho do
Terceiro Reich.
“ O Dia Chave Foi o Dia D”
Na
maior parte da opinião pública mundial, quando do desembarque da Normandia, em
junho de 1944, ficou a ideia de ter sido o ponto de inflexão da guerra, mesmo
que todos os elementos históricos demonstrem que, sem deixar de ser um momento
fundamental, as chaves estiveram muito antes e a quilómetros dali.
Os
Estados Unidos não só retardaram a sua entrada no conflito até já quando estava
muito avançado e ainda por cima sua entrada no principal teatro das operações,
a Europa, chegou inclusivamente mais tarde.
Quando
equilibrou a sua presença militar entre Pacifico e Europa, meados de 1942, já a
URSS levava um ano completo sofrendo uma invasão nazi que tinha chegado às
portas de Moscovo, cidade que não conseguiram conquistar depois de quatro meses
Operação Barbarosa
Em 22 de Junho de 1941 – a Alemanha nazi invadiu a União Soviética
mobilizando 3,6 milhões de soldados; 3600 tanques e 2700 aviões.
Por essa altura Leninegrado já levava 9 meses cercados e bombardeada.
Quando se realizou o desembarque na Normandia a batalha de Estalinegrado, a
primeira a infligir uma pesada derrota aos nazis, já tinha mais de um ano de
concluída.
E a Batalha de Kursk, a que envolveu a maior quantidade de tanques em
combate da história, estava a ser cumprida.
As tropas aliadas desembarcaram no norte da França quando a Wehrmacht
(força de defesa nazi) levava um ano inteiro cedendo terreno e sofrendo
centenas de milhares de baixas na frente Soviética.
A Dimensão das Vitimas
Ao contrário da sua visão sobre os povos Europeus, como escandinavos,
britânicos ou franceses, que os nazis consideravam raças não puras, mas não
inferiores à ariana, a doutrina hitleriana classificava os Eslavos ao mesmo
nível dos Judeus ou Ciganos e portanto tinham de ser exterminados, expulsos e
escravizados.
Por isso o Terceiro Reich fez maior escala de selvajaria e atrocidades
sobre a Europa Oriental do que sobre a Ocidente do Continente.
Por exemplo, só na Republica Soviética da Bielorrússia os invasores
queimaram quase 6000 aldeias e cidades e em muitas delas executaram a
totalidade dos seus habitantes. Actos assim na Europa Ocidental foram muito
menos comuns.
Esta guerra total em que, somando o ódio racial, estava a percepção
hitleriana de que o
Judaísmo e bolchevismo eram as duas faces da mesma moeda e ceifou a vida de
entre 20 e 27 milhões de cidadãos soviéticos, a maioria deles civis.

Entre um terço e metade do total de vítimas da guerra em todo o mundo foram
Soviéticos. Mas não é o foco dos Soviéticos como vítimas do nazismo que mais
incomodo causa em alguns, mas sim o papel dos Soviéticos como combatentes do
nazismo.
“ O Exercito Vermelho, valente mas criminoso”
Ao mesmo tempo que na Normandia 91 divisões aliadas ocidentais enfrentavam
65 divisões alemãs, numa frente de 400 quilómetros, no leste 560 divisões
Soviéticas combatiam contra 255 divisões alemãs ao longo de 3000 quilómetros.
À volta de 70% de todas as mortes dos soldados alemães em combate, ao longo
de toda a guerra, foram na Frente Oriental, em contraste com 15% na Frente
Ocidental.
Só nos 200 dias que durou a Batalha de Estalinegrado morreram mais de
800.000 soldados do eixo, entre alemães e seus aliados.
Num conflito tão sangrento não se pode negar o papel de nenhum país,
que em conjunto fizeram frente a Hitler, nem do reino Unido, nem da França, Nem
dos Estados Unidos, nem de nenhum outro. Por isso, é ainda mais difícil de entender como
em tantos países foi e está a ser manipulada a participação Soviética.
Os dados estão aí e como não se pode negar o papel fundamental do Exército
Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, então admitem, mas colocando dúvidas
e distanciamento:
Sim, Sim, sofreram muito, mas…
Sim, Sim, Lutaram , lutaram muito, mas…
Desde argumentos pueris, como quem derrotou os nazis em território
soviético foi o frio – como se os soldados alemães viessem de um país tropical.
Se há que falar da chegada do Exército Vermelho a Berlin, na
imprensa e na midia se faz recordando os danos civis nos combates ou
nas violações cometidas por soldados Soviéticos – mas se falarmos do
desembarque na Normandia, nenhum jornalista dos midia Ocidentais lhe ocorreu
ofuscar a glória da operação enumerando os bombardeamentos estadounidenses contra
civis franceses nas semanas anteriores e posteriores nem muito menos as
mulheres francesas violadas por tropas dos Estados Unidos nas semanas
posteriores ao desembarque.
Assim os abusos e crimes que acompanham todas as guerras se sublinham ou
omitem conforme as conveniências.
Mas apresentar uns dados e ignorar outros não só se aplica no decurso da
guerra, mas também aos eventos anteriores e posteriores.
“ Hitler
Inicia a Guerra pelo Pacto com Estaline”
Enquanto em qualquer artigo jornalístico sobre a II Guerra Mundial não pode
faltar o Pacto Molotov- Ribbentrop – 23 Agosto 1939 – que sempre é apresentado
como uma carta branca a Hitler para iniciar o conflito – o Pacto de Munique não
é mencionado por acaso e é muito raro, porque não só é mais fácil de pronunciar
e ainda por cima é anterior.
Em 1938, França e Reino Unido firmaram um Pacto com a Alemanha que permitia
a Hitler anexar 30% do território Checoslovaco. Sem oposição armada por parte de outros
europeus. Dessa forma abriu-se o apetite expansionista do Terceito Reich.
E não é que Hitler até então tenha sido um imprevisível desconhecido, não:
Um ano antes, sua aviação tinha bombardeado objectivos civis como Guernica na
Guerra Civil Espanhola.
Meses depois do Pacto de Munique, 7 de Dezembro de 1939, França e Alemanha
firmam um pacto de não agressão, que apagava o de assistência mutua que tinham
subscrito com Moscovo e Paris três anos antes para suster as ambições expansionistas de Hitler.
Em Agosto de
1939, franceses e britânicos recusaram uma proposta de
tripla aliança oferecida pela União Soviética para conter Hitler,
( Estaline ofereceu enviar um milhão de tropas para deter Hitler se
Reino Unido e França aceitassem um pacto com a URSS)
Uma semana depois, Ribbentrop e Molotov, só então firmaram um Pacto que
agora se pretende apresentar como único.
Todos os dados deste video não são parte de uma grande investigação ou arquivos ocultos.
A grande maioria deles estão disponíveis na Wikipédia, porém quase todos
estão apagados da memória colectiva em muitos países Ocidentais.
Como foi possível e porquê?
Depois do final da contenda e da divisão da Alemanha, os foram aliados
circunstanciais durante quase 5 anos, começaram a distanciar-se e logo acabaram
enfrentando-se durante o período da Guerra Fria.
A narrativa que impôs essa nova realidade geopolítica recorreu a tudo
aquilo que pode ser usado como arma propagandista contra o inimigo.E
as interpretações sobre a Segunda Guerra Mundial não foram uma excepção.
Porém esse conflito latente terminou faz três décadas. Entretanto, depois da
demolição da cortina de ferro continuaram na mesma linha. Apesar da
desintegração da URSS e a entrada de algumas das suas Repúblicas na esfera de
influência Ocidental, ou talvez devido a isso.
No cinema, na literatura,mas também nos meios de comunicação e nos
discursos politicos, por activa ou por passiva acabou impondo-se uma única
visão.
No final da confrontação entre os dois grandes blocos ideológicos não
desembocou na procura de um consenso sobre o sucedido mas numa leitura
esmagando a outra.
Hoje, em muitas conversações, diários e declarações politicas, a
equiparação do papel jogado pela URSS e o Terceiro Reich antes e durante o
conflito é quase total e praticamente uma certeza de alcance histórico,
que inclusive é apoiada pelo Parlamento Europeu.
E nesta deriva “igualadora”, alguns terminam igualando-se involuntariamente ao regime nazi.
Como por exemplo, quando em 2017 a OTAN realizou um video de homenagem aos
homens dos Bosques –um grupo armado anti-soviético, no Báltico- escondendo que
colaboraram com o regime nazi e com a máquina de extermínio.
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