quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Mitos sobre a URSS na II Guerra Mundial


Acabada a II Guerra Mundial e nos anos posteriores, a percepção na grande parte dos países era quase unânime: A União Soviética tinha sido a protagonista na derrota do nazismo.
Porém, 75 anos passados e ano após ano, no cinema, na imprensa e até em aulas de classe de dezenas de países, o seu papel foi paulatinamente diminuindo, porto em dúvida até ser praticamente reduzido a caricatura de cúmplice e espelho do Terceiro Reich.





 “ O Dia Chave Foi o Dia D”

Na maior parte da opinião pública mundial, quando do desembarque da Normandia, em junho de 1944, ficou a ideia de ter sido o ponto de inflexão da guerra, mesmo que todos os elementos históricos demonstrem que, sem deixar de ser um momento fundamental, as chaves estiveram muito antes e a quilómetros dali.

Os Estados Unidos não só retardaram a sua entrada no conflito até já quando estava muito avançado e ainda por cima sua entrada no principal teatro das operações, a Europa, chegou inclusivamente mais tarde.

Nos primeiros seis meses de participação na guerra, os Estados Unidos destinaram o triplo dos seus soldados no conflito contra o Japão no Pacifico, do que os que destinou a socorrer o Reino Unido ou a libertar a França ou a Itália.
Quando equilibrou a sua presença militar entre Pacifico e Europa, meados de 1942, já a URSS levava um ano completo sofrendo uma invasão nazi que tinha chegado às portas de Moscovo, cidade que não conseguiram conquistar depois de quatro meses

                                               Operação Barbarosa














Em 22 de Junho de 1941 – a Alemanha nazi invadiu a União Soviética mobilizando 3,6 milhões de soldados; 3600 tanques e 2700 aviões.
Por essa altura Leninegrado já levava 9 meses cercados e bombardeada. 

Quando se realizou o desembarque na Normandia a batalha de Estalinegrado, a primeira a infligir uma pesada derrota aos nazis, já tinha mais de um ano de concluída.


E a Batalha de Kursk, a que envolveu a maior quantidade de tanques em combate da história, estava a ser cumprida.




As tropas aliadas desembarcaram no norte da França quando a Wehrmacht (força de defesa nazi) levava um ano inteiro cedendo terreno e sofrendo centenas de milhares de baixas na frente Soviética.

A Dimensão das Vitimas

Ao contrário da sua visão sobre os povos Europeus, como escandinavos, britânicos ou franceses, que os nazis consideravam raças não puras, mas não inferiores à ariana, a doutrina hitleriana classificava os Eslavos ao mesmo nível dos Judeus ou Ciganos e portanto tinham de ser exterminados, expulsos e escravizados.
Por isso o Terceiro Reich fez maior escala de selvajaria e atrocidades sobre a Europa Oriental do que sobre a Ocidente do Continente.
Por exemplo, só na Republica Soviética da Bielorrússia os invasores queimaram quase 6000 aldeias e cidades e em muitas delas executaram a totalidade dos seus habitantes. Actos assim na Europa Ocidental foram muito menos comuns.
Esta guerra total em que, somando o ódio racial, estava a percepção hitleriana  de que o
Judaísmo e bolchevismo eram as duas faces da mesma moeda e ceifou a vida de entre 20 e 27 milhões de cidadãos soviéticos, a maioria deles civis.


Entre um terço e metade do total de vítimas da guerra em todo o mundo foram Soviéticos. Mas não é o foco dos Soviéticos como vítimas do nazismo que mais incomodo causa em alguns, mas sim o papel dos Soviéticos como combatentes do nazismo.



                     “ O Exercito Vermelho, valente mas criminoso”

Ao mesmo tempo que na Normandia 91 divisões aliadas ocidentais enfrentavam 65 divisões alemãs, numa frente de 400 quilómetros, no leste 560 divisões Soviéticas combatiam contra 255 divisões alemãs ao longo de 3000 quilómetros.






À volta de 70% de todas as mortes dos soldados alemães em combate, ao longo de toda a guerra, foram na Frente Oriental, em contraste com 15% na Frente Ocidental.

Só nos 200 dias que durou a Batalha de Estalinegrado morreram mais de 800.000 soldados do eixo, entre alemães e seus aliados. 

Num conflito tão sangrento não se pode negar o papel de nenhum país, que em conjunto fizeram frente a Hitler, nem do reino Unido, nem da França, Nem dos Estados Unidos, nem de nenhum outro. Por isso, é ainda mais difícil de entender como em tantos países foi e está a ser manipulada a participação Soviética.
Os dados estão aí e como não se pode negar o papel fundamental do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, então admitem, mas colocando dúvidas e distanciamento:
Sim, Sim, sofreram muito, mas…
Sim, Sim, Lutaram , lutaram muito, mas…
Desde argumentos pueris, como quem derrotou os nazis em território soviético foi o frio – como se os soldados alemães viessem de um país tropical.
Se há que falar da chegada do Exército Vermelho a Berlin, na imprensa  e na midia se faz recordando os danos civis nos combates ou nas violações cometidas por soldados Soviéticos – mas se falarmos do desembarque na Normandia, nenhum jornalista dos midia Ocidentais lhe ocorreu ofuscar a glória da operação enumerando os bombardeamentos estadounidenses contra civis franceses nas semanas anteriores e posteriores nem muito menos as mulheres francesas violadas por tropas dos Estados Unidos nas semanas posteriores ao desembarque.
Assim os abusos e crimes que acompanham todas as guerras se sublinham ou omitem conforme as conveniências.
Mas apresentar uns dados e ignorar outros não só se aplica no decurso da guerra, mas também aos eventos anteriores e posteriores.

                 “ Hitler Inicia a Guerra  pelo Pacto com Estaline”

Enquanto em qualquer artigo jornalístico sobre a II Guerra Mundial não pode faltar o Pacto Molotov- Ribbentrop – 23 Agosto 1939 – que sempre é apresentado como uma carta branca a Hitler para iniciar o conflito – o Pacto de Munique não é mencionado por acaso e é muito raro, porque não só é mais fácil de pronunciar e ainda por cima é anterior.




Em 1938, França e Reino Unido firmaram um Pacto com a Alemanha que permitia a Hitler anexar 30% do território Checoslovaco. Sem oposição armada por parte de outros europeus. Dessa forma abriu-se o apetite expansionista do Terceito Reich.
E não é que Hitler até então tenha sido um imprevisível desconhecido, não: Um ano antes, sua aviação tinha bombardeado objectivos civis como Guernica na Guerra Civil Espanhola.
Meses depois do Pacto de Munique, 7 de Dezembro de 1939, França e Alemanha firmam um pacto de não agressão, que apagava o de assistência mutua que tinham subscrito com Moscovo e Paris três anos antes para suster as ambições expansionistas de Hitler.



Em Agosto de 1939, franceses e britânicos recusaram uma proposta de tripla aliança oferecida pela União Soviética para conter Hitler, ( Estaline ofereceu enviar um milhão de tropas para deter Hitler se Reino Unido e França aceitassem um pacto com a URSS)


Uma semana depois, Ribbentrop e Molotov, só então firmaram um Pacto que agora se pretende apresentar como único.


Todos os dados deste video não são parte de uma grande investigação ou arquivos ocultos. A grande maioria deles estão disponíveis na Wikipédia, porém quase todos estão apagados da memória colectiva em muitos países Ocidentais.
Como foi possível e porquê?
Depois do final da contenda e da divisão da Alemanha, os foram aliados circunstanciais durante quase 5 anos, começaram a distanciar-se e logo acabaram enfrentando-se durante o período da Guerra Fria.
A narrativa  que impôs essa nova realidade geopolítica recorreu a tudo aquilo que pode ser usado como arma propagandista contra o inimigo.E as interpretações sobre a Segunda Guerra Mundial não foram uma excepção.
Porém esse conflito latente terminou faz três décadas. Entretanto, depois da demolição da cortina de ferro continuaram na mesma linha. Apesar da desintegração da URSS e a entrada de algumas das suas Repúblicas  na esfera de influência Ocidental, ou talvez devido a isso.
No cinema, na literatura,mas também nos meios de comunicação e nos discursos politicos, por activa ou por passiva acabou impondo-se uma única visão.
No final da confrontação entre os dois grandes blocos ideológicos não desembocou na procura de um consenso sobre o sucedido mas numa leitura esmagando a outra.
Hoje, em muitas conversações, diários e declarações politicas, a equiparação do papel jogado pela URSS e o Terceiro Reich antes e durante o conflito é quase total e praticamente uma certeza de alcance histórico, que inclusive é apoiada pelo Parlamento Europeu.
E nesta deriva  “igualadora”, alguns terminam igualando-se  involuntariamente ao regime nazi.
Como por exemplo, quando em 2017 a OTAN realizou um video de homenagem aos homens dos Bosques –um grupo armado anti-soviético, no Báltico- escondendo que colaboraram com o regime nazi e com a máquina de extermínio.






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