O COVID CONTADO AOS ADULTOS
(Oito verdades inconvenientes e uma promessa)
Por Pedro Girão*
1. O cansaço invade progressivamente os nossos gestos, as nossas palavras, as nossas vidas. Passaram apenas 7 meses desde o confinamento de Março, mas parece mais tempo: há nele um tique-taque com promessas de morte. O ritmo diário das notícias contraditórias, das declarações pseudo-cientificas, dos casos e das mortes a caírem a conta-gotas. As promessas falsas de tragédia anunciada para a próxima semana, e para a seguinte, e para a seguinte. Os comentadores, os políticos, o desnorte, o ridículo, o nojo, o desapontamento, a mentira.
2. O extremismo instalou-se no espaço público, nas redes sociais, nos debates, no ruído intolerável dos “media”. Nada pode ser dito sem ser rotulado. Qualquer tentativa de equilíbrio é atacada por uns e por outros. Os ataques pessoais são a regra, o insulto normaliza-se. Fazem-se juízos morais disfarçados de ciência. O silêncio é, cada vez mais, a alternativa. Eu estou bem com a minha vida, com a minha família, com o meu trabalho. Sigo com a normalidade possível (sou um privilegiado). Se não me calo, não é por mim, mas pelos que vejo sofrer e morrer sem ter voz.
3. Os testes multiplicam-se até ao absurdo. Conheço casos de gente fechada em casa há mais de um mês, sempre assintomática mas sempre “positiva”, e por isso prisioneira. O facto de que um teste PCR signifique a existência de uma doença, sem sintomas, é do domínio da estupidez clínica mais profunda - e faz-me ter vergonha que haja tantos médicos que o apregoem. O peso que isso impõe ao sistema de saúde sufoca-o e impede-o de tratar quem precisa.
4. Leio as notícias dos jornais de Janeiro de 2019 com pasmo: nessa altura, a mesma Dra. Graça Freitas desdobrava-se em declarações por causa da gripe, dizendo que era normal a morte de quase 500 pessoas num dia, porque eram “idosos com problemas de saúde”, que as 3 mil mortes desse Inverno pela gripe eram normais, que quase 2 milhões de portugueses tinham sido vacinados atempadamente. Em Janeiro de 2019, perante esses milhares de mortos de que já ninguém tem memória, a DGS recomendava tranquilamente “a higiene das mãos, tossir ou espirrar para um lenço descartável ou para o antebraço e, no caso de estar infectado, o distanciamento social”. Surrealmente familiar - mas nessa altura não era notícia de primeira página.
5. A vacina é hoje uma miragem longínqua e será provavelmente irrelevante quando surgir. E irrelevante porque nunca terá o carácter messiânico que as pessoas erradamente lhe atribuem. Basta atentar nessas declarações da DGS de Janeiro de 2019, confirmando o que todos sabemos (mas muitos não pensam nisso): uma vacina que é religiosamente tomada e anualmente recomendada deixa morrer milhares de pessoas pela doença da qual era suposto proteger, e sem qualquer problema, sem qualquer estranheza. Ajuda, diminui, mas não resolve. As mortes, aos milhares, são pacíficas e mesmo naturais - porque não têm conferência de imprensa diária.
6. As pessoas cumprem as regras de forma díspar, cada um conforme o seu próprio entendimento. Os países têm regras diferentes, cada um as suas, cada um por si, e alteram-nas constantemente. Uns estão agora melhor, outros pior, umas regiões sobem, outras descem. Há surtos inexplicáveis. Os números e os gráficos são ininteligíveis. Não há um padrão, não há lógica, não há certezas, não há evidências, não há respostas. Mas não faltam os donos da verdade. Os casos isolados são agitados como provas definitivas. A ciência é improvável e especulativa.
7. Na Saúde, muita gente decidiu trocar o certo pelo duvidoso. A maioria dos responsáveis, a começar pela ministra e continuando por todos os degraus da hierarquia, resolveram desistir do certo (as pessoas que estão e ficam doentes, como sempre aconteceu), e apostar no duvidoso (prepararem-se para os milhares que irão eventualmente ser afectados pelo Covid). Com essa opção, provocaram e provocam mortes certas, a troco de evitarem mortes duvidosas - porque ninguém sabe se virão a acontecer. Nunca terão a minha concordância nem o meu perdão.
8. O mais importante são os outros, os que estão ao nosso lado, à nossa volta. É da solidariedade que nascem os únicos frutos que realmente importam em tempos de crise. Não é o discurso do pânico nem as ameaças de repressão que resultarão. Não são as regras burocráticas, que afastam sobretudo os mais débeis (na Saúde também, sim), que trarão algo mais do que sofrimento e morte. O mais importante é cumprir as regras que nos protegem e protegem os outros, conscientemente, sem pânico, e viver, com a certeza tranquila de que, por muito que se faça, a vida nunca está inteiramente nas nossas mãos.
A promessa
Prometo que a esperança e o optimismo realista são o único caminho, e que mais de 99% das pessoas abaixo dos 70 anos sobreviverão ao Covid com a mesma naturalidade com que respiram e vivem e sorriem e amam. É deles (é nossa) a responsabilidade de erguer a cabeça e de olhar o futuro sem medo, bem como a sensibilidade e a humanidade de proteger os outros, de não deixar que o sistema desista dos outros. Um dia tudo voltará ao normal - mas eu não esquecerei as cicatrizes de ter visto tanta gente cobarde, a agitar os fantasmas do seu próprio medo.
Desejo a todos votos de boa saúde, bem como a paciência e o bom senso necessários para enfrentar todas as vozes que profetizam erradamente um futuro sombrio.
*Pedro Girão, anestesiologista

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