sexta-feira, 30 de outubro de 2020

A agenda global de Bill Gates e como podemos resistir à sua guerra contra a vida


..."Em março de 2015, Bill Gates mostrou uma imagem de uma espécie viral de gripe, durante uma TED Talk [Conversas sobre Tecnologia, Entretenimento e Planeamento, realizadas por uma fundação dos EUA], e disse à audiência que era assim que seria a maior catástrofe do nosso tempo. A verdadeira ameaça à vida, disse ele, “não são os mísseis, mas os micróbios”. Quando, cinco anos depois, a pandemia do coronavírus varreu a Terra como um tsunami, ele reviveu a linguagem de guerra, descrevendo a pandemia como “uma guerra mundial”. "...




Vandana Shiva *

Ao olhar para o futuro, num mundo de Gates e dos Barões da Tecnologia, vejo uma humanidade que está ainda mais polarizada, com grande número de pessoas “descartáveis”, que não têm lugar no novo Império. Aqueles que estão incluídos no novo Império serão pouco mais do que escravos digitais.

 

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Em março de 2015, Bill Gates mostrou uma imagem de uma espécie viral de gripe, durante uma TED Talk [Conversas sobre Tecnologia, Entretenimento e Planeamento, realizadas por uma fundação dos EUA], e disse à audiência que era assim que seria a maior catástrofe do nosso tempo. A verdadeira ameaça à vida, disse ele, “não são os mísseis, mas os micróbios”. Quando, cinco anos depois, a pandemia do coronavírus varreu a Terra como um tsunami, ele reviveu a linguagem de guerra, descrevendo a pandemia como “uma guerra mundial”.

“A pandemia do coronavírus coloca toda a humanidade contra o vírus”, disse ele.

Na verdade, a pandemia não é uma guerra. A pandemia é uma consequência da guerra. Uma guerra contra a vida. A mente mecânica ligada à máquina de extração de dinheiro criou a ilusão dos humanos como separados da natureza, e a natureza como matéria-prima morta e inerte a ser explorada. Mas, na verdade, fazemos parte do bioma. E somos parte do viroma. O bioma e o viroma somos nós. Quando travamos uma guerra contra a biodiversidade das nossas florestas e das nossas fazendas e nos nossos nervos, travamos uma guerra contra nós mesmos.

A emergência sanitária do coronavírus é inseparável da emergência sanitária da extinção, da emergência sanitária da perda de biodiversidade e da emergência sanitária da crise climática. Todas essas emergências estão enraizadas numa visão mecanicista, militarista e antropocêntrica do mundo, que considera os humanos separados de – e superiores a – outros seres. Seres que podemos possuir, manipular e controlar. Todas essas emergências estão enraizadas num modelo económico baseado na ilusão de um crescimento e uma ganância ilimitados, que violam as fronteiras planetárias e destroem a integridade dos ecossistemas e das espécies individuais.

Novas doenças surgem porque uma agricultura globalizada, industrializada e ineficiente invade habitats, destrói ecossistemas e manipula animais, plantas e outros organismos, sem respeitar a sua integridade ou a sua saúde. Estamos ligados em todo o mundo através da disseminação de doenças como o coronavírus, porque invadimos as casas de outras espécies, manipulamos plantas e animais para obter gananciosos lucros comerciais e cultivamos monoculturas. À medida que cortamos florestas, transformamos fazendas em monoculturas industriais que produzem produtos tóxicos e nutricionalmente vazios, à medida que as nossas dietas se degradam por meio do processamento industrial, com produtos químicos sintéticos e engenharia genética, e à medida que perpetuamos a ilusão de que a terra e a vida são matérias-primas a serem exploradas para obter lucros, estamos de facto a conetarmo-nos. Mas em vez de nos conetarmos numa continuidade saudável, protegendo a biodiversidade, a integridade e a auto-organização de todos os seres vivos, incluindo os humanos, estamos a conetarmo-nos através de doenças.

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De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, “1.600 milhões de trabalhadores da economia informal (representando os mais vulneráveis ​​no mercado de trabalho), de um total mundial de 2.000 milhões, e uma força de trabalho global de 3.300 milhões sofreram danos massivos na sua capacidade de ganhar a vida. Isto deve-se a medidas de confinamento e/ou porque trabalham nos setores mais afetados”. De acordo com o Programa Alimentar Mundial, 250 milhões de pessoas serão empurradas para a fome e 300.000 poderão morrer todos os dias. Estas também são pandemias que estão a matar pessoas. Matar não pode ser uma receita para salvar vidas.


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