sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Jorge Torgal: “O Governo devia ter coragem forte para fazer um plano de Inverno não centrado na covid”

 

Entrevista

Jorge Torgal: “O Governo devia ter coragem forte para fazer um plano de Inverno não centrado na covid”

Jorge Torgal, médico especialista em saúde pública, frisa que “o mais preocupante são as outras patologias sem resposta” e considera que Marcelo foi “extemporâneo” e “exagerado”.

Se em Março se tivessem feito 30 mil testes por dia como agora (faziam-se 800), não estávamos a apanhar tantos casos como agora estamos a apanhar?

 
Não, não tínhamos. A epidemia estava a chegar a Portugal e estava a difundir-se. A razão de se fazerem testes hoje é completamente diferente da daquela altura. Hoje, fazem-se testes de rastreio a populações que não têm sintomas, ou porque tiveram contactos. Em 10 de Abril, fizeram-se 10.121 testes e houve 1516 positivos, o que dá uma taxa de positividade de 15%. No dia 14 de Outubro, fizeram-se 30.366 testes e 2072 positivos, o que dá uma taxa de 6,8%.

Isso significa que a situação está a melhorar?

 
Revela várias linhas de abordagem. Primeiro, que a epidemia está muito mais difundida do que no início. Segundo, que hoje sabemos que a larga maioria das pessoas que estão infectadas não tem doença. A maior parte dos testes é a pessoas assintomáticas. Noventa por cento das pessoas infectadas não tem doença. Mostra que a epidemia é preocupante para um certo segmento da população. 

Os mais idosos ou com mais problemas de saúde?

 
Todos os dados mostram que são os mais idosos a serem afectados com gravidade. São os que sofrem mais as consequências da epidemia, mas será a covid muito grave? A covid é muito grave na medida em que vai fazer com que aqueles que têm outras patologias venham a falecer por via deste conjunto. Os outros têm doença pouco grave e mortalidade muito baixa. Para mim, a situação está muito melhor hoje do que estava no início da epidemia, olhando numa perspectiva global. Na altura, não estávamos bem preparados do ponto de vista tecnológico. Ainda se seguia uma via terapêutica que agora se modificou e que nessa altura exigia mais meios técnicos. Hoje, sabe-se que não é ligar o doente ao ventilador como acontecia. Hoje sabemos melhor como prevenir a infecção e defender as pessoas. Sabemos melhor como a infecção se transmite na comunidade. Há todo um conjunto de noções que nos levam a ver que a situação em Portugal é boa, diria mesmo muito boa, se olharmos para os outros países da Europa com que nos comparamos por outras razões. Portugal tem uma mortalidade de 217 casos por milhão de habitantes, a Bélgica tem 904 casos, a Holanda tem 397, a Suíça tem 247, o Reino Unido 647, cinco vezes mais do que em Portugal. Quando digo que a situação em Portugal é boa e que há razão para preocupação, mas não há razão para alarmes, no sentido em que estamos numa situação difícil e que vai acontecer algo terrível...

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