Não há coincidências!
A Lisboa oitocentista e nos concelhos periféricos, um em cada três recém-nascidos era abandonado de forma anónima e legal nas rodas dos expostos, o principal mecanismo de combate ao infanticídio e ao aborto.
A abertura na janela do edifício comportava um cilindro de madeira oco, que girava sobre um eixo. No interior da roda, a qualquer hora do dia, alguém poderia deixar um recém-nascido sem se identificar. Bastava tocar à campainha e do lado de dentro do edifício, uma funcionária, mais conhecida como rodeira, girava o cilindro e recolhia a criança para lhes prestar os primeiros cuidados de saúde.
Era desta forma silenciosa e prosaica que funcionavam as rodas dos expostos ou enjeitados. Como analisa neste artigo (2017) Joana Vieira Paulino, investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC) da NOVA FCSH, esta prática destinava-se a combater o infanticídio e o aborto. Em 1783, Pina Manique, o então chefe da Intendência Geral da Polícia, decretara que todos os centros administrativos de Portugal deveriam contar com uma roda, aliás, à semelhança de vários países da Europa Católica do sul, onde o abandono infantil anónimo também era uma prática legal.
Este decreto intensificou prática, o que originou a mortalidade das crianças abandonadas. Os custos administrativos faziam com que a Santa Casa enfrentasse uma constante falta de amas, prejudicando a qualidade de vida dos expostos. Um relatório de 1836, citado pela investigadora, aponta que chegavam a dormir até cinco crianças na mesma cama, com problemas de saúde de vários tipos. No mesmo documento constava que, devido ao atraso de salários, a Real Casa dos Expostos de Lisboa chegara a contar com 31 amas para cuidar de 152 expostos. (a)
Na minha família, um trisavô da parte da minha mãe foi abandonado na roda dos expostos de Santarém, nunca soube quem era o pai nem a mãe. Nasceu em 1844 e faleceu em 1906 com 62 anos.
As condições de vida miseráveis levavam as pessoas a abandonarem os filhos colocando-os à porta das misericórdias , anonimamente na roda, de forma a terem alguém que lhes proporcionasse alimento, roupa, higiene, um lar onde tivessem abrigo - PURA ILUSÂO - era um negócio altamente lucrativo para estas instituições que recebiam dinheiros das Câmaras Municipais e entregavam as crianças a amas a troco de uns míseros tostões, muitas acabavam por morrer o seio dessas "famílias de acolhimento".
Parece que temos de volta a Roda dos Expostos em versão moderna.
Decisão polêmica: Bruxelas instala “caixa de correio” para bebês indesejados
A iniciativa teria a intenção de evitar que as crianças sejam abandonadas na rua ou em latas de lixo. Os pais podem reconsiderar a decisão em dois meses.
Bruxelas, capital da Bélgica, anunciou a operação de sua primeira caixa de correio para abandonar bebês anonimamente. A iniciativa propõe que os pais que não podem cuidar do filho o deixem nesta escotilha para que os órgãos competentes tomem conta da criança.
O anúncio foi feito pela organização não governamental Corvia, depois de iniciarem uma disputa judicial desde 2017 para aceitar o uso desta caixa de correio no subúrbio de Evere. Na época, a proposta havia sido negada pelo prefeito da cidade, mas agora, 3 anos depois, o conselho estadual anulou a decisão do ex-prefeito. (b)
(a)- Ver aqui:
(b)- E aqui:



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