Portugal em ano de superavit (1943)
1- A Sopa dos Pobres em Cova e Gala - Figueira da Foz (1943)
"Estávamos em 1943 em plena grande guerra.
A Europa cansada e moribunda em consequência de ódios antigos, ânsias de hegemonia e poder.
Neste cantinho imperava o desemprego, o medo, o racionamento, a miséria e a fome.
Povo cabisbaixo, vencido e resignado, entregue a um destino sem sentido e esventrado na sua dignidade humana.
Valia o altruísmo de alguns a quem doía a visão da fome e da miséria.
Estávamos em 1943 em plena Cova num local que alguns ainda reconhecerão.
Hoje, outros, infelizmente, reconhecerão o mesmo olhar, a mesma resignação que não se devia repetir." Por João Pita (20.06.12) In: https://cova-gala.blogs.sapo.pt/67093.html
2 - Que é feito da nossa memória
"Como escrevi aqui, “eu estive lá”. Eu vivi lá, no antes do 25 de Abril de 1974.
Eu tinha 20 anos quando se deu o 25 de Abril.
Agora, anda por aí gente a fingir que antes do 25 de 1974 aquilo não era mau.
Eu estive lá, eu vivi lá e posso assegurar que era mesmo muito mau.
Na Cova e Gala, era o tempo do pé descalço, da fome envergonhada ou às claras.
Era o tempo em que colegas da primária iam para a escola a correr pelo areal, para tentar aquecer os pés descalços e sem nada no estômago.
O empobrecimento dos dias que passam, é um murro que incomoda e uma má memória, para quem, como eu, por exemplo, é do tempo da miséria na Cova e Gala – miséria mesmo, com piolhos e tudo.
Estou a referir-me à vida nas décadas de 50 e 60 do século passado, numa pequena aldeia de 2.500 habitantes, localizada à beira do Atlântico, perto da importante cidade balnear da Figueira da Foz, onde se vivia pior que nas localidades vizinhas.
A ausência de esgotos, a corrente eléctrica considerada uma excepção, a miséria material, as condições de trabalho desumanas, a deterioração das células familiares, a má nutrição era, lamentavelmente, a situação de toda uma região economicamente desfavorecida.
Era o tempo em que a Cova era um lugar isolado, quase que perdido, onde ninguém se deslocava.
Eu estive lá.
E continuo a ter memória."
Por António Agostinho
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Uns anos depois da foto acima, no final dos anos 50 e anos 60, que é onde consigo recuar nas minhas memórias vividas, a Cova e Gala não era pacata, era obediente.
Como são obedientes todos os povos que vivem em ditadura.
E quem não o era – sim, por aqui houve sempre “marginais”... - foi vigiado, perseguido e preso.
Os covagalenses eram trabalhadores. Mas, não só: também foram escravos.
Basta conhecer o que foi a sua vida no mar, como, por exemplo, na "faina maior"...
Os covagalenese, em geral, não conseguiam poupar.
Por uma razão simples.
Vivíamos na miséria. Morríamos cedo, comíamos mal, não tínhamos direito à saúde nem à educação. Na sua esmagadora maioria éramos analfabetos, doentes e subdesenvolvidos.
Como diziam as senhoritas da elite figueirense da altura - "credo que porcos, feios e maus que eles são"!..
Por isso, quem sabe, porque viveu lá, como era a vida da esmagadora maioria dos covagaleneses, do tempo de Salazar e Caetano, não tem saudades."
3 - "Grande parte dos produtos alimentares produzidos em Portugal eram exportados para os países envolvidos no conflito. Muitos portugueses viveram um cenário de escassez de produtos e fome
Muitos idosos recordam-se de irem em miúdos de madrugada para as filas com as senhas de racionamento e, por vezes, voltavam de mãos a abanar para casa porque os produtos não chegavam para todos
Como as pessoas tinham muitos filhos e não tinham o que lhes dar de comer, recorriam à Sopa dos Pobres, que forneciam sopa e pão às famílias mais necessitadas de acordo com o n.º do agregado familiar (comprovado mediante a apresentação de um cartão).
Muitas vezes eram as próprias crianças que a mando dos pais iam buscar a sopa ao meio-dia, carregando uma lata (antigas latas de 5 kg de atum das mercearias que eram reutilizadas) que servia de panela.
A sopa era feita com massa, feijão ou grão e com “peles” ou apenas “cheiro de carne” como nos relataram alguns idosos. Mas “como a fome é o melhor tempero”, foi um auxílio importante à sobrevivência dos mais pobres.
A sopa dos pobres ficou popularmente conhecida como “Sopa do Sidónio” porque fora Sidónio Pais, Presidente da República no período pós Iª Guerra Mundial, que fundou a célebre sopa aos mais pobres. Esta medida foi tão popular que as pessoas ainda no Estado Novo de Salazar, se referiam “à Sopa do Sidónio”.
Alguns dos idosos que entrevistámos referiam que ás vezes a fome era tanta que, no caminho até casa, acabavam por comer o bocado de pão que era dado para a família. (...)
No período do estado Novo, os mendigos não andavam nas ruas porque era proibido mendigar nas ruas e a polícia levavam-nos para a Mitra, uma Instituição para os indigentes (pedintes)." In: https://luzdequeijas.blogs.sapo.pt/2235344.html


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