terça-feira, 27 de novembro de 2018

"O Diário Acusa"


Destruir «O Diário» tem sido um objectivo de sucessivos governos reaccionários. Sem se aperceberem disso, eles contribuíram, pela própria irracionalidade do ataque, para projectar «O Diário» como exemplo de coerência, de fidelidade aos princípios, de firmeza no combate pelas liberdades e pela defesa do regime democrático. «O Diário» não se submete, não se deixa intimidar.
Noticias, comentários, artigos sobre o recorde mundial de processos impostos a «O Diário», têm sido publicados em muitos países. O Conjunto coloca no banco dos réus da consciência social o sistema de Poder responsável pela infindável série de julgamentos, A fúria persecutória volta-se contra os seus autores; engrandece o jornal que dela é vítima, em vez de o diminuir.
A nossa posição moral é inatacável. Cada novo processo produz m efeito oposto ao visado: reforça a confiança dos leitores. Os trabalhadores portugueses sabem que a ofensiva contra o seu jornal nos tribunais se insere na exacerbada luta de classes que caracteriza o fluir da Revolução iniciada a 25 ed Abril de 1974. A história confirmará que «O Diário» soube cumprir nestes anos difíceis a sua função social, honrado o lema « verdade a que temos direito».

Pág. 22 (Abril de 1976)
“Estávamos a poucos dias das eleições para a Assembleia da República. A Revolução em Portugal fora contida no seu avanço. A direita começava afalar alto, encorajada pelo Partido Socialista. Mas as grandes conquistas de Abril estava ainda praticamente intactas.”
Pág. 23
“ O primeiro Julgamento”
“ No dia 1 de Agosto de 1978, quando a sentença foi lida, atingia dezoito o número dos réus: quatro pertenciam à redacção de o diário e os restantes erma membros da ex-comissão de trabalhadores da Petrosul (Petrogal).
Apensações sucessivas imprimiam àquelas audiências características especiais. Estavam em julgamento nada menos de dezassete processos. Doze deles, instaurados pelo Ministério Público a pedido da mesma pessoa – o juiz Hugo Pereira do Amaral Barata -, acabaram por chamar mais à atenção do que o processo principal.
O juiz Barata é uma personagem incomum, a um tempo picaresca e carregada contra tudo o que na vida traduz ou lembra progresso, mudança, amor, desafio ao futuro.
Dele se contam estórias fantásticas. Uma foi-me repetida por pessoas diferentes nos corredores do tribunal. Barata era juiz numa vila ribatejana. Seguia num comboio noturno em carruagem quase deserta. Um casal beijava-se num banco. Desceram na mesma estação. Barata, puritano, chamou um polícia de serviço, identificou-se como juiz, e ordenou que o par amoroso fosse detido por atentado em flagrante contra o pudor. Eram marido e mulher…
“…Barata atravessara os últimos anos do fascismo como juiz medíocre, desconhecido. Acreditou ter uma oportunidade quando o refluxo revolucionário principio. Pulsava nele uma vocação persecutória.”
-Processos odiosos contra «O Diário»;
- Absolvição de elogios a pides;
- Um juiz do fascismo:
Reforma Agrária
Pag 35
“ A Reforma Agrária foi o assunto que mais vezes levou o diário a tribunal.
Houve épocas, primeiro com Ferreira do Amaral e depois com João Goulão, em que corriam simultaneamente por vários juízos da Boa Hora processos em que o nosso jornal era acusado de caluniar o MAP (Ministério da Agricultura e Pescas) e difamar os responsáveis do governo pela violência.
Essas acções judiciais foram suscitadas por textos muito diferentes: manchetes, artigos, noticias, editoriais, registos. …O réu não citado mas omnipresente era, porém, a Reforma Agrária. A mais bela conquista da Revolução Portuguesa emergiu em todos os processos como inimigo invisível, odiado pelos acusadores….”
Esta sanha persecutória resultava de uma situação muito incómoda para o Poder. A própria lei que Mário Soares impusera em 1977 – camada a lei Barreto –para golpear a Reforma Agrária tornou-se, com o tempo, um estorvo para a direita. O Objectivo era destruir pela raiz as UCPs/Cooperativas. Os vários governos acuavam ilegalmente sem se preocuparem já com a fachada dos seus actos.”…
…Durante largos períodos, o diário foi o único jornal de grande informação que cobriu regularmente a bárbara ofensiva contra a Reforma Agrária. Insultos, ameaças, máquinas fotográficas partidas, filmes apreendidos, ficaram a assinalar a resposta de aparelho repressivo à presença das equipas de reportagem de o diário nos cenários onde o MAP e os agrários, agindo com cobertura de forças do GNR, cometeram incontáveis crimes. “… A engrenagem montada pelo MAP durante o I Governo Soares, e aperfeiçoada posteriormente, tinha uma práxis tão própria que continuou a distribuir «reservas» durante o governo democrático de Lourdes Pintassilgo, período em que foram assassinados em Montemor-o-Novo dois trabalhadores do Escoural (Caravela e Casquinha) quando, juntamente com muitos outros, evitavam o roubo de uma vacada.”
  «O Diário» denunciou em 1979,- governo Mota Pinto, a entrega de reservas a todos, até pessoas de que nunca se tinha ouvido falar nos concelhos onde receberam reservas.
- O GNR prestava todo o apoio aos latifundiários. Houve até, elementos do GNR que simularam uma cena de fuzilamento de trabalhadores.
Pág.46
-“ José Concha um homem de mais de 60 anos, que bem conhecera os tempos dos senhores latifundiários e que na UCP de Valongo trabalhava pela construção da vida nova tornada possível pelo 25 de Abril, falou sem papas na língua. Para caracterizar bem as cumplicidades existentes entre o Poder e os grandes agrários, desceu ao pormenor. Ele não conhecia o significado da palavra horda; nunca ouvira antes falar dos vândalos. Mas, ao ser interrogado pela defesa, pela acusação, pelo Ministério Público e pelo juiz, disse coisas muito importantes. Confirmou, na sua linguajem, o que havíamos escrito sobre a «onda de barbárie levada ao Alentejo» pelo governo Sá Carneiro.
Olhando p juiz de frente, recordou, por exemplo, a cena em que um soldado do GNR, durante a violenta entrega de «reservas» descrita pelo diário, intimara «uma moça a mostra-lhe a cor das cuecas, convidou-a a ir deitar-se com ele debaixo de um chaparro e fazer ali o serviço».”








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