Goçalvismo

Poucos episódios da nossa história recente terão sido mais definidores do país em que vivemos do que a queda do V Governo Provisório e a ascensão do VI, o fim do chamado gonçalvismo e a chegada ao poder do Pinheiro de Azevedo. Numa altura em que chegava ao auge o processo das nacionalizações, das empresas intervencionadas, da expropriação das terras e criação de UCPs no Alentejo, da criação de comissões de gestão operária, de comissões de moradores nos bairros, de edificação de um frágil e incipiente aparelho de poder popular com o apoio do Estado e da tropa (com tudo o que isso tinha de necessariamente efémero e exposto à liquidação sem particular resistência, como depois se viu), a guerra aberta dos partidos da ordem burguesa ao poder gonçalvista era total, e quem a encabeçava era o esforço concentrado do PS e do PPD. O PCP, depois de por uns tempos ter namorado a hipótese de ser a base de massas e "a muralha de aço" do projecto gonçalvista, acabou em fins de Agosto de 1975 a deliberar que a linha governamental era obreirista ao alienar os socialistas naquela etapa histórica, e abriu caminho a que se pusesse no poder Pinheiro de Azevedo, e um Governo que guinasse definitivamente o curso dos acontecimentos para a instituição de uma democracia burguesa que arredasse o "anarcopopulismo".
O PCP integrou o VI Governo, assentando a sua participação nele numa tese esquematicamente leninista de que é possível aliar a participação nas instituições à luta de massas e articular ambas de uma forma que permita o avanço do processo revolucionário. Chamo-lhe esquemática porque este princípio geral embateu, naquela situação concreta, com a capacidade do PS de transformar essa estratégia numa prova da má vontade do PCP. "O PCP entrou para o VI Governo com reserva, com um pé no Governo e todo o resto do corpo fora do Governo, fazendo uma enorme mobilização nacional para o derrubar. Isto leva o país em linha recta para uma confrontação armada, para uma guerra civil" chorava o Soares no debate de 7 de Novembro de 1975. Chorava-o perante um Cunhal que já tinha subido a palanques pedir que não se fizesse greve pela greve. Chorava-o perante um Cunhal inventor da tese de que o avanço da revolução se fazia de forma "serena e firme". Chorava-o perante um Cunhal que achava as nacionalizações uma necessidade para manter a economia nacional a girar, e não "uma opção ideológica". Poucas coisas eram mais absurdas que imputar ao PCP a intenção de desencadear uma confrontação armada nos finais de 1975, e o Soares tinha juízo que chegue para saber isso. Mas isso servia-lhe para duas coisas: acumular créditos de defensor do mundo livre perante os Governos ocidentais, e obrigar o PCP a seguir a lógica da moderação para dar provas de boa vontade aos socialistas, os aliados "indispensáveis" na tal "etapa histórica" em que aparentemente se estava.
O efeito foi o pretendido: a moderação do PCP permitiu o restabelecimento golpista da ordem no dia 25 desse mês, o desmantelamento do SAAL, da reforma agrária, da gestão operária, uma série de revisões constitucionais, e a permanente opção por parte da esquerda, na hora em que foi chamada a dar mostras da sua fidelidade e recta intenção para com o regime, pela aceitação do mesmo. O BE, que de todo modo nasce de partidos onde a adesão a esta lógica era total, já teve dezenas de oportunidades, da miserável entrevista do Louçã a dizer "eu não conheço" os tipos do GAIA que tinham feito acção directa contra um campo de milho transgénico, à Catarina Martins "apreensiva" com a greve da Auto-Europa, de mostrar que canta afinado nessa questão.
A geringonça significou o paroxismo desta lógica. A esquerda não só não contraria o regime como, a troco de apanhar as migalhas que o regime deixe cair da mesa, aceita tudo, e já chegou ao ponto em que aprova tudo. O Governo quer salvar o Banif? Temos de aprovar, se não vem a PaF (ou seja, as migalhas acabam). O Governo deu 1500 milhões à EDP? Tem de se aprovar, é a contrapartida para manuais escolares de borla. O Governo bate nos estivadores em greve? São contradições, pá, tem de ser, mas olha que o camarada deputado esteve lá no piquete. A armadilha foi excelentemente montada e a esquerda cai nela hoje como há 43 anos: ou estás quietinho e fazes "o jogo democrático", ou és um inimigo do regime. Por que motivo é tão importante não ser considerado um inimigo do regime não me perguntem a mim.
Quando agressões a piquetes de greve não chegam para o Governo cair, chega o quê? Quando mentiras deliberadas sobre o reposicionamento dos professores não são razão para derrubar o Governo, o que é? Quando o ministro das Finanças é um Ronaldo do Eurogrupo e a CGD é administrada por um ministro da PaF (ya, essa PaF), com que cara consegue esta gente continuar a fazer de conta que quando corre bem é a geringonça, quando corre mal foi o PS, a luta continua, camarada? Com a cara de pau da impunidade garantida em congressos onde os sufragam mais de 90% dos militantes. Não há nada, para aqueles de nós que rejeitam o síndrome do VI Governo, a esperar deste pessoal.
#PensamentoVilela
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