O assassinato do antigo dirigente do MST Márcio Matos Oliveira, para mais cometido com o requinte de malvadez de ser feito diante do seu filho de seis anos, é mais um capítulo a juntar à longa senda de barbaridades que o agronegócio e o latifúndio já levaram a efeito no sentido de tentar dobrar a espinha do movimento camponês no Brasil. Já em Julho do ano passado Ademir Souza Pereira foi assassinado pelos jagunços dos agrários quando encabeçava a Liga dos Camponeses Pobres em luta pela reforma agrária, e esse era o décimo-primeiro assassinato de um activista dos trabalhadores rurais nesse ano. A guerra (e a palavra guerra não tem aqui nenhum sentido retórico: trata-se de uma guerra em sentido pleno, com mortos, feridos, humilhados, e todo o cortejo de horrores de qualquer conflito militar convencional) de classes que o latifúndio vibra sobre os camponeses em luta, sobre posseiros e meeiros, sobre os assalariados agrícolas, sobre os assentamentos, sobre os dirigentes sindicais e os activistas, tornam todas as considerações da esquerda poético-fofa relativamente à invalidade do recurso à violência um abjecto e ridículo discurso de merda. Na verdade, e aliás, esta violência, de que ela não tem a ideia mais vaga - que afinal não há chique nenhum em falar de camponeses sujos de pó em luta pela terra com o facão de cortar cana à cinta, quando se pode discutir se servir sushi nas cantinas universitárias é apropriação cultural -, é o que mais revelador pode haver no que concerne à compreensão que a burguesia tem de quem são os seus inimigos, históricos e de morte. Perante os trabalhadores que reclamam os meios de produção que são deles, porque eles sim os trabalham, e eles sim geram os frutos da produção, não há discussão académica, não há garantias constitucionais, não há Estado de direito. Há jagunços armados, bastões de polícia, prisões
e tribunais, tropa se se precisar. Todo o idealismo subjacente aos delírios reformistas é estilhaçado a golpes de martelo, a tiros de espingarda, no caso vertente com crianças a assistir e tudo. Sim, o capitalismo é um sistema bárbaro e impiedoso, não é um conjunto de senhores mal intencionados que vamos derrotar com bons argumentos e melhores estratégias de comunicação. Haverá gente cujo coraçãozinho repleto de amor e sentimentos meiguinhos tremerá de choque perante esta novidade, e isso é normal. Ter crescido na bolha acolchoada de um primeiromundismo simpático, quantas vezes sem ter de fazer contas ao ordenado e a julgar que o planeta inteiro é composto por gente como os seus amiguinhos sôdótores bem postos na vida e sem carências de maior, torna extremamente complicado perceber o que é a vida de um camponês sem terra lá longe, na América Latina. É também por isso desculpável, porque fruto de uma falta de mundo assombrosa, que essa mesma gente trate a violência política como o objecto das suas píveas ético-filosóficas, por não perceber que ela é o quotidiano da gente que lhe permite tomar café a 0,60€.
e tribunais, tropa se se precisar. Todo o idealismo subjacente aos delírios reformistas é estilhaçado a golpes de martelo, a tiros de espingarda, no caso vertente com crianças a assistir e tudo. Sim, o capitalismo é um sistema bárbaro e impiedoso, não é um conjunto de senhores mal intencionados que vamos derrotar com bons argumentos e melhores estratégias de comunicação. Haverá gente cujo coraçãozinho repleto de amor e sentimentos meiguinhos tremerá de choque perante esta novidade, e isso é normal. Ter crescido na bolha acolchoada de um primeiromundismo simpático, quantas vezes sem ter de fazer contas ao ordenado e a julgar que o planeta inteiro é composto por gente como os seus amiguinhos sôdótores bem postos na vida e sem carências de maior, torna extremamente complicado perceber o que é a vida de um camponês sem terra lá longe, na América Latina. É também por isso desculpável, porque fruto de uma falta de mundo assombrosa, que essa mesma gente trate a violência política como o objecto das suas píveas ético-filosóficas, por não perceber que ela é o quotidiano da gente que lhe permite tomar café a 0,60€.
Calorosamente, aos meus irmãos de classe que no Brasil e no mundo enfrentam a inclemência do poder burguês e a sua violência áspera e desapiedada, a minha saudação de comunista. Aos trabalhadores do MST, que hoje viram tombar um companheiro da forma mais vil e mais cobarde, o abraço sincero de quem deseja que do sangue que correu se levante a onda vermelha que imporá a reforma agrária. E ao burguês assassino, à classe asquerosa dos agrários e dos patrões que hoje causou uma baixa nas fileiras da nossa classe, a promessa e a certeza de que um dia lhes mostraremos a parte que lhe cabe no latifúndio.
Sem comentários:
Enviar um comentário