Uma palavra sobre a
revolução
Se hoje muitos nem sequer querem ouvir falar de revolução, isso
deve-se com frequência ao facto de os partidos, durante muito tempo, apenas em
palavras se declararem revolucionários, sem qualquer correspondência com a
prática. Isto levou a que os actuais comunistas, desejando colocar em
conformidade o discurso com os actos, considerem que não se pode falar de
revolução neste momento. No entanto, há outro modo de alcançar a unidade do
discurso com a prática.
Na época em que Lénine escreve havia duas tendências, a
oportunista a anarquista, que não compreendiam «a nossa primeira e mais urgente
tarefa prática: criar uma organização de revolucionários capaz de dar à luta
política energia, firmeza e continuidade». Interroguemo-nos: por que razão é
tão raro hoje um comunista afirmar que a construção de um partido revolucionário
é a questão mais candente e a tarefa mais urgente? Conclui-se que também hoje
há muitos membros de partidos comunistas que, intitulando-se comunistas, não
partilham a ideia de que um comunista «deve, acima de tudo, pensar numa
organização de revolucionários capazes de dirigir toda a luta emancipadora do
proletariado».
Para aqueles que, acima de tudo, pensam e agem neste sentido,
o livro Que Fazer? traça um amplo plano de trabalho revolucionário, um plano
para a construção de uma organização de partido de combate para realizar esse
trabalho.
Admito que este plano foi elaborado numa época histórica
totalmente diferente. Sim, é verdade. Mas este plano contém a lógica interna da
criação de um partido revolucionário sem a qual é impossível formar um tal partido
em qualquer época. Vejamos em que consiste esta lógica.
Uma tal organização deve, acima de tudo, assentar numa firme
base teórica:«Sem teoria revolucionária não pode haver também movimento
revolucionário». Por isso, hoje, é particularmente oportuno colocar e resolver
de modo leninista a questão do trabalho teórico do partido, porquanto sem
tal trabalho o movimento arrisca-se a
ser comunista apenas em palavras, o que significa que não pode ter êxito.
Assim, Lénine insiste em primeiro lugar na exigência firme de «”uma atenção
vigilante ao aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado”».
Citando Engels, Lénine insiste em três formas de luta de
classe: a par da luta política e económica, sublinha a importância da luta
teórica da qual depende o êxito das duas primeiras. De acordo com a
recomendação de Engels, o movimento operário deve travar a luta de forma
harmoniosa nas suas três direcções concatenadas e ligadas entre si: teórica,
política e económico-prática (resistência aos capitalistas). Neste assalto,
digamos, concêntrico reside a força e a invencibilidade da classe operária.
Todavia, não é na sua continuidade, no seu encadeamento ou
sequência: uma antes da outra ou uma depois da outra, que consiste esta
concentricidade e concatenação das três formas da luta de classe. Na realidade
é sua efectiva ligação interna que constitui a lógica da construção da
organização revolucionária, tanto no plano programático como táctico, e garante
a unidade da teoria revolucionária coma prática.
Note-se que ao acentuarmos a necessidade e importância do
trabalho teórico isso não significa que este trabalho deva ser colocado em
primeiro lugar face ao trabalho prático, não significa também que o trabalho
prático deva ser adiado até que o trabalho teórico esteja terminado. Uma tal
divisão – primeiro um, depois o outro –é um traço característico do socialismo
utópico ou daqueles socialistas que não têm uma noção clara do método na
ciência social, não dominam o materialismo, «o único método científico que
exige que todo o programa seja a formulação exacta do processo real». Tais
socialistas consideram que a sua tarefa é criar «modelos» de sociedade
(diferente da existente) e procurar vias para a sua introdução. Para eles,
naturalmente, «o trabalho prático apenas se torna possível depois de os
filósofos geniais terem descoberto e indicado essas “outras vias”; e,
inversamente,quando essas vias forem descobertas e indicadas, o trabalho
teórico termina e começa o trabalho dos “patriotas” – aqueles que devem orientar
a “pátria” pelo novo caminho descoberto.
A questão coloca-se de uma maneira completamente diferente
quando a tarefa dos socialistas consiste em serem os dirigentes ideológicos do
proletariado na sua luta real contra inimigos reais, autênticos, que se
encontram na via real de um determinado desenvolvimento socioeconómico.
Neste caso, o trabalho teórico e prático fundem-se num único
trabalho, que foi tão justamente caracterizado por Liebknecht, veterano da
social-democracia alemã, com as palavras:
Studieren, Propagandieren, Organisieren ( Estudar,
Propagandear, Organizar)
Não se pode ser um dirigente ideológico sem se fazer o atrás
referido trabalho teórico, tal como não se o pode ser sem orientar este
trabalho segundo as necessidades da causa, sem propagandear os resultados desta
teoria entre os operários e sem os ajudar à sua organização.»
Com esta concepção da tarefa, considera Lénine, os ideólogos
do proletariado evitam cair no dogmatismo e no sectarismo. «Não pode haver
dogmatismo lá onde o critério supremo e único da doutrina é definido como a sua
correspondência com o processo real de desenvolvimento socioeconómico; não pode
haver sectarismo quando a tarefa consiste em auxiliar a organização do
proletariado e, consequentemente, o papel da “intelligentsia” consiste em
tornar inútil a presença de dirigentes intelectuais especiais.»
Hoje é frequente intitularem-se de comunistas aqueles que
reconhecem a teoria marxista, com excepção do seu carácter revolucionário e da
teoria da luta de classes. Lénine salienta ninguém pode negar que «a teoria da
luta de classes é o centro de gravidade de todo o sistema de concepções de
Marx», e que «perder de vista a luta de classes é revelador de uma grosseira
incompreensão do marxismo». Não se pode reconhecer a teoria de Marx excluindo
este ponto, uma vez que isso implicaria «refazer a teoria e elaborar a
concepção de um outro capitalismo, no qual não houvesse relações antagónicas e
luta de classes». Por isso, os comunistas partem da seguinte conclusão desta
teoria: «Só há uma saída [da sociedade burguesa] que decorre necessariamente da
própria essência do regime burguês, a saber: a luta de classe do proletariado
contra a burguesia», travada à escala nacional até à tomada do poder e à
instauração da ditadura do proletariado. Assim, a acção política dos comunistas
consiste em contribuir para o desenvolvimento e organização do movimento
operário, para a transformação das guerras económicas isoladas em luta de
classe consciente, dirigida contra o regime burguês com o objectivo de
expropriar os expropriadores e suprimir as normas sociais que assentam na
opressão dos trabalhadores. Não se trata de agir no lugar dos operários, em
prol deles ou em seu nome mas, sublinhamos mais uma vez, de contribuir para o
desenvolvimento e organização da luta consciente dos próprios operários.
Quem não compreende e não reconhece estas teses leninistas ou
não é comunista ou terá que elaborar uma nova teoria que substitua o marxismo e
demonstre as suas infundadas conclusões

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