Há pouco tempo, quando falava num debate sobre os problemas
sociais dos EUA (o país em que vivo), perguntaram-me se achava o sistema
soviético melhor que o americano. A ratoeira estava montada: depois das
derrotas do socialismo no Leste da Europa, a cultura dominante proibiu a
esquerda afiançada de «democrática» de falar da URSS sem primeiro, a título de
portagem, a condenar ou renegar. E mesmo assim, nem depois da costumeira
demonização em piloto-automático, ouvimos falar dos enormes marcos
civilizacionais soviéticos.
É óbvio que os EUA não podem ser, em rigor, comparados à
URSS. Quando em 1917 os EUA eram um dos países mais avançados do mundo, a
Rússia era um obscuro império feudal. De resto, quando se trata de comparar o
socialismo ao mundo capitalista, é este último que define os termos,
confrontando a realidade do capitalismo com o seu passado efectivo e a
realidade do socialismo com o seu prospectivo futuro.
Mas qual seria o resultado se o critério fossem as conquistas
sociais? Aceitemos pois, com esta justíssima condição, a pergunta armadilhada
de saber «qual era o melhor sistema» e, sobretudo, «para quem».
O que nunca te disseram sobre a URSS
Em 50 anos, a produção industrial soviética passou de 12 para
85% da alcançada pelos EUA e a pátria de Lenine logrou patamares inéditos de
igualdade, segurança, saúde, habitação, emprego, educação e cultura. O
socialismo pôs fim à inflação, à discriminação racial e à pobreza extrema. A
esperança média de vida duplicou e a mortalidade infantil caiu 90%. Segundo a
UNESCO, nunca uma sociedade tinha elevado tanto o nível de vida da população em
tão pouco tempo. Ao contrário dos Estados Unidos, perpetuamente assolados por
epidemias de desemprego, em apenas 20 anos o país dos sovietes atingiu o pleno
emprego.
Os direitos laborais nos EUA continuam hoje 80 anos atrás dos
soviéticos: os norte-americanos trabalham em média quase 9 horas diárias. Já os
soviéticos trabalhavam 7 horas por dia desde 1936. Os norte-americanos gozam em
média 8 dias de férias, amiúde não remunerados. Já os soviéticos tinham direito
a um mês de férias inteiramente pagas. Os EUA são o único país da OCDE que não
contempla um único dia de licença de maternidade. Na URSS, as mulheres tinham
direito a 20 meses de licença paga.
Os EUA não dispõem de um sistema público de saúde, o que
condena diariamente 125 trabalhadores à morte. Tal não se passaria na URSS, que
oferecia cuidados médicos gratuitos a toda a população. Os jovens
norte-americanos contraem uma dívida média de 80 mil dólares durante a
licenciatura. Na URSS, todos os graus de ensino, do pré-escolar ao
pós-doutoramento, eram gratuitos. Na terra do Tio Sam os trabalhadores gastam
metade do seu salário em habitação e serviços básicos. Na URSS, a renda da casa
representava 2% do orçamento familiar e os serviços básicos 4%.
A URSS era também uma sociedade mais culta que os EUA. Em
1917, na Quirguízia, menos de 0,2% da população sabia ler e escrever. Em 1970
esse número chegava aos 97%. Nessa década, a URSS foi reconhecida pela UNESCO
como o país do mundo onde se liam mais livros e viam mais filmes. As famílias
soviéticas assinavam em média quatro publicações periódicas, o número de
visitantes de museus representava metade da população e a frequência de teatros
ultrapassava o seu total. Nos EUA cerca de 25% da população são tecnicamente
«iletrados» (incapaz de compreender textos simples).
Anões aos ombros de gigantes
Como agora a direita europeia reconhece, o próprio Estado
Previdência foi uma cedência arrancada a ferros pelos trabalhadores à
burguesia, em parte pela necessidade de competir com a URSS em matéria de
conquistas sociais.
Bernardo de Chartres, um filósofo do século XII, comparou os
feitos da sua geração à figura de «anões aos ombros de gigantes». Também nós
devemos reconhecer os benefícios duradouros que colhemos da experiência
soviética, afinal, a URSS destruiu sozinha 70% do exército de Hitler e libertou
o mundo do genocídio nazi, pagando-o com mais de 24 milhões de vidas e 70 mil
cidades e vilas em escombros.
Uma terra sem amos
Com o fim da URSS, o número de pobres aumentou mais de 150
milhões, a economia e os salários encolheram mais de 50%. 75% dos russos caíram
na miséria e doenças antes erradicadas atingiram proporções epidémicas. A
esperança média de vida caiu para os níveis do século XIX.
Os EUA venceram a guerra fria, mas são todos os dias
derrotados pela pobreza de 50 milhões, pela maior taxa de população prisional
do mundo e por dois milhões de crianças sem tecto. Na URSS, as crianças não
dormiam na rua e a democracia não ficava à entrada da fábrica. Foi o mais perto
que a humanidade chegou de construir uma terra sem amos.
A URSS foi uma flor rara, de beleza extraordinária e difícil
cultivo, que já antes tinha sido arrancada, com apenas dois meses de vida,
quando a Comuna de Paris foi esmagada. E mesmo assim voltou a crescer, mais
viçosa e resiliente num improvável sulco russo. Extinta a União Soviética,
sobrevivem sementes que um dia darão flores novas.

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