domingo, 9 de dezembro de 2018

AS CÉLULAS DE EMPRESA

Partido cresce e reforça-se no Complexo Industrial de Sines

REFORÇO A organização do Partido no Complexo Industrial de Sines tem vindo a crescer, com novos militantes, células reforçadas e uma maior intervenção na luta dos trabalhadores.


O Complexo Industrial de Sines, que inclui o Centro Petroquímico, o Porto de Sines e a Central Termoeléctrica, é o maior local de trabalho do Alentejo, com relevância estratégica a nível nacional. O número dos que trabalham na imensidão de empresas que o compõem varia entre os oito e os dez mil, muitos dos quais com vínculos precários e laboração eventual.

Há muito que o Partido está presente no Complexo, tanto no interior como junto aos portões das várias empresas. Pedro Martins, do Comité Central, realça que não passa um mês sem que militantes do Partido contactem com estes trabalhadores, ora para lhes fazer chegar boletins e comunicados específicos sobre os seus problemas e lutas, ora distribuindo folhetos de campanhas nacionais do Partido, ora, ainda, em acções de venda especial do Avante!.


Mas é no interior das empresas que o Partido mais cresce, acrescenta o jovem dirigente do PCP, sublinhando que os últimos meses foram de avanços organizativos. Graças a eles, realçou, foi reactivado o organismo intermédio do Complexo, que se revelou indispensável para alavancar o reforço do Partido em algumas das empresas. Este organismo editou vários números do seu boletim, O Complexo, ao longo deste ano.

Reforçar e consolidar

Na Petrogal, os três recrutamentos realizados desde o inicio do ano permitiram «reforçar e consolidar o trabalho da célula», que hoje reúne periodicamente, tem tarefas distribuídas pelos seus membros e edita, «com muita regularidade», o seu boletim, o qual, acrescenta Pedro Martins, contribui decisivamente para a afirmação do Partido na refinaria. Isto além de ter permitido a difusão de mais três jornais Avante!.

Para além da campanha dos 5000 contactos com trabalhadores, que se está a revelar determinante para o reforço da célula da Petrogal, também o ambiente de luta que há muito ali se vive contribuiu para os avanços registados: pelo menos desde 2014 que os trabalhadores da Petrogal exigem o fim da imposição da caducidade do seu Acordo de Empresa, tendo por essa reivindicação central desenvolvido muitas acções de luta, com forte impacto em Sines.

Na Petrogal, garante, é hoje evidente para a generalidade dos trabalhadores a importância do PCP e da sua célula na dinamização da luta pelos seus direitos e no reforço das suas organizações unitárias de classe.

Muito por onde crescer

Na APS – Administração dos Portos de Sines e do Algarve, SA, o Partido conta também com uma célula que, entre outras tarefas, distribui o Avante! pelos militantes. Aqui,os comunistas e a sua célula desempenharam um papel activo nas duas greves realizadas este ano.

Na Repsol, o novo militante recrutado recentemente será, confia Pedro Martins, o «ponto de partida para a criação de uma célula no complexo petroquímico». Com esta «ponta», o Partido ficará a conhecer mais ao pormenor a situação que se vive naquele local de trabalho, o que lhe permitirá editar um boletim específico e «trabalhar a partir daí».

Também na PSA – Terminal XXI foram feitos dois recrutamentos: um no final de 2017 e outro já este ano. Nesta que é uma empresa prioritária no quadro do complexo, com perto de 1000 trabalhadores, «está-se a reunir com os dois camaradas e a planificar o trabalho do Partido», afirma Pedro Martins. «Estou convencido de que em breve teremos aí uma célula».

Por outro lado, na REN, empresa estratégica a nível nacional, a partir de um novo militante, adianta também o membro do Comité Central, procura-se desde já desenvolver a intervenção unitária e partidária, visando alargar a organização e constituir, também aí, uma célula do Partido.

Na Euroresinas e na Indorama o objectivo é semelhante.


NUNCA É TARDE!

É interessante ler este artigo sobre as células de empresa no parque industrial de Sines. Nunca é tarde para começar um trabalho empenhado de organização dos trabalhadores nos locais de trabalho. 

Há anos, mas há muitos anos, que as conclusões do Comité Central e de outros órgãos superiores do Partido vêm apelando ao trabalho organizativo dos trabalhadores pelos locais de trabalho, há uns anos , talvez uns oito, foram destacados funcionários especificamente para esta tarefa. O resultado, pelo que tenho observado e analisado, parece-me fraco: ao destacarem funcionários para as células de empresa desresponsabilizaram as Comissões Concelhias e outros organismos intermédios sobre esta questão; alguns destes quadros, desconhecedores das realidades de cada empresa e região, limitaram-se, durante anos, à distribuição de panfletos elaborados centralmente sem qualquer ligação com os problemas específicos dos trabalhadores em cada empresa. 

Por aqui, Spal e Crisal, houve há uns anos uma entrevista, do responsável distrital por esta tarefa, ao Avante, que indicava haver em cada uma destas empresas células a funcionarem, o que não corresponde à verdade porque há muitos anos que não existe organização do Partido nessa empresas -para mostrar trabalho que não existe, mente-se.

É positivo haver este trabalho que o artigo do Avante salienta? É!O caminho é esse, ir ao encontro dos trabalhadores, conhecer os seus problemas, organizá-los e incentivá-los à luta. 

O artigo do Avante evidencia com toda a clareza a falta de organização, o trabalho constante que tem sido inexistente junto dos trabalhadores. 


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

PCP considera aumento do salário para 600 euros "aquém do necessário"

O PCP "valoriza a subida do salário mínimo" para 600 euros em 2019, hoje anunciada pelo Governo, mas considera que "continua a ficar aquém do que seria necessário", disse hoje a deputada comunista Rita Rato.

Num comentário ao anúncio do executivo, no parlamento, a deputada afirmou que "o PCP valoriza a subida do salário mínimo, que é inseparável da luta dos trabalhadores".

Este aumento, porém, "continua a ficar aquém do que seria necessário, que era a consagração dos 650 euros, já a partir de Janeiro de 2019", que foi proposto pela bancada comunista, no parlamento, acrescentou.

"Seria um valor que se coaduna com a melhoria das condições de vida dos trabalhadores porque são salários que, com os descontos, continuam a ficar abaixo do necessário, dos 600" euros líquidos, argumentou, prometendo continuar a "bater-se pelo aumento geral dos salários de todos os trabalhadores".

Já quanto ao aumento no nível mais baixo de remuneração da administração pública de 580 euros para 635 euros, também proposto pelo executivo, Rita Rato afirmou que "decorre da aplicação das regras da progressão nas carreiras".

O Governo propôs hoje que o valor do salário mínimo nacional seja fixado nos 600 euros a partir de 01 de Janeiro de 2019, segundo uma proposta entregue na reunião da Concertação Social.

"Este valor representa um aumento nominal de 3,4% face a 2018, que se traduzirá numa valorização real na ordem dos 2,1%, de acordo com a inflação prevista no cenário macroeconómico do Orçamento do Estado para 2019 (OE2019)", adianta o Governo no documento.

O salário mínimo nacional é actualmente de 580 euros.




Estes "artistas" andaram todo o ano a exigir que o salário mínimo subisse para 650 euros ( quando estudos indicam que deveria ser de 1200 euros) e agora valorizam a subida para 600 euros. Como quem diz - Isto é melhor que nada...
Em vez de um sinal de indignação e revolta, um sinal de apelo à luta por um sala´rio mínimo digno, ficamos por uma posição de comodismo, de aceitação, de baixar os braços.

MURPI reforça-se para defender os direitos de todos os reformados, pensionistas e idosos

(...)Estratégia nacional

"A intervenção de encerramento – perante o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva – coube a Casimiro Menezes."


(...)Reivindicações para 2019

"Os «passos no sentido da reposição de rendimentos e direitos dos reformados, pensionistas e idosos», dados pelo actual Governo do PS, embora positivos, «estão muito longe de corresponder» às «aspirações e reclamações» de que o MURPI tem sido porta-voz.

Nesse sentido, a Confederação avança com um conjunto de propostas para o próximo ano. Para recuperar os «direitos e rendimentos dos reformados, pensionistas e idosos» exige-se um aumento de, pelo menos, 10 euros em todas as pensões, a partir de 1 de Janeiro (aumento por pensão e não por pensionista); reformulação das actuais regras de actualização das pensões; reforço da rede pública de equipamentos e serviços sociais com recursos humanos e materiais que respondam às necessidades." (...)


Opinião: O movimento de reformados (MURPI) podia ser uma organização combativa, com grande poder de mobilização na luta dos reformados deste país. A grande maioria dos reformados são gente que assistiu, que participou, que fez o 25 de Abril, são pessoas ainda com grande capacidade para o trabalho politico.
O que tenho assistido - só consegui estar numa reunião, nas vésperas da única manifestação nacional  que me lembre, no tempo da Troika, onde se discutiu questões banais  e não a mobilização para a referida manifestação- é a  uma permanente reivindicação de pertença ao Conselho Económico e Social a pedidos às autarquias apoios para excursões e festas, etc.etc.

As reivindicações apresentadas neste Congresso são inteiramente plasmadas das que o PCP sucessivamente tem apresentado.

É de muito mau gosto, uma organização como esta, convidar a personagem que mais tem prejudicado os trabalhadores e reformados deste país -o Ministro do trabalho - para estar neste Congresso.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

CDS e BE são os carrapatos que mais chupam do estado e logo do zé povinho - CDS-PP e BE lideram na dependência financeira do Estado


que a subvenção pública representa mais de 80% das receitas, segundo as contas de 
2017 publicadas pelo Tribunal Constitucional.

Mais de metade das receitas dos partidos com representação na Assembleia da República têm origem nas subvenções públicas a que têm direito. A única excepção é o PCP, em que estas não chegam a 12% das receitas totais, segundo as contas publicadas pela Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, que funciona junto do Tribunal Constitucional.
À excepção do PAN, o partido mais recente e que só tem um deputado eleito, o CDS-PP e o BE lideram a lista dos mais dependentes do financiamento público para funcionar – representou 86,25% e 83,65%, respectivamente, em 2017.
Recorde-se que o CDS-PP liderou a campanha populista que surgiu a propósito das últimas alterações à lei do financiamento dos partidos, que visavam precisamente retirar limites que existiam à possibilidade de cada partido angariar fundos pelos seus meios.
As contas do CDS-PP publicadas pelo Tribunal Constitucional não especifica sequer o montante recebido do Estado pelo partido. O cálculo feito pelo AbrilAbril utilizou como base a diferença entre os valores declarados pelas restantes formações e o bolo global inscrito no Orçamento da Assembleia da República.
De fora ficaram as verbas das subvenções regionais, já que, para além do CDS-PP, o PS também não especificou esses valores. No caso do PSD, estas representam quase 1,5 milhões de euros, o que faria com que a sua taxa de dependência passasse de 55,7% para 72,93%.
De acordo com as contas publicadas, a subvenção pública representa 64,22% das receitas do PS e 78,72% do PEV.
Retirado daqui:

"A nossa vida é esta, ou morremos debaixo das pedras ou morremos de fome. A fome é certa, às pedreiras ainda podemos ter a sorte de escapar vivos."

Há 24 pedreiras ilegais no Alentejo. E desastres à espera de acontecer

Basta ir em reportagem para a zona de Borba e Vila Viçosa. Toda a gente por ali, dos donos das pedreiras ao povo que as trabalha, temia acidentes como o desabamento da estrada 255. É uma história com mais de 80 anos. Nunca houve um plano de ordenamento, cada um escavou por onde quis, há poucos técnicos e muita desorganização.

Lá no fundo o mundo é diferente. Nos dias de sol a temperatura chega aos 50 graus, nos de chuva trabalha-se com água pelo tornozelo, às vezes pelo joelho. Tempo seco, ainda assim, é pior - o pó dá cabo dos olhos e dos pulmões a um homem. "Não conheço ninguém que goste de trabalhar numa pedreira", diz Joaquim Malta, o Quim Saragoça, que tem 55 e anda nesta vida há 40, como o pai e o avô antes dele. É um dos sobreviventes do desabamento da estrada 255, entre Borba e Vila Viçosa.

Trabalhava há 17 anos na pedreira do Almeida, onde no passado dia 19 dois dos seus colegas ficaram soterrados nos escombros. Todos os dias a ver a mesma nesga de céu, das oito da manhã às cinco da tarde. E sempre os mesmos seis companheiros, foram quase duas décadas a partilhar um buraco."Andávamos a tirar pedra mesmo a 15 metros do talude, não havia dia em que alguém não perguntasse se era hoje que a parede vinha abaixo."

Era pertinho do muro que segurava a estrada que se tiravam os blocos mais inteiros de mármore. A pedreira do Plácido, com o dobro da profundidade e ali mesmo ao lado, tinha encerrado há ano e meio - foi essa que engoliu a 255. Eles seguiam a escavação uns metros adiante, não havia maneira de não saberem que estavam em perigo. Joaquim sabia, sim, mas responde com a mesma resignação dos que moram nas redondezas. "A nossa vida é esta, ou morremos debaixo das pedras ou morremos de fome. A fome é certa, às pedreiras ainda podemos ter a sorte de escapar vivos."

O deslizamento de terras em Borba é um acontecimento tão dramático que o país não teve como desviar o olhar. Foram afinal cinco mortos, três engolidos pelo talude, dois sepultados por ele. Mas a tragédia começou antes. Para perceber a ruína de 80 metros de estrada é preciso explicar como se chegou aqui. Esta é uma história de ganância, desleixo e submissão. Ou de como o ouro branco se tornou simultaneamente triunfo e perdição para uma das regiões mais esquecidas do país.

Escavar por onde der

Do alto da escombreira da Vigária, em Vila Viçosa, avista-se um vale com mais de 40 pedreiras. A maioria está ao abandono, mas há uma dezena que continua a laborar. "Daqui podemos observar como as coisas foram sempre mal geridas", diz Rúben Martins, engenheiro geológico e coordenador do departamento de geociências da Universidade de Évora. "A cada vinte ou trinta metros abriu-se uma pedreira nova. São tantas e estão tão concentradas que raramente se consegue ir a mais de cem metros de profundidade, não têm diâmetro para ir mais fundo."

Este é um bom exemplo de tudo o resto. Segundo a Direção-Geral de Energia e Geologia, o anticlinal de Estremoz - nome científico do veio de mármore de 27 quilómetros quadrados que se estende por Estremoz, Borba e Vila Viçosa - tem 271 cavidades, 24 delas absolutamente ilegais. Mas apenas 70 são exploradas. "O poço mais fundo tem 150 metros, mas os nossos estudos dizem que há mármore até aos 430." Nunca houve um plano de ordenamento para a zona, cada um escavou por onde quis. Um único técnico fiscaliza as 400 pedreiras que há no Alentejo, garante Rúben Martins.

"Os proprietários foram abrindo pedreiras avulso, umas ao lado das outras. Se trabalhassem em conjunto, abriam um grande poço em vez de 20." Isso não só lhes permitiria ir mais fundo como deitar abaixo as dezenas de taludes que ocupam a região. Dessa forma, explica o professor de Évora, o risco de derrocadas reduzir-se-ia exponencialmente. E os lucros tornar-se-iam mais duradouros. E avultados.

O problema dos grandes paredões, como aquele onde estava apoiada a estrada 255, é geológico. Apesar de o mármore ser retirado da terra em blocos de 3 metros de comprimento por 1,7 de altura e 1,5 de espessura, os veios não são uniformes. "Uma das características das nossas rochas é serem extremamente fraturadas. Por causa da origem calcária os espaços vazios são ocupados por terra rossa, que no tempo seco funciona como cimento mas com a chuva torna-se manteiga."

As semanas que antecederam a tragédia foram de dilúvio, como aliás há anos não se via em Borba. "Se 2016 e 2017 não tivessem sido anos de seca, é bem provável que aquela parede já tivesse ruído. Aqui não há inocentes, toda a gente sabia o que ia acontecer. Era uma questão de tempo."

Uma ode ao desperdício

"Escavámos até onde conseguimos", diz Luís Brito da Luz, administrador da Marmoz, uma das empresas mais antigas do anticlinal. Contradiz, assim, a ideia que tem sido passada de que só seria possível escavar até 30 metros de uma estrada como a que ruiu. "Temos nove pedreiras, mas só trabalhamos duas. As outras estão abandonadas." Vazias? "Todas menos uma, há 30 anos tivemos de enchê-la porque havia risco de derrocada do cemitério de Estremoz." Numa foto percebe-se um talude de cem metros mesmo ao lado do muro da necrópole. Sem intervenção, também as campas teriam escorregado.

A empresa chegou a ter 137 funcionários, hoje não são mais de 16. Têm aquelas pedreiras todas mas o diâmetro já não lhes permite ir mais fundo. "É um facto que os empresários do mármore nunca se souberam organizar. Cada um explorou o seu quintal e agora estamos a pagar essa fatura." Há cinco anos, havia 230 companhias a explorar mármore no anticlinal, hoje não são mais de 40. "A menos que aconteça um milagre, também nós teremos de declarar insolvência nas próximas semanas."

A pedreira do Plácido, a que rebentou com a estrada, fechou por isso: a empresa faliu. Nos anos 1990 era um ícone da saúde do setor. Jorge Sampaio, então Presidente da República, visitou-a a 3 de fevereiro de 1997 e desceu o paredão num elevador que, a meio do percurso, avariou. Nessa altura o poço era metade do que é hoje. Dali se retirou mármore branco, o que então estava na moda. Quase todo vendido para a Arábia Saudita.

É precisamente por obedecer a modas que as pedreiras permanecem vazias. "Se daqui a uma década o mercado quiser aquele tipo de mármore, é a uma pedreira entretanto desativada que se vai buscá-lo. Tapá-la seria incomportável em termos de custos", diz Rúben Martins, o professor de Évora. "Já temos desperdício que chegue."

Apenas dez por cento do que é retirado das pedreiras de mármore da região tem aproveitamento. Ao lado dos fossos há verdadeiras montanhas de entulho, blocos sobre blocos sobre blocos de mármore, misturados com pedregulhos soltos. Muitas são mais altas do que os marcos geodésicos da região. Não há nesta planície montes mais elevados do que estes.

Naquelas escombreiras está o símbolo maior da ganância dos empresários. "Durante décadas, só retirámos o mármore que vendia melhor, o outro deitávamos fora. Agora temos estes aterros cheios de ouro desperdiçado", diz o empresário Luís brito da Luz. Admite as culpas, lembra os fundos europeus que chegaram na viragem do milénio e que a sua família gastou numa fábrica que hoje está abandonada. "Devíamos ter usado esse dinheiro para reaproveitar as escombreiras. Mas num mercado em que funcionou sempre cada um por si, ninguém o fez. Explorámos o mármore à fuçanguice e agora estamos desgraçados."

O orgulho da terra

Quando em 1982 o Papa João Paulo II visitou Vila Viçosa, a autarquia mandou terraplanar uma série de terrenos em redor da povoação para construir parques de estacionamento. Até esse momento, a única coisa que existia na região eram pedreiras, mas o alisamento das terras permitiu que se desenvolvesse com grande fulgor uma indústria de transformação que até então estava localizada em Pero Pinheiro, Sintra.

"Essa década foi o período de ouro da exploração de mármore na região", diz Carlos Filipe, historiador, professor da Universidade de Lisboa e investigador no Centro de Estudos de Património e História da Indústria dos Mármores. "Por causa da existência de um mercado diferenciado, a região conseguiu resistir às fugas migratórias que caracterizam quase todo o Alentejo. Aqui havia desemprego zero."

A história do mármore na região tem dois mil anos, mas é em 1927 que o sector se torna no centro da vida de Borba, Estremoz e Vila Viçosa. O aparecimento do movimento arquitectónico art déco no centro da Europa traz ao Alentejo uma série de industriais belgas que fundam companhias para explorar a pedra. "E trazem consigo uma nova tecnologia, o fio helicoidal, que permite cortar a pedra a uma velocidade muito maior."

Se hoje basta meia dúzia de homens para trabalhar uma pedreira, nestes anos o efectivo contava com 40 a 50 homens. "Portugal tinha saído há pouco tempo da I Guerra Mundial e vivia uma fome terrível. De repente, aqui, há mais trabalho do que gente." Era ofício duro e perigoso, a pedra carregava-se ao lombo e não havia semana em que um monte de pedras não rolasse escarpa abaixo. Mas ganhava-se melhor do que na agricultura - que atravessava uma das piores secas da história.

As empresas de pedra começaram a conceder créditos aos trabalhadores para que adquirissem bicicletas e motas. No início da II Guerra Mundial, Vila Viçosa tinha fama de ser a terra do país com mais veículos de duas rodas. Mas, até 1966, a indústria continuava a ter um problema: retirar as pedras dos poços. Problema resolvido com o final da construção da Ponte sobre o Tejo - as gruas foram despachadas para o interior alentejano e o processo acelerou rapidamente.

A electrificação das pedreiras e o aparecimento do fio de diamante, nos anos 1980, deram o impulso que faltava ao mercado do mármore. "Até aí vendia-se para toda a Europa, agora era o mundo árabe que vinha comprar as pedras portuguesas. Com a primeira Guerra do Golfo, há a primeira quebra de mercado. A segunda chega com o 11 de Setembro e com a entrada da troika vem a machadada final", diz o historiador. O desemprego volta a subir, mas agora há um problema novo: os terrenos que antes serviam para a agricultura e pecuária estão agora apinhados de pedreiras.

A maldição da pedra

José Lopes, de Bencatel, tem 58 anos de vida e 42 de pedreira. Trabalha no Cochicho, pertinho da aldeia de Pardais, que com 150 metros é o fosso mais fundo que há no anticlinal. "Ando meio surdo por causa do barulho das máquinas. Temos protetores para os ouvidos, mas quem é que aguenta usá-los nos dias de calor?"

Também ele veio para o mármore por falta de alternativas. Profere a frase que aqui é repetida até há exaustão: "Ou morremos debaixo da pedra ou morremos de fome." Não vê a hora da reforma chegar, já chega de tanto pó branco. E agora, que o tempo de descanso se anuncia, o homem só consegue lamentar-se do que construiu. "Estes anos todos no fundo do poço para ganhar 750 euros. Isto é muito difícil, porque nem nos podemos queixar. Quando nos queixamos, ficamos de castigo." Corta por isso a conversa, enquanto tiver salário a receber não pode contar o que se passa lá em baixo.

Então fala Inácio José, 55, que se reformou há dois meses. "Quando ficamos doentes, quando protestamos por qualquer coisa, põem-nos a fazer os trabalhos mais duros e atrasam os pagamentos dos salários." E isso é o menos mau, antigamente era muito pior. A história das pedreiras de mármore também é uma história de exploração.

"Quando nos anos 1980 abriram as serrações, muitas mulheres eram contratadas para selecionar as cores", conta ele. "Mas, quando engravidavam, os patrões punham-nas a fazer trabalhos mais duros, a ver se abortavam. Não havia cá licenças de maternidade, fossem para casa dar de mamar aos filhos, que eram despedidas."

"A mentalidade feudal que existia neste ofício permanece até aos dias de hoje", diz Nuno Gonçalves, do Sindicato dos Mármores do Sul. "É um nicho de mercado esquecido e um dos que tem mais questões por resolver em termos de direitos laborais." Esta semana foi finalmente aprovada a passagem da idade de reforma para os 55 anos. O projeto foi assinado pelo PCP, era ambição de 20 anos. Mas o sindicalista insiste nos problemas: não há aumentos há 15 anos. Não há planos de segurança ou saúde. Nem sequer há fiscalização.

Inácio foi para a pedreira aos 15 anos. O pai tinha morrido quando ele tinha cinco, debaixo de um desabamento de mármore. "A minha mãe ficou com três bocas para alimentar e quando arranjei emprego foi um alívio. Mal sabia o que me esperava." Nesses anos, férias só havia de três em três anos - uma semana. Os capatazes a exigirem que cortassem mais longe, caso se atrasassem não os deixavam tomar o almoço. "Mas o pior era olhar para o alto da cratera e sentir aquele medo todos os dias, aquela angústia de não saber quando ia chegar a nossa vez."

Ninguém deixa saudades na pedra. Ainda assim, aquelas catedrais que os homens escavaram são monumentos impressionantes. Há um par de anos, os concelhos da região organizaram um curso de visitas às pedreiras para os técnicos de turismo dos municípios. Há até uma rota do mármore. Visitas organizadas - e a estrada que agora ruiu era um dos lugares da peregrinação. Para algumas das pedreiras que estão abandonadas a solução pode passar por construir anfiteatros, salas de espetáculo, jardins. As cicatrizes da terra podem ser disfarçadas, sim. Mas naquelas covas fundas, naquelas paredes assombrosas, está a ruína e a salvação de um povo inteiro.


GREVES

Em todo o mundo os trabalhadores, assalariados por conta de outrem recorrem à greve para obrigar as entidades patronais a respeitarem os seus direitos ou para reivindicarem melhores condições de trabalho.

Em greve os vínculos laborais são suspensos e os trabalhadores perdem direito ao salário pelos dias em que esta decorre. Por isto e pelo facto de quase sempre se desencadearem fortes ataques aos trabalhadores em greve por parte do sistema dominante em que patrões, governos e boa parte da comunicação social – quase sempre aliados – tratam de denegrir os movimentos grevistas, pode-se constatar as dificuldades com que lutam a generalidade dos trabalhadores.

Se atentarmos como a comunicação social, na maioria dos casos, noticia as greves facilmente constatamos a parcialidade com que o fazem transmitindo uma má imagem dos grevistas e dos sindicatos. A cobertura noticiosa, principalmente nas televisões, assenta quase em exclusivo nas dificuldades que as greves colocam aos cidadãos. Responsabilizam os trabalhadores e os sindicatos pela situação ao mesmo tempo que escamoteiam as razões das lutas, as responsabilidades patronais e dos governos que jogam com as dificuldades que são causadas para tentarem virar a opinião pública contra quem luta pelos seus direitos.

Actualmente em Portugal decorrem algumas greves que merecem uma atenção muito especial pelos contornos e pelo enquadramento social e político em que decorrem.

Greve dos Juízes – decorre sem que se debata com clareza as suas razões e se os magistrados na sua qualidade de titulares de órgãos de soberania podem ou não exercerem este direito.

Como se trata de uma classe muito importante e com um peso social enorme poucos se atrevem a questionar esta situação que se vai arrastando.

Greve dos trabalhadores precários do Porto de Setúbal – Os trabalhadores precários lutam contra a indignidade que já dura há muitos anos. São contratados à jorna – ao dia, por turno – e despedidos de imediato logo que terminam o dia ou turno de trabalho para voltarem a ser contratados e sucessivamente despedidos. Isto acarreta incerteza, ausência de direitos sociais, intranquilidade familiar, um presente incerto e um futuro sem esperança.

Verdadeiramente estes trabalhadores nem em greve estão já que não têm qualquer vínculo laboral. Portanto, o que sucede é que os trabalhadores se recusam, e bem, a trabalhar em condições indignas anos a fio, com total insegurança, sem direitos sociais e com as suas vidas em suspenso.

O porto de Setúbal é uma estrutura muito importante para a economia do país. Mais, a Autoeuropa necessita do porto operacional para poder mais facilmente exportar os automóveis que fabrica. Governo e patrões reclamam que a paralisação do porto tem um custo enorme para o país. Seria lógico que atendessem às mais do que razoáveis reivindicações dos trabalhadores e lhes garantissem um vínculo estável e um contrato de trabalho com direitos sociais e obviamente com obrigações daí decorrentes.

Porém, o que fazem os patrões portuários e o governo? O porto de Setúbal é muito importante e então em vez de acabarem com a precariedade o patronato e o governo de mãos dadas tentam persistir na imoralidade laboral existente, confrontando os trabalhadores em luta com a polícia para conseguir, com elevados custos, os substituir e assim fazerem prevalecer condições de trabalho vergonhosas que só servem para alimentar a ganância dos patrões. Está à vista de todos que pese embora a importância para a economia do país do porto de Setúbal, patronato e governo parecem que não se importam de o escaqueirar para mais uma vez, como exemplo e vacina, tentarem “partir a espinha” aos trabalhadores.

Greve dos guardas prisionais – A falta de condições de trabalho destes profissionais arrastam-se há longos anos. Há longos anos também que as condições nas cadeias sobrelotadas do sistema prisional são muito más. Os prisioneiros estão a cumprir penas por crimes que cometeram mas não podem ser tratados como lixo. As suas condições de detenção não lhes podem negar os direitos que lhes assistem. Não podem ficar abandonados à sua sorte e continuarem, uma boa parte deles, a serem coagidos por outros que continuam impunemente a partir das suas celas a organizar e a dirigir todo o tipo de acções criminosas. Tudo isto sob o olhar complacente dos responsáveis e perante a indiferença do país que tende a não querer saber da sua existência. Isto, em termos de reinserção social tem custos elevadíssimos.

Greve dos enfermeiros “Crowdfunding” – Esta situação é um pouco intrigante. Não estão em causa as reivindicações dos enfermeiros que têm muitas e boas razões para lutarem. Estranho é que os sindicatos mais representativos do sector estejam ausentes desta luta, aparentemente com dificuldades e até algum embaraço para darem a cara por ela. Creio que fundamentalmente o que carece de esclarecimento é o facto do financiamento desta greve estar a ser feito de forma anónima dando ligar a especulações que em nada abonam os promotores desta acção.

Na verdade, estando o Serviço Nacional de Saúde (SNS) debaixo do fogo dos interesses dos privados que olham para o sector da Saúde como um grande negócio, procurando desmantelar o SNS para assim o substituir era de todo aconselhável que o financiamento da greve não deixasse margem para dúvidas. Milhares de cirurgias adiadas caem como sopa no mel para os interesses dos privados que se propõem fazer aquilo que o SNS deixa de fazer com os custos daí inerentes.

É claro que isto remete para muitos outros assuntos como, por exemplo, o da representatividade dos sindicatos nunca aferida, o que permite promover a parceiros de negociação quem pouco ou nada representa mas está disposto a tudo para, manipulando justos anseios dos trabalhadores, conseguir atingir objectivos, se calhar, inconfessáveis.

Porém, a questão da representatividade dos sindicatos é assunto que merece uma grande reflexão. Debate e reflexão que é do próprio interesse dos sindicatos que devem tomar a iniciativa e pôr a nu o oportunismo de umas quantas organizações sindicais que tão mau serviço prestam aos trabalhadores e às suas lutas e dão argumentos aos detractores do movimento sindical.
Ver aqui:

Nota: Não entendo este silêncio "ensurdecedor" do PCP e do Bloco de Esquerda. O PS, através da ministra da saúde, limita-se a dizer que vai pedir parecer sobre a legalidade da greve, nem uma palavra para a condenar. O Presidente da República, tão atento a tudo, nem pia. O PSD e CDS, naturalmente estão calados porque são eles os mentores da greve dos enfermeiros. A comunicação social, sempre tão enérgica a entrevistar a população, as pessoa sobre os transtornos desta ou daquela greve, limitam-se a entrevistas à Bastonária da Ordem dos Enfermeiros - que pertence à direcção Nacional do PSD e declara que a greve foi decidida dentro do PSD. 
Para mim está em causa a desestabilizarão do Serviço Nacional de Saúde com o objectivo da sua privatização, o desvio das cirurgias para os privados onde vão ganhar médicos e enfermeiros. Está em casa colocar a população conta as greves. Este esquema já é velho e foi organizado no passado, não só em Portugal como noutros países. 


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Xi Jinping a Portugal


NOTA DO GABINETE DE IMPRENSA DO PCP
Visita de Xi Jinping a Portugal

5 Dezembro 2018


O PCP valoriza a visita do Presidente da República Popular da China, Xi Jinping e sublinha que a defesa do desenvolvimento de relações de amizade, paz e cooperação com todos os povos do mundo é um princípio fundamental da política externa de Portugal que a Constituição da República Portuguesa consagra. O desenvolvimento de tais relações com um País como a República Popular da China é um acontecimento importante que o PCP sauda.

A diversificação das relações externas de Portugal e a ruptura com o seu afunilamento nomeadamente face à União Europeia, é uma componente necessária de uma política de soberania e independência nacional.

Relações económicas mutuamente vantajosas, que contribuam efectivamente para o desenvolvimento do País, são bem vindas com a República Popular da China como com todos os países do mundo.

É com este espírito e lembrando as relações históricas entre os povos português e chinês que permitiram a justa solução da questão de Macau com a sua integração pacífica na República Popular da China que formulamos os melhores votos ao ulterior desenvolvimento das relações políticas, económicas e culturais entre os dois países, no respeito pelos princípios de igualdade, soberania e reciprocidade de vantagens, no interesse dos respectivos povos e países e da cooperação e paz mundial.

Nota: Como se os negócios com a China tivessem alguma influência na soberania e independência de Portugal. Este país está cada vez mais  subordinado aos interesses dos grandes monopólios. A China investe em Portugal tal como os outro, o objectivo é o lucro máximo sem qualquer problema se os trabalhadores são explorados, se têm salários justos, se têm contratos precários ou não.
Não percebo as relações vantajosas quando Portugal compra mais do que vende à China, quando as grandes empresas estratégicas que deveriam estar controladas pelo estado estão nas mãos dos chineses e de outros  especuladores: EDP, REN, Seguradoras, Bancos e , com esta visita mais uma quantidade delas que vão sair do controlo do estado português.

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