sábado, 15 de maio de 2021

Palestina

 


Filipe Tourais
 

Sempre que vejo um indivíduo ou um colectivo em sofrimento tendo a colocar-me na sua pele e a imaginar como seria se se fosse eu e os meus a passarem pela mesma situação. Não resisto a repetir o exercício ao ver as imagens que nos vão chegando de nova atrocidade da autoria de um estado que fez da violação dos direitos humanos mais elementares uma prática diária ao longo de quase 80 anos.

Imagino-me ali nos finais dos anos 40, na ressaca do holocausto nazi, e que um escrito com dois mil anos serve de pretexto para compensar tanto os sobreviventes desse extermínio como outros que, apesar de nunca terem vivido o horror de nenhum campo de concentração, apenas por perfilharem a mesma religião, também serem abrangidos por essa compensação com a criação de um estado num território a milhares de quilómetros da Alemanha autora da chacina onde também vive gente que nada teve que ver com os crimes nazis. Fazer nascer um novo país naquele território implica desapossar toda essa gente do direito de continuar a ser feliz onde sempre viveu e despojar toda essa gente dos direitos que os seus antepassados já tinham muito antes de alguém fazer nascer um país precisamente ali.
Israel é criado a 14 de Maio de 1948 com a força das armas a anular qualquer esforço de impedi-lo. Imagino a revolta dos expropriados a crescer década após década juntamente com a raiva filha da impotência de não conseguirem lutar contra um inimigo muito bem armado com o que de mais sofisticado existe para matar, vergar e aniquilar pelos seus amigos americanos com o apoio das restantes potências mundiais. Imagino-lhes a revolta ao verificarem como qualquer denúncia sua de violações de direitos humanos e de crimes de guerra em tudo iguais aos dos nazis é apresentada pela comunicação social desses amigos como manobras de propaganda.
Passaram quase 80 anos. E se a cidade santa fosse Lisboa? Para os judeus sefarditas a terra prometida não era a Palestina, era Espanha e Portugal. E se em vez de ter sido criado onde foi nos anos 40 do século passado, Israel tivesse sido criado em Portugal? E se, passado esse tempo todo de expulsões, assassínios, humilhações e expropriações diárias, fosse a vez da nossa família ser expulsa da nossa casa porque alguém do Governo do estado ocupante decidiu expandir o país e fundar um novo colonato precisamente no local onde vivemos? E se a nossa família fosse obrigada a ir viver para um espaço emparedado e cercado com arame farpado com uma área equivalente à dos Concelhos de Sintra ou de Leiria onde já vivem mais dois milhões de expropriados À força como nós? E se, para além do inferno que é tentar sobreviver num pandemónio de miséria como o atrás descrito, a potência ocupante ainda se lembrasse de fazer cair bombas sobre as nossas cabeças sem se importar com as dezenas ou centenas de mortes que o ataque causou, a coberto do seu direito elástico a retaliar contra a violação do dever de obedecer sem resistir dos seus novos espoliados?
É este o exercício que proponho como desafio a muitas pessoas de bem que por aqui vejo a defender os crimes do estado de Israel. Qualquer alinhamento, a pretexto de um escrito susceptível de alimentar fanatismos ou da vitimização de um povo eleito, se torna imensamente fácil quando as vítimas não são os próprios, aliás como ficou demonstrado na Alemanha entre 1933 e 1945. O povo eleito de então era o ariano e o escrito chamava-se “Mein Kampf”. A vossa tolerância ao nazismo fica bastante bem ilustrada Se substituírem “Mein Kampf” por Bíblia Sagrada e ariano por judeu e, ainda assim, continuarem a defender os crimes do sionismo. E não, em nenhuma parte da Bíblia Sagrada se lê que os judeus sofreram o que sofreram às mãos dos nazis para ganharem o direito a imitarem os nazis.
Já sei, o Hamas. O Hamas nunca existiria se Israel não tivesse sido criado. Eu também não gosto do Hamas, é impossível simpatizar com o Hamas. Mas ainda não perdi a esperança de que um dia se alcance o compromisso de paz que nunca será alcançado enquanto houver tanta gente de bem a ver aquele drama como um filme de cow-boys em que uns são e serão sempre os bons independentemente das atrocidades que cometam e outros são e serão sempre os maus independentemente das atrocidades que cometam serem ou não uma retaliação à retaliação anterior dos primeiros. Os palestinianos são gente tão gente como cada um de nós, como os judeus contemporâneos de Hitler ou como os judeus da actualidade, que também os há e muitos, que condenam a violência de outros judeus que se tornaram monstros e têm muito pouco daquela humanidade que é requisito para poderem ser reconhecidos como gente.

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