sábado, 22 de maio de 2021

Momento com a Historia.Comuna de Paris

Luis Marques

 Momento com a Historia.

No dia 22 de maio de 1871, tem início em Paris a “Semana Sangrenta”, onde são executados mais de 20 mil pessoas, cerca de 15 mil foram feitos prisioneiros e alguns milhares foram deportados. Terminava deste modo sangrento, a primeira experiência da história de um governo formado por trabalhadores no interior de uma “Comuna”. Este acontecimento que também veio a ficar conhecido como o “assalto aos céus”, em virtude dos objetivos que os comunardos se propuseram realizar: “criar uma nova forma de organização da sociedade”.
A história moderna regista alguma experiência de regimes auto-intitulados comunais, impostos por grupos dissidentes em cidades específicas, mas, a mais relevante de todas elas, é sem dúvida a “Comuna de Paris”. Durante a Guerra Franco-Prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional Francesa uma maioria de deputados monarquistas francamente favorável à capitulação ante a Prússia. O que levou à maioria, senão a quase totalidade dos distritos de Paris, a realização de uma forma de governo controlado por trabalhadores e membros de classes populares de França. Este movimento ocorreu na capital francesa, entre 18 de março e 28 de maio de 1871.
A Comuna de Paris foi o resultado revolucionário da derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. A derrota francesa na Batalha de Sedan, em setembro de 1870, levou à queda do imperador Napoleão III e à formação de um governo republicano que passou a ser presidido por Adolphe Thiers, em janeiro de 1871. Uma eleição foi convocada para a Assembleia Nacional, cuja maioria de deputados eleitos em fevereiro do mesmo ano, era da ala conservadora do espectro político francês, principalmente ligada aos proprietários rurais.
Ao mesmo tempo, os exércitos prussianos, que se encontravam em território francês, impuseram um cerco a Paris. A população da capital havia organizado diversas manifestações contra a derrota do exército frente aos prussianos e também por melhorias nas condições de vida e trabalho a que estava submetida. Também na Guarda Nacional Francesa se verificava um crescendo de insatisfação, chegando mesmo, nos destacamentos locais a formar Comités, com vista à criação de uma estrutura federativa, que culminou pós algumas assembleias, na formação do Comité Central da Guarda Nacional.
Thiers, que havia assinado um armistício com o chanceler prussiano Otto von Bismarck em 26 de fevereiro, decidiu transferir a sede do governo para Versalles, pretendendo retomar a capital francesa que havia fugido de seu controle. Para isso, necessitava de conseguir os canhões e outras armas pesadas que estavam na posse da Guarda Nacional na capital. A 18 de março, de 1871, os destacamentos do exército dirigiram-se a Paris como esse intuito, mas foram derrotados pela resistência do Comité Central da Guarda Nacional, que também contou com o apoio de alguns soldados do exército insatisfeitos com Adolphe Thiers, que se solidarizaram com a população parisienses, tendo aqui um papel de destaque a população feminina que habitava os bairros operários da cidade, no alertar da Guarda Nacional da chegada do exército e na mobilização de soldados desse exército para o lado contrário.
Além da Guarda Nacional, a população de Paris já se estava organizando através dos chamados clubes revolucionários — associações políticas cujas origens remetiam à Revolução Francesa de 1789. Desses clubes foi formado o Comité Central Republicano de Defesa Nacional dos Vinte Distritos de Paris, que serviu de experiência para a formação da Comuna e também para a mobilização de defesa da cidade contra os prussianos.
Outra instituição que serviu de apoio e de fonte de experiência para a Comuna de Pais, foi a Associação Internacional dos Trabalhadores, que congregava organizações de trabalhadores de vários países e tinha na França e em Paris uma de suas principais forças. A AIT também se organizava de forma federativa, garantindo às várias secções nacionais autonomia em relação ao Conselho Geral, que estava sediado em Londres.
Nos dias posteriores à sublevação da Guarda Nacional contra o sequestro dos canhões, foi formada a “Comuna de Paris”, sob direção do Comité Central. Foram convocadas eleições para 28 de março, com o objetivo de escolher os delegados que formariam a Comuna. Dessas eleições, saíram eleitos 80 delegados, sendo que dos eleitos: 25 eram operários e 12 artesãos, os restantes 43 estavam divididos entre intelectuais, especialistas e alguns comerciantes representantes dos diversos distritos da capital. Havia várias correntes políticas representadas entre os eleitos, existindo membros da AIT, blanquistas, jacobinos, jornalistas radicais e várias outras correntes.
A “Comuna de Paris” é considerada por alguns historiadores, como a primeira república proletária da história, adotando uma política de caráter socialista, baseada nos princípios da Primeira Internacional dos Trabalhadores, criada em 28 de setembro de 1864 em Londres, na Inglaterra. Tanto Marx quanto Engels argumentaram que a “Comuna de Paris” foi um exemplo da ditadura do proletariado. O motivo pela permanência da “Comuna de Paris” nessa memória coletiva do movimento operário, esteve relacionado com o fato, de ter sido a primeira experiência de governo dos trabalhadores, cujas formas de organização não decorreram de elaborações teóricas, mas sim de práticas desenvolvidas em consonância com o que se conhecia e com os objetivos que se pretendia alcançar.
A inovação da “Comuna de Paris”, e que serviria de experiência para revoluções posteriores, foi a determinação de que os delegados e demais funcionários não poderiam receber salário maior que o de um operário qualificado e que seus mandatos poderiam ser revogados a qualquer momento, caso mostrassem incapacidade no cumprimento de suas tarefas. Foram ainda criadas diversas comissões (guerra, finanças, ensino etc.) compostas pelos delegados com o objetivo de cumprir as tarefas estipuladas. Essas comissões foram ainda apoiadas por diversos comités populares formados na cidade.
Com o advento da “Comuna”, foi adotada em Paris a igualdade civil de homens e mulheres (apesar de, estas ainda não poderem votar), supressão do trabalho noturno, supressão do exército permanente para a formação de milícias cidadãs, separação entre Estado e Igreja, ensino laico, gratuito e politécnico; a possibilidade de eleição dos estrangeiros, limitações ao trabalho feminino e infantil, criação da pensão para viúvas e crianças, fim de multas sobre salários, entrega das fábricas abandonadas aos trabalhadores, entre outros.
Apesar dessas realizações e das dificuldades em levar adiante uma experiência de governo nova, influiu ainda contra os comunardos (como eram conhecidos os membros da Comuna) a deflagração de uma Guerra Civil, opondo os habitantes da capital contra as tropas comandadas por Thiers, apoiadas por destacamentos prussianos, e a partir do dia 2 de abril iniciaram-se os bombardeamentos a Paris, com os comunardos a sofrerem pesadas baixas.
Ao longo das semanas as baixas foram-se intensificando, o número bélico das forças de Thiers era muito superior ao da “Comuna”. A derrota veio na semana do dia 22 a 28 de maio de 1871, denominada de “Semana Sangrenta”, em que a resistência popular organizada nos vários distritos de Paris não conseguiu controlar os soldados franceses e prussianos. Mais de 20 mil comunardos foram mortos em batalhas ou execuções, milhares foram deportados e outros 15 mil foram presos.
Apesar do curto período de existência, a “Comuna de Paris” esteve na memória coletiva do movimento operário, sendo a sua experiência evocada em vários processos revolucionários posteriores, como a Revolução Russa de 1917, a Revolução Alemã de 1918-1919, a Guerra Civil Espanhola de 1936-1939, o Maio de 1968 na França e a Revolução Portuguesa de 1974-1975.
Texto retirado do futuro livro “365 dias de História”.
Luís M. Cunha.
Bibliografia:
Matéria sobre a Comuna REVISTA NOVOS TEMAS, 2011; Gurvitch, Georges. Proudhon e Marx. Ed. Presença - Portugal, Martins Fontes - Brasil,1980; Rougerie, Jacques, La Commune de 1871; Tombs, Robert, "How Bloody was la Semaine sanglante of 1871? A Revision". The Historical Journal, September 2012, vol. 55; Lissagaray, Prosper-Olivier (1876), Histoire de la Commune de 1871, La Decouverte/Poche (2000); https://pt.wikipedia.org/.../pt.../wiki/Comuna_de_Paris. Consultado em 10 de novembro de 2018; https://www.historiadomundo.com.br/.../comuna-de-paris. Consultado em 10 de novembro de 2018;
A revolta que deu origem à Comuna de Paris

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