terça-feira, 2 de abril de 2019

Sobre Sindicatos e Sindicalização

Algumas notas sobre o relatório do Banco de Portugal sobre sindicatos e sindicalização com dados de 2010. Segundo este relatório:
-A Fiequimetal abrange 25% dos trabalhadores assalariados contados por este estudo (certamente baseado no INE). É a federação mais abrangente quanto ao potencial de trabalhadores que pode sindicalizar.
-O CESP (sindicato de comércio e serviços) é a estrutura sindical mais abrangente a seguir à Fiequimetal sendo que que abrange cerca de 20% dos trabalhadores assalariados contados por este estudo.
-Importa clarificar que quando digo "abrangente" refiro-me ao potencial número de trabalhadores sindicalizados caso a sindicalização chegasse a 100% dos trabalhadores de sectores incluídos dentro destes sindicatos e federações sindicais - isto é a percentagem destes sectores no total de assalariados de Portugal. Esta percentagem é portanto muito diferente da percentagem de sindicalizados nos sectores ligados a estes sindicatos.
-A indústria transformadora inclui a esmagadora maioria dos trabalhadores abrangidos pela Fiequimetal (mais de 24%) mas quando olhamos para taxas de sindicalização que estão discriminados em 3 casos: os trabalhadores da indústria transformadora têm cerca de 12% de sindicalização, os trabalhadores da indústria extractiva têm semelhante taxa de cerca de 12% de sindicalização e é curioso o caso dos trabalhadores do sector eléctrico que têm mais de 60% de sindicalização. É difícil de perceber estes 60% de sindicalização do sector eléctrico pela sua pouco visível actividade sindical mas acima de tudo é difícil de perceber porque o Estado burguês e os seus órgãos dão ênfase a este sector colocando-o num item aparte (ainda para mais enfatizando uma alta taxa de sindicalização) quando por exemplo não colocam um item aparte para o sector petrolífero que esta diluído dentro do sector da indústria transformadora.
-O sector do comércio em que se move o CESP previsivelmente tem uma taxa de sindicalização de menos de 5%, muito inferior às taxas de sindicalização nos sindicatos da Fiequimetal.
-O sector dos transportes é um sector estratégico como todos sabemos e tem uma taxa de sindicalização de mais de 31%, sendo que conta com 5% do total de assalariados. Conta com a sua própria federação da CGTP que é a Fectrans.
-Neste estudo de 2010 o sector da construção civil tinha uma taxa de sindicalização de menos de 3% apesar de abranger um considerável número do total de assalariados, 11%. Sabemos que este sector foi quase reduzido a zero nos anos de crise económica recente e provavelmente já recuperou parcialmente mas é um sector particularmente vulnerável a falências fraudulentas e a despedimentos em massa.
-Considerando os sectores industriais todos, o sector da construção civil, o sector dos transportes, indústria transformadora, indústria extractiva, sector eléctrico, o sector das águas e saneamento e informação e comunicação, a classe operária industrial abrange cerca de 40% do total de assalariados. Apesar de haver diferenças grandes de taxas de sindicalização dentro destes sectores, as altas taxas de sindicalização são a norma na maior deles e elas concentram-se em poucas estruturas sindicais como a Fiequimetal e a Fectrans. No caso da Fectrans ao longo das últimas décadas isto correspondeu a maior actividade grevista embora com capitulações chave a quando da entrada do presente governo burguês (a geringonça).
-É um dado recorrente deste e de muitos outros estudos que a sindicalização tem baixado drasticamente desde o fim do prec (desde o golpe de 25 de Novembro de 1975). Nomeadamente há dados e estimativas que referem 60% de sindicalização geral de todos os sindicatos em 1978 e uma redução para 19% em 2014. Este estudo do Banco de Portugal calcula que a taxa de sindicalização era já apenas de 11% em 2010. E este número é me confirmado por várias fontes burguesas e do Estado burguês. A própria CGTP e UGT admitem publicamente a alguns jornais burgueses que o seu número de filiados diminuiu significativamente (apesar do aumento de sindicalizados no caso especial do sector do turismo). A CGTP também admite publicamente que a taxa de sindicalizados no sector do Estado é muito superior à taxa de sindicalizados no sector privado. E isto corresponde claramente a muito maior visibilidade das greves da CGTP no sector do Estado. Não são dados números exactos dos sindicalizados no sector do Estado mas fala-se nos jornais burgueses que a taxa de sindicalizados no sector privado baixou para 8% nos últimos anos.
-É curioso que os congressos da CGTP debatem problemas financeiros e medidas administrativas para os conter mas não a questão da diminuição importante do número de sindicalizados. São as forças burguesas liberais e sociais-democratas, como o PS e o Bloco de Esquerda, as Universidades burguesas e outros órgãos do Estado burguês que escrevem estudos sobre esta questão com o claro intuito de um dia tomarem controlo da CGTP, que ainda é maioritária e ligada ao PCP. Se o PCP pratica uma espécie de amadorismo reformista, o PS e o BE são os mais competentes profissionais da conciliação de classes.
-Salta à vista que o sector bancário (abrangendo menos de 4% dos assalariados), que é um bastião da UGT e do mais desbragado e histórico sindicalismo amarelo, tem uma taxa de sindicalização de mais de 63%. Se isto não é aristocracia operária como poder explicá-lo? Certamente não é pela actividade grevista no sector bancário que é praticamente nula. Também não é de estranhar que as tácticas mafiosas da UGT em conluio com os patrões façam da sindicalização uma decisão forçada sob chantagem como sabemos que acontece nos barcos turísticos do rio douro. Mas isto coloca outra questão maior que alcança tanto UGT como CGTP que é o caso de tantos sindicatos que não apenas não fazem quaisquer greves (nem quando exigida pelos trabalhadores) como não têm praticamente actividade nenhuma (nem assembleias nem eleições) e se fecham nos seus escritórios. Os sindicatos sem a participação dos trabalhadores são uma fraude, uma fonte de parasitagem e de corrupção face aos patrões.


Loukianos Stathopoulos

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