Algumas notas sobre o estudo "As greves e a austeridade em Portugal: Olhares, expressões e recomposições" de Hermes Augusto Costa, Hugo Dias e José Soeiro.
-Este estudo provém do Centro de estudo Sociais da Universidade de Coimbra que é conhecido pelo seu carácter reformista social-democrata, nomeadamente pela pela sua proximidade ao Bloco de Esquerda e ao PS. Aqui se destaca o dirigente do BE, José Soeiro e o académico reformista, Hermes Augusto Costa. Em outros trabalhos ligados a estas mesmas pessoas aparece o ex-líder da CGTP e ex-dirigente do PCP, Manuel Carvalho da silva.
-Este estudo é particularmente útil para comparar taxas de sindicalização com a dimensão e intensidade das greves por sector e por sindicato.
-Conclui-se por este estudo que obviamente em termos gerais a taxa de sindicalização tende a ser proporcional à dimensão e intensidade das greves. Isto é particularmente verdade olhando para o movimento sindical como um todo. Em termos de sectores muitas vezes verifica-se o que li em outro relatório da CGTP que diz que uma parte importante dos trabalhadores não sindicalizados fazem greve e uma parte importante dos trabalhadores sindicalizados não fazem greve (estes últimos a CGTP atribui principalmente à UGT, mas na CGTP também há muitos e por responsabilidade das cúpulas sindicais).
-Este estudo indica uma taxa de sindicalização geral de 19% em 2010.
-São particularmente analisados os anos de crise capitalista de 2010 a 2012. As fontes são dados do governo burguês de turno.
-Entre 2010 e 2012 os sectores com maior participação de trabalhadores em greve são o sector dos transportes, o das indústrias transformadoras e o sector da saúde. O sector dos transportes destaca-se de muito longe em relação aos outros e chega a ter perto de 30% dos trabalhadores do sector em greve.
-Outros dados deste mesmo estudo mostram como entre 2007 e 2013 há um grande aumento da percentagem dos trabalhadores "da administração directa e indirecta do Estado" em greve chegando a um máximo de perto de 30% em 2011 no auge da crise capitalista - é de destacar que o sector dos transportes era até esse momento quase todo do Estado e que contribui muito para estes números. Mas é no mínimo estranho que os trabalhadores abrangidos neste quadro dos trabalhadores "da administração directa e indirecta do Estado" em greve entre 2007-2013 aumentem para o dobro entre 2008 e 2010, o que permite concluir que os dados do governo são falseados de forma a que a participação real dos trabalhadores em greve foi muito maior.
-Um quadro específico sobre as greves dos trabalhadores "da administração directa e indirecta do Estado" (2007-2013) e outro quadro sobre as greves em todos os sectores indiferenciados entre Estado e privado (2010-2012) não batem certo em relação ao número muito mais alto de trabalhadores do Estado a participar em greves no quadro específico sobre as greves dos trabalhadores do Estado. Este é um dos muitos elementos que mostram a pouca exactidão dos números fornecidos pelo Estado sobre as greves. Permite-me colocar a hipótese de que tanto as confederações sindicais como o Estado burguês se sentirem mais confortáveis a dar ênfase ao sindicalismo dos trabalhadores do Estado em detrimento dos trabalhadores do sector privado.
-O olhar crítico e de dúvida sobre fontes de informação burguesas é sempre essencial mas creio que este estudo permite ver e confirmar algumas tendências essenciais. Por exemplo o facto do sector dos transportes ter de longe a maior actividade grevista e o facto de isso corresponder a uma alta taxa de sindicalização. Em sentido contrário o estudo mostra que o bastião amarelo do sector bancário com uma alta taxa de sindicalização (mais de 60%) não corresponde a uma alta taxa de participação em greves. Confirma-se uma grande participação em greves no sector eléctrico que corresponde um pouco à sua alta taxa de sindicalização, ainda que muito abaixo do sector dos transportes. Em geral verifica-se um aumento do número de greves nos anos da crise tanto no sector do Estado como no conjunto dos sectores do Estado e do sector privado.
-É a minha convicção também suportada por estes números que os sindicatos do sector dos transportes poderiam ter derrotado todas as tentativas de privatização do sector dos transportes em curso durante o fim do governo do PSD e o início do governo do PS através das greves generalizadas do sector e que o sacrificar dos trabalhadores da CP Carga e da TAP neste processo foi uma traição das cúpulas sindicais nomeadamente da Fectrans e da CGTP (sempre com a preciosa ajuda da UGT para agradar aos patrões e aos governos burgueses).

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