quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Uma Moral Nova e Superior

                                       Uma Moral Nova e Superior

“ Ser comunista não consiste apenas em ter um objectivo político e lutar pela sua realização. Ser comunista não é apenas uma forma de agir politicamente. É uma forma de pensar, de sentir e de viver.” Pág 195

Quando este livro foi publicado muitos comunistas disseram que foi escrito e dirigido a Gorbatchov, diziam até que era o seu livro de cabeceira. Na realidade este livro também foi traduzido para russo e lido por muito desses cidadãos.

Mas este livro foi escrito e publicado em português para os portugueses. Um livro dirigido aos membros da C. Politica, do Comité Central, das Organizações Regionais, das C. Concelhias e de Freguesia, das Células de Empresa e a todos os militantes e simpatizantes que o quisessem ler.

Desde 1985 (ano em que o livro foi publicado pela primeira vez) até hoje muitos comunistas esqueceram ou ignoraram o seu conteúdo, os seus ensinamentos, os princípios pelos quais os comunistas se devem orientar.

“A moral Comunista sofre o influxo criativo e formativo do ideal político e da prática revolucionária” pag 196

“…a luta contra o parasitismo e as injustiças sociais, pela igualdade dos seres humanos independentemente do sexo, da nacionalidade e da raça, as vitórias e realizações na construção do socialismo, as exigências e sacrifícios que aos militantes coloca a prática revolucionária, exercem poderosa influência na formação dos conceitos morais, acentuando os traços de generosidade, de dedicação, de isenção, de respeito pelos outros, de respeito pela verdade, de coragem, de sacrifício, de heroísmo.”

Pelo que assisto por aqui nas redes sociais há um retrocesso assustador na defesa e na prática dos princípios que nos devem nortear.

- Vê-se por aqui a instigação ao ódio, ao insulto, contra os que não alinham na propaganda do sistema, nomeadamente em relação a esta questão actual do covid 19, todos os que questionarem são apelidados de reacionários, de terraplanistas, de estarem ao serviço da direita e dos  negacionistas, dos trumpistas, dos bolsonaristas, dos cheguistas e de muitos outros istas…. Vejo aqui gente que publica uma foto da moca de Rio Maior como argumento contra os seus camaradas que questionam o discurso oficial (talvez tenham esquecido que essas mocas foram utilizadas pelos terroristas em 1975 para espancarem, assassinarem e mal tratarem muitos comunistas e democratas)

- Aparecem por estas badas pessoas com o emblema no casaco, com a bandeira na janela mas que são racistas, que não podem com ciganos nem pretos, nem refugiados;

Para os defensores da verdade só a verdade deles conta. Dentro ou fora, por muito que outros tenham preocupações, duvidas e as coloquem à discussão são automaticamente barrados e apelidados de contrarrevolucionários, de estarem ao serviço de interesses obscuros, de estarem do outro lado da barricada, etc.etc.

Hoje um desses senhoras da verdade absoluta bloqueou-me porque contestei a sua forma de argumentar e o ódio que estava a instigar com os seus artigos jornalísticos com os seguintes argumentos:

 eu vou bloquear-te

Bruno

não quero na minha lista gente que se diz comunista e que anda a espalhar mentiras como os fascistas do Chega

Enter

Bruno

os camaradas cubanos iam rir-se na tua cara quando ouvissem as tuas mentiras

Enter

Bruno

 

é muito triste ver gente a contribuir para o discurso da direita

 

Tudo isto porquê, porque lhe apresentei um conjunto de dados oficiais, pediu-me provas, disse-lhe para pesquisar que tudo estava na página da DGS. També o critiquei por fazer artigos de apelo ao ódio contra todos os que não estão com o discurso oficial.

 

Fez bem. Que passe bem e seja feliz na sua profissão de jornalista.

 

Para todos este o meu conselho é que tirem o pó ao livro que têm lá na prateleira,  voltem a ler ou leiam pela primeira vez, meditem e tentem levar à prática os ensinamentos que Álvaro Cunhal nos deixou.


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Daniel Ortega traiu a Revolução sandinista


 Miguel Urbano Rodrigues     12.Nov.16

A trajectória pessoal e política de Ortega, agora reeleito presidente da Nicarágua, é um caso de estudo. De dirigente da luta armada anti-somozista a possuidor de uma fortuna pessoal que supera a que o próprio Somoza extorquiu ao seu povo, de lutador pelo socialismo a patriarca de uma família de oligarcas, o sucesso de Ortega é o insucesso da libertação do seu povo.

Daniel Ortega foi reeleito presidente da Nicarágua. É o terceiro mandato consecutivo.

O principal partido da oposição apelou ao boicote, mas a abstenção foi inferior à prevista pelas sondagens.

A vitória do candidato sandinista foi bem recebida pelo governo de Obama. As relações económicas dos EUA com a Nicarágua são aliás consideradas corretas pelo Departamento de Estado.

Paradoxalmente, Ortega não abdicou do discurso de esquerda, cultivando uma imagem anti-imperialista que lhe permitiu nos últimos anos manter relações privilegiadas com Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e alguns partidos comunistas.

Mas a fachada progressista do regime é hoje incompatível com a realidade politica, social e económica do país.

Desde que perdeu as eleições presidenciais em 1990 Daniel Ortega imprimiu à FSLN uma orientação que deslocou gradualmente para a direita o partido revolucionário fundado por Carlos Fonseca Amador, que destruiu a ditadura de Somoza numa luta épica de anos. Fonseca, que foi o ideólogo da guerrilha, era um marxista criativo e talentoso. Conseguiu o que parecia impossível: unificou as três tendências da organização revolucionária, obtendo no combate ao somozismo o apoio da Igreja, dos sindicatos, dos trabalhadores e de intelectuais liberais.

A vitória da FSLN, dirigida por Daniel Ortega e um punhado de comandantes com prestígio internacional, gerou uma grande esperança na América Latina. Transcorrida mais de uma década da morte do Che na Bolívia, os Sandinistas demonstraram que em circunstâncias excecionais a luta armada podia enfrentar e derrotar regimes apoiados pelo imperialismo.

Tive a oportunidade em 1983 de visitar a Nicarágua revolucionária e conhecer alguns dos comandantes sandinistas nesses dias em que a FSLN mobilizava a solidariedade das forças progressistas da América Latina e da Europa.

No exercício do poder, o governo da FSLN não demonstrou porem a mesma lucidez e firmeza da organização guerrilheira.

Alvo de uma ofensiva permanente do imperialismo americano, que financiou e armou os mercenários contra-revolucionários, a Frente Sandinista fracassou na tarefa de reconstruir a economia e perdeu gradualmente o apoio de amplos setores da população.

Cedendo a pressões de Washington, Ortega – contra a opinião de Fidel Castro - convocou eleições para a Presidência en 1990. A campanha eleitoral da oposição foi generosamente financiada pelos EUA. O desfecho foi a eleição da liberal Violeta Chamorro e ficou a assinalar o fim inesperado da Revolução Sandinista.

A CRISE DA FSLN

A Frente Sandinista mergulhou numa crise profunda logo após o seu afastamento do governo.

Daniel Ortega candidatou-se à Presidência nas eleições seguintes, tendo perdido novamente. Mas não foi uma surpresa a sua eleição em 2006. O desfecho era esperado.

Alguns dos comandantes mais destacados que haviam participado da guerra contra Somoza tinham rompido com Ortega por discordarem da guinada à direita que o ex-presidente imprimira ao partido. Entre outros, Ernesto Cardenal, Luis Carrion e Victor Tirado.

Ortega tinha optado por uma politica de alianças incompatível com os princípios e a ideologia do sandinismo,
Firmou nomeadamente um acordo com o ex-presidente Arnoldo Aleman, condenado a 20 anos de prisão por corrupção e branqueamento de capitais. Aleman fora, sublinhe-se, um somozista esforçado.

ROSARIO MURILLO, «A BRUXA»

Foi sobretudo a mulher, Rosario Murillo, que teve um papel decisivo na metamorfose do dirigente máximo da FSLN.

Professora, escritora, poeta, Rosario, que foi também guerrilheira, é uma católica fervorosa.

Amiga pessoal desde a juventude do arcebispo de Manágua, defendeu sempre a necessidade de boas relações com a Igreja. Teve o descaramento de propor o seu nome para o Premio Nobel da Paz.

Fez o marido esquecer que Don Miguel Obando y Bravo fora admirador de Anastasio Somoza e apoiara a contra-revolução.

Elevado a Cardeal, Obando cimentou uma íntima aliança com Daniel Ortega quando este voltou à Presidência em 2007.

Rosario, reeleita vice-presidente, concentra hoje nas suas mãos um enorme poder e acumulou em negócios ilícitos, uma fortuna colossal.

Ocorreu o inimaginável. A família Ortega-Murillo concentra hoje mais riqueza do que Somoza no auge da sua ditadura.

Quatro dos filhos de Daniel são multimilionários. Laureano negociou com a China o projeto de construção do Canal que ligará através da Nicarágua o Atlântico ao Pacifico, obra faraónica que ameaça arruinar o Canal do Panamá. Juan controla o audiovisual. Outros irmãos enriqueceram com a distribuição de petróleo barato recebido da Venezuela bolivariana. Um regabofe!

Rosario, conhecida pela alcunha de “Bruxa”, é a personalidade que domina a família e o governo.

DE HERÓIS A GRANDES EMPRESÁRIOS

A crise da FSLN principiou com a deserção de Sergio Ramirez, que foi vice-presidente da República no primeiro governo de Ortega.
Sergio, que estudou na Alemanha, era um social-democrata mascarado de revolucionário. Escritor de talento, passou em tempo mínimo de sandinista a inimigo da Revolução.

Seguiram-se outras ruturas com o passado, mais graves.

Humberto Ortega, irmão de Daniel, foi durante a luta armada o principal estratego da guerrilha. Ministro da Defesa após a vitória, reformou o exército e aderiu à esdruxula doutrina do «centrismo». Recebeu inclusive a medalha do mérito militar dos EUA. A sua adesão ao capitalismo não surpreendeu. Enriqueceu no negócio das madeiras.

O ministro da Agricultura de Daniel, Jaime Weelock, é hoje um próspero empresário. Bayardo Arce, outro dos comandantes da insurreição, também enriqueceu rapidamente.

Daniel Ortega repete com frequência que a situação económica do país melhorou acentuadamente. Mas não diz que a Nicarágua recebeu durante os seus governos 4 800 milhões de dólares de organizações financeiras internacionais tuteladas pelos EUA.
Do FMI tem recebido elogios.

Daniel Ortega insiste em afirmar que pratica uma política de esquerda. Não se abstém de criticar o imperialismo nos seus discursos enquanto elogia Cuba e a Venezuela bolivariana. Mas Washington considera inofensiva essa oratória.

Poder-se-ia inferir deste artigo que encaro com pessimismo o futuro do povo Nicaraguense. Seria uma conclusão errada. A memória de Sandino, de Carlos Fonseca e da gesta heroica da insurreição guerrilheira que destruiu a ditadura de Somoza permanece viva no povo da Nicarágua. Um dia ele retomará a luta rumo ao socialismo interrompida pela traição de Daniel Ortega.

Estou consciente de que um governo do partido de extrema-direita seria pior do que o de Ortega-Murillo. Mas indigna-me a hipocrisia dos media e dirigentes de esquerda que insistem em caracterizar o governo de Ortega como revolucionário.

Vila Nova de Gaia, Novembro de 2016

Ver aqui:

E aqui:

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Há 28 anos um povo lutou contra os eucaliptos. E a terra nunca mais ardeu

 

Em 1989 houve uma guerra no vale do Lila, em Valpaços. Centenas de pessoas juntaram-se para destruir 200 hectares de eucaliptal, com medo que as árvores lhes roubassem a água e trouxessem o fogo. A polícia carregou sobre a população, mas o povo não se demoveu.

«Foi o nosso 25 de Abril», diz Maria João Sousa, que tinha 15 anos quando a revolução chegou à sua terra. No dia 31 de março de 1989, a rebate do sino, 800 pessoas juntaram-se na Veiga do Lila, uma pequena aldeia de Valpaços, e protagonizaram um dos maiores protestos ambientais que alguma vez aconteceram em Portugal.

A ação fora concertada entre sete ou oito povoações de um escondidíssimo vale transmontano, e depois juntaram-se ecologistas do Porto e de Bragança à causa. Numa tarde de domingo, largaram todos para destruir os 200 hectares de eucalipto que uma empresa de celulose andava a plantar na quinta do Ermeiro, a maior propiedade agrícola da região.

À sua espera tinham a GNR, duas centenas de agentes. Formavam uma primeira barreira com o objetivo de impedir o povo de arrancar os pés das árvores, mas eram poucos para uma revolta tão grande.

Em 1989 houve uma guerra no vale do Lila, em Valpaços. Centenas de pessoas juntaram-se para destruir 200 hectares de eucaliptal, com medo que as árvores lhes roubassem a água e trouxessem o fogo. A polícia carregou sobre a população, mas o povo não se demoveu.

«Foi o nosso 25 de Abril», diz Maria João Sousa, que tinha 15 anos quando a revolução chegou à sua terra. No dia 31 de março de 1989, a rebate do sino, 800 pessoas juntaram-se na Veiga do Lila, uma pequena aldeia de Valpaços, e protagonizaram um dos maiores protestos ambientais que alguma vez aconteceram em Portugal.

A ação fora concertada entre sete ou oito povoações de um escondidíssimo vale transmontano, e depois juntaram-se ecologistas do Porto e de Bragança à causa. Numa tarde de domingo, largaram todos para destruir os 200 hectares de eucalipto que uma empresa de celulose andava a plantar na quinta do Ermeiro, a maior propiedade agrícola da região.

À sua espera tinham a GNR, duas centenas de agentes. Formavam uma primeira barreira com o objetivo de impedir o povo de arrancar os pés das árvores, mas eram poucos para uma revolta tão grande.

A polícia respondeu com uma carga à população, mas revelou-se incapaz de travar os avanços de 800 populares sobre a propriedade. [Arquivo JN]
«Naquele dia ninguém sentia medo. Eles atiravam tiros para o ar e parecia que tínhamos uma força qualquer a fazer-nos avançar»
Maria João Sousa

Maria João, que nesse dia usava uma camisola vermelha impressa com a figura do Rato Mickey, nem deu pelo polícia que lhe agarrou no braço. «Ide para casa ver os desenhos animados», atirou-lhe, mas a rapariga restaurou a liberdade de movimentos com um safanão: «Estava tão convicta que não sentia medo nenhum. Naquele dia ninguém sentia medo nenhum. Eles atiravam tiros para o ar e parecia que tínhamos uma força qualquer a fazer-nos avançar.»

A tensão subiria de tom ao longo da tarde. «Houve ali uma altura em que pensei que as coisas podiam correr para o torto», diz agora António Morais, o cabecilha dos protestos. Havia agentes de Trás os Montes inteiros, da Régua e de Chaves, de Vila Real e Mirandela.

Mas também lá estava a imprensa, e ainda hoje o homem acredita que foi por isso que a violência não escalou mais. Algumas cargas, pedrada de um lado, cacetadas do outro, mas nada que conseguisse calar um coro de homens e mulheres, canalha e velharia: «Oliveiras sim, eucaliptos não».

«Não queríamos arder aqui todos»

A guerra tinha começado a ser preparada um par de meses antes, quando António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptal para a indústria do papel. «Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população», revolta-se ainda, 28 anos depois.

«Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.» Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.

Ver aqui:

sábado, 22 de maio de 2021

O 25 de Abril

 

Luis Marques


Momento com a História

No dia 25 de abril de 1974, uma falange das Forças Armadas Portuguesa, levam a cabo um golpe militar que viria a ficar conhecido como a “Revolução dos Cravos”, pondo fim ao regime totalitário do Estado Novo vigente desde 1933.
O nome ”Revolução dos Cravos”, deve-se a Celeste Caeiro, uma florista, filha de mãe espanhola, foi ela a responsável pelo nome que a revolução tomou. Os militares empunharam as armas, os jornalistas deram voz e relataram os acontecimentos, mas foi ela e os seus simples cravos, únicas flores que tinha e que colocou nas armas do militares que estavam no Chiado, que deram nome ao golpe que acabou com várias décadas de um estado totalitário. Foi esta mulher de pouco mais de um metro e meio de altura, que foi distribuindo cravos vermelhos e brancos que haveriam de entrar nos livros de história.
A Revolução de 25 de abril de 1974, liderada por um movimento militar, o MFA (Movimento das Forças Armadas), composto na sua maioria por capitães que tinham participado na chamada “Guerra Colonial”, a que se lhes juntou alguns oficiais milicianos de patentes inferiores. Este movimento viria a depor o regime totalitário vigente, culminando com a implantação de um regime democrático.
O nascimento do Movimento dos Capitães deu-se em 1973, e designação original, está ligado à publicação de dois Decretos-Leis: o primeiro n.º 353, de 13 de julho de 1973 e o segundo n.º 409, de 20 de agosto do mesmo ano, com os quais, o regime liderado pelo Professor Marcello Caetano pretendia resolver o problema da falta de oficiais com que o Exército se debatia perante a continuação da Guerra Colonial. Todavia, a evolução do movimento não deve ser entendida apenas como um perspetiva corporativista, já que a contestação ao regime não abrandou com a suspensão dos dois diplomas, e exoneração do Ministro da Defesa, Sá Viana de Rebelo. As reuniões destes militares continuaram e o movimento politizou-se.
A recusa de Marcello Caetano em aceitar uma solução política para a guerra levou a que os oficiais de nível intermédio, os que na realidade suportavam o combate no teatro de operações, percebessem que o fim do conflito passava pelo derrube do regime do Estado Novo.
Os capitães sabiam ser este também o sentimento geral da população portuguesa, cansada de uma guerra sem sentido, e de um regime totalitário que em boa da verdade; diga-se, já durava desde o golpe militar de 28 de maio de 1926, agravando-se o mesmo, com a entrada em vigor da Constituição portuguesa de 1933, que institucionaliza os Estado Novo, ou Segunda República Portuguesa, e que veio dar a Oliveira Salazar, o poder total sobre o País, que governou até 27 de setembro de 1968, quase até às porta da sua morte, ocorrida em 27 de julho de 1970. Mas sabiam ainda, pós a publicação em fevereiro de 1974, do livro do General Spínola “Portugal e o Futuro”, que podiam contar com o apoio dos seus chefes militares.
As reuniões efetuadas pelos militares em: 18 de agosto de 1973, em Bissau; 21 de agosto, em Lisboa; 9 de setembro, em Alcáçova; 6 de outubro, reunião quadripartida; em 24 de Novembro, em São Pedro do Estoril; 1 de dezembro, em Óbidos; 5 de dezembro, na Costa da Caparica e 5 de março, em Cascais, vieram a ser fulcrais para a organização do golpe.
A primeira reunião, que teve lugar na Guiné, juntou na sal de jogos “do Clube Militar de Bissau cerca de duas dezenas de capitães. Como frisou Carvalho (1984, p. 132), “foi em Bissau que se formou a «Comissão do Movimento dos Capitães», que teve como missão preparar um projeto de carta para enviar ás mais altas individualidades do Estado, visando revelar o descontentamento dos signatários face aos decretos publicados”.
Outras reuniões que marcaram de forma decisiva o percurso da contestação foi a de 24 de novembro de 1973, que teve lugar em São Pedro do Estoril, na Colónia Balnear de O Século, na qual, pela primeira vez, foi defendida abertamente a teoria do golpe militar, cabendo ao tenente-coronel Luís Banazol a arrojada proposta de ser efetuada uma revolução armada seja qual for o seu preço e as suas consequências e alguns dias depois, a reunião de 1 de dezembro desta vez em Óbidos, dirigida por “Vasco Lourenço, Vítor Alves, Hugo dos Santos e Lopes Pires”. Aqui foram apresentados à votação três cenários alternativos: Golpe militar; Continuação da luta contra os Decretos- Leis 353/73 e 409/73, com perspetivas de passar a golpe militar; e continuação da luta legislativa contra os Decretos.
Foi aprovada a última hipótese por cento e setenta e três votos a favor, sendo que a primeira teve cento e vinte e cinco e a segunda alternativa apenas obteve onze. Porém, a que contemplava o golpe militar ganhava apoios, verificando-se que uma larga faixa dos participantes a admitia abertamente. Começou, então, a desenvolver-se o carácter revolucionário da contestação. Nesta reunião, o Movimento dos Capitães passou a designar-se por “MOFA”, como forma de “ultrapassar o âmbito do Exército e alargar o Movimento aos outros ramos das Forças Armadas.
No dia 5 de Dezembro realizou-se nova reunião da Comissão Coordenadora, na Costa da Caparica, se elegeu um órgão executivo constituído pelos majores Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves e o capitão Vasco Lourenço. Foi, também, criado um grupo de trabalho para elaborar o Programa do MOFA, coordenado pelo major Melo Antunes e constituído pelos tenentes-coronéis Lopes Pires, Franco Charais e Costa Brás, major Hugo dos Santos e coronel Vasco Gonçalves, do Exército, capitão-tenente Vítor Crespo, 1º tenente Almada Contreiras, da Marinha, majores Morais e Silva e Seabra e o capitão Pereira Pinto, da Força Aérea.
A 5 de Março de 1974, teve lugar em Cascais, no ateliê do arquiteto Braula Reis, amigo do major Sanches Osório, outra reunião, em que participaram elementos do Exército, Armada e Força Aérea, onde foi aprovado o documento “O Movimentos das Forças Armadas e a Nação, apresentado pelo major Melo Antunes, que constituiu o primeiro documento político produzido pelos oficiais conjurados.
A estrutura organizativa registou alterações ao longo do processo de contestação e mais tarde na preparação do golpe de 25 de Abril. De entre os diferentes elementos que integraram essa estrutura ao longo do referido trajeto importa destacar três elementos que foram decisivos na organização do Movimento, na preparação do golpe e na condução dos objetivos políticos: o capitão Vasco Lourenço, o major Otelo Saraiva de Carvalho e o major Melo Antunes. Entretanto, o MOFA, por proposta de Spínola, transforma-se em MFA “para subentender a adesão de sargentos e praças” dando-lhe assim um cariz mais abrangente.
Quando as tropas saíram para a rua, os objetivos definidos caíram nas suas mãos, um após outro: a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português «RCP», a RTP, o Banco de Portugal, a Marconi, os Ministérios, o Aeroporto de Lisboa e, por fim, o Quartel do Carmo, onde se refugiava Marcello Caetano. Bastaram dezassete horas e quarenta e cinco minutos para a operação militar que abateu o Estado Novo. Um regime, sem força anímica, sem vontade de continuar e sem tropas fiéis, não esboçou qualquer iniciativa importante que tivesse por objetivo contrariar a cação das tropas revoltosas. O poder seria transmitido, por Marcello Caetano, ao general António de Spínola, que tinha sido mandatado pelo MFA para essa missão.
Resta lembrar que o sucesso desta revolução se devem aos valorosos militares, destacando particularmente: Melo Antunes, “O Estratega”; Otelo Saraiva de Carvalho, “O Impetuoso”; Salgueiro Maia, “O destemido” e não esquecer o papel fundamental que um herói, um simples cabo de nome José Alves da Costa da Povoa do Varzim, que desafiou as ordens de um brigadeiro do regime, Junqueira dos Reis, para disparar sobre os seus camaradas de armas. O próprio Salgueiro Maia deixou marcada para sempre a importância desse momento decisivo: "Aqui é que se ganhou o 25 de Abril". Neste dia, os agentes da DGS foram os únicos que reagiram abrindo fogo e provocando vítimas mortais entre os civis, registando-se quatro mortos e quarenta e cinco feridos.
Como diria o Professor Adriano Moreira num dos seus livros publicado em 1985: «É saber antigo que um regime forte, apoiado nas Forças Armadas, não pode ser derrubado senão na sequela de uma guerra perdida que destrua o exército, ou por revolta do exército».
Texto retirado do futuro livro “365 dias de História”.
Luís M. Cunha.
Bibliografia:
Carvalho, Luís Pedro Carvalho. ”O Movimento dos Capitães, do MFA e o 25 de Abril: Do Marcelismo à Queda do Estado Novo”. Dissertação de Mestrado em Ciência Política”, Universidade Lusófona, Lisboa. 2009; Barreto, António; Mónica, Maria Filomena. ”Dicionário de História de Portugal”. Lisboa, Livraria Figueirinhas, 2000. ISBN: 972-661-167-9; 25 de Abril: Uma revolução ao comando dos microfones – artigo de Marta Portocarrero, Universidade do Porto, 22 de abril, 2012; Cronologia pulsar da revolução (Centro de Documentação 25 de Abril); Valentim Alexandre.”A questão colonial na implantação do Estado Novo”. • Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.1993;
Três militares no dia 25 de abril de 1974, encostados a um carro de combate durante a “Revolução”

No dia 19 de maio de 1954, é assassinada Catarina Eufémia

 

Luis Marques

Momento com a Historia.

No dia 19 de maio de 1954, é assassinada Catarina Eufémia, no Monte do Olival, em Baleizão no concelho de Beja, Portugal. A trágica morte de Catarina Efigénia Sabino Eufémia, transformou-a num símbolo da resistência contra da ditadura do Estado Novo. Catarina com apenas 28 anos de idade, nascida em Baleizão no dia 13 de fevereiro de 1926, casada e mãe de três filhos, o mais novo com apenas oito meses de idade, encontrava-se ao seu colo, quando os tiros da pistola-metralhadora empunhado pelo tenente da Guarda Nacional Republicana lhe ceifaram a vida.
Catarina Eufémia, uma simples ceifeira que participava num grupo de 14 assalariadas, que tal como ela, protestavam contra o parco ordenado que o proprietário da seara lhes tinha pago, reivindicando um aumento diário de 2 escudos. Protestos nunca vistos daquela natureza, “um atentado à ordem natural das coisas” (no dizer do feitor da herdade “Penedo Gordo”), “se já as ceifeiras se recusam a trabalhar não aceitando a jorna fixada pelo agrário, onde é que isto irá parar!” E vai daí, marcha em direção a Beja chamar a Guarda Nacional Republicana.
Era altura da ceifa do trigo, havia que por cobro aquele protesto. O Estado Novo não pactuava com aquele tipo de insubordinações. A Guarda Nacional Republicana haveria de agir. E agiu, a vida de uma jovem mãe foi ceifada naquele fatídico dia, com o Estado Novo a ter mão pesada para aquele grupo de simples ceifeiras, que reivindicavam um quase nada da sua dignidade de trabalhadoras.
Força policial chega ao local, a troca de palavras com o tenente Carrajola é breve. Com este a perguntar que o pretendiam e Catarina (segundo se diz) a responder: «só queremos pão e trabalho». A força bruta impõem-se e Carrajola dá-lhe uma violenta bofetada que a derruba, Catarina terá dito: «Já agora, mate-me» e a pistola-metralhadora do tenente Carrajola dispara três balas que perfuram o corpo da simples ceifeira, causando-lhe morte imediata.
Se para o regime de Oliveira Salazar as mulheres e mães portuguesas eram muitas vezes a «voz da sensatez», e constantemente as elogiava, não se cansando de o fazer como ele próprio o dizia, porque eram elas: «as mães e esposas que desmobilizavam da atividade política filhos e maridos», ali, naquele local, a voz de Catarina Eufémia não era de desmobilização, mas sim uma voz de indignação pelo mísero salário que certamente um senhor do regime lhe estaria a pagar, e a força do poder cai sobre ela, não para a elogiar, mas para a silenciar.
O Diário do Alentejo de 21 de Maio de 1954, publicava a seguinte notícia: «Anteontem, numa questão entre trabalhadores rurais, ocorrida numa propriedade agrícola de Baleizão, e para que foi pedida a intervenção da G.N.R. de Beja, foi atingida a tiro Catarina Efigénia Sabino, de 28 anos, casada com António do Carmo, cantoneiro em Quintos. Conduzida ao hospital de Beja, chegou ali já cadáver.
A morte foi provocada pela pistola-metralhadora do Sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R. No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe. O funeral realizou-se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanhar o préstito, verificando-se impressionantes cenas de dor e de desespero. Segundo nos consta, o oficial causador da tragédia foi mandado apresentar em Évora».
Segundo o relatório da autópsia, Catarina Eufémia, «foi atingida por três balas, à queima-roupa, pelas costas, atuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostado ao corpo da vitima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vitima que era de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-mármore, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido». E, eis a figura que colocou em pânico um tenente da Guarda Nacional Republicana, para que este, sem hesitar, lhe desferir três tiros pelas costas, assassinando-a, como refere a sua autópsia.
A trágica morte de Catarina Eufémia transformou-a num símbolo da resistência à ditadura, imposta por Oliveira Salazar. Houve certamente uma abusiva apropriação partidária da sua imagem, porque, segundo é conhecido, ela nunca militou em nenhum Partido Político, mas os intelectuais e os artistas portugueses compreenderam que o seu exemplo e a sua morte transcendia a dimensão partidária, e artistas plásticos, como José Dias Coelho (ele sim ativista político), poetas e músicos, dedicaram-lhe composições, muitas delas concebidas antes do 25 de abril de 1974. O livro “A voz e o Sangue” de Carlos Loures, editado em 1968, e que lhe valeu a prisão efetuada pela PID durante alguns meses, tem uma extensa “Ode a Catarina Eufémia”.
Acrescente-se que o tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel,
e nunca veio a ser julgado em tribunal pelo assassinato de Catarina Eufémia. Morreu em 1964.
Texto retirado do futuro livro “365 dias de História”.
Luís M. Cunha.
Bibliografia:
Natália Santos, "Catarina Eufémia: (Des)Montagem de um Mito", Coimbra, 2005; Manuel de Melo Garrido, "A Morte de Catarina Eufémia. A Grande Dúvida de Um Grande Drama", Beja, edição da Associação de Municípios do Distrito, 1974; http://www.pcp.pt/o-campones: Consultado e arquivado em 25 de outubro de 2018
http://www.ges.pcp.pt/bibliopac/imgs/ocampones044.pdf: Consultado e arquivado em 25 de outubro de 2018; http://www.ges.pcp.pt/bibliopac/imgs/ocampones049.pdf: Consultado e arquivado em 25 de outubro de 2018; https://aviagemdosargonautas.net/.../catarina-eufemia.../: Consultado e arquivado em 25 de outubro de 2018;
http://projecto25a.blogspot.com/.../dirio-do-alentejo-21...: Consultado e arquivado em 25 de outubro de 2018;
Catarina Efigénia Sabino Eufémia

Momento com a Historia.Comuna de Paris

Luis Marques

 Momento com a Historia.

No dia 22 de maio de 1871, tem início em Paris a “Semana Sangrenta”, onde são executados mais de 20 mil pessoas, cerca de 15 mil foram feitos prisioneiros e alguns milhares foram deportados. Terminava deste modo sangrento, a primeira experiência da história de um governo formado por trabalhadores no interior de uma “Comuna”. Este acontecimento que também veio a ficar conhecido como o “assalto aos céus”, em virtude dos objetivos que os comunardos se propuseram realizar: “criar uma nova forma de organização da sociedade”.
A história moderna regista alguma experiência de regimes auto-intitulados comunais, impostos por grupos dissidentes em cidades específicas, mas, a mais relevante de todas elas, é sem dúvida a “Comuna de Paris”. Durante a Guerra Franco-Prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional Francesa uma maioria de deputados monarquistas francamente favorável à capitulação ante a Prússia. O que levou à maioria, senão a quase totalidade dos distritos de Paris, a realização de uma forma de governo controlado por trabalhadores e membros de classes populares de França. Este movimento ocorreu na capital francesa, entre 18 de março e 28 de maio de 1871.
A Comuna de Paris foi o resultado revolucionário da derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. A derrota francesa na Batalha de Sedan, em setembro de 1870, levou à queda do imperador Napoleão III e à formação de um governo republicano que passou a ser presidido por Adolphe Thiers, em janeiro de 1871. Uma eleição foi convocada para a Assembleia Nacional, cuja maioria de deputados eleitos em fevereiro do mesmo ano, era da ala conservadora do espectro político francês, principalmente ligada aos proprietários rurais.
Ao mesmo tempo, os exércitos prussianos, que se encontravam em território francês, impuseram um cerco a Paris. A população da capital havia organizado diversas manifestações contra a derrota do exército frente aos prussianos e também por melhorias nas condições de vida e trabalho a que estava submetida. Também na Guarda Nacional Francesa se verificava um crescendo de insatisfação, chegando mesmo, nos destacamentos locais a formar Comités, com vista à criação de uma estrutura federativa, que culminou pós algumas assembleias, na formação do Comité Central da Guarda Nacional.
Thiers, que havia assinado um armistício com o chanceler prussiano Otto von Bismarck em 26 de fevereiro, decidiu transferir a sede do governo para Versalles, pretendendo retomar a capital francesa que havia fugido de seu controle. Para isso, necessitava de conseguir os canhões e outras armas pesadas que estavam na posse da Guarda Nacional na capital. A 18 de março, de 1871, os destacamentos do exército dirigiram-se a Paris como esse intuito, mas foram derrotados pela resistência do Comité Central da Guarda Nacional, que também contou com o apoio de alguns soldados do exército insatisfeitos com Adolphe Thiers, que se solidarizaram com a população parisienses, tendo aqui um papel de destaque a população feminina que habitava os bairros operários da cidade, no alertar da Guarda Nacional da chegada do exército e na mobilização de soldados desse exército para o lado contrário.
Além da Guarda Nacional, a população de Paris já se estava organizando através dos chamados clubes revolucionários — associações políticas cujas origens remetiam à Revolução Francesa de 1789. Desses clubes foi formado o Comité Central Republicano de Defesa Nacional dos Vinte Distritos de Paris, que serviu de experiência para a formação da Comuna e também para a mobilização de defesa da cidade contra os prussianos.
Outra instituição que serviu de apoio e de fonte de experiência para a Comuna de Pais, foi a Associação Internacional dos Trabalhadores, que congregava organizações de trabalhadores de vários países e tinha na França e em Paris uma de suas principais forças. A AIT também se organizava de forma federativa, garantindo às várias secções nacionais autonomia em relação ao Conselho Geral, que estava sediado em Londres.
Nos dias posteriores à sublevação da Guarda Nacional contra o sequestro dos canhões, foi formada a “Comuna de Paris”, sob direção do Comité Central. Foram convocadas eleições para 28 de março, com o objetivo de escolher os delegados que formariam a Comuna. Dessas eleições, saíram eleitos 80 delegados, sendo que dos eleitos: 25 eram operários e 12 artesãos, os restantes 43 estavam divididos entre intelectuais, especialistas e alguns comerciantes representantes dos diversos distritos da capital. Havia várias correntes políticas representadas entre os eleitos, existindo membros da AIT, blanquistas, jacobinos, jornalistas radicais e várias outras correntes.
A “Comuna de Paris” é considerada por alguns historiadores, como a primeira república proletária da história, adotando uma política de caráter socialista, baseada nos princípios da Primeira Internacional dos Trabalhadores, criada em 28 de setembro de 1864 em Londres, na Inglaterra. Tanto Marx quanto Engels argumentaram que a “Comuna de Paris” foi um exemplo da ditadura do proletariado. O motivo pela permanência da “Comuna de Paris” nessa memória coletiva do movimento operário, esteve relacionado com o fato, de ter sido a primeira experiência de governo dos trabalhadores, cujas formas de organização não decorreram de elaborações teóricas, mas sim de práticas desenvolvidas em consonância com o que se conhecia e com os objetivos que se pretendia alcançar.
A inovação da “Comuna de Paris”, e que serviria de experiência para revoluções posteriores, foi a determinação de que os delegados e demais funcionários não poderiam receber salário maior que o de um operário qualificado e que seus mandatos poderiam ser revogados a qualquer momento, caso mostrassem incapacidade no cumprimento de suas tarefas. Foram ainda criadas diversas comissões (guerra, finanças, ensino etc.) compostas pelos delegados com o objetivo de cumprir as tarefas estipuladas. Essas comissões foram ainda apoiadas por diversos comités populares formados na cidade.
Com o advento da “Comuna”, foi adotada em Paris a igualdade civil de homens e mulheres (apesar de, estas ainda não poderem votar), supressão do trabalho noturno, supressão do exército permanente para a formação de milícias cidadãs, separação entre Estado e Igreja, ensino laico, gratuito e politécnico; a possibilidade de eleição dos estrangeiros, limitações ao trabalho feminino e infantil, criação da pensão para viúvas e crianças, fim de multas sobre salários, entrega das fábricas abandonadas aos trabalhadores, entre outros.
Apesar dessas realizações e das dificuldades em levar adiante uma experiência de governo nova, influiu ainda contra os comunardos (como eram conhecidos os membros da Comuna) a deflagração de uma Guerra Civil, opondo os habitantes da capital contra as tropas comandadas por Thiers, apoiadas por destacamentos prussianos, e a partir do dia 2 de abril iniciaram-se os bombardeamentos a Paris, com os comunardos a sofrerem pesadas baixas.
Ao longo das semanas as baixas foram-se intensificando, o número bélico das forças de Thiers era muito superior ao da “Comuna”. A derrota veio na semana do dia 22 a 28 de maio de 1871, denominada de “Semana Sangrenta”, em que a resistência popular organizada nos vários distritos de Paris não conseguiu controlar os soldados franceses e prussianos. Mais de 20 mil comunardos foram mortos em batalhas ou execuções, milhares foram deportados e outros 15 mil foram presos.
Apesar do curto período de existência, a “Comuna de Paris” esteve na memória coletiva do movimento operário, sendo a sua experiência evocada em vários processos revolucionários posteriores, como a Revolução Russa de 1917, a Revolução Alemã de 1918-1919, a Guerra Civil Espanhola de 1936-1939, o Maio de 1968 na França e a Revolução Portuguesa de 1974-1975.
Texto retirado do futuro livro “365 dias de História”.
Luís M. Cunha.
Bibliografia:
Matéria sobre a Comuna REVISTA NOVOS TEMAS, 2011; Gurvitch, Georges. Proudhon e Marx. Ed. Presença - Portugal, Martins Fontes - Brasil,1980; Rougerie, Jacques, La Commune de 1871; Tombs, Robert, "How Bloody was la Semaine sanglante of 1871? A Revision". The Historical Journal, September 2012, vol. 55; Lissagaray, Prosper-Olivier (1876), Histoire de la Commune de 1871, La Decouverte/Poche (2000); https://pt.wikipedia.org/.../pt.../wiki/Comuna_de_Paris. Consultado em 10 de novembro de 2018; https://www.historiadomundo.com.br/.../comuna-de-paris. Consultado em 10 de novembro de 2018;
A revolta que deu origem à Comuna de Paris

domingo, 16 de maio de 2021

DO RISCO, DA INCERTEZA E DO EGOÍSMO



DO RISCO, DA INCERTEZA E DO EGOÍSMO / Alguém que se queira vacinar contra a covid-19 sem comorbilidades graves e menos de 55 anos (idade de referência mas que podemos fazer flutuar um pouco) está, na verdade, a trocar um RISCO, associado a uma probabilidade muito baixa ou mesmo irrelevante de morte, por uma INCERTEZA.
É um erro crasso este trade-off: numa incerteza, o risco não é mensurável, porque ainda desconhecido; é como aceitar jogar à roleta russa antes de saber se o revólver tem qualquer munição, ou gatilho, ou balas de pólvora seca ou se afinal o carregador está cheio. Ao contrário, no risco sabe-se ao que se vai: pode-se ponderar, escolher. 

 
Por esse motivo, quando o risco (probabilidade de um evento dar para o torto) é baixo, como sucede com a covid-19 para os mais jovens, não será conveniente a toma de uma vacina cujos efeitos colaterais ainda não são inteiramente conhecidos. Por isso mesmo estão em fase experimental; por isso mesmo ainda não foram aprovadas quer pela EMA quer pela FDA.
E, por isso mesmo, é criminosa a atitude de políticos e autoridades de saúde que pressionam a vacinação para pessoas de baixo risco.
Esta posição é incongruente com a defesa da vacinação para os mais idosos ou vulneráveis, que eu defendo? Não, muito pelo contrário. Nestes casos, quando a taxa de letalidade é muito elevada (p. ex., é mais 30 vezes superior numa pessoa de 85 anos do que numa pessoa de 55 anos), compensa “arriscar” vacinar, porque é expectável que os benefícios compensem os eventuais (incertos e portanto desconhecidos) prejuízos.
Nestes casos estamos, porém, perante uma decisão política (no sentido de decisão ao nível de políticas públicas). E é exactamente nessa linha que os países mais desenvolvidos, mais avançados na vacinação dos idosos e vulneráveis, tinham a obrigação de desviar “inúteis” vacinas (para proteger pessoas de baixo risco) para os países menos desenvolvidos, que ainda não têm vacinadas as suas populações de risco.
A própria OMS recomenda essa estratégia de “desvio”, mas ninguém nos países ricos quer ouvir e agir em conformidade. Muitos por aqui, que até batem no peito a dizerem-se humanistas, que chamam desumanos e chalupas a quem sai da Narrativa Oficial, nem querem ouvir falar nisso. Mesmo jovens ou sem grandes maleitas, seguem felizes, como ratos para salva-vidas, até à fila da pica. São uns egoístas, reféns do pânico, assobiando para o ar enquanto idosos de países subdesenvolvidos morrem de covid-19. E de muitas outras doenças evitáveis. Como sempre. Como sempre.