sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Da Resistência à Revolução-Miguel Urbano Rodrigues

A Revolução Portuguesa confirma as leis da História. Os que nela vacilam, os que forjam explicações para um distanciamento do combate diário, os que lavam as mãos como Pilatos, os que adoptam a política da avestruz, os que engrossaram o coro dos pessimistas, nunca foram revolucionários. A maioria desses senhores jamais entrou numa fábrica, não viu nascer o sol numa eira, não olhou nos olhos um operária do Barreiro ou um camponês sem terra da margem esquerda do Guadiana. Aqueles que, alarmados, fazem o ponto da situação pelo último comunicado transmitido pela rádio ou pela TV, pela conversa no emprego ou no café, pelos boatos do fim-de-semana, esquecem que a sorte da Revolução se decide nas fábricas, nas empresas, nas repartições, nas minas, nos portos, nos campos, em todos os locais de trabalho, nas assembleias populares, nos sindicatos, nos quartéis, nas grandes manifestações de massa, nas noites de vigília contra as ameaças de golpe. Em todos as frentes da luta política, social, económica e cultural. O destino de um povo não pode ser decidido em reuniões sigilosas.

Os saudosistas de passado tiram conclusões erradas das oportunidades, que lhes são abertas. A reacção não passará! O Sol brilha na boca do túnel!

Miguel Urbano Rodrigues

Pág. 14

” …a única via para o derrubamento do regime é a que passa pela acção das forças democráticas, desencadeada no interior através da intensificação e da elevação das massas operárias e camponeses, e dos estudantes, dos intelectuais e dos militares democráticos. Só essa luta, permanente e ampliada, criará a situação revolucionária imprescindível ao levantamento nacional, à almejada insurreição popular que libertará Portugal.”

Pág. 17

“…Não se fabrica uma insurreição, como não se fabrica uma Revolução. Ambas são o resultado de processos que elas conduzem e as tornam possíveis. A Revolução, na excelente definição de Lénine, é a ruptura violenta da superstrutura política antiquada cujo antagonismo com as novas relações de produção provocou em determinada altura o seu afundamento. “


Pág. 18

“ – a insurreição popular surge como o desfecho de uma rápida evolução das massas tendente a assegurar a vitória de um regime social sobre o outro”

Pág. 19

“ Como aspecto particular da luta política, a insurreição armada está submetida a leis especiais, por muito que isso pese a certos democratas. Ela é, no dizer de Marx, «tal como a guerra, uma arte». Vejamos, resumidamente, quais as suas regras mais importantes, segundo o autor de O Capital.


1. Não brincar nunca à insurreição e uma vez começada ter presente que urge lavá-la ao seu termo.


2. Concentrar no lugar e momento decisivos forças muito superiores às do inimigo; de contrário este, melhor preparado, aniquilará os inssurrectos.


3. Iniciada a insurreição, cabe-lhe tomar a ofensiva, forçosa e infalivelmente. A defensiva é a morte da insurreição armada.


4. O inimigo deve ser colhido desprevenido, aproveitando o momento em que as suas tropas se achem dispersas.


5. Importa obter êxitos a cada hora, mantendo a todo o custo a «superioridade moral». “

Pág. 20

“ Só assim, só através da intensificação das lutas de massas - que muitos democratas consideram superadas -, do combate quotidiano, heroico, ampliado – se poderá abrir o caminho à insurreição. De nada servirá elaborar o plano táctico mais perfeito se as massas não correspondessem no momento preciso ao que delas se exigisse. De nada valeria o talento e a dedicação de um grande estado-maior revolucionário se não houvesse nas fileiras populares centenas de quadros solidamente preparados, se em cada quartel, grande fábrica, em cada porto, se em cada centro vital do sistema de comunicações, em cada região agrária, não existissem soldados, operários, técnicos e camponeses revolucionários com a exacta noção da responsabilidade e do papel a desempenhar. “

“ O que a História nos ensina é que jamais se preparou uma insurreição vitoriosa começando pelo fim.”



Miguel Urbano Rodrigues - Partes de um trabalho publicado em setembro e outubro de 1963



Sobre a Revolução do 25 de Abril

Pág.87

“…Mas é evidente, também, que a espontaneidade da adesão popular, que vem funcionando como estímulo e garantia das surpreendentes mudanças revolucionárias operadas em poucos dias, não se manterá por muito tempo. Quando a onda de entusiasmo se acalmar, quando o ímpeto revolucionário diminuir, o quadro será outro. As forças políticas mais conservadoras, actualmente na defensiva, farão o impossível para retomar a iniciativa e orientar o processo em benefício se seus interesses ameaçados. A «classe empresarial», que vinha reagindo nos últimos anos contra o anacronismo da política caetano-salazarista e criticando a mitologia colonial, terá, então, a seu lado, como aliados dóceis e experientes, os remanescentes da ultra-direita estado-novista. Ela aproveitará, sem dúvida, todas as fissuras abertas no campo adversário, explorando em proveito próprio as inevitáveis contradições que surgirão entre os partidos e forças da antiga oposição, desejosa de transformar radicalmente a sociedade portuguesa.

O que é hoje impossível – a repressão e com ela a ofensiva contra-revolucionária – poderá a médio prazo ser possível, se as mudanças introduzidas nas próximas semanas ou meses não forem de molde a captar o apoio de sectores importantes do corpo de oficiais, agravando as contradições no seio da instituição castrense.”


Qual o Rumo do PS?


Pág. 113
“ A entrevista que o secretário geral do PS deu à  Capital, no dia 28 de Abril de 1975, constitui, por exemplo, um documento político altamente comprometedor. O seu conteúdo vem confirmar as apreensões suscitadas pela tentativa conjunta do PS e do PPD – reveladas por Álvaro Cunhal no comício de 23 de Abril – para imporem o chamado «pacto de progresso», iniciativa que visava garantir a sobrevivência dos monopólios e do latifúndio. O esquema de estabilização da economia esboçado por Mário Soares na Capital é, na realidade, o roteiro de uma política de capitulação ante a burguesia e o imperialismo. Quando, invocando a necessidade de investimento, alude às regras do jogo e às fronteiras do sector público e do privado para que sejam definidas com clareza as garantias a dar aos investidores potenciais, tem-se a sensação de que o discurso se dirige a outro povo, a outro país. O secretário- geral do PS sabe perfeitamente que, numa Revolução como a portuguesa, as fronteiras entre o sector público e o privado não dependem hoje apenas de leis, pois são inseparáveis do comportamento das forças que, interna e externamente, conspiram desde o 25 de Abril para sabotar o processo democrático e revolucionário.
Mas o Dr. Mário Soares parece já ter optado, «Portugal é – acentua – país extremamente dependente da economia europeia, à qual está ligado por 80 por cento dos eu comércio externo, quer com os países do Mercado Comum quer com os da EFTA. Estamos pois condenados, em termos de realismo, a acentuar a nossa ligação – afirma – com a Europa, salvaguardando sempre a independência nacional. Não queremos ser colonizados pela Europa dos trusts, mas devemos participar na criação da Europa dos trabalhadores.»…
“ Poderia também perguntar-se o que entende o PS por «Europa dos trabalhadores? Mas o Dr. Mário Soares já levantou a ponta do véu ao afirmar categoricamente que «pertencemos, portanto, ao mundo atlântico e à NATO». E deu o seu conselho: ficar «dentro do mundo ocidental a que pertencemos geograficamente e culturalmente e da Aliança Atlântica».”
“ O que é o «mundo ocidental», também chamado «mundo livre»?
É «o mundo da exploração dos operários». O que é a «Europa dos trabalhadores»? É a cópia fiel da «América dos trabalhadores livres» - expressão imperialista usada pelos tenores da falecida Aliança para o Progresso, forjada por Kennedy. Na correcta definição de Fidel Castro, «o trabalhador livre» embelezado pela propaganda burguesa é, na realidade, «o trabalhador que trabalha para aquele que os exploram; o operário que quando protesta é despedido, maltratado ou entregue à polícia».”



Albano Nunes Os acontecimentos dos últimos meses confirmam as análises e teses fundamentais do PCP em relação ao euro e à União Europeia A propósito da evolução
da situação na Grécia

● Em relação ao Partido Comunista da Grécia, cujo papel na luta dos trabalhadores e do povo grego o PCP sempre valorizou, surgem no debate interrogações em relação a aspectos do seu posicionamento político como no caso do referendo de 5 de Julho.

É a cada partido comunista que compete definir em completa independência e autonomia a orientação que considera adequada para o seu país e, mesmo no caso de não a acompanhar, o PCP nunca enveredará pelo caminho da interferência nos assuntos internos de outro partido.
A solidariedade internacionalista dos comunistas portugueses é uma solidariedade de princípio que diferenças de opinião e divergências não põem em causa.
Mas é uma evidência que o PCP não pode subscrever posições que, a pretexto da solidariedade, possam ser interpretadas como de apoio à política e acção concreta de outro partido e muito menos de apoio a uma linha ideológica em que não se revê e a uma prática de relações entre partidos comunistas que considera prejudicial para a unidade do movimento comunista e revolucionário internacional. Foi partindo desta ordem de considerações que o PCP recentemente não subscreveu uma «Declaração conjunta de solidariedade com o KKE».


Da experiência grega nos últimos meses muitas lições há a tirar. Isso compete obviamente em primeiro lugar ao PCG que tirará as que considere mais adequadas. O PCP tirará as suas, com respeito pelas análises de outros partidos, mas em completa independência de juízo e, como sempre, voltado para as tarefas que a luta coloca no nosso próprio País.


O PCP rejeita tanto perversas tentativas de identificar a sua solidariedade com os trabalhadores e o povo grego com apoio ao governo do Syriza (partido com que aliás não tem relações) como insultuosas conotações que alguns pretendem estabelecer entre o que designam de «governo da esquerda patriótica» do Syriza e a alternativa patriótica e de esquerda do PCP.


O PCP considera necessário alertar para tentativas de utilizar as incoerências, contradições e cedências do governo do Syriza para justificar todo um conjunto de teses – como sejam a negação de etapas na luta revolucionária, a luta pelo socialismo como tarefa imediata e universal, a negação da questão nacional e das particularidades nacionais, o afunilamento da política de alianças da classe operária negando ou subestimando a importância da luta anti-monopolista e anti-imperialista e da luta pela paz – considerando que aqueles partidos que não as acompanham são partidos que apenas pretendem «humanizar» ou «gerir» o capitalismo quando lutam por políticas alternativas que, inseridas e inseparáveis do socialismo, não o colocam como tarefa imediata.


O PCP, respeitando os princípios do movimento comunista, não interfere na vida de outros partidos nem pretende dar-lhes lições. E nunca deu ou dará qualquer passo que possa ser usado para prejudicar outro partido comunista pelos seus adversários e inimigos. Mas também não aceita lições de ninguém e rejeita frontalmente toda e qualquer tentativa de ingerência nos seus assuntos internos, nomeadamente no que respeita à Revolução de Abril, ao seu Programa de «Uma democracia avançada, os valores de Abril no futuro de Portugal» , à alternativa patriótica e de esquerda que propõe ao povo português e ao seu projecto de sociedade socialista.

Albano Nunes: “Marx não nega a importância de alianças com outras forças democráticas”


“O Capital” foi escrito há mais de 150 anos e existem hoje conceitos e práticas económicas que não existiam então. É possível concluir a teoria de Marx nos dias de hoje? Como?

Não, não é possível ‘concluir’ a teoria de Marx, pela simples razão de que o marxismo é uma teoria, inseparável da prática e por definição inacabável. O que é, não só possível mas absolutamente necessário, é desenvolver e enriquecer o marxismo em ligação com a evolução do progresso da ciência e a evolução da sociedade, e pela reflexão e intervenção coletiva dos comunistas e das massas populares. Vejam-se os desenvolvimentos que o pensamento de Marx teve com base na experiência da Comuna de Paris. Ou, com a passagem do capitalismo à sua fase imperialista e a primeira revolução socialista vitoriosa, enriquecendo-se com o genial contributo de Lénine, um contributo tão valioso que o seu nome ficou para sempre associado ao de Marx no conceito de marxismo-leninismo.


Na atualidade da globalização imperialista, da generalização e diversificação das lutas libertadoras e anti-imperialistas, do espantoso desenvolvimento de ciências e técnicas como a biologia ou a inteligência artificial, novos aprofundamentos são indispensáveis.

O “Manifesto Comunista” defende que o partido de proletariado não faz coligações com os chamados “partidos da burguesia”. No entanto, o PCP viabilizou o governo do PS. O que dizer disso?

A pergunta parte de dois equívocos: no que respeita ao “Manifesto Comunista”, Marx não nega a importância de alianças do proletariado, defende sim alianças para combater o capital e não para se colocar a reboque e ser instrumentalizado pela burguesia como até então tinha acontecido, nomeadamente nas revoluções burguesas de 1848/49. Marx centra-se na necessidade do proletariado criar o seu próprio partido de classe independente e oposto à burguesia, mas não nega, antes defende a necessidade, preservando essa independência, de alianças com outras forças democráticas.

Quanto ao PCP, não se ‘aliou’ nem ‘coligou’ com o PS, coisa impossível dada a conhecida dependência deste partido em relação ao grande capital e às imposições externas. A posição do PCP em relação à solução política que saiu das eleições de 2015, um governo do PS, está balizada na posição conjunta PCP/PS visando o afastamento do PSD/CDS do governo e a reposição de direitos e rendimentos de que os trabalhadores e o povo haviam sido violentamente esbulhados. Por isso o PCP valoriza os avanços que neste sentido se verificaram, nomeadamente no Orçamento do Estado, ao mesmo tempo que sublinha que se trata de avanços limitados e que, só rompendo com a política de direita e os constrangimentos da União Europeia, só com uma política patriótica e de esquerda, será possível desenvolver o País e assegurar a soberania de Portugal.

Uma sociedade sem propriedade privada, onde o Estado é capaz de responder às necessidades dos povos e em que o salário não é fator de divisão de classes pode ainda ser objetivo de um projeto político? Não estarão estas ideias desfasadas do mundo atual?

Marx nunca defendeu a abolição de ‘toda’ a propriedade e muito menos da propriedade de bens pessoais. O que defendeu foi a necessidade do poder da classe operária expropriar os ‘principais’ meios de produção tornando a propriedade social determinante e possibilitando o racional planeamento da economia. Aliás, a importância decisiva do Estado ter sob o seu controlo e propriedade sectores estratégicos indispensáveis não só ao desenvolvimento do país mas à defesa da sua soberania está patente nas consequências da privatização de empresas como os CTT, a EDP, a ANA e outras.

Essa é hoje a posição geral dos partidos comunistas, com a consideração, de acordo com a situação concreta de cada país, do maior ou menor peso da pequena propriedade e da propriedade individual, da dimensão do papel do mercado, do carácter mais ou menos imperativo da planificação, além de outros aspetos. As diferentes experiências de construção de uma sociedade socialista, uma realidade extraordinariamente nova em termos de tempo histórico, continuam a ser objeto de estudo, consideração e de diferenças de opinião.
Se há algo no seu programa que o PCP e outros partidos comunistas consideram comprovado e adquirido é a concepção de Marx quanto à expropriação do grande capital monopolista e ao controlo pelo poder dos trabalhadores dos sectores chave da econo
:Retirado daqui



Parece-me haver uma grande contradição. Afinal o que está na exposição patente no museu do vinho , em Alcobaça, não está conforme a palestra de Albano Nunes.

Ver cartaz ao lado.



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O imposto secreto que nos andam a cobrar

Está na altura de subir o salário mínimo. Mesmo. Desde logo, para repor uma enorme injustiça social. Haver quem trabalhe e seja pobre devia deixar-nos a todos indignados.
Por outro lado, há fortes evidências de que os aumentos do salário mínimo nas últimas décadas aumentam o rendimento disponível para os mais pobres. Existe, portanto, uma relação direta entre estes aumentos e a diminuição da pobreza.
Segundo algumas estimativas nos Estados Unidos cerca de 33% dos aumentos de rendimento resultantes das mudanças no salário mínimo beneficiam os 15% com menores rendimentos. Se olharmos para os 33% por menores rendimentos, esses retêm 80% dos aumentos.
Por cá, estes estudos não abundam, e é indispensável que se comecem a fazer. Temos de poder ter melhor e mais detalhada informação. Os recursos existem, é preciso quem invista nisto.
Estas pessoas devem poder viver do seu trabalho. Mais, e aqui assumo o recado direto aos meus amigos da ortodoxia do défice: remunerar adequadamente o trabalho baixa os custos do Orçamento com políticas sociais (ainda por cima, insuficientes) de apoio a estas famílias.
Ao aumentar o salário mínimo transferimos a responsabilidade por dar condições de vida para as empresas que beneficiam dos resultados desse trabalho nos seus lucros e aliviamos os demais contribuintes deste imposto oculto, que não financia hospitais nem escolas nem transportes, mas que subsidia trabalho pago abaixo do seu valor.
Andamos a pagar impostos para suportar famílias que não conseguem viver do seu trabalho para benefício de empresas lucrativas. Este é um imposto que eu, por mim, deixava de pagar. E vocês?
Podemos diminuir a pobreza e o défice. O que é preciso é ter coragem de afrontar o lobby das empresas que procuram preguiçosamente maximizar o lucro pagando salários o mais baixos possível, em vez de apostarem na inovação ou na excelência de gestão. Felizmente não são todas, e são cada vez menos.
Comparando com os níveis anteriores à crise, estão por repor 6 mil milhões de euros nos rendimentos do trabalho. Esses 6 mil milhões estão, em parte, do lado do aumento dos impostos e, na sua maioria, do lado dos rendimentos de capital. Há muito espaço de manobra para corrigir esta enorme assimetria. O salário mínimo é um instrumento que faz isto discriminando positivamente os mais pobres e aliviando os demais trabalhadores do encargo com políticas sociais que passam a ser desnecessárias. Todos ganham, e ganham mais os que mais precisam.
É razoável, justo e prudente que se comece pelo salário mínimo. 600 euros, ou mesmo 615 são o mínimo dos mínimos e deveria ser bastante mais.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Por que votamos em Hitler

OLIVER STUENKEL – Por que a Alemanha, o país com um dos melhores sistemas de educação pública e a maior concentração de doutores do mundo na época, sucumbiu a um charlatão fascista?
Ao longo da década de 1920, Adolf Hitler era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas. Em 1932, porém, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele tornou-se chefe de governo. Por que tantos alemães instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo?

Em primeiro lugar, os alemães tinham perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva das elites tradicionais, cujas políticas tinham causado a pior crise econômica na história do país. Buscava-se um novo rosto. Um anti-político promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Hitler ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.

Em segundo lugar, Hitler sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Hitler usava um linguajar simples, espalhava fake news, e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Hitler era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada discurso era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões. Como escreveu em seu livro “Minha Luta”:

Toda propaganda deve ser apresentada em uma forma popular (…), não estar acima das cabeças dos menos intelectuais daqueles a quem é dirigida. (…) A arte da propaganda consiste precisamente em poder despertar a imaginação do público através de um apelo aos seus sentimentos.

Em terceiro lugar, muitos alemães sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e Hitler prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que surgiram por volta de 1920, época em que as mulheres se tornavam cada vez mais independentes, e a comunidade LGBT em Berlim começava a ganhar visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Hitler eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, quebrar vitrines de lojas, cujos donos eram judeus, para reafirmarem sua masculinidade.

Em quarto lugar, apesar de Hitler fazer declarações ultrajantes – como a de que judeus e gays deveriam ser mortos -, muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos alemães que tinham amigos gays ou judeus votaram em Hitler, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Hitler poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.

Em quinto, Hitler ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte com mais frequência e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas. Os judeus – que representavam menos de 1% da população total – eram o bode expiatório favorito. Os alemães “verdadeiros” não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: “Alemanha acima de tudo”, “Renascimento da Alemanha”, “Um povo, uma nação, um líder.”

Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Hitler porque ele prometeu — e implementou — um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiava grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Hitler.

Em sétimo, mesmo antes da eleição de 1932, falar contra Hitler tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que apoiavam Hitler, ameaçavam os oponentes, limitando-se inicialmente ao abuso verbal, mas logo passando para a violência física. Muitos alemães que não apoiavam o regime preferiam ficar calados para evitar problemas com os nazistas.

Doze anos depois, com seis milhões de judeus exterminados e mais de 50 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que votaram em Hitler disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao mundo. “Se soubesse que ele mataria pessoas ou invadiria outros países, eu nunca teria votado nele ”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Hitler falou publicamente de enforcar criminosos judeus durante a campanha?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, minha avó, cujo irmão morreu na guerra, responderia.

De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932. Diferentemente do que se ouve hoje em dia, Hitler não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade alemã.

Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os alemães porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais

.REtirado daqui:

O PAPEL DAS CLASSES MÉDIAS NA LUTA DE CLASSES

Há uma epidemia de vazio conceitual que assola o país. Certas pessoas tratam de temas que desconhecem com pretensão de especialistas, outras usam de intensa desonestidade intelectual para influenciá-las e conduzi-las. O resultado é a grave distorção ou deformidade de conceitos.


Li e ouvi muitos versando sobre a luta de classes. Alguns, intelectualmente inescrupulosos, a negam ou dizem que é uma invenção marxista difundida por historiadores e sociólogos mal-intencionados. Outros, habituados a chafurdar no lamaçal do obscurantismo, reproduzem largamente esta falácia.
Há classes? Há luta de classes. Óbvio. Límpido como cristal. E não foi Marx quem a criou, mas como cientista social a desvelou, a expôs, a trouxe à luz do conhecimento. Numa sociedade segmentada em classes, quem está embaixo luta para subir e quem está em cima luta para evitar que isto aconteça.
Parece sórdido? E é muito! A ascensão das classes economicamente desfavorecidas traz dissabores aos privilegiados. Coloca em risco seus tão caros privilégios. Em princípio, porque os mais pobres são a mão de obra usada para os trabalhos mais pesados, aqueles que os privilegiados não querem executar, haja vista os ofícios de pedreiro, gari, estivador, doméstica e etc. Caso ascendam, se tornarão mão de obra mais cara ou simplesmente deixarão de realizar as atividades braçais e mal-remuneradas.
Outro fator que marca a luta de classes é de ordem psicossocial: ligado à percepção de riqueza e pobreza. Há uma teia complexa de elementos que implicam nestas percepções, mas o objetivo deste texto não é o de discuti-la.
Para alguém se identificar como rico ou remediado, há de ter a referência da pobreza. Portanto, o reconhecimento de um indivíduo como sendo parte das classes médias depende de ter como parâmetro pessoas que estejam posicionadas acima e abaixo dele na pirâmide social.
Estas tensões sociais colocam as classes médias numa posição paradoxal: conviver com a ansiedade e a ilusão por ascender e a terrível angústia de empobrecer. E, dentro da perspectiva do empobrecimento, ele pode ocorrer pela perda do patrimônio, mas também pela ausência da referência de pobreza, isto é, pela ascensão das classes mais pobres.
Este fenômeno psicossocial fica evidente ao se analisar as mentalidades de parte das classes médias brasileiras, que demonstra grande incômodo ao compartilhar espaços públicos – que antes eram de exclusividade sua – com grupos que recentemente ascenderam.
Exemplos destas mentalidades são as manifestações de protesto, claramente sectárias, de que aeroporto virou rodoviária ou que os shoppings tornaram-se espaços de rolezinhos. A maior parte daqueles que se queixam talvez não consiga reconhecer em si a postura preconceituosa. Não compreendem que boas maneiras e respeito não estão ligados à classe social.
É esta parcela das classes médias que se projeta a tal ponto nas elites, que passa a defender seus valores e posturas com enorme afinco, como se fizessem parte delas. Ofendem-se frente a qualquer crítica feita às classes altas. Não se apercebem da opressão que sofrem pela parte de cima da pirâmide social, pois são profundamente alienados. São defensores figadais da meritocracia e não enxergam que, ao tentar legitimá-la, assumem que eles próprios não teriam mérito, pois não fazem parte das elites.
A forma injusta de produção e distribuição de riquezas – característica histórica do Brasil – intensifica sobremaneira as tensões sociais. A sociedade segmentada por classes conviverá eternamente com a luta de classes. Ela se torna mais branda à medida que diminuímos as desigualdades sociais. Mas continuará existindo enquanto houver classes, isto é, a distinção entre aqueles poucos que gozam de privilégios e a grande maioria que se sacrifica para mantê-los.

«O sujeito oculto: ao vencedor as batatas.»


CARNAXIDE-12/112018-17,30H=(pelosocialismo-net )

«O sujeito oculto: ao vencedor as batatas.»
Mauro Luis
«Para a teoria marxista, a classe e a consciência de classe se inserem em um movimento de continua constituição e desconstrução, determinado pela luta de classes […] quando analisamos o movimento objeto da classe trabalhadora {no Brasil} desde a crise da autocracia burguesa nos anos 1970 até hoje, vemos claramente um processo no interior do qual se tornou possível a fusão de classe e a passagem para uma classe em si nos anos 1980, seguida de uma interrupção nesse caminho e sua desconstrução como classe que culmina no período de conciliação de classes dos governos petistas e sua reversão à serialidade no período recente.

Uma pergunta assombra os cérebros inquietos que procuram compreender o cenário que se abre com a eleição de Bolsonaro: como isso foi possível? É compreensível, uma vez que essas pessoas se pautam pela razão e o bom senso e imaginam que os acontecimentos se definem por uma certa razoabilidade. Infelizmente, o que a história nos comprova é que na luta de classes, como na guerra, a primeira vítima é a razão.

Em um importante documentário de 2003, dirigido por Errol Morris, chamado Sob a névoa da guerra, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, McNamara, afirma exatamente isso: “a racionalidade não nos salvará”. É evidente que qualquer pessoa sensata, diante das alternativas apresentadas, não escolheria alguém que revelasse o despreparo, a barbárie explícita e a evidente idiotia do candidato em questão. Mas não se trata de escolhas movidas pela razão e, por mais que doa constatar, não se trata de pessoas sensatas.Para dar um toque de perversidade ao já trágico cenário, muitos dos que se beneficiaram das limitadíssimas políticas compensatórias na área social e das condições de inserção via consumo, votaram contra o PT.

É evidente que há um componente de manipulação. Isso tudo não teria a intensidade que teve não fora o massivo ataque dos meios de comunicação, a ação judicial que priorizou o ataque aos petistas envolvidos nos esquemas de corrupção, à insistente vinculação da pregação moral de um certo fundamentalismo religioso às posturas minimamente progressistas no campo dos costumes como depravação e uma ameaça à família e aos bons costumes. Da mesma forma, ficou comprovado um poderoso e milionário esquema de organizações que difundem uma espécie de liberalismo raivoso de extrema direita na criação de movimentos e personalidades para agir na propaganda e contra informação como armas de guerra e de desestabilização, como as iniciativas dos bilionários irmãos Charles e David Koch, da ultradireitista John Birch Society, da organização Students for Liberty, além de recursos vindos de partidos (PSDB, DEM, etc.) e empresários.

Se somarmos a isso a doutrinação sistemática operada por um conjunto de segmentos ditos religiosos, mais precisamente envolvidos em empresas altamente lucrativas de exploração da fé e do obscurantismo, temos uma boa explicação da imensa capacidade de manipulação de massa operada.

Caso o petismo dependesse de si mesmo teria sido derrotado de forma ainda mais fragorosa. Para muitos, isso é um mistério. As pessoas deviam reconhecer o que foi afirmado como o melhor governo de nossa história, a atenção aos que se encontram abaixo da miséria absoluta, o Bolsa Família, o acesso à universidade, a valorização do salário mínimo, as oportunidades de consumo e crédito, e tudo isso fazendo com que os empresários, o agronegócio e os bancos ganhassem muito dinheiro, como o ex-presidente adora lembrar.

Até aqui, trabalhamos apenas no descritor do movimento dos segmentos e sua polarização entre a extrema direita e o centro esquerda. Uma questão segue sem resposta: por que a classe trabalhadora não saiu em defesa, primeiro do governo do PT e depois da democracia contra o fascismo? Ou pelo menos, por que não o fez na dimensão e força que poderia?

Eis que aparece nosso sujeito oculto: a classe trabalhadora. Lembram dela? Aquela que teria deixado de existir em tempos agora “pós-industriais”, numa sociedade do “fim do trabalho”; aquela cuja identidade de classe a multiplicidade de identidades secundarizou e cuja centralidade na luta política se diluiu em “novos sujeitos” e “novas formas de luta”… Pois então, este sujeito que ninguém mais via, que havia deixado de existir e ter importância nas disputas políticas, este sujeito decidiu a eleição a favor do fascismo.

Queria, aqui, somar minha modesta contribuição no que diz respeito à configuração de classe e da consciência de classe. Já faz tempo que temos alertado para o fato de que a mudança da morfologia da classe trabalhadora, apesar de não alterar (concordando com os autores acima citados) a sua centralidade na ordem capitalista contemporânea, não deixar de produzir importantes alterações no que diz respeito à consciência de classe.

Resumidamente, sabemos que não há uma correspondência mecânica entre o ser da classe e sua consciência, de forma que os trabalhadores, pela posição que ocupam nas relações sociais, possam adquirir uma consciência correspondente. Os trabalhadores, na forma imediata de sua manifestação, são apenas indivíduos inseridos na divisão social do trabalho e na concorrência, se apresentando portanto como adversários imediatos uns dos outros. Nesta forma imediata, configuram aquilo que Sartre chama de “serialidade”. Isto é: estão no mesmo espaço, fazendo a mesma coisa, mas não se conformam como um grupo ou uma forma mais orgânica de unidade política. É no enfrentamento contra as contradições da ordem capitalista, primeiro de forma isolada e casual, depois de maneira mais sistemática, que esses indivíduos encontram pontos de fusão que podem levá-los à condição de classe, primeiramente como mera oposição aos capitalistas (como classe em si), depois, em certas condições, como possibilidade de se constituir como sujeitos de um projeto histórico contra e para além do capital (classe para si).

Como vemos, para a teoria marxista, a classe e a consciência de classe se inserem em um movimento de continua constituição e desconstrução, determinado pela luta de classes, como bem captou E. P. Thompson. Ora, quando analisamos o movimento objeto da classe trabalhadora desde a crise da autocracia burguesa nos anos 1970 até hoje, vemos claramente um processo no interior do qual se tornou possível a fusão de classe e a passagem para uma classe em si nos anos 1980, seguida de uma interrupção nesse caminho e sua desconstrução como classe que culmina no período de conciliação de classes dos governos petistas e sua reversão à serialidade no período recente.

Caso agreguemos a isso as transformações no mundo do trabalho, compreenderemos a base material que, somada aos desvios políticos, leva a uma configuração da classe em novo e brutal momento de serialidade. O que nos interessa neste momento é entender como isso se manifesta em um particular comportamento político. Para tanto, temos que remeter nossa análise para uma passagem do famoso O 18 de brumário de Luís Bonaparte em que Marx trata dos camponeses, naquela oportunidade procurando responder qual seria a base de massa para a aventura golpista de Luís Bonaparte.

Em síntese, Marx afirma que os camponeses, pela posição que ocupavam nas relações sociais e diante das formas de propriedade, formavam um certo agrupamento de classe mas no entanto não constituíam uma classe propriamente dita. Por viverem do mesmo modo, partilharem de uma determinada cultura e manifestarem certos interesses, formavam uma classe; mas, não formavam uma comunidade mais ampla do que aquela dos interesses e situações mais imediatas, não formavam qualquer união nacional, não podiam se representar, tinham que ser representados, por isso, não eram ainda uma classe. Seriam, na metáfora do autor, como “batatas que somadas, constituem um saco de batatas”.

Muita gente considera que isso não passava de um preconceito de Marx em relação aos camponeses. Mas na minha avaliação essa observação não vale apenas para as condições objetivas do campesinato na França daquela época, e pode servir para qualquer classe em seu processo de formação – inclusive para o proletariado urbano e, mais do que isso, cabe perfeitamente para a condição se serialidade que estamos descrevendo.

No caso presente, o que os uniu foi o ódio. Vejam, não é um ódio ao PT, é um profundo descontentamento com a vida, com a violência diária vinda da criminalidade, das condições de moradia, um ódio diante de uma sociedade hipócrita que valoriza a meritocracia e retira as condições para que se desenvolvam suas potencialidades, um ódio contra uma corja de sangue sugas que controlam as instituições de governo para saquear os recursos e enriquecer ilicitamente, um ódio contra uma democracia representativa que não representa ninguém além daqueles que dela se apropriaram como instrumento de garantia de privilégios, com juízes que se colocam sob a capa da lei para ser injustos, contra a desigualdade gritante, contra a opulência de poucos que são sempre os maus… Enfim, ressentimento e ódio contra um mundo que os despreza.

A centro esquerda viu nesse ódio, por vezes, apenas um recurso eleitoral, como quando tentou se valer dele no segundo turno de Dilma contra Aécio em 2014, para depois das eleições voltar ao discurso pragmático da governabilidade aliando-se aos seus algozes. O fato é que essa força foi desprezada no sentido de dar forma a uma consciência de classe, anticapitalista e socialista.

Coube à direita dar forma a esse ódio, colando nele a máscara de seu adversário. O PT é o culpado da crise, das filas no atendimento na saúde, da precariedade da educação, da corrupção, da desagregação das famílias, da explosão de uma sexualidade aberrante que ameaça, de mulheres que levantam a voz e colocam o dedo na cara de quem as oprime, de índios (meu deus, ainda tinham índios neste país) querendo as terras tão bem ocupadas por mineradoras, madeireiras e o agronegócio. A mensagem da extrema direita encontra o ódio de uma boa parte dos trabalhadores e os representa: essa democracia é uma farsa (pode fechar o Congresso e o STF), este Estado é um cabide de emprego, privatiza tudo, manda a polícia atirar para matar, tirem os doutrinadores das escolas, matem vadios, negros, índios, feministas, petistas, comunistas…

Esse ódio e esse enorme ressentimento não nasce dos trabalhadores, como é possível perceber. Ele vem de fora, contrabandeando coisas que os trabalhadores não teriam porque temer. Por que um trabalhador deveria se preocupar com uma maior ou menor presença do Estado na economia, ou defender privatizações, ou destruir sua possibilidade de se aposentar um dia? Esse ressentimento nasce dos setores médios, que vêm acumulando ódio há anos. A extrema direita, que como sempre nasce dos segmentos médios e pequeno-burgueses, logrou colar seu ódio e ressentimento no ódio dos trabalhadores e, assim, ganhar base de massas para seu projecto reaccioná

A chave do enigma está em uma frase do Marx que citamos acima: não podem se representar, tem que ser representados. A impossibilidade de se conformar como uma classe encontra a unidade fora de si, em tempos de crise e acirramento da luta de classes, numa figura salvadora, aparentemente acima dos interesses em luta, que se sobrepõe à imagem abstrata de Nação e Ordem e as personifica: Luís Bonaparte na França do Segundo Império, Getúlio Vargas na década de 1930, Perón na Argentina, ou em outras situações mais agudas em que se somam outras determinações, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha… Mais recentemente, Tump nos EUA, e agora Bolsonaro no Brasil.