A Revolução Portuguesa confirma as leis da História. Os que nela vacilam, os que forjam explicações para um distanciamento do combate diário, os que lavam as mãos como Pilatos, os que adoptam a política da avestruz, os que engrossaram o coro dos pessimistas, nunca foram revolucionários. A maioria desses senhores jamais entrou numa fábrica, não viu nascer o sol numa eira, não olhou nos olhos um operária do Barreiro ou um camponês sem terra da margem esquerda do Guadiana. Aqueles que, alarmados, fazem o ponto da situação pelo último comunicado transmitido pela rádio ou pela TV, pela conversa no emprego ou no café, pelos boatos do fim-de-semana, esquecem que a sorte da Revolução se decide nas fábricas, nas empresas, nas repartições, nas minas, nos portos, nos campos, em todos os locais de trabalho, nas assembleias populares, nos sindicatos, nos quartéis, nas grandes manifestações de massa, nas noites de vigília contra as ameaças de golpe. Em todos as frentes da luta política, social, económica e cultural. O destino de um povo não pode ser decidido em reuniões sigilosas.
Os saudosistas de passado tiram conclusões erradas das oportunidades, que lhes são abertas. A reacção não passará! O Sol brilha na boca do túnel!
Miguel Urbano Rodrigues
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” …a única via para o derrubamento do regime é a que passa pela acção das forças democráticas, desencadeada no interior através da intensificação e da elevação das massas operárias e camponeses, e dos estudantes, dos intelectuais e dos militares democráticos. Só essa luta, permanente e ampliada, criará a situação revolucionária imprescindível ao levantamento nacional, à almejada insurreição popular que libertará Portugal.”
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“…Não se fabrica uma insurreição, como não se fabrica uma Revolução. Ambas são o resultado de processos que elas conduzem e as tornam possíveis. A Revolução, na excelente definição de Lénine, é a ruptura violenta da superstrutura política antiquada cujo antagonismo com as novas relações de produção provocou em determinada altura o seu afundamento. “
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“ – a insurreição popular surge como o desfecho de uma rápida evolução das massas tendente a assegurar a vitória de um regime social sobre o outro”
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“ Como aspecto particular da luta política, a insurreição armada está submetida a leis especiais, por muito que isso pese a certos democratas. Ela é, no dizer de Marx, «tal como a guerra, uma arte». Vejamos, resumidamente, quais as suas regras mais importantes, segundo o autor de O Capital.
1. Não brincar nunca à insurreição e uma vez começada ter presente que urge lavá-la ao seu termo.
2. Concentrar no lugar e momento decisivos forças muito superiores às do inimigo; de contrário este, melhor preparado, aniquilará os inssurrectos.
3. Iniciada a insurreição, cabe-lhe tomar a ofensiva, forçosa e infalivelmente. A defensiva é a morte da insurreição armada.
4. O inimigo deve ser colhido desprevenido, aproveitando o momento em que as suas tropas se achem dispersas.
5. Importa obter êxitos a cada hora, mantendo a todo o custo a «superioridade moral». “
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“ Só assim, só através da intensificação das lutas de massas - que muitos democratas consideram superadas -, do combate quotidiano, heroico, ampliado – se poderá abrir o caminho à insurreição. De nada servirá elaborar o plano táctico mais perfeito se as massas não correspondessem no momento preciso ao que delas se exigisse. De nada valeria o talento e a dedicação de um grande estado-maior revolucionário se não houvesse nas fileiras populares centenas de quadros solidamente preparados, se em cada quartel, grande fábrica, em cada porto, se em cada centro vital do sistema de comunicações, em cada região agrária, não existissem soldados, operários, técnicos e camponeses revolucionários com a exacta noção da responsabilidade e do papel a desempenhar. “
“ O que a História nos ensina é que jamais se preparou uma insurreição vitoriosa começando pelo fim.”
Miguel Urbano Rodrigues - Partes de um trabalho publicado em setembro e outubro de 1963
Sobre a Revolução do 25 de Abril
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“…Mas é evidente, também, que a espontaneidade da adesão popular, que vem funcionando como estímulo e garantia das surpreendentes mudanças revolucionárias operadas em poucos dias, não se manterá por muito tempo. Quando a onda de entusiasmo se acalmar, quando o ímpeto revolucionário diminuir, o quadro será outro. As forças políticas mais conservadoras, actualmente na defensiva, farão o impossível para retomar a iniciativa e orientar o processo em benefício se seus interesses ameaçados. A «classe empresarial», que vinha reagindo nos últimos anos contra o anacronismo da política caetano-salazarista e criticando a mitologia colonial, terá, então, a seu lado, como aliados dóceis e experientes, os remanescentes da ultra-direita estado-novista. Ela aproveitará, sem dúvida, todas as fissuras abertas no campo adversário, explorando em proveito próprio as inevitáveis contradições que surgirão entre os partidos e forças da antiga oposição, desejosa de transformar radicalmente a sociedade portuguesa.
O que é hoje impossível – a repressão e com ela a ofensiva contra-revolucionária – poderá a médio prazo ser possível, se as mudanças introduzidas nas próximas semanas ou meses não forem de molde a captar o apoio de sectores importantes do corpo de oficiais, agravando as contradições no seio da instituição castrense.”
Qual o Rumo do PS?
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“ A entrevista que o secretário geral do PS deu à
Capital, no dia 28 de Abril de 1975, constitui, por exemplo, um
documento político altamente comprometedor. O seu conteúdo vem confirmar as apreensões
suscitadas pela tentativa conjunta do PS e do PPD – reveladas por Álvaro Cunhal
no comício de 23 de Abril – para imporem o chamado «pacto de progresso», iniciativa
que visava garantir a sobrevivência dos monopólios e do latifúndio. O esquema
de estabilização da economia esboçado por Mário Soares na Capital é, na realidade, o roteiro de uma política de capitulação
ante a burguesia e o imperialismo. Quando, invocando a necessidade de
investimento, alude às regras do jogo e às fronteiras do sector público e do
privado para que sejam definidas com clareza as garantias a dar aos
investidores potenciais, tem-se a sensação de que o discurso se dirige a outro
povo, a outro país. O secretário- geral do PS sabe perfeitamente que, numa
Revolução como a portuguesa, as fronteiras entre o sector público e o privado
não dependem hoje apenas de leis, pois são inseparáveis do comportamento das
forças que, interna e externamente, conspiram desde o 25 de Abril para sabotar
o processo democrático e revolucionário.
Mas o Dr. Mário Soares parece já ter optado, «Portugal é –
acentua – país extremamente dependente da economia europeia, à qual está ligado
por 80 por cento dos eu comércio externo, quer com os países do Mercado Comum
quer com os da EFTA. Estamos pois condenados, em termos de realismo, a acentuar
a nossa ligação – afirma – com a Europa, salvaguardando sempre a independência
nacional. Não queremos ser colonizados pela Europa dos trusts, mas devemos participar na criação da Europa dos
trabalhadores.»…
“ Poderia também perguntar-se o que entende o PS por «Europa
dos trabalhadores? Mas o Dr. Mário Soares já levantou a ponta do véu ao afirmar
categoricamente que «pertencemos, portanto, ao mundo atlântico e à NATO». E deu
o seu conselho: ficar «dentro do mundo ocidental a que pertencemos geograficamente
e culturalmente e da Aliança Atlântica».”
“ O que é o «mundo ocidental», também chamado «mundo livre»?
É «o mundo da exploração dos operários». O que é a «Europa
dos trabalhadores»? É a cópia fiel da «América dos trabalhadores livres» - expressão
imperialista usada pelos tenores da falecida Aliança para o Progresso, forjada
por Kennedy. Na correcta definição de Fidel Castro, «o trabalhador livre»
embelezado pela propaganda burguesa é, na realidade, «o trabalhador que
trabalha para aquele que os exploram; o operário que quando protesta é
despedido, maltratado ou entregue à polícia».”






