segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

6 MITOS SOBRE STALIN QUE O FASCISMO QUER QUE VOCÊ ACREDITE

domingo, 9 de fevereiro de 2020


Você já ouviu falar em Josef Vissariónovitch Stalin?

Certamente você já leu sobre ou ouviu falar em Stalin. Imagino também que você ao ler seu nome no título do artigo logo relacionou sua imagem a atrocidades, genocídios e milhares de mortes. 
Isso é vendido para o senso comum como a verdadeira imagem de Stalin. Escrevo este texto na expectativa de atingir aqueles que acreditam nessa dita “verdade” e que não se questionam sobre esse fato.
Dito isso, faço menção a Lenin, que foi o maestro da revolução soviética e estruturador de um novo modelo para o país, que estava passando por um processo de superação do feudalismo. 
Antes de deixar sua posição de líder e idealizador das estruturas, que veio a ocorrer com seu falecimento, Lenin deixou uma carta, que vinha a ser bastante polêmica, em que comenta sobre a rivalidade entre Stalin e Trotsky, fazendo crítica a ambos. 
Em determinado momento, diz a carta:
“O camarada Stálin, tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência.


Por outro lado, o camarada Trotsky, segundo demonstra sua luta contra o CC em razão do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, não se distingue apenas por sua grande capacidade. Pessoalmente, embora seja o homem mais capaz do atual CC, está demasiado ensoberbecido e atraído pelo aspecto puramente administrativo dos assuntos.” [1]
Após a morte de Lenin e após Stalin ter tomado a frente do partido, tornando-se, assim, uma liderança para a URSS, Trotsky foi expulso do país por motivos de contrarrevolução. Tais motivos teriam como pressuposto o revisionismo e a rivalidade que ali era vigente, como Lenin havia descrito, o que fez Trotsky tecer constantemente ataques que induziam as pessoas a acreditarem que estaria ocorrendo na URSS uma ditadura stalinista. 
A partir disso, irei descrever uma lista de ataques fantasiosos contra Stalin e desmistificá-los.

O culto à personalidade

Primeiramente é necessário ressaltar o que é “stalinismo”, termo este cuja criação representa puro sadismo. Uma vez que imputa a Stalin a figura de um tirano vaidoso e o coloca como criador de uma nova vertente do marxismo que o colocava como centro. O que, na verdade, não passa de mentira, pois Stalin em nenhum momento criou uma ideologia desconexa com o marxismo-leninismo. 
Já o “culto à personalidade” é algo ainda mais fantasioso, afinal, nem o próprio Stalin acreditava em tal conceito e tecia criticas a ele, o que é evidenciado em suas próprias palavras:
“Sinceramente, camaradas, devo dizer que não mereço nem metade das coisas lisonjeiras que me foi dito aqui. Pelo que dão a entender, sou um herói da Revolução de Outubro, o líder do Partido Comunista Internacional, o líder do Comunismo, um guerreiro lendário, e tudo mais… Isso é um absurdo, camaradas, um exagero completamente desnecessário. Este é o tipo de coisa que costumam dizer no funeral de um revolucionário morto, mas eu não tenho nenhuma intenção de morrer ainda. Na verdade eu era e continuo a ser um dos aprendizes de trabalhadores qualificados nas oficinas ferroviárias em Tbilisi.” [2]
“Me falais de vossa ‘devoção’ a mim (…), mas eu vos aconselho descartar o “princípio” da devoção as pessoas. Esse não é o caminho bolchevique. Sede unicamente devoto da classe obreira, de seu Partido e seu Estado. Isso é uma coisa boa e útil. Mas não confundais com a devoção das pessoas, esta ninharia vã e inútil, é própria de intelectuais de pouca vontade.” [3]

Stalin um tirano?

Para responder essa pergunta, vale ressaltar aqui, primeiramente, as vezes em que Stalin propôs aos camaradas do partido sua própria renuncia, o que demonstra o quão “tirano” ele era:
– Em 1924, no 13º Congresso do Partido Comunista, Stálin renunciou ao seu cargo, mas o partido negou seu pedido (incluindo Trotsky).
– Em 1934 Stálin novamente solicitou ser removido do cargo, mas o partido rejeitou novamente.
- Em 1946 Stálin e seu governo deixaram o governo, como definido pela constituição de 1936. 
Mas o partido lhe pediu, no mesmo dia, que ele formasse um novo governo.
– Em 1952, no 19º Congresso do Partido Comunista, Stálin mais uma vez entregou o cargo, o que o partido novamente rejeitou. [4] [5] [6]
Mesmo assim acusa-se bastante Stalin de autoritarismo. Menciono, portanto, Engels, pois há um trecho em que ele aborda o assunto “autoritarismo” de forma bastante esclarecedora:
“Porque é que os anti-autoritários não se limitam a erguer-se contra a autoridade política, contra o Estado? Todos os socialistas concordam em que o Estado político e com ele a autoridade política desaparecerão como conseqüência da próxima revolução social, ou seja, que as funções públicas perderão o seu caráter político e se transformarão em simples funções administrativas protegendo os verdadeiros interesses sociais. Mas os anti-autoritários pedem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, antes mesmo que se tenham destruído as condições sociais que o fizeram nascer. Pedem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Já alguma vez viram uma revolução, estes senhores? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação.” [7]
Não há muito que acrescentar aqui, mas sim ponderar no que tange a importância de não alimentar o fantasma liberal do conceito de “autoritário”, certo que toda ordem social fruto de revolução, onde se inclui a própria ordem burguesa, é “autoritária” na perspectiva de que uma classe está impondo seus interesses a partir da força coercitiva das armas e das instituições que protegem o sistema. A diferença é que a revolução comunista, como lembra Engels, deseja o fim do autoritarismo de uma vez por todas. Para finalizar, podemos recorrer à constituição da URSS para espantar de vez o fantasma da tirania que sonda a figura de Stalin. Constituição de 1936 — URSS, Capitulo 3:
“Artigo 34 — O Soviet da União será eleito pelos cidadãos da URSS, por distritos, na base de um deputado para cada 300.000 habitantes.
Artigo 36 — O Supremo Soviet da URSS será eleito por um período de quatro anos.

Artigo 42 — O Soviet da União deverá eleger um Presidente e dois vice-presidentes para o Soviet da União.
Capitulo 4:
Artigo 57 — O mais alto órgão do poder de Estado de uma República Soviética Socialista é o seu Supremo Soviet.
Artigo 58 — O Supremo Soviet de uma República Soviética Socialista deve ser eleito pelos cidadãos da república, pelo prazo de quatro anos. 
Os cálculos para a representação deverão ser fixados pela Constituição das Repúblicas Soviéticas Socialistas.” [8]

Aliança com o nazismo?

Retornamos a governabilidade de Stalin, agora adentrando um pouco no que abrange os mortos durante o período em que Stalin era líder do governo da URSS. Já é bastante sabido que a URSS participou diretamente da Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Sabemos também que o nazi-fascismo surgiu querendo dominar a Europa, bem como querendo fazer frente ao socialismo soviético. Ou seja, Hitler desejava combater a ascensão socialista que se estabelecia principalmente pelo Oriente. 
Mas há quem negue tal antagonismo apontando para o Pacto Molotov-Ribbentrop, que nada mais foi do que um pacto de não agressão, o qual foi necessário para a URSS. Certo que ela precisava agregar mais homens e ter mais preparo militar para, assim, poder entrar de vez no combate ao nazi-fascismo. Stalin, com plena consciência do significado do nazi-fascismo para os povos do mundo inteiro e, particularmente, para a URSS, viu a clara necessidade de convocar uma frente antifascista na Europa para barrar a ascensão nazista, desejando que Inglaterra e França compusessem esta frente. Porém, ambas as nações, por baixo dos panos, fizeram acordos com os nazistas na intenção de que a Alemanha atacasse e desmantelasse o socialismo soviético. Sobre isso, escreve o historiador Ludo Martens:
“Em Março de 1939, a União Soviética entabula negociações para formar uma aliança antifascista. A Inglaterra e a França deixam as coisas arrastarem-se, manobrando. Com esta atitude, as duas grandes «democracias» dão a entender a Hitler que poderia marchar contra Stáline sem ser incomodado a Oeste. De Junho a Agosto de 1939 realizam-se conversações secretas anglo-germânicas, durante as quais, em troca da integridade do Império Britânico, os ingleses prometem a Hitler liberdade de acção no Leste.” [9]
Por dois anos Stalin trabalhou arduamente para edificar a autodefesa do país. Do pacto de não agressão, em 1939, a URSS colheu frutos que seriam essenciais para o combate ao nazi-fascismo. Como o general Jukóv, considerado herói na guerra anti-nazista, escreveu:
“A obra de defesa nacional, nas suas linhas e orientações fundamentais e essenciais, foi conduzida da maneira adequada. Durante anos foi feito tudo ou quase tudo o que podia ser feito, tanto no sector econômico como no sector social. Quanto ao período que se estende de 1939 até meados de 1941, é uma época em que o povo e o Partido desenvolveram esforços particularmente importantes para reforçar a defesa, esforços que exigiam a utilização de todas as forças e de todos os meios. Uma indústria desenvolvida, uma agricultura colectivizada (sic), a instrução pública alargada ao conjunto da população, a unidade da nação, o poder do Estado socialista, o nível elevado de patriotismo do povo, uma direcção (sic) que, através do Partido, estava pronta para realizar a unidade entre a frente e a retaguarda, todo este conjunto de factores constituiu a causa primeira da grande vitória que iria coroar a nossa luta contra o fascismo. Só o facto de a indústria soviética ter podido produzir uma quantidade colossal de armamentos — perto de 490 mil canhões e morteiros, mais de 102 mil tanques e canhões autopropulsionados, mais de 137 mil aviões de combate — prova que os fundamentos da economia, do ponto de vista militar, haviam sido lançados de forma adequada e sólida. (…) Em tudo o que era essencial e fundamental, o Partido e o povo souberam preparar a defesa da pátria. Ora é o essencial e o fundamental que, no fim de contas, decidem o destino de um país em guerra.” [10]
Com isso, acho que não é mais necessário estender o tema, pois, a partir do que foi exposto, fica evidente que Stalin foi o responsável pela criação do maior exército de combate ao nazi-fascismo, o que fez com que ele saísse vitorioso da guerra, livrando o mundo do terror nazista.

Sobre o Gulag

Passamos então ao famoso Gulag. É importante saber que esses centros de trabalhos forçados não foram criados por Stalin, mas já eram existentes desde a época do Czar. Stalin apenas manteve esse local para prisões de estupradores, assassinos e antirrevolucionários. Pessoas que cometessem crimes leves não eram deslocadas para o Gulag e sim para prisões comuns. Vale também ressaltar que esse local não era utilizado para extermínio de pessoas. Menciono aqui uma análise baseada em uma tabela da The American Historical Review, desmentindo as mentiras propagadas por Robert Conquest, que afirmava haver milhões de presos políticos no Gulag:


“Para começar podemos comparar os números da tabela com os de Robert Conquest. Este diz-nos que em 1939 havia 9 milhões de presos políticos nos campos de trabalho e que 3 milhões mais tinham morrido durante o periode de 1937–39. Não esqueça o leitor que os números de Conquest se referem apenas a presos políticos! Além desses, diz-nos Conquest que havia os presos de delito comum que segundo ele eram em muito maior número que os “políticos”. Em 1950 havia segundo Conquest 12 milhões de presos políticos! Com os factos na mão podemos ver agora o falsificador que este Conquest na realidade é. Não há um único número que corresponda à realidade. No ano de 1939 havia em todos os campos, colônias e prisões cerca de 2 milhões de presos. Desses eram 454 mil condenados por crimes políticos e não 9 milhões como Conquest afirma. Os mortos nos campos de trabalho de 1937 a 1939 foram cerca de 160 mil e não 3 milhões como diz Conquest. No ano de 1950 havia nos campos de trabalho 578 mil presos por crimes políticos e não 12 milhões. Não esqueça o leitor que este Robert Conquest ainda hoje é uma das fontes mais importantes da propaganda da direita contra o comunismo. Para os pseudointelectuais da direita Conquest é como um deus. No que diz respeito aos números de Alexander Solzhenitsyn, os 60 milhões de mortos nos campos de trabalho, não há necessidade de comentários, o ridículo da afirmação é evidente. Só uma mente enferma pode afirmar tais fantasias.” [11]
Ou seja, ao contrário das mentiras que sobre milhões de perseguidos políticos aprisionados, os campos de trabalho forçado eram destinados de forma majoritária para a punição de criminosos, que trabalhavam para a sociedade enquanto pagavam pela sua pena.

Stalin matou milhões?

Depois de apresentar para vocês fatos devidamente documentados e embasados, questiono se ainda acreditam nos números apresentados pela mídia anti-comunista. Espero que não, mas, ainda sim, vamos mais além. Façamos uma análise, além de geográfica, sensata desses números. Seria Stalin o maior “ocultador” de cadáveres do mundo? Afinal, as acusações de mortes são de números extremamente altos, o que me faz trazer uma luz para entender melhor. Pensemos então no próprio nazismo, que é acusado de exterminar 6 milhões de pessoas. Neste caso, temos provas concretas e devidamente documentadas. Foi isto que ocorreu, existem inúmeras provas do método industrial de mortes: as camarás de gás, os trens da morte, as indústrias da morte, os crematórios etc. Enquanto sobre a URSS não houve nenhum relato de um local onde teriam execuções em massa. Se foi necessário tais atos para consagrar 6 milhões de mortes na Alemanha nazista, qual método Stalin utilizou para ocultar 22 milhões de cadáveres que supostamente “matou”? Isso é, no mínimo, cómico.

Stalin destruiu economicamente a URSS?

Vejamos o que Kruschiov, em sua detalhada análise sobre a economia das democracias populares, em que analisou os dados tabelados referentes ao volume da produção industrial na URSS e nos países capitalistas, tinha a dizer:

“Estes dados evidenciam que em um quarto de século, ou mais exatamente, em 26 anos, a União Soviética, apesar dos enormes danos que a guerra causou à sua economia nacional, aumentou a produção industrial mais de 20 vezes, enquanto que os Estados Unidos, que se encontravam em condições extraordinariamente favoráveis, só puderam aumentar a produção de pouco mais do dobro, e, em seu conjunto, a indústria do mundo capitalista não registrou sequer esse incremento.” [11]
Kruschiov fez uma análise muito aprofundada do crescimento da URSS, o que poderia render muito mais neste texto, porém, acredito que já esteja satisfatório. Podemos observar, então, de forma mais objetiva, as conquistas de Stalin dando rosto ao fato de que ele, em pouquíssimo tempo, foi capaz de transformar um país rural em uma superpotência aeroespacial [12]

Finalizando

Por fim, este é Stalin. E é isso o mínimo que você precisa saber para não ser enganado. O “mínimo” porque não foi feita uma análise aprofundada e sim pontual sobre alguns aspectos que surgiram como importantes ao escrever esse texto. Ame-o ou não, Stalin foi um grande estadista. E arrisco dizer que um dos maiores erros de Stalin foi não ter tido uma bola de cristal para prever a traição oportunista guiada pelo individualismo de Nikita Khrushev, que colocaria abaixo tudo aquilo que construiu.

REFERÊNCIAS

[1] LENINE, V. I.. Carta ao Congresso. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1923/01/04.htm#carta;. Acesso em: 05 mar. 2019.
[2] STALIN, Joseph. J.V. Stalin: Works. Moscou: S.n., 1954. p. 182
[3] STALIN, Joseph. J.V. Stalin: Works. Moscou: S.n., 1955. p. 20
[4] FURR, Grover. Stalin and the Struggle for Democratic Reform. Disponível em: <http://marxism.halkcephesi.net/Grover%20Furr/index.htm;. Acesso em: 06 mar. 2019.
[5] STALIN, J.v.. Speech at the Plenum of the Central Committee of the Communist Party of the Soviet Union. Disponível em: <http://www.revolutionarydemocracy.org/rdv8n1/stalin.htm;. Acesso em: 06 mar. 2019.
[6] SPIEGEL, Der. Ur-Kunde von Stalin. 1949. Disponível em: <http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-44437536.html;. Acesso em: 06 mar. 2019.
[7] ENGELS, Friedrich. Sobre a Autoridade. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/marx/1873/03/autoridade-pt.htm;. Acesso em: 06 mar. 2019.
[8] URSS. Constituição, de 1936. Moscou, Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/stalin/biografia/ludwig/constituicao.htm;. Acesso em: 06 mar. 2019.
[9] MARTENS, Ludo. Um Outro Olhar Sobre Stáline. S.l: Para A História do Socialismo, 2009. Disponível em: <http://www.hist-socialismo.com/docs/UmOutroOlharStaline.pdf;. Acesso em: 06 mar. 2019. p. 196
[10] Ibidem. p. 202
[11] SOUSA, Mário. Mentiras sobre a história da União Soviética. De Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn! Disponível em: <http://www.mariosousa.se/MentirassobreahistoriadaUniaoSovietica.html;. Acesso em: 06 mar. 2019.
[12] POR QUE A UNIÃO SOVIÉTICA FOI A VERDADEIRA GANHADORA DA CORRIDA ESPACIAL (E NÃO OS EUA). Brasil, 26 dez. 2016. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38407916;. Acesso em: 06 mar. 2019.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Alemanha que caiu com o muro

A Alemanha que caiu com o muro


Quando passam três décadas do fim da barreira que ficou conhecida como Muro de Berlim, ainda não houve a oportunidade para olhar criticamente para a história das duas Alemanhas para além da narrativa panegírica produzida pelo Ocidente.
Depois de a barbárie nazi ter mergulhado a Europa na mais brutal das guerras, a Alemanha é derrotada com o avanço das tropas soviéticas e aceita a rendição incondicional. Com o objetivo de evitar o recrudescimento do fascismo, França, Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética ficam responsáveis, na Conferência de Ialta, por controlar diferentes partes do país e decidem também dividir Berlim que estava dentro das regiões sob administração soviética. Apesar de haver divisões políticas entre os aliados, todos concordavam, então, com a ideia de construir uma Alemanha unificada com os objetivos de reconstruir o país, de democratizá-lo e de desmilitarizá-lo.

Quando o Ocidente não quis a reunificação

Rapidamente, Estados Unidos, França e Reino Unido tomaram decisões unilaterais sem o apoio da União Soviética que aprofundaram a divisão na Alemanha. Primeiro, introduziram o marco alemão como moeda. De seguida, a União Soviética propôs um referendo para instalar um governo único para todo o país com a meta de reunificar toda a Alemanha, em 1952, mas os Estados Unidos e os seus aliados europeus recusaram a proposta. Na época, um importante membro do Comité norte-americano para as Relações Exteriores afirmou que o referendo podia conduzir a uma Alemanha “livre, neutral e desmilitarizada” algo que seria perigoso para os aliados ocidentais com a possibilidade do país cair na órbita soviética. Também o General Walter Smith, embaixador norte-americano em Moscovo entre 1946 e 1948, justificou a rejeição ao referendo. “Nós não queremos de facto, nem pretendemos aceitar, a unificação da Alemanha nos termos em que os russos podem vir a querer”, declarou então. Em vez de uma Alemanha unificada, os aliados ocidentais decidiram criar unilateralmente a República Federal Alemã (RFA) em maio de 1949. Cinco meses depois, os soviéticos fizeram nascer a República Democrata Alemã (RDA). Com o país dividido em duas partes, também Berlim continuou dividida em dois lados. Durante vários anos, a RFA orquestrou operações de espionagem e sabotagem contra a RDA a partir de Berlim Ocidental. Foi com essa justificação que em 1961 a RDA decidiu construir um muro a dividir a cidade – e não o país como muitos crêem – alegando também que a RFA tinha permitido a reabilitação de muitas autoridades nazis que passaram a trabalhar nas instituições da Alemanha Ocidental.
A RFA perdeu a guerra dos direitos sexuais e reprodutivo
Outro dado muitas vezes desconhecido é a decisão que os tribunais da RFA tomaram em agosto de 1956 de proibir o histórico Partido Comunista da Alemanha enquanto na RDA coexistia a União Democrática Cristã (CDU), que hoje governa a Alemanha, com outros partidos liberais e o Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED). Por exemplo, em 1972, quando a RDA aprovou a legalização do aborto, a maioria dos deputados democratas-cristãos votaram contra a decisão no parlamento. A legislação na RFA em relação à interrupção da gravidez foi, aliás, sempre mais restrita do que na RDA.
Também é pouco conhecido que a legislação aprovada em 1968 a favor dos direitos da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT), ano em que desapareceu o artigo 175 do código penal que condenava as relações homossexuais – que na RFA se manteve até cinco anos depois da queda do muro – permitiu a criação de associações para reivindicar avanços para este setor da sociedade.
Como na maioria dos países, também a RDA partia de um ponto de partida em que a sociedade estava contaminada por preconceitos, que não sendo uma discriminação estrutural, todavia subsistiam. No mês em que caiu o muro, foi entregue ao governo uma petição sobre uniões de facto e adoção por parte de pessoas do mesmo sexo, algo que em países como Portugal, só começou a ter força social e política décadas depois com o casamento a ser aprovado em 2010 e a adoção cinco anos depois.

Como se vivia na RDA?

Num país com uma economia planificada, a RDA pôde mecanizar progressivamente a agricultura e a indústria sem que isso fosse sinónimo de desemprego. O pleno emprego estava, aliás, instituído pela legislação laboral e os meios humanos passaram a estar dedicados a setores onde o trabalho não é automatizável como a saúde e assistência social, serviços públicos em geral, o comércio e a restauração.
O investimento, por exemplo, não estava sujeito ao capricho da estratégia individual de cada empresa mas antes à aplicação planificada do desenvolvimento da indústria, da ciência e da técnica, assim como à criação de emprego.
No dia-a-dia dos alemães orientais, os preços de produtos de primeira necessidade como o pão, a carne, batatas, o arroz ou o leite permaneciam inalterados há 30 anos nos anos 80. Também permaneciam estabilizados os alugueres das casas, o aquecimento, a energia elétrica, os transportes e outros serviços públicos.
Entre 1974 e 1984, o salário dos operários industriais subiu 29,4%. Se comparado com 1970, os números são ainda mais impressionantes. A subida para operários e empregados em geral representou 45% enquanto se mantinham os preços dos serviços e produtos básicos. Em média, um casal recebia 1800 marcos líquidos. Desse valor, cerca de 50 marcos destinavam-se ao aluguer de casa. Ou seja, a maioria pagava entre 3% e 5% do salário pela habitação.
Os sucessivos aumentos de salários servia, sobretudo, para facilitar a compra de artigos de consumo duradouro como máquinas de lavar a roupa, frigoríficos ou televisões, que existiam em quase todas as casas. Cerca de 44% das casas tinha um automóvel. São números impressionantes se comparados com Portugal.
Para além de um importante apoio à maternidade e educação, que era gratuita, com elevados níveis de ingresso na universidade, também o acesso à saúde era gratuito. Para além dos descontos, não havia qualquer valor a pagar por tratamentos odontológicos, incluindo próteses dentárias, por óculos e também operações estéticas se prescritas por um médico.
Depois de décadas de assédio, campanhas de desinformação e promoção da divisão interna, a Alemanha não foi reunificada. A RDA foi assimilada e persistem, todavia, diferenças graves no que diz respeito aos indicadores sociais entre os dois lados da Alemanha. O desemprego, a precariedade, a especulação imobiliária passar a fazer parte da realidade do Leste da Alemanha.

sábado, 30 de novembro de 2019

25 De Novembro1975


O Texto é do "Capitão de Abril" agora coronel reformado,Rosado da Luz que aqui no face dá pelo nome de Amjrluz Luz e trata da contra-revolução do 25 de Novembro de 1975 que conheci de perto ou, se quiserem, por dentro.
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O MEMORIAL DA MENTIRA (I)
Foi há 44 anos...
O actual Regime, a actual Ordem Institucional que rege este país, foi fundada faz exactamente hoje 44 anos, num dia cinzento e negro, que ficará um dia na história, conhecido como, O DIA DA FRAUDE, O DIA DA MENTIRA INSTITUCIONALIZADA.
É que toda esta, dita democracia, mergulha as suas raízes numa mentira, numa fraude, numa aldrabice, numa montagem.
É esse Dia da Fraude, da Aldrabice, que alguns pequenos e grandes aldrabões da actual classe politica dominante quer celebrar de forma institucional, enquanto que outros (entre os quais se contam alguns que conceberam, planearam, executaram e dirigiram o golpe, ou que com ele colaboram e, através do qual, tomaram o poder — afinal, como sempre acontece, era essa a finalidade do Golpe do 25 de Novembro —, mas que o fizeram de boa fé e foram, são e serão sempre homem dignos), conscientes dessa mentira e conscientes de que também eles foram enganados (mesmo que nunca o possam admitir) e que essa mentira é mesmo "fracturante", se recusam fazê-lo.
As minhas memórias desses dias foram gravadas a fogo e, ao ver os resultados desta vergonhosa golpaça, ao olhar para o que estes 44 anos de história, produziram como classe social, que desde há 4 décadas ate hoje, domina economicamente, politicamente, socialmente, ideologicamente e culturalmente este país, e cujas raízes vão mergulhar, directa e indirectamente, na hierarquia social, económica, política e ideológica dos 48 anos de fascismo, o meu ressentimento e revolta continuam a arder em chama viva ... e nunca se apagarão.
Passaram 44 anos.... Hoje, os mais jovens daqueles que viveram conscientemente durante os tempos negros do fascismo e participaram, também conscientemente, de um ou de outro lado, nos acontecimentos subsequentes ao 25 de Abril, tem mais de 70'anos.
Somos portanto uma.minoria, cada vez mais minoritária e, pela Lei da Natureza, em vias de extinção. Pública e politicamente, a nossa Era já passou há muito. Tenho perfeita consciência de que tudo aquilo que alguns de nós, que vivemos esses tempos, dissermos agora, que vá em sentido contrário ao da HISTORIOGRAFIA OFICIAL, pouco ou nada vale.
O REESCREVER DA HISTÓRIA, ATRAVÉS DA MENTIRA DESPUDORADA É SEMPRE UM MEIO MUITO EFICAZ PARA MANTER O REBANHO NA ORDEM.
E ESSE REESCREVER DA HISTÓRIA É SEMPRE FEITO POR AQUELES QUE, DE FORMA VENAL E COM FINS VENAIS, TOMARAM O PODER E PRETENDEM DEPOIS TORNAR LEGITIMO ESSE SEU PODER AOS OLHOS DAQUELES QUE VÃO DEPOIS DOMINAR E EXPLORAR.
Claro que contam depois para tal, com a cumplicidade activa e venal de muitos historiadores (os cronistas do regime) e de toda a grande comunicação social, hoje o grande exército ao serviço da reprodução e perpetuação do poder destas classes minoritárias dominantes.
Depois, bem depois a mentira ganha vida própria e é só a ir alimentando... Até um dia ... ATÉ UM DIA, QUANDO O ACTUAL REGIME DA MENTIRA ACABAR ...
Faz pena e faz também pensar que espécie animal é esta a que pertencemos (haverá vida inteligente no planeta Terra ?), quando se vêem alarves encartados (como o rapaz do Chega) ou tristes idiotas anónimos (e aí este Facebook é o jardim zoológico exemplar, onde eles podem ser observados), a perorar cheios de certezas e até de emoções, quer elas sejam ódios ou entusiásticos aplausos, sobre acontecimentos que ignoram totalmente e que se deram 10 ou 20 anos antes de terem nascido.....
Mas, para não perder a sanidade, para não perder o respeito por nós próprios, pela nossa dignidade, re-acendamos o fogo da memória, re-avivemos o vulcão da revolta, ... enquanto não vier por aí o alemão ...
... entretanto, como acontece com esta data uma vez por ano, fui avivando o fogo da memória (a memória é como o paludismo, não tem cura e dá de vez em quando) e fui escrevendo, escrevendo e, quando cheguei ao fim, dada a dimensão do escrito, para não torrar a paciência de quem porventura a tiver para ler este memorial dividi-o em várias partes.
Esta é a parte (I)
COPCON, noite de 24/25.
Com o Otelo inexplicavelmente (ou talvez não...) ausente em Belém, o COPCON assemelhava-se nessa noite a um Etna prestes a explodir e a submergir Pompeia. E todos tínhamos disso consciência. Espalhados pelas salas, numerosos sargentos páras de cabeça perdida. O vergonhoso e golpista General (graduado) Morais da Silva, o CEMFA de então, assumira dar corpo à tarefa suja, que os golpistas haviam arquitectado, de montar uma provocação máxima para ver quem cairia nela.
TODA A SUA ESTRATÉGIA FOI MONTADA EM CIMA DE ALGO QUE É, ETICAMENTE, DEONTOLOGICAMENTE, MILITARMENTE, UMA VERDADEIRA VERGONHA, MAS QUE OS VENCEDORES, OS HERÓICOS FUNDADORES "DESTA" DEMOCRACIA, ASSUMIRÃO PARA A HISTÓRIA, COMO UMA ESTRATÉGIA BRILHANTE.
ISSO MOSTRA A QUALIDADE MORAL DESTA GENTE. E TUDO ISTO FOI FEITO EM ESTREITA LIGAÇÃO E OBEDIÊNCIA A LIDERANÇAS POLÍTICAS-PARTIDÁRIAS, NACIONAIS E INTERNACIONAIS. E VEM DEPOIS ESTA GENTE FALAR EM ÉTICA E EM INDEPENDÊNCIA PARTIDÁRIA ...


Para começar e de acordo com a estratégia concebida e planeada pelo colectivo conspirador (os 9 e, acima deles, quem dirigia politicamente alguns deles), aquele general golpista, decidira ordenar a "EXPULSÃO imediata (uma manobra provocatória extrema) do Corpo de Tropas da Força Aérea". Para tal, mandara passar a toda a gente uma Guia de Marcha "para o Exército", sem se saber bem para onde nem como, pois não só a estrutura do Exército não fora tida ou achado nisto, como, o mais importante, não estava minimamente preparada para algo desta dimensão. Era algo nunca visto. A Força Aérea cortou, de repente, todo o apoio financeiro, pessoal e logístico a um Corpo de Tropas paraquedistas, incluindo até a comida. In extremis, foram algumas unidades do Exército, como aquela que eu comandava, o Forte de Almada, que decidiram de emergência partilhar a sua comida com os camaradas assim abandonados. Todas aquelas centenas de sargentos e praças ficaram sem saber qual o seu futuro.
Em segundo lugar, quase todos os oficiais que comandavam e enquadravam as Tropas Paraquedistas (123 !!) desertaram. De forma planeada abandonaram todos ao mesmo tempo, cobardemente, provocatoriamente, os seus homens à sua sorte e foram juntar-se aos golpistas na Base Aérea da Corte Graça. Era o total decepar de um Corpo de Tropas de combate, altamente operacional e disciplinado que assim ficava, naturalmente, descomandado, desnorteado.
Estas duas manobras constituiram assim uma provocação máxima que tinha 100% de probabilidades de gerar uma reacção violenta, intempestiva por parte de tropas de combate assim tão vergonhosa e injustamente insultadas, assim tao vergonhosa e injustamente desprezadas, desprestigiadas, humilhadas. Os militares treinados para o combate, para matar ou morrer, mais do que a qualquer outra provocação, tendem a reagir violentamente à injustiça de uma humilhação desta grandeza, sobretudo quando são os seus comandantes, aqueles a quem se habituaram a obedecer e a ver como exemplos que os abandonam, que desertam vergonhosamente e se tornam cúmplices assumidos, na injustiça, na humilhação.
Finalmente e de caminho, a maioria dos pilotos desertaram das suas Bases Aéreas e foram juntar-se aos golpistas na Corte Garça, levando para lá a maioria dos aviões de combate, sobretudo os Fiat G91 e os T6 Harvard.
Sentado num maple da Sala de Operações, assistia a todo aquele caos. Os sargentos paraquedistas eram uma presença insólita. Desesperados e revoltados não aceitavam o que lhes tinham feito. Recusavam-se DESOCUPAR as Bases Aéreas que tinham sido até aí a sua casa. Alguns mais excitados gritavam que tinham que OCUPAR as Bases Aéreas. Aqui o Ocupar era apenas uma questão semântica, porque eles já lá estavam. Os comandantes dos páras tinham desertado das bases e o mesmo tinha acontecido com a estrutura operacional e de comando de combate aéreo da Força Aérea. As Bases Aéreas, onde estavam aquarteladas as tropas paraquedistas tenham ficado praticamente desertas. Uma total, inaceitável e imperdoável insubordinação e um crime de rebelião (do qual eu outros fomos, posteriormente, pateticamente acusados) pois foi tudo feito à revelia (e contra) o COPCON (Comando Operacional do Continente) que, legalmente era o seu Comando Operacional.
Com raras excepções, os sargentos paraquedistas eram agora os chefes máximos daquele Corpo de Tropas. Obviamente sem experiência ou preparação para uma tarefa desta dimensão.
Recordo bem que foi este grito ("ocupar as Bases Aéreas") que nos alarmou a todos porque todos sabíamos perfeitamente que QUEM TOMASSE A INICIATIVA DE INICIAR QUALQUER MOVIMENTAÇÃO MILITAR, ASSUMIA O ÓNUS DE SE TER REBELADO CONTRA A HIERARQUIA LEGAL, CONTRA A ORDEM LEGAL ENTÃO EXISTENTE.
QUEM TOMASSE ESSA INICIATIVA ERA "O GOLPISTA".
Todos tínhamos percebido obviamente a boçal manobra provocatória e recordo o Mário Tomé a gritar com os sargentos paraquedistas que isso era cair na armadilha que os golpistas nos estavam a montar.
TODOS TÍNHAMOS CONSCIÊNCIA, DESDE HÁ BASTANTE TEMPO, QUE UM GOLPE PARA DESTRUIR O 25 DE ABRIL ERA INEVITÁVEL.
E TODOS SABÍAMOS QUE ELE TERIA QUE VIR "DE DENTRO".
A seguir ao 11 de Março, fomos assistindo à cisão do núcleo duro dos militares do 25 de Abril, com um sector significativo a entoar o estafado (tínhamos ouvido exactamente isso durante 48 anos): "VÊM AÍ OS RUSSOS" E VÊM PELA MÃO DO PCP.
OS COMUNISTAS, "ORTODOXOS" OU "ESQUERDISTAS", HAVIAM COMEÇADO PROGRESSIVAMENTE A SER CONSIDERADOS COMO O PAPÃO.
A SANTA MADRE IGREJA, O MAIS ACTIVO SUPORTE DOUTRINÁRIO DA DITADURA SALAZARISTA FASCISTA DURANTE MEIO SÉCULO, QUE HAVIA SIDO ESTRUTURADA IDEOLOGICAMENTE PELO GOEBBELS DE SOTAINA, O CARDEAL CEREJEIRA, ERA AGORA A SUA AGUERRIDA HERDEIRA ... E PARTIU EM CRUZADA, COM O CÓNEGO MELO À FRENTE.
Durante meses, em todas as cidades, vilas, aldeias e lugarejos mais recônditos,.as missas eram os comícios semanais dessa cruzada, que muitas vezes, passou a integrar autênticos autos de Fé contra os comunas.
Claro que a classe capitalista reinante, mais a direita inteligente, mais todos os serviços secretos que por aqui andavam e actuavam sabiam que o PCP não constituía perigo algum, porque o Brejnev e o Kissinger já se tinham entendido e esse respeito em Vladivostok no fim de Dezembro de 1974.
Portugal era da NATO e quer os americanos quer os soviéticos não estavam interessados em alterar os equilíbrios que tantas vantagens trazia a ambos. O PCP, visto como um mero prolongamento do PCUS era um embaraço e "ficara proibido" pelo Brejnev de ir além de um certo score eleitoral. A moeda de troca, como sabemos, foi Angola e Moçambique.
A verdadeira história da relação de dependência e/ou independência do PCP relativamente ao PCUS e das tensões que isso foi provocando no seio do próprio PCP é surpreendentemente complexa, contraditória e ainda hoje está por divulgar. Mesmo no seio daqueles que na altura integravam a estrutura mais próxima de Cunhal ainda hoje existem interrogações, interpretações e explicações absolutamente contraditórias.
Muitos de nós sabíamos disto desde a primavera-verão de 75 e passávamos o tempo a dizê-lo, mas ninguém nos ligava. Hoje, já tudo isso se sabe, mas isso agora é uma história fora da HISTORIOGRAFIA OFICIAL que a ninguém interessa.


Entretanto, no meio de tudo isso, naquela altura, era o exaltante dia a dia que ocupava a cena e ultrapassava tudo. Era uma febre, uma verdadeira loucura. Uma loucura exaltante e inesquecível para alguns de nós (sem dúvida o melhor período da minha vida, aquele que não trocava por nada), mas terrivelmente assustadora para outros.

Daniel Santana!!!??? Raimundo, estavas, estávamos por dentro. O Rosado da Luz, é rapaz da minha terra, ligeiramente mais novo, mas absolutamente digno, como todos os militares de Abril, só homens dignos são capazes de tamanho arrojo. O Rosado afirma: " ... É esse Dia da Fraude, da Aldrabice, que alguns pequenos e grandes aldrabões da actual classe politica dominante quer celebrar de forma institucional, enquanto que outros (entre os quais se contam alguns que conceberam, planearam, executaram e dirigiram o golpe, ou que com ele colaboram e, através do qual, tomaram o poder — afinal, como sempre acontece, era essa a finalidade do Golpe do 25 de Novembro —, mas que o fizeram de boa fé e foram, são e serão sempre homem dignos), conscientes dessa mentira e conscientes de que também eles foram enganados (mesmo que nunca o possam admitir) e que essa mentira é mesmo "fracturante", se recusam fazê-lo. ... " --- Aqui em cima, outro "bem informado" diz: " ... Os paraquedista ocuparam as bases, a extrema esquerda fez barulho, o P CP como sempre esperou pelo resultado, ... ". Tu afirmaste: " ... Raimundo Narciso, na altura dirigente do PCP e responsável pelas ligações do partido aos militares, mais tarde deputado do PS, afirma que a ordem partiu da esquerda militar e “teve o aval do PCP”. ... " ------- Como estavas por dentro, estará tudo aqui, foi só "aval" !!?? Não será que também ele Rosado foi enganado ("mesmo que nunca o possa admitir"), pois fracturante ou não é um tudo nada mais complexo, e que os intervenientes foram mais? Por coincidência, (depois nem tanto), o 25 de Novembro regressa sempre, por uma troca de impressões na página da Tereza Bento, em que também participou o Duran Clemente, comecei a fazer a história da minha "gloriosa" passagem, qual mancebo idoso, pelas Forças Armadas. Claro com cunho irónico, só assim "tamanha glória" tem cabimento. Mas ... mas tudo o que afirmo se passou, e vou ter um maior cuidado quando chegar ao termo da minha carreira de mancebo primeiro, e depois aspirante idoso, que foi exactamente o 25 de Novembro. - O 1º episódio já saiu do prelo e encontra-se na minha página.



Original aqui:

A “dramática aventura” do 25 de Novembro que ditou o fim da Revolução


Portugal viveu, há 44 anos, a “dramática aventura” do 25 de Novembro, que opôs militares da extrema-esquerda e “moderados”, ditou o fim da revolução portuguesa e a normalização democrática do país.
A expressão “dramática aventura” é do general Costa Gomes, o Presidente da República que, do Palácio de Belém, em Lisboa, foi negociando com todas as barricadas para evitar um confronto que poderia ter arrastado o país para uma guerra civil.
De um lado estava a esquerda militar, influenciada pela extrema-esquerda e comunistas, dividida entre “gonçalvistas”, próximos do ex-primeiro-ministro Vasco Gonçalves e do PCP, e “otelistas”, apoiantes do estratego do 25 de Abril e chefe do COPCON (Comando Operacional do Continente), adeptos da “via revolucionária”.
Do outro estavam os “moderados”, congregando militares e forças à direita do PCP - incluindo o PS de Mário Soares e o PSD de Sá Carneiro - e que acabaram por ter o aval de Costa Gomes.
Um ano e meio depois da Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura mais antiga da Europa, de quase meio século, a revolução estava na rua. A banca e os seguros já tinham sido nacionalizados e a reforma agrária no Alentejo e Ribatejo estava no auge.
Desde julho de 1975, no Norte e no Centro do país, bombas destruíram sedes do PCP. Nas ruas gritavam-se vivas ao poder popular, à revolução e “abaixo os comunistas”. Esse Verão de 1975 passou para a História como o Verão quente.
Desde 1974, sucederam-se os golpes e contragolpes, o 28 de Setembro, ainda em 1974, o 11 de Março, num país governado por um Conselho da Revolução.
Nos jornais, durante esse outono quente e com uma cadência quase diária, eram anunciados golpes e mais golpes. À esquerda e à direita.
Chega-se então a novembro. O barril aqueceu e está pronto a “explodir”.
O “rastilho” foi a escolha de Vasco Lourenço, do Grupo dos Nove, os moderados, para comandante da Região Militar de Lisboa, em substituição de Otelo, que os revolucionários viam como um chefe para a revolução socialista.
Os acontecimentos precipitam-se a 20 de Novembro.
Dias depois do cerco da Assembleia da República por trabalhadores da construção civil, em greve, e do sequestro do primeiro-ministro, Pinheiro de Azevedo, o Governo entra... em greve. Fica para a história o desabafo de Pinheiro de Azevedo dizendo que não gostou de ser sequestrado: “Chateia-me”!
E se o “rastilho” do 25 de Novembro foi a substituição de Otelo, a “faísca” foi a entrada em ação dos paraquedistas. A unidade levantou armas em protesto contra a ameaça do chefe de Estado-Maior da Força Aérea, general Morais da Silva, de dissolver o regimento, decisão que os “páras” não aceitam.
O resultado é uma sublevação dos paraquedistas, que ocupam as bases de Tancos, Monte Real, Montijo e o Comando da Região Aérea, no Monsanto, em Lisboa.
Esta revolta serviu para justificar o avanço do grupo militar dos “moderados”, que, há meses, preparava um plano militar para responder a um eventual golpe da esquerda radical.
Além de Melo Antunes e Vasco Lourenço e do operacional Jaime Neves, à frente dos Comandos da Amadora, surge então o nome de um militar que viria a ser Presidente da República (1976-1986): Ramalho Eanes. Seria ele o operacional do plano que deu a vitória aos moderados.
Em Belém, os “moderados” tentam convencer Costa Gomes a dar cobertura ao seu plano militar. O Presidente general vai adiando e negociando para acalmar os ânimos: com os militares “revolucionários”, com o PCP, para não sair às ruas e não apoiar a “aventura” dos paraquedistas.
Otelo Saraiva de Carvalho é chamado a Belém. E aí fica. Retido e impossibilitado de comunicar com as suas “tropas” no quartel do COPCON.
Mas foram necessários dois dias para dominar a situação.
Na tarde de 25 de novembro é decretado o estado de sítio em Lisboa - a única vez que tal aconteceu. Os revoltosos ameaçavam matar o general Pinho Freire, no Comando Aéreo no Monsanto, Lisboa, mas este foi detido numa sala com telefone, que serviu para comunicar o sucedido ao Grupo dos Nove.
À noite, os comandos ocupam a base do Monsanto e libertam Pinho Freire.
Os confrontos acontecem no dia seguinte, 26 de novembro. Comandos cercam as instalações da Polícia Militar em Lisboa, ocupada pelos revoltosos. Do tiroteio resultaram três mortos - dois comandos e um polícia militar.
Passados 44 anos, porém, há ainda alguns aspetos menos claros. Quem deu a ordem aos “páras” para ocupar as bases? E o PCP deu aval à decisão?
Otelo nega ter sido ele. Ramalho Eanes considera que foi Otelo a dar a ordem ou que “deu cobertura”.
Raimundo Narciso, na altura dirigente do PCP e responsável pelas ligações do partido aos militares, mais tarde deputado do PS, afirma que a ordem partiu da esquerda militar e “teve o aval do PCP”. Esta última versão, porém, é desmentida por Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, passados 25 anos sobre a revolução, no livro “A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril”, publicado em 1999.
24 NOV 2019 / 10:55 H. 










quinta-feira, 14 de novembro de 2019

BOLIVIA

O QUE FICOU PARA TRÁS



Deixo nesta publicação, apenas, um dos notáveis exemplos de desenvolvimento social a cargo do ex-presidente Evo Morales. Quantos dos leitores saberiam desta realidade?

A 10º linha do teleférico da Bolívia, unindo as cidades de La Paz e El Alto, iniciou as suas operações em 8 de Março de 2019. O sistema de transporte aéreo público da Bolívia completa uma rede de integração metropolitana de 30,7 kms.

O sistema possui no total 36 estações e 1.396 cabinas nas 2 cidades, operando a 3.600 metros acima do nível do mar. Nos 6 anos de operação, a rede de teleféricos transportou quase 200 milhões de pessoas e custou mais de 800 milhões de dólares.

Cada uma das linhas do sistema é identificada com uma cor diferente. As primeiras linhas construídas têm as cores da bandeira boliviana: vermelho, amarelo e verde. As seguintes são identificadas com as cores branco, azul, azul claro, laranja, roxo, castanho e prata, que correspondem à “wiphala”, a bandeira quadriculada das cores típicas dos povos indígenas andinos.

A Linha Prata, inaugurada recentemente pelo presidente boliviano Evo Morales, tem 2,72 kms de extensão, 21 torres e 117 cabines. A sua capacidade de transporte é de 3.000 pessoas por hora em cada direcção. Este ramo conecta-se directamente com as linhas vermelha, roxa e amarela na cidade de El Alto, e através delas é integrado com as outras linhas de teleférico que levam a La Paz, a sede do governo central.

O sistema permite evitar o tráfego caótico e a geografia caprichosa das cidades de La Paz e El Alto, além de oferecer vistas aéreas das duas cidades.

Com esta última linha conclui a 2ª fase deste projecto, sem descartar a futura incursão deste sistema noutras cidades como Sucre e Potosí.