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«O sujeito oculto: ao vencedor as batatas.»
Mauro Luis
«Para a teoria marxista, a classe e a consciência de classe se inserem em um movimento de continua constituição e desconstrução, determinado pela luta de classes […] quando analisamos o movimento objeto da classe trabalhadora {no Brasil} desde a crise da autocracia burguesa nos anos 1970 até hoje, vemos claramente um processo no interior do qual se tornou possível a fusão de classe e a passagem para uma classe em si nos anos 1980, seguida de uma interrupção nesse caminho e sua desconstrução como classe que culmina no período de conciliação de classes dos governos petistas e sua reversão à serialidade no período recente.
Uma pergunta assombra os cérebros inquietos que procuram compreender o cenário que se abre com a eleição de Bolsonaro: como isso foi possível? É compreensível, uma vez que essas pessoas se pautam pela razão e o bom senso e imaginam que os acontecimentos se definem por uma certa razoabilidade. Infelizmente, o que a história nos comprova é que na luta de classes, como na guerra, a primeira vítima é a razão.
Em um importante documentário de 2003, dirigido por Errol Morris, chamado Sob a névoa da guerra, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, McNamara, afirma exatamente isso: “a racionalidade não nos salvará”. É evidente que qualquer pessoa sensata, diante das alternativas apresentadas, não escolheria alguém que revelasse o despreparo, a barbárie explícita e a evidente idiotia do candidato em questão. Mas não se trata de escolhas movidas pela razão e, por mais que doa constatar, não se trata de pessoas sensatas.Para dar um toque de perversidade ao já trágico cenário, muitos dos que se beneficiaram das limitadíssimas políticas compensatórias na área social e das condições de inserção via consumo, votaram contra o PT.
É evidente que há um componente de manipulação. Isso tudo não teria a intensidade que teve não fora o massivo ataque dos meios de comunicação, a ação judicial que priorizou o ataque aos petistas envolvidos nos esquemas de corrupção, à insistente vinculação da pregação moral de um certo fundamentalismo religioso às posturas minimamente progressistas no campo dos costumes como depravação e uma ameaça à família e aos bons costumes. Da mesma forma, ficou comprovado um poderoso e milionário esquema de organizações que difundem uma espécie de liberalismo raivoso de extrema direita na criação de movimentos e personalidades para agir na propaganda e contra informação como armas de guerra e de desestabilização, como as iniciativas dos bilionários irmãos Charles e David Koch, da ultradireitista John Birch Society, da organização Students for Liberty, além de recursos vindos de partidos (PSDB, DEM, etc.) e empresários.
Se somarmos a isso a doutrinação sistemática operada por um conjunto de segmentos ditos religiosos, mais precisamente envolvidos em empresas altamente lucrativas de exploração da fé e do obscurantismo, temos uma boa explicação da imensa capacidade de manipulação de massa operada.
Caso o petismo dependesse de si mesmo teria sido derrotado de forma ainda mais fragorosa. Para muitos, isso é um mistério. As pessoas deviam reconhecer o que foi afirmado como o melhor governo de nossa história, a atenção aos que se encontram abaixo da miséria absoluta, o Bolsa Família, o acesso à universidade, a valorização do salário mínimo, as oportunidades de consumo e crédito, e tudo isso fazendo com que os empresários, o agronegócio e os bancos ganhassem muito dinheiro, como o ex-presidente adora lembrar.
Até aqui, trabalhamos apenas no descritor do movimento dos segmentos e sua polarização entre a extrema direita e o centro esquerda. Uma questão segue sem resposta: por que a classe trabalhadora não saiu em defesa, primeiro do governo do PT e depois da democracia contra o fascismo? Ou pelo menos, por que não o fez na dimensão e força que poderia?
Eis que aparece nosso sujeito oculto: a classe trabalhadora. Lembram dela? Aquela que teria deixado de existir em tempos agora “pós-industriais”, numa sociedade do “fim do trabalho”; aquela cuja identidade de classe a multiplicidade de identidades secundarizou e cuja centralidade na luta política se diluiu em “novos sujeitos” e “novas formas de luta”… Pois então, este sujeito que ninguém mais via, que havia deixado de existir e ter importância nas disputas políticas, este sujeito decidiu a eleição a favor do fascismo.
Queria, aqui, somar minha modesta contribuição no que diz respeito à configuração de classe e da consciência de classe. Já faz tempo que temos alertado para o fato de que a mudança da morfologia da classe trabalhadora, apesar de não alterar (concordando com os autores acima citados) a sua centralidade na ordem capitalista contemporânea, não deixar de produzir importantes alterações no que diz respeito à consciência de classe.
Resumidamente, sabemos que não há uma correspondência mecânica entre o ser da classe e sua consciência, de forma que os trabalhadores, pela posição que ocupam nas relações sociais, possam adquirir uma consciência correspondente. Os trabalhadores, na forma imediata de sua manifestação, são apenas indivíduos inseridos na divisão social do trabalho e na concorrência, se apresentando portanto como adversários imediatos uns dos outros. Nesta forma imediata, configuram aquilo que Sartre chama de “serialidade”. Isto é: estão no mesmo espaço, fazendo a mesma coisa, mas não se conformam como um grupo ou uma forma mais orgânica de unidade política. É no enfrentamento contra as contradições da ordem capitalista, primeiro de forma isolada e casual, depois de maneira mais sistemática, que esses indivíduos encontram pontos de fusão que podem levá-los à condição de classe, primeiramente como mera oposição aos capitalistas (como classe em si), depois, em certas condições, como possibilidade de se constituir como sujeitos de um projeto histórico contra e para além do capital (classe para si).
Como vemos, para a teoria marxista, a classe e a consciência de classe se inserem em um movimento de continua constituição e desconstrução, determinado pela luta de classes, como bem captou E. P. Thompson. Ora, quando analisamos o movimento objeto da classe trabalhadora desde a crise da autocracia burguesa nos anos 1970 até hoje, vemos claramente um processo no interior do qual se tornou possível a fusão de classe e a passagem para uma classe em si nos anos 1980, seguida de uma interrupção nesse caminho e sua desconstrução como classe que culmina no período de conciliação de classes dos governos petistas e sua reversão à serialidade no período recente.
Caso agreguemos a isso as transformações no mundo do trabalho, compreenderemos a base material que, somada aos desvios políticos, leva a uma configuração da classe em novo e brutal momento de serialidade. O que nos interessa neste momento é entender como isso se manifesta em um particular comportamento político. Para tanto, temos que remeter nossa análise para uma passagem do famoso O 18 de brumário de Luís Bonaparte em que Marx trata dos camponeses, naquela oportunidade procurando responder qual seria a base de massa para a aventura golpista de Luís Bonaparte.
Em síntese, Marx afirma que os camponeses, pela posição que ocupavam nas relações sociais e diante das formas de propriedade, formavam um certo agrupamento de classe mas no entanto não constituíam uma classe propriamente dita. Por viverem do mesmo modo, partilharem de uma determinada cultura e manifestarem certos interesses, formavam uma classe; mas, não formavam uma comunidade mais ampla do que aquela dos interesses e situações mais imediatas, não formavam qualquer união nacional, não podiam se representar, tinham que ser representados, por isso, não eram ainda uma classe. Seriam, na metáfora do autor, como “batatas que somadas, constituem um saco de batatas”.
Muita gente considera que isso não passava de um preconceito de Marx em relação aos camponeses. Mas na minha avaliação essa observação não vale apenas para as condições objetivas do campesinato na França daquela época, e pode servir para qualquer classe em seu processo de formação – inclusive para o proletariado urbano e, mais do que isso, cabe perfeitamente para a condição se serialidade que estamos descrevendo.
No caso presente, o que os uniu foi o ódio. Vejam, não é um ódio ao PT, é um profundo descontentamento com a vida, com a violência diária vinda da criminalidade, das condições de moradia, um ódio diante de uma sociedade hipócrita que valoriza a meritocracia e retira as condições para que se desenvolvam suas potencialidades, um ódio contra uma corja de sangue sugas que controlam as instituições de governo para saquear os recursos e enriquecer ilicitamente, um ódio contra uma democracia representativa que não representa ninguém além daqueles que dela se apropriaram como instrumento de garantia de privilégios, com juízes que se colocam sob a capa da lei para ser injustos, contra a desigualdade gritante, contra a opulência de poucos que são sempre os maus… Enfim, ressentimento e ódio contra um mundo que os despreza.
A centro esquerda viu nesse ódio, por vezes, apenas um recurso eleitoral, como quando tentou se valer dele no segundo turno de Dilma contra Aécio em 2014, para depois das eleições voltar ao discurso pragmático da governabilidade aliando-se aos seus algozes. O fato é que essa força foi desprezada no sentido de dar forma a uma consciência de classe, anticapitalista e socialista.
Coube à direita dar forma a esse ódio, colando nele a máscara de seu adversário. O PT é o culpado da crise, das filas no atendimento na saúde, da precariedade da educação, da corrupção, da desagregação das famílias, da explosão de uma sexualidade aberrante que ameaça, de mulheres que levantam a voz e colocam o dedo na cara de quem as oprime, de índios (meu deus, ainda tinham índios neste país) querendo as terras tão bem ocupadas por mineradoras, madeireiras e o agronegócio. A mensagem da extrema direita encontra o ódio de uma boa parte dos trabalhadores e os representa: essa democracia é uma farsa (pode fechar o Congresso e o STF), este Estado é um cabide de emprego, privatiza tudo, manda a polícia atirar para matar, tirem os doutrinadores das escolas, matem vadios, negros, índios, feministas, petistas, comunistas…
Esse ódio e esse enorme ressentimento não nasce dos trabalhadores, como é possível perceber. Ele vem de fora, contrabandeando coisas que os trabalhadores não teriam porque temer. Por que um trabalhador deveria se preocupar com uma maior ou menor presença do Estado na economia, ou defender privatizações, ou destruir sua possibilidade de se aposentar um dia? Esse ressentimento nasce dos setores médios, que vêm acumulando ódio há anos. A extrema direita, que como sempre nasce dos segmentos médios e pequeno-burgueses, logrou colar seu ódio e ressentimento no ódio dos trabalhadores e, assim, ganhar base de massas para seu projecto reaccioná
A chave do enigma está em uma frase do Marx que citamos acima: não podem se representar, tem que ser representados. A impossibilidade de se conformar como uma classe encontra a unidade fora de si, em tempos de crise e acirramento da luta de classes, numa figura salvadora, aparentemente acima dos interesses em luta, que se sobrepõe à imagem abstrata de Nação e Ordem e as personifica: Luís Bonaparte na França do Segundo Império, Getúlio Vargas na década de 1930, Perón na Argentina, ou em outras situações mais agudas em que se somam outras determinações, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha… Mais recentemente, Tump nos EUA, e agora Bolsonaro no Brasil.