segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A URSS comparada aos EUA

Há pouco tempo, quando falava num debate sobre os problemas sociais dos EUA (o país em que vivo), perguntaram-me se achava o sistema soviético melhor que o americano. A ratoeira estava montada: depois das derrotas do socialismo no Leste da Europa, a cultura dominante proibiu a esquerda afiançada de «democrática» de falar da URSS sem primeiro, a título de portagem, a condenar ou renegar. E mesmo assim, nem depois da costumeira demonização em piloto-automático, ouvimos falar dos enormes marcos civilizacionais soviéticos.
É óbvio que os EUA não podem ser, em rigor, comparados à URSS. Quando em 1917 os EUA eram um dos países mais avançados do mundo, a Rússia era um obscuro império feudal. De resto, quando se trata de comparar o socialismo ao mundo capitalista, é este último que define os termos, confrontando a realidade do capitalismo com o seu passado efectivo e a realidade do socialismo com o seu prospectivo futuro.
Mas qual seria o resultado se o critério fossem as conquistas sociais? Aceitemos pois, com esta justíssima condição, a pergunta armadilhada de saber «qual era o melhor sistema» e, sobretudo, «para quem».
O que nunca te disseram sobre a URSS
Em 50 anos, a produção industrial soviética passou de 12 para 85% da alcançada pelos EUA e a pátria de Lenine logrou patamares inéditos de igualdade, segurança, saúde, habitação, emprego, educação e cultura. O socialismo pôs fim à inflação, à discriminação racial e à pobreza extrema. A esperança média de vida duplicou e a mortalidade infantil caiu 90%. Segundo a UNESCO, nunca uma sociedade tinha elevado tanto o nível de vida da população em tão pouco tempo. Ao contrário dos Estados Unidos, perpetuamente assolados por epidemias de desemprego, em apenas 20 anos o país dos sovietes atingiu o pleno emprego.
Os direitos laborais nos EUA continuam hoje 80 anos atrás dos soviéticos: os norte-americanos trabalham em média quase 9 horas diárias. Já os soviéticos trabalhavam 7 horas por dia desde 1936. Os norte-americanos gozam em média 8 dias de férias, amiúde não remunerados. Já os soviéticos tinham direito a um mês de férias inteiramente pagas. Os EUA são o único país da OCDE que não contempla um único dia de licença de maternidade. Na URSS, as mulheres tinham direito a 20 meses de licença paga.
Os EUA não dispõem de um sistema público de saúde, o que condena diariamente 125 trabalhadores à morte. Tal não se passaria na URSS, que oferecia cuidados médicos gratuitos a toda a população. Os jovens norte-americanos contraem uma dívida média de 80 mil dólares durante a licenciatura. Na URSS, todos os graus de ensino, do pré-escolar ao pós-doutoramento, eram gratuitos. Na terra do Tio Sam os trabalhadores gastam metade do seu salário em habitação e serviços básicos. Na URSS, a renda da casa representava 2% do orçamento familiar e os serviços básicos 4%.
A URSS era também uma sociedade mais culta que os EUA. Em 1917, na Quirguízia, menos de 0,2% da população sabia ler e escrever. Em 1970 esse número chegava aos 97%. Nessa década, a URSS foi reconhecida pela UNESCO como o país do mundo onde se liam mais livros e viam mais filmes. As famílias soviéticas assinavam em média quatro publicações periódicas, o número de visitantes de museus representava metade da população e a frequência de teatros ultrapassava o seu total. Nos EUA cerca de 25% da população são tecnicamente «iletrados» (incapaz de compreender textos simples).
Anões aos ombros de gigantes
Como agora a direita europeia reconhece, o próprio Estado Previdência foi uma cedência arrancada a ferros pelos trabalhadores à burguesia, em parte pela necessidade de competir com a URSS em matéria de conquistas sociais.
Bernardo de Chartres, um filósofo do século XII, comparou os feitos da sua geração à figura de «anões aos ombros de gigantes». Também nós devemos reconhecer os benefícios duradouros que colhemos da experiência soviética, afinal, a URSS destruiu sozinha 70% do exército de Hitler e libertou o mundo do genocídio nazi, pagando-o com mais de 24 milhões de vidas e 70 mil cidades e vilas em escombros.


Uma terra sem amos

Com o fim da URSS, o número de pobres aumentou mais de 150 milhões, a economia e os salários encolheram mais de 50%. 75% dos russos caíram na miséria e doenças antes erradicadas atingiram proporções epidémicas. A esperança média de vida caiu para os níveis do século XIX.

Os EUA venceram a guerra fria, mas são todos os dias derrotados pela pobreza de 50 milhões, pela maior taxa de população prisional do mundo e por dois milhões de crianças sem tecto. Na URSS, as crianças não dormiam na rua e a democracia não ficava à entrada da fábrica. Foi o mais perto que a humanidade chegou de construir uma terra sem amos.


A URSS foi uma flor rara, de beleza extraordinária e difícil cultivo, que já antes tinha sido arrancada, com apenas dois meses de vida, quando a Comuna de Paris foi esmagada. E mesmo assim voltou a crescer, mais viçosa e resiliente num improvável sulco russo. Extinta a União Soviética, sobrevivem sementes que um dia darão flores novas.

Ser Comunista

FULANO ABANDONOU O PCP...

O PCP é o «espaço» dos  Comunistas portugueses.
Não conheço outro.
Ser Comunista é lutar por um mundo melhor, mais fraterno, mais justo, mais solidário, é aderir aos princípios e objectivos do Manifesto de 21 de Fevereiro de 1848.
Ser Comunista é ser essencialmente humano, ser tão humano, ser infinitamente humano.
Ser Comunista é desenvolver ao máximo a sensibilidade até se sentir angustiado quando alguém sofre, é estar do lado desse que sofre, apoiá-lo, segurá-lo e defendê-lo.
Ser Comunista é mais do que olhar junto na mesma direcção. É olharmos uns para os outros e pelos outros.
Ser Comunista é o exercício da solidariedade continuada.
Ser Comunista não é um delírio abstracto, é um acto concreto.
Ser Comunista é ser amigo, aceitar o outro com todos os seus defeitos, sentir-se responsável pelo seu bem-estar, estar presente quando o outro precisa, ensiná-lo, trazê-lo para que seja também Comunista... mas se o não for, continuará a ser amigo.
Um Comunista é alguém que está sempre lá para o outro, para lhe dar as mãos quando mais precisa.
Ser Comunista no PCP é lutar por um ideal humanista dentro e fora do PCP.
Ser Comunista é errar, reconhecer os erros, aprender com os erros, corrigi-los para, a cada dia que passa, ser mais Comunista.
Ser Comunista é aprender, aprender, aprender sempre.
Ser Comunista no PCP também é assumir a liberdade de não concordar dentro do Partido, de o afirmar, de debater, de expor e defender ideias até à exaustão, de criticar, criticar, criticar, de convencer e ser convencido, mas de assumir sempre a posição colectiva na defesa do bem-estar de todos os povos do mundo.
Ser Comunista é ser humilde.
Ser Comunista é ser solidário. Não é ser solidário abstractamente com os povos do mundo, é ser solidário com o vizinho que conhecemos, com o sofredor que encontramos, olhos-nos-olhos.
Só assim aprenderemos a concretizar o abstracto de ser solidário com todos os povos do mundo.
Só assim aprendemos e integramos o internacionalismo proletário.
Ser Comunista no PCP é lutar no e por um Partido que hoje é diferente do que foi ontem, que amanhã será diferente do que é hoje, porque ser Comunista é uma dinâmica permanente de transformação, de retransformação e de reconfiguração da luta que travamos assente num conjunto básico dos princípios, ideais e objectivos definidos no Manifesto de 21 de Fevereiro de 1848.
Ser Comunista no PCP é ter asas para voar como uma águia, porque as águias podem voar baixo, mas os abutres nunca voam tão alto como as águias.
É voar cada vez mais alto... “e dizê-lo cantando a toda a gente”.
É ter um sonho que comanda a vida, é transformar o sonho em realidade, em casa, na escola, na fábrica, no campo, no mar, no trabalho, na rua... porque, onde houver um Comunista não há apenas um sonho, há a transformação desse sonho numa realidade.
Ser Comunista não é ter um sonho de futuro longínquo, não é ter um sonho de utopia, é ter um sonho urgente, tangível, é ter um sonho para hoje, para amanhã e para depois de amanhã, um sonho que se concretiza hoje, amanhã e depois de amanhã.
E desenganem-se os que julgam que somos poucos. Somos milhões e milhões na terra inteira que lutamos e concretizamos os ideais que transporta a bandeira vermelha que nos une – a união dos operários e camponeses, o martelo e a foice, a união de todos os povos do Planeta, a estrela de cinco pontas do Internacionalismo Proletário.
Ser Comunista fora do PCP, não sei o que é!
Certamente não será “Ser Comunista”!
LV

EMBARGO: 50 verdades sobre as sanções económicas dos Estados Unidos contra Cuba 1

Paris 26/04/2013
Salim Lamrani *



O estado de sítio econômico mais extenso da história voltou a atrair holofotes
após a visita de Beyoncé à ilha
A visita da estrela estadunidense da música Beyoncé e de seu marido Jay-z à Havana
voltou a levantar polêmica sobre a manutenção das sanções contra Cuba, em vigor há mais
de meio século. Eis aqui alguns dados sobre o mais extenso estado de sítio econômico da
história.
1) A administração republicana de Dwight D. Eisenhower impôs as primeiras sanções
econômicas contra Cuba em 1960, oficialmente por causa do processo de nacionalizações
que o governo revolucionário de Fidel Castro empreendeu.
2) Em 1962, o governo democrata de John F. Kennedy aplicou sanções econômicas totais
contra a ilha.
3) O impacto foi terrível. Os Estados Unidos sempre constituíram o mercado natural de
Cuba. Em 1959, 73% das exportações eram feitas para o vizinho do norte e 70% das
importações procediam deste território.
4) Agora, Cuba não pode exportar nem importar nada dos Estados Unidos. Desde 2000,
depois das pressões do lobby agrícola estadunidense que buscava novos mercados para
seus excedentes, a cidade de Havana está autorizada a importar algumas matérias-primas
alimentícias, com condições draconianas.
5) A retórica diplomática para justificar o endurecimento deste estado de sítio econômico
evoluiu com o tempo. Entre 1969 e 1990, os Estados Unidos evocaram o primeiro caso de
expropriações de suas empresas para justificar sua política hostil contra Havana. Em
seguida, Washington evocou sucessivamente a aliança com a União Soviética, o apoio às
 guerrilhas latino-americanas na luta contra as ditaduras militares e a intervenção cubana
na África para ajudar as antigas colônias portuguesas a conseguir sua independência e a
defendê-la.

Um Outro Olhar Sobre Stáline - Ludo Martens

Prefácio à edição portuguesa por Carlos Costa

É difícil para mim escrever um novo prefácio para esta edição, depois do rigoroso
prefácio do autor, na parte em que se refere à sua investigação e conteúdo da obra, e
depois da pertinente Nota do Tradutor (tradutor que enriqueceu enormemente a obra
com as suas notas de rodapé e o importante Índice de Nomes – quem é quem –, que aliás
muito nos ajuda para a leitura de outras obras).
Atrever-me-ei, contudo, a escrever algumas notas, que, embora possam não trazer
algo de novo, me parece será útil neste momento recordar.
1. Toda a história da sociedade humana, desde que surgiram as classes sociais, é a
história da luta de classes.
A Revolução de Outubro, com a consequente construção do socialismo, foi o mais
importante acontecimento desta história da sociedade humana, isto é, da história da luta
de classes (no caso, e concretizando, da luta dos explorados e oprimidos contra os
exploradores e opressores ou, simplificando ainda mais, da classe operária contra a classe
capitalista).
E, sendo assim, a derrota do socialismo na União Soviética é, também, dos mais
importantes factos da história da sociedade.
Por tudo isto é indispensável para os comunistas de hoje o estudo do que foi a epopeia
da construção do socialismo, no quadro da inevitavelmente acesa luta de classes, epopeia
que, entre muitas outras coisas, se traduziu na transformação de 120 milhões de ínfimos
objectos da História – os mujiques – em parte substancial dos sujeitos da história que
criaram a civilização soviética.
Por idêntica razão, o estudo das causas da derrota do socialismo na URSS coloca-se hoje
como questão crucial para todos os comunistas. Sem essa análise, não é possível aos partidos
comunistas definirem, com rigor e acerto revolucionário, as orientações e linhas de acção
(tácticas e estratégicas), adequadas ao tempo actual e que a presente crise económica,
financeira, política e ética do sistema capitalista exige.
2. A divulgação, nos últimos tempos, de um vasto conjunto de documentos factuais,
das análises, das abordagens sobre as causas da derrota, constitui um importante passo
em frente neste sentido.
É nesse esforço de análise que este importante livro de Ludo Martens deve ser visto.
O sítio Para a História do Socialismo – documentos, que também teve a iniciativa de
publicar esta obra, tem dado de há um ano para cá uma contribuição para esta divulgação
em Portugal (e não só), de textos para o estudo da construção do socialismo e da sua
derrota na União Soviética.
Neste livro, Ludo Martens debruça-se sobre Stáline, um dos mais relevantes dirigentes
comunistas de sempre, que desempenhou um papel fulcral em todo o processo de
construção do socialismo e na derrota militar do nazi-fascismo.
4
Para combater (e finalmente derrotar) o socialismo na URSS, os nazis e todos os
outros imperialistas usaram toda a espécie de armas: invasão e fomento da guerra civil
(logo após o triunfo da revolução), boicotes, sabotagens, infiltrações de serviços secretos,
criação de quintas colunas, corrupção, apoio a trânsfugas, traidores, conspiradores,
reformistas, oportunistas, revisionistas, etc., etc., etc..
Mas a arma que parece ter-se revelado mais eficaz foi a de simbolizarem e
identificarem o socialismo com Stáline, denegrindo a linha marxista-leninista por ele
mantida e desenvolvida firmemente, o seu papel histórico e personalidade. Para isso
deturparam factos, inventaram as mais sórdidas mentiras, fizeram de Stáline o ditador
sanguinário e repetiram, repetiram, repetiram de tão variadas formas estas ideias que
para milhões de pessoas (incluindo comunistas) se tornaram dúvidas ou verdades.
3. Depois da morte de Stáline, o revisionista e eticamente degradado Khruchov, no fim
do XX Congresso do PCUS, lançou com um verdadeiro golpe a bomba política, ideológica
e psicológica, o chamado «Relatório Secreto», que credibilizou todas as mentiras e
infâmias lançadas sobre a personalidade, papel histórico e ideologia de Stáline.
O caminho estava aberto para toda uma linha revisionista no plano ideológico e da
política interna e externa, que facilitou a nova ofensiva e agressividade do imperialismo e
lançou os fundamentos para o surto de uma classe exploradora, que, com Gorbatchov,
Iéltsine e comparsas, levou à derrota final do socialismo na URSS, pela classe que hoje
detém o poder de Estado na Rússia, e à consequente desagregação da União Soviética.
Pelo caminho, a maior parte dos partidos comunistas europeus foram degenerando
em partidos sociais-democratas. Digo europeus porque, nos países da América, já muitos
tinham degenerado sob a influência do «browderismo», teoria de conciliação de classes
baseada na falsa interpretação da aliança na Segunda Guerra Mundial entre os EUA e a
URSS, elaborada e difundida pelo renegado Earl Browder, secretário-geral do PC dos
EUA, que levou à dissolução do próprio partido.
4. Identicamente, em grande parte baseada na interpretação errada daquela aliança,
também em Portugal (no Tarrafal), surgiu a teoria chamada de «política de transição»,
derrotada na reorganização de 1940/41 e principalmente no IV Congresso do PCP em
1946, mas que ressurge como linha política da chamada «solução pacífica do problema
político português», relativamente à qual Álvaro Cunhal diz que se foi «infiltrando» na
linha política do Partido, assente na ideia obsessiva da «degradação irreversível» do
regime salazarista.
Nas suas obras, talvez das mais importantes para a formação dos comunistas
portugueses, contam-se O Desvio de Direita nos anos 1956-1959 e A Tendência Anarco-
Liberal na Organização do Trabalho de Direcção, nas quais Álvaro Cunhal critica com
todo o pormenor e a maior profundidade esse desvio, também ele influenciado pela
política de coexistência pacífica deturpada por Khruchov e outras teorias por ele
desenvolvidas no XX Congresso e posteriores do PCUS.
Traço comum a todos estes desvios é terem surgido a partir de direcções de partidos, o
que bem confirma a sabedoria popular de que «a cabeça comanda o corpo».
5
A confiança dos militantes nos dirigentes dos seus partidos é indispensável, mas,
portanto, mais indispensável ainda é que as direcções dos partidos mereçam essa
confiança pela justeza da linha política que prosseguem, estilo de trabalho colectivo,
frontalidade, lealdade e fraternidade entre camaradas (princípios que Ho-Chi-Minh
valorizou no seu testamento político).
É uma necessidade imperiosa para os comunistas, e indispensável para os seus
dirigentes, o estudo do marxismo-leninismo (conjunto de teorias científicas elaboradas
por Marx, Engels e Lénine) e, a essa luz, a análise da realidade nacional e mundial.
Por tudo isto, é extremamente útil a leitura meditada deste livro de Ludo Martens,
assim como de vários outros textos também publicados no sítio Para a História do
Socialismo – Documentos.
Lisboa, 28 Junho 2009
Carlos Costa

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

História dos supostos milhões de presos e mortos nos campos de trabalho e pela fome na União Soviética no tempo de Stáline

História dos supostos milhões de presos e mortos nos campos de trabalho e pela fome na União Soviética no tempo de Stáline


Neste mundo em que vivemos, quem consegue escapar às terriveis histórias de mortes suspeitas e assassínios nos campos de trabalho Gulag na União Soviética? Quem consegue escapar às histórias de milhões de mortos pela fomes e de milhões de opositores executados na União Soviética no tempo de Stáline? No mundo capitalista repetem-se estas histórias em livros, jornais, radio, televisão e filme numa quantidade infinita e o mito de dezenas de milhões de vitimas que o socialismo teria causado tem crescido sem limites nos últimos cinquenta anos.

Mas na realidade, de onde vêm estas histórias e estes números? Quem é que está por detrás disto?

E outra pergunta: o que há de verdade nessas histórias? Por exemplo, qual é a informação existente nos arquivos da União Soviética, anteriormente secretos, mas abertos por Gorbatchov à investigação histórica em 1989? Segundo os inventores dos mitos, todas as histórias de milhões de mortos na União Soviética de Stáline se confirmariam no dia em que os arquivos fossem abertos. Foi o que aconteceu? Foi confirmado?

O artigo que segue mostra-nos de onde vêm e quem está por detrás das histórias dos milhões de mortos pela fome e nos campos de trabalho na União Soviética de Stáline. O autor do texto, depois de ter estudado o resultado das investigações feitas nos arquivos da União Soviética dá-nos também informação em dados concretos sobre o verdadeiro número de presos, anos de prisão e o verdadeiro número de mortos e de condenados à morte na União Soviética de Stáline. A realidade é bem diferente do mito!

O autor do texto, Mário Sousa, é militante do Partido Comunista da Suécia [KPML(r)]. O artigo foi escrito em sueco para o jornal do partido, Proletären - O Proletário - onde foi publicado em Abril de 1998. A tradução é do autor.

Sem papas na língua

O Que é o BCE?

1-O Que é o BCE?
- O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

2-E donde veio o dinheiro do BCE?
- O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuiram com 30%.

3-E é muito, esse dinheiro?
- O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

4-Então, se o BCE é o banco destes Estados pode emprestar dinheiro a Portugal, ou não? Como qualquer banco pode emprestar dinheiro a um ou outro dos seus accionistas.
- Não, não pode.
5-Porquê?!
- Porquê? Porque... porque, bem... são as regras.
6-Então, a quem pode o BCE emprestar dinheiro?
- A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.
7-Ah percebo, então Portugal, ou a Alemanha, quando precisa de dinheiro emprestado não vai ao BCE, vai aos outros bancos que por sua vez vão ao BCE.
- Pois.

8-Mas para quê complicar? Não era melhor Portugal ou a Grécia ou a Alemanha irem directamente ao BCE?
- Bom... sim.... quer dizer... em certo sentido... mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

9-Agora não percebi!!..
- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

10-Mas isso assim é um "negócio da China"! Só para irem a Bruxelas buscar o dinheiro!
- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.

11-Isso é um verdadeiro roubo... com esse dinheiro escusava-se até de cortar nas pensões, no subsídio de desemprego ou de nos tirarem parte do 13º mês.
As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos accionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.
12-Mas quem é que manda no BCE e permite um escândalo destes?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.
13-Então, os Governos dão o nosso dinheiro ao BCE para eles emprestarem aos bancos a 1%, para depois estes emprestarem a 5 e a 7% aos Governos que são donos do BCE?
14 - Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6%, a 7 ou mais.

15-Então nós somos os donos do dinheiro e não podemos pedir ao nosso próprio banco!...
16- Nós, qual nós?! O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.

17-Mas, e os nossos Governos aceitam uma coisa dessas?
- Os nossos Governos... Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos.

18-Mas então eles não estão lá eleitos por nós?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois.... quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta actual crise mundial, a maior de há um século para cá.
Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como os casinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

19-E onde o foram buscar?
- Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?...

20-Mas meteram os responsáveis na cadeia?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody's, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram... passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.

21-E então como é? Comemos e calamos?
- Isso já não é comigo, eu só estou a explicar...