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e regresso ao local do crime — a JS —, Pedro Nuno Santos, que durante quatro anos dirigiu aquela prestigiada escola de formação de quadros dirigentes para o país, foi dar-lhes uma aula de uma hora numa coisa chamada “ciclo de formação”. Aí, repetiu o que, honra lhe seja reconhecida, vem dizendo alto e bom som, desde há uns anos. Mas agora ainda com maior clareza e absoluto destemor. Também não é segredo que ele não esconde a sua ambição de em breve suceder a António Costa e de que terá justamente entre os jovens socialistas e naquela nebulosa de que nós, os leigos, ouvimos sempre falar com temor — “o aparelho partidário” — os seus grandes baluartes de apoio. Isso faz, pois, com que se deva escutar com atenção o que diz quando regressa à escola que o formou para conseguir chegar onde já chegou. E o que lá foi dizer desta vez é deveras inquietante, para o PS e para o país.
Sobre o PS, ele reiterou, sem espanto algum, o seu amor e a sua dedicação à aliança com a extrema-esquerda, de que foi um dos principais artífices na anterior legislatura e no cargo de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. Não apenas ficou saudoso desses tempos, como acha que eles não podem corresponder a “um parêntesis da história”, subentendendo-se então que o melhor seria, não só ressuscitar formalmente a geringonça a três como dar-lhe mesmo uma natureza permanente, quem sabe até fundirem-se todos, como sucedeu em Itália, no Partido Democrático, que reuniu socialistas, esquerdistas e comunistas (mas não fiéis à herança leninista-estalinista, como os nossos). Espanto, sim, é dizer ele que desta forma é que o PS pode conquistar o centro — onde reconhece que está o eleitorado que decide eleições. Vejamos: onde é que isso sucedeu recentemente? O Syriza grego, que conquistou o poder num assomo de raiva do eleitorado contra a ruína moral e financeira da direita e dos socialistas gregos, nem chegou a aquecer os lugares, destruído por uma simples reportagem da “Paris-Match” sobre a sua vedeta Varoufakis. O SPD alemão, herdeiro dos fundadores do Estado social e de alguns dos melhores chanceleres que a Alemanha conheceu, há muito que está afastado do poder, a favor da CDU e ultrapassado até pelos Verdes. O mesmo em Itália, onde a esquerda reunida no PD deixou de contar, face à direita e aos populistas. Em França, a deriva esquerdista de Jean-Luc Mélenchon, conduziu os socialistas a uma derrota estrondosa perante um homem sem partido, criado por si próprio a partir do nada. Pior ainda em Inglaterra, onde o louco que os trabalhistas elegeram para os representar, Jeremy Corbyn, resolveu apresentar-se às eleições com um programa radical assente em Estado a rebentar pelas costuras e despesa pública para gerações, financiada por uma avalanche de impostos: foi massacrado e humilhado por um líder conservador de ocasião, não particularmente dotado ou admirado pelos seus, como Boris Johnson. E em todos os países nórdicos e Holanda, onde durante décadas os sociais-democratas instalaram os mais justos e eficientes governos de esquerda que o mundo alguma vez conheceu, todos foram varridos por uma onda de direita que traduziu o cansaço dos cidadãos com o excesso de presença do Estado e de exagero fiscal. Resta a Espanha e Portugal, dois países que não representam exactamente o pelotão da frente dos mais desenvolvidos e em melhor situação económica. Sendo que, em Espanha, a minha aposta é que basta esperar pelas próximas legislativas para ver a aliança entre socialistas, esquerdistas do Podemos e autonomistas bascos, catalães e canários serem despachados por manifesta má governação. Não enxergo, pois, em que exemplos ou experiências ou intuições é que Pedro Nuno Santos foi buscar a certeza de que é encostando o PS à extrema-esquerda que os socialistas conseguirão segurar o eleitorado flutuante do centro, que entre nós ou vota PS ou PSD. Nem sei mesmo (mas aí, concedo que conhecerá o partido melhor do que eu) como é que ele convencerá os militantes que o erro está em haver socialistas que “continuam presos a 1975”, quando ao lado têm um parceiro que agora comemora 100 anos de existência, declarando-se orgulhosamente preso... a 1917. Pedro Nuno Santos é demasiado novo para perceber as memórias traumáticas que muitos socialistas guardam de 1975, onde o que separava o PS dos seus agora parceiros do BE e do PCP era uma coisa muito simples e fundamental chamada liberdade. Mas ainda que com esse défice de experiência histórica, pretender reconciliar Kerensky com Lenine, cem anos depois, parece-me tarefa complicada, mesmo para Pedro, o Grande, em Portugal, o Pequeno.
Enfim, questões lá entre eles. Interessa-me mais o que toca a nós todos: as ideias de Pedro Nuno Santos sobre Portugal, o futuro de Portugal. Ou, como resumiu numa palavra aos jovens do PS: o socialismo. E o que é, então, o socialismo, segundo Pedro Nuno Santos?
Bom, muitas das coisas que ele enumera, também eu defendo, também eu quero: melhor escola pública, melhor serviço público de saúde, melhor rendimento do trabalho, melhor transição ambiental, mais amanhãs que cantam — quem não quer? É como o discurso de Marcelo, na sua recente posse: não há ali nada que toda a gente não subscreva. A questão não é o quê, mas o como. E o como implica também o quando, o quanto e o quem. Sobre isto, e preocupado com as respostas que as pessoas buscam para “os seus problemas concretos”, Pedro Nuno Santos dá uma resposta tão preguiçosa quanto previsível: mais Estado, mais gastos públicos, mais impostos. Não é de admirar em quem é capaz de defender que não se pague a dívida mas também é capaz de a acrescentar de 4000 milhões, para começo de conversa, e para “salvar” a TAP, sem que ao fim de um ano se conheça o mais pequeno plano de reestruturação a sério da companhia, tirando aquilo que qualquer um apresentaria numa semana: redução de aviões, de postos de trabalho, de salários (e que tipo de target comercial terá a TAP do futuro? Com que aviões? O que fará com o curto e médio curso? E com o mercado americano que Neeleman abriu? Vai continuar a apostar em ser uma low-cost com custos de luxo ou vai querer ser uma companhia com serviço de primeira?). Fecha parêntesis: é fácil defender mais Estado, despesa pública e mais impostos por parte de quem, segundo a biografia disponível, nunca conheceu outra existência que não dentro da política e outro patrão que não o Estado. Note-se que eu não pretendo que a política seja uma actividade menor nem que trabalhar para o Estado seja menos dignificante do que trabalhar no sector privado ou por conta própria. Apenas suspeito que para quem nunca conheceu outra vida que não essa, há coisas que necessariamente lhe escapam.
Suspeito que Pedro Nuno Santos não faça ideia do que seja a angústia de trabalhar numa empresa em dificuldades, sem saber se o ordenado lhe será pago no fim do mês e a ter de aceitar uma diminuição voluntária do vencimento para ajudar a empresa a sobreviver. Ou, pior ainda: estar na posição de um patrão responsável, sem saber como poderá pagar os ordenados, a Segurança Social ou o Subsídio de Natal no fim do mês. Suspeito que ele não quer nem saber o que faz o motorista do Ministério com o carro do Estado depois de sair do serviço, se as horas extraordinárias que o Ministério paga foram efectivamente prestadas, se os trabalhadores de baixa estão mesmo doentes ou se as luzes ficam inutilmente acesas à noite. Ele está abrigado numa empresa chamada Estado, cujas dificuldades de tesouraria se resolvem aumentando os impostos sobre todos os criadores de riqueza ou chutando dívida para as gerações seguintes pagarem. Assim é fácil falar.
Mas numa coisa concordo com Pedro Nuno Santos: a função dos governantes é resolverem os problemas concretos que têm entre mãos. Não sei se isso é socialismo, como ele diz, ou se é apenas responsabilidade política, como acho. Mas sei que, no caso dele, com uma pasta tão vasta e importante como é a da Habitação e Infraestruturas, um discurso adequado aos jovens socialistas seria dizer-lhes isto: garanto-vos que a transição digital não vão ser só palavras vãs, que vou tirar Portugal da cauda dos países com pior acesso à internet, sobretudo no interior, como compete a um governo que quer reduzir as assimetrias regionais; garanto-vos que o lindo discurso sobre a ferrovia vai ter resultados práticos imediatos, quanto mais não seja menos dez minutos de duração em cada ano nas ligações entre o Porto e Lisboa e Lisboa e Faro; garanto-vos que os milhões que agora me deram no PRR para habitação social estarão imediatamente no terreno com resultados rapidamente visíveis; garanto-vos que os 4000 milhões para a TAP, que tão precisos seriam no SNS, no apoio à Cultura ou na melhoria da situação nos lares, não será dinheiro deitado à rua ou acrescentado à dívida pública para vocês pagarem daqui a uns anos.
Pedro Nuno Santos sustenta que o mundo mudou, que os tempos são outros e que gente como eu está agarrada ao passado e não entende os novos tempos. Curioso, porque eu acho justamente o contrário. Eu quero um comboio que não demore apenas menos 15 minutos entre o Porto e Lisboa do que na minha infância, depois de décadas a pagar impostos para a CP, a ver desmantelar linhas e a ouvir agora o ministro dizer que nem pensar em dar a exploração a privados, em concorrência com a CP. Eu quero uma internet que não funcione ao sabor dos humores de uma rede terceiro-mundista. Eu quero uma electricidade (que é a mais cara da Europa), que não vá abaixo a 100 quilómetros de Lisboa, de cada vez que há uma trovada, e quero ter a certeza de que não confundem transição energética com interesses da EDP. Eu quero poder voar de e para Portugal pagando um preço justo pelo bilhete e não o preço político de sustentar uma companhia aérea sem futuro. O antiquado, o burro sou eu?


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