segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Questão democrática, "autoritarismo" e experiências socialistas

Jonas Manoel

O processo de colictivização da terra na União Soviética foi violento? Foi!

O fim da propriedade privada da terra, estabelecimento de cooperativas, fazendas estatais foi bastante violento.

A grande malicia da ideologia liberal é colocar esse processo de colectivização da terra na U. Soviética como se fosse uma excepção na história moderna.

- O processo Inglês foi muito mais violento e repressivo;

- O processo estadunidense foi também muito mais violento;

- O processo Japonês também e tantos outros pelo mundo fora.

A marcha para o Oeste, no processo de expropriação dos indígenas, nos Estados Unidos, matou, desde final do século XVII até meados do século XX, cerca de 10 milhões de indígenas.

Foram mais pessoas assassinadas, no processo de marcha para o Oeste, de expansão colonial interna nos Estados Unidos, do que judeus no holocausto.

O processo do fim da propriedade aristocrática na França foi um processo ultra violento, os camponeses quando atacaram os senhores da terra, os nobres, mataram, incendiaram, degolaram, milhares de nobres.

No processo de colectivização na União Soviética foi a mais violenta de todas as experiências de colectivização socialista.

            - Em Cuba não aconteceu;

            - Na Iugoslávia também não aconteceu;

            - Na República Democrática da Coreia também não aconteceu;

            - Na China também não aconteceu.

O processo acelerado da industrialização na União Soviética foi um processo violento? Foi!

            - A ascensão industrial dos Estados Unidos ao posto de primeira potência  do mundo teve como pressuposto a Guerra Civil  entre o Norte e o Sul que matou quase 1 milhão de pessoas. Até hoje é o conflito, em território estadunidense, mais violento de todos.

Algumas pessoas na esquerda partem do pressuposto que a violência revolucionária não deve ser exercida.

            A violência é parte constitutiva do capitalismo.

            É u direito histórico dos explorados e oprimidos usarem a violência revolucionária.

            A violência dos oprimidos não pode ser comparada com a violência dos opressores. Não é uma questão ética de escolha, usar a violência revolucionária é uma necessidade histórica da classe trabalhadora porque a burguesia nunca entrega o poder sem lutar, sem derramar um banho de sangue.

Em todas as experiências socialistas, foram revoluções, onde pouquíssimas pessoas morreram no processo de tomada do poder.

As pessoas que morreram, em quase todas as experiências, foram mortas quando a burguesia de cada país aliada ao imperialismo coordenaram a invasão com a guerra civil. Caso da Rússia, caso de Cuba, caso da Coreia popular, caso da China.

Na Rússia morreram pouquíssimas  pessoas em Outubro de 1917. Depois morreram mais 2 milhões porque algumas potências aliadas na primeira guerra mundial invadiram o país, entre elas tropas britânicas, neerlandesas, norte-americanas e japonesas, em apoio ao exército branco e para combaterem os bolcheviques causando uma guerra que durou vários anos e teve como consequência muita miséria e muita fome, muitas mortes.

A violência revolucionária é defensável e é necessária.

Quando as classes populares não usam a violência revolucionária elas sofrem a violência reacionária.

O exemplo mais marcante é o de Salvador Allende , no Chile, que defendia a transição para o Socialismo por via pacífica e terminou morto por um golpe planeado e executado pela burguesia interna  e pelo imperialismo onde milhares de trabalhadores  chilenos foram assassinados, torturados, perseguidos e mortos.

Não existe brincadeira na luta de classes! O esmagamos o inimigo ou o inimigo nos esmaga a nós.

É comum a ideologia burguesa criar na história de que a repressão na experiência socialista nasce do nada.

Por exemplo: Cuba tem censura? Tem!

Cuba tem algumas restrições à liberdade de expressão, Cuba tem um controle de comunicações relativamente rígido, claro, é importante que tenha.

O governo dos Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo, dedica todos os anos milhões e milhões de dólares para derrubar o Socialismo Cubano.

O que os Estados Unidos dedicam em dinheiro, para o derrube do socialismo em Cuba, para provocar a contrarrevolução é maior que o orçamento anual de Cuba para a saúde.

É claro que os países socialistas tiveram de adoptar medidas repressivas com alguma dimensão, Isto é verdade para a União Soviética, para a China, para a Coreia Popular, para Cuba.

Fala-se muito do militarismo da Coreia do Norte. Para se exigir o fim do militarismo na Coreia do Norte é preciso primeiro exigir que os Estados Unidos retirem os seus: 30 mil soldados; suas armas atómicas; se bloqueio económico contra a Coreia do Norte.

É impossível esperar que um país como a Coreia do Norte, que foi atacada pelos Estados Unidos, teve um terço da sua população exterminada, todas as suas cidades e aldeias destruídas e após isso passou a ser cercada por bases militares dos Estados Unidos e com um bloqueio económico mais brutal do mundo, que este país não se arme até aos dentes para se defender.

Existe uma dialéctica real entre a necessidade de tomar medidas de defesa frente aos ataques do imperialismo- o imperialismo existe: a OTAN, os bloqueios económicos; o imperialismo estadunidense que é a maior máquina de guerra e contrarrevolução da humanidade; os golpes de estado promovidos e articulados pela CIA; sabotagens, assassinatos não são detalhes históricos. São elementos fundamentais da história da luta pelo socialismo na modernidade.

Como é que essas medidas de defesa podem ser tomadas e devem ser tomadas sem matar a democracia socialista?

Contrastes: Cuba e União Soviética.

Cuba que está ali ao lado dos Estados Unidos, que foi invadida militarmente, que nos anos 70 foi vítimas de ataque com armas biológicos e químicas por parte dos Estados Unidos, que é vítima constante de sabotagens, financia imprensa dos mercenários de Miami, financia ataques terroristas na ilha- Cuba conseguiu criar mecanismos de defesa perante o imperialismo (Cuba tem um dos serviços secretos que é conhecido como dos mais eficientes do mundo) ao mesmo tempo que preservou a sua democracia de base.

Cuba combina com qualidade centralização de informações, um aparelho de Estado ultra qualificado para repelir os ataques do imperialismo com um nível de democracia de base muito forte.

A União Soviética, por vários motivos não conseguiu fazer o que Cuba fez.

As medidas de isolamento de algumas áreas sociais como medidas de combate ao imperialismo, na União Soviética, foram se expandindo cada vez mais e matando pensamento critico e da democracia socialista.

A Classe trabalhadora da União Soviética não tinha mecanismos de poder popular de baixo para cima, ao contrário de Cuba, ela era chamada a executar politicas decididas por cima e a participar na política na qual não tinha poder decisivo. Isso fez com que paulatinamente a capacidade do sistema soviético de se reinventar, de se transformar, de formar dirigentes cada vez mais qualificados foi-se perdendo. No final da União Soviética havia uma geração de dirigentes sexagenários sem talento politico, teoricamente muito mal formados, com uma visão muito limitada e uma apatia muito forte. Ainda que a maioria do povo fosse contra o fim da União Soviética mas havia uma certa apatia de um povo que foi desacostumado de exercer o poder.

Como se defender do imperialismo sem matar a democracia socialista?

Essa questão não se resolve com uma valorização em abstrato da democracia socialista.

É fácil dizer que se defende o socialismo democrático mas como concretizar a democracia socialista num país ameaçado, cercado, atacado, sob bloqueio económico constante, que não consegue, por exemplo construir sequer uma escola?

No caso do Vietname que passou 40 anos sem conseguir construir uma escola, teve de enfrentar a França, depois o japão, depois de novo a França, depois os Estados Unidos, até hoje, em várias áreas do Vietname, de vez em quando há uma bomba, uma mina, deixadas pelos anos de guerra, que explode e tem consequências terríveis.

Uma perspectiva justificativa cega, sem crítica também não ajuda em nada.

Conclusão:

- É necessário acabar com a mitologia liberal que retrata a história da modernidade e a história do capitalismo sem violência – os períodos de maior violência da história da experiências socialista foram muito menos violentas que os processos sociais semelhantes da história da burguesia, da história do capitalismo.

- É necessário colocar que a violência revolucionária é defensável. Ela é necessária e os excessos precisam ser criticados. No uso da violência revolucionária existe uma dinâmica ética que a a maioria dos comunistas, na actualidade, inclusive no século XX, não negligenciou. É fundamental pensar sempre na dimensão ética e pensar na formulação de um estado de direito socialista como elemento de ilimitação do poder.

Ao mesmo tempo é necessário não descurar, não menosprezar os ataques do imperialismo, as sabotagens, os atentados que o socialismo no mundo imperialista é um estado de guerra permanente.

É comum na ideologia burguesa ocultar os ataques do imperialismo e depois destacar só as medidas defensivas e chamar tal ou tal governo de autoritário. É o que fazem hoje com a Venezuela, fizeram com Cuba, com o Laos, com a Coreia Popular e outros.

É necessário ter humildade. A maioria dos comunistas, dos democratas não estuda as a história das experiências socialistas, se não estuda de forma sistemática, de maneira profunda e se se dá opinião sobre esses tema, essa opinião foi formada, fundamentalmente, pela ideologia dominante.

Dizer que é democrata por renegar as experiências do século XX, na verdade não é ser democrata, é ser, por essência, antidemocrata, no sentido socialista da palavra, porque está assimilando o balanço histórico do imperialismo e da burguesia, que é, por definição, a negação de qualquer democracia socialista.

 


 

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