O BE DEFENDE UM
GOLPE MILITAR NA VENEZUELA?
SEXTA-FEIRA, 18 DE JANEIRO DE 2019
PUBLICADO POR BRUNO CARVALHO
O Bloco de Esquerda publica um artigo
inenarrável contra a Venezuela que defende um golpe
militar, assinado por Tomás Marquez, que repete o argumentário utilizado pelos
governos, partidos de direita e órgãos de comunicação social alinhados com o
imperialismo. Vamos desmontar, ponto por ponto, uma posição que se inscreve na
linha histórica do BE de se orientar na sua reflexão sobre política internacional
por aquilo que é dito por Washington ou pela União Europeia.
1. "não foram compridos os
requisitos que são exigidos em Democracia, para a realização de eleições livres
e democráticas".
Depois da violência desatada pela
oposição nas ruas da Venezuela, Nicolás Maduro apelou à paz e propôs reuniões
com os líderes opositores que se vieram a realizar na República Dominicana com
o apoio do Vaticano e de José Luiz Rodriguez Zapatero, ex-chefe do governo
espanhol e antigo secretário-geral do PSOE. Desses diálogos, as duas partes
chegaram a acordo sobre convocar eleições. Recordemos que a oposição fez uma
campanha recolhendo assinaturas para convocar um referendo que destituísse
Nicolás Maduro e conduzisse a eleições antecipadas. Ou seja, houve um princípio
de acordo para a realização de eleições que, inexplicavelmente, uma parte da
oposição logo a seguir recusou. Ainda assim, o presidente da Venezuela convocou
eleições nas quais participaram, para além do próprio, outros candidatos
opositores, apesar do boicote de uma parte.
Sobre a validade democrática do
plebiscito basta-nos recordar o que disse Jimmy Carter sobre as eleições
venezuelanas. O ex-presidente norte-americano que monitorizava eleições em todo
o mundo há mais de uma década disse que "o processo
eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo". Nicolás Maduro
ganhou com 67,84% dos votos. O opositor Henri Falcón teve 20,93% e o opositor
Javier Bertucci chegou aos 10,82%.
2. "Nicolás Maduro e seu partido
mal denominado Socialismo do século XXI, não são mais do que usurpadores do
poder através das armas, das ameaças e da corrupção, enganando o seu próprio
povo e levando-o a uma ditadura, com a promessa de um novo estado
social-democrático."
Desde que Hugo Chávez chegou ao poder
pela via eleitoral, em 1998, foram realizadas dezenas de eleições e referendos
na Venezuela. Na maioria, ganhou o chavismo. Noutras a oposição, que, diga-se,
nunca renunciou aos cargos que elegeu reconhecendo assim as eleições. A única
vez que houve um golpe violento protagonizado por "usurpadores do poder
através das armas" foi em 2002 quando um sector golpista do exercito, em
conjunto com os partidos da oposição, sequestrou Hugo Chávez. Apesar disso
nenhum partido da oposição foi ilegalizado.
3. "Em 20 anos de demagogia
destruíram uma nação inteira, saquearam as sua riquezas, desapareceram com as
suas reservas internacionais, expropriaram tudo o que havia e o que não havia
também, expropriaram os sonhos e a vida dos venezuelanos e dos estrangeiros que
fizeram da Venezuela a suas casa e a sua Pátria."
Durante meio século, o sistema político
e económico defendido pela oposição, por Tomás Marquez e, pelos vistos, pelo
BE, afundou na miséria milhões e milhões de venezuelanos. Às crianças
davam-lhes comida para cão para que não morressem de fome, o analfabetismo
grassava pelo país, uma parte da população nunca tinha visto um médico e viviam
em casas de cartão como cantou Ali Primera. Os avanços operados pela revolução
bolivariana, mesmo com as consequências da actual guerra económica sobre o povo
venezuelano, são indesmentíveis. Ao contrário de antes, o lucro do petróleo não
ficou nas mãos da oligarquia mas foi repartida com a população. Como? O
analfabetismo foi erradicado como atestou a UNESCO, a Venezuela tem, hoje, uma
das mais elevadas taxas de acesso ao ensino universitário do mundo, construi
2,5 milhões de apartamentos onde alojou milhões de famílias e encheu as favelas
de consultórios médicos. A água, electricidade, gás, combustível,
telecomunicações são praticamente gratuitos. É a oposição que quer expropriar
tudo isso e devolver o poder às elites.
4. "Cabe ao povo venezuelano, aos
militares e à comunidade internacional, em cumprimento dos artigos 232, 233 e
350 da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, reestabelecer a
ordem democrática no país."
Não há muito a dizer. Tomás Marquez e o
BE, por intermédio, apelam a um golpe militar que cumpra os sonhos molhados da
oligarquia venezuelana. Assim, sem esconder ao que vão, sustentam a tese de que
Nicolás Maduro não é o presidente legítimo quando foi eleito por 67,84% dos
votantes e tomou posse no Supremo Tribunal de Justiça porque, como diz a
Constituição, a Assembleia Nacional não estava habilitada para o fazer porque a
oposição não quer substituir por outros seus deputados desse órgão que foram
eleitos em condições anormais.
A revolução bolivariana pese as suas
contradições e erros próprios de um processo que apenas tem duas décadas de
existência protagonizou avanços sociais, económicos, políticos e culturais. É
uma revolução democrática assediada por todos os lados e também por esquerda
que se diz democrática mas que usa a bússola do imperialismo para se definir. A
derrota do chavismo na Venezuela seria um rude golpe e uma vitória do
capitalismo.
ver aqui:

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