sábado, 15 de maio de 2021

Palestina

 


Filipe Tourais
 

Sempre que vejo um indivíduo ou um colectivo em sofrimento tendo a colocar-me na sua pele e a imaginar como seria se se fosse eu e os meus a passarem pela mesma situação. Não resisto a repetir o exercício ao ver as imagens que nos vão chegando de nova atrocidade da autoria de um estado que fez da violação dos direitos humanos mais elementares uma prática diária ao longo de quase 80 anos.

Imagino-me ali nos finais dos anos 40, na ressaca do holocausto nazi, e que um escrito com dois mil anos serve de pretexto para compensar tanto os sobreviventes desse extermínio como outros que, apesar de nunca terem vivido o horror de nenhum campo de concentração, apenas por perfilharem a mesma religião, também serem abrangidos por essa compensação com a criação de um estado num território a milhares de quilómetros da Alemanha autora da chacina onde também vive gente que nada teve que ver com os crimes nazis. Fazer nascer um novo país naquele território implica desapossar toda essa gente do direito de continuar a ser feliz onde sempre viveu e despojar toda essa gente dos direitos que os seus antepassados já tinham muito antes de alguém fazer nascer um país precisamente ali.
Israel é criado a 14 de Maio de 1948 com a força das armas a anular qualquer esforço de impedi-lo. Imagino a revolta dos expropriados a crescer década após década juntamente com a raiva filha da impotência de não conseguirem lutar contra um inimigo muito bem armado com o que de mais sofisticado existe para matar, vergar e aniquilar pelos seus amigos americanos com o apoio das restantes potências mundiais. Imagino-lhes a revolta ao verificarem como qualquer denúncia sua de violações de direitos humanos e de crimes de guerra em tudo iguais aos dos nazis é apresentada pela comunicação social desses amigos como manobras de propaganda.
Passaram quase 80 anos. E se a cidade santa fosse Lisboa? Para os judeus sefarditas a terra prometida não era a Palestina, era Espanha e Portugal. E se em vez de ter sido criado onde foi nos anos 40 do século passado, Israel tivesse sido criado em Portugal? E se, passado esse tempo todo de expulsões, assassínios, humilhações e expropriações diárias, fosse a vez da nossa família ser expulsa da nossa casa porque alguém do Governo do estado ocupante decidiu expandir o país e fundar um novo colonato precisamente no local onde vivemos? E se a nossa família fosse obrigada a ir viver para um espaço emparedado e cercado com arame farpado com uma área equivalente à dos Concelhos de Sintra ou de Leiria onde já vivem mais dois milhões de expropriados À força como nós? E se, para além do inferno que é tentar sobreviver num pandemónio de miséria como o atrás descrito, a potência ocupante ainda se lembrasse de fazer cair bombas sobre as nossas cabeças sem se importar com as dezenas ou centenas de mortes que o ataque causou, a coberto do seu direito elástico a retaliar contra a violação do dever de obedecer sem resistir dos seus novos espoliados?
É este o exercício que proponho como desafio a muitas pessoas de bem que por aqui vejo a defender os crimes do estado de Israel. Qualquer alinhamento, a pretexto de um escrito susceptível de alimentar fanatismos ou da vitimização de um povo eleito, se torna imensamente fácil quando as vítimas não são os próprios, aliás como ficou demonstrado na Alemanha entre 1933 e 1945. O povo eleito de então era o ariano e o escrito chamava-se “Mein Kampf”. A vossa tolerância ao nazismo fica bastante bem ilustrada Se substituírem “Mein Kampf” por Bíblia Sagrada e ariano por judeu e, ainda assim, continuarem a defender os crimes do sionismo. E não, em nenhuma parte da Bíblia Sagrada se lê que os judeus sofreram o que sofreram às mãos dos nazis para ganharem o direito a imitarem os nazis.
Já sei, o Hamas. O Hamas nunca existiria se Israel não tivesse sido criado. Eu também não gosto do Hamas, é impossível simpatizar com o Hamas. Mas ainda não perdi a esperança de que um dia se alcance o compromisso de paz que nunca será alcançado enquanto houver tanta gente de bem a ver aquele drama como um filme de cow-boys em que uns são e serão sempre os bons independentemente das atrocidades que cometam e outros são e serão sempre os maus independentemente das atrocidades que cometam serem ou não uma retaliação à retaliação anterior dos primeiros. Os palestinianos são gente tão gente como cada um de nós, como os judeus contemporâneos de Hitler ou como os judeus da actualidade, que também os há e muitos, que condenam a violência de outros judeus que se tornaram monstros e têm muito pouco daquela humanidade que é requisito para poderem ser reconhecidos como gente.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Por "Pensar a História :

 


Por "Pensar a História :


Vista de um bairro residencial de Moscou, capital da Rússia. Com doze milhões de habitantes, Moscou é cidade mais populosa da Europa. É considerada também a metrópole mais verde do mundo, liderando o ranking de cidades com mais áreas verdes do World Atlas.
Aproximadamente 54% do território moscovita é ocupado por parques e jardins. Os parques públicos de Moscou cobrem uma área de 450 quilômetros quadrados - um território verde que é maior do que todo o município de Curitiba. Moscou oferece 20 metros quadrados de área verde por habitante - indicador bem superior ao valor mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde e seis vezes superior ao índice de Tóquio, por exemplo.
A grande quantidade de áreas verdes em Moscou é um legado do planejamento urbano do governo soviético. Mesmo em meio ao surto de urbanização da cidade após a Revolução de 1917 e sua rápida transformação em principal centro industrial do país, houve um grande cuidado em preservar as áreas verdes e manter padrões adequados de arborização e cobertura vegetal na ocupação do espaço urbano. Por determinação de Stalin, diversos projetos de reflorestamento foram implementados em Moscou após a Segunda Guerra Mundial e dezenas de praças foram inauguradas na região central da cidade.
Somente em 1951, existiam 272 projetos em andamento para ampliar as áreas verdes de Moscou. E em 1961, mais de 500.000 árvores foram plantadas na cidade. A opção de construir bairros residenciais com moradias verticais - em detrimento do modelo individualista da casa de subúrbio, predominante nas metrópoles ocidentais - permitiu o melhor aproveitamento do território urbano, com a profusão de equipamentos de uso coletivo e áreas verdes. A ausência de especulação imobiliária e o desenvolvimento urbano independente da lógica do mercado permitiu à cidade uma organização exemplar de seu espaço urbano.
As décadas de 1950 e 1960 também foram pródigas para a ampliação dos grandes parques públicos da cidade. O Parque Gorky teve sua área substancialmente expandida para 120 hectares. Outros megaparques foram criados na cidade pelo governo soviético: Sokolniki (5,16 km2), Izmailovsky (16 km2) e o Parque Bitsevski (22 km2). Em 1983, foi inaugurado o Parque Nacional Losiny Ostrov, o maior parque urbano da Europa, com uma área de 116 km2 - maior do que a cidade de Vitória. 
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GUERRA DE ESPANHA GANHAR A UNIDADE, PERDER A REVOLUÇÃO

 

 
GUERRA DE ESPANHA

GANHAR A UNIDADE, PERDER A REVOLUÇÃO

O golpe de Estado de Julho de 1936 foi um golpe militar dirigido contra o governo da Segunda República Espanhola e cujo parcial fracasso levou à Guerra Civil de Espanha e, derrotada a República, ao estabelecimento do regime franquista, que permaneceu no poder na Espanha até 1975

O heroísmo com que os trabalhadores espanhóis se bateram na defesa da República contra o fascismo tem sido justamente celebrado. Neste cinquentenário da Guerra Civil, é ocasião para lembrar que os partidos de esquerda, com a sua conciliação à direita, tiveram grandes responsabilidades na derrota.

Há 50 anos, a 16 de Fevereiro de 1936, realizaram-se em Espanha as eleições que deram a vitória à Frente Popular, ampla coligação de partidos de esquerda, que formaram um governo antifascista.
Como se sabe, três anos mais tarde, chegava a um triste desfecho a Guerra Civil de Espanha, que fez correr rios de sangue, exigiu o sacrifício de mais de meio milhão de mortos e se saldou numa duríssima derrota para as forças populares, com efeitos que se fizeram sentir por várias décadas.
Aquilo que parecia ser uma grande vitória do campo revolucionário veio a revelar-se como um equilíbrio impotente entre interesses de classe contrários, cujos custos se pagaram a um preço demasiado alto e sem qualquer contrapartida para a classe operária.
Ao contrário do que hoje afirmam os revisionistas espanhóis e outros, a guerra não foi um facto fortuito ou inevitável. Afirmam eles que só podia ser evitada se o governo republicano tivesse aplicado medidas contra a reacção. Procuraremos rebater esta explicação simplista, que os iliba de responsabilidades e que oculta o facto de que grande parte do que aconteceu se deve ao apoio dos comunistas a este governo.
Neste primeiro artigo, abordaremos a questão da Frente Popular, e num próximo a da Guerra Civil, para provar que a política da Frente Popular, inspirada pelo Partido Comunista Espanhol (PCE), de acordo com a linha do 7.° congresso da Internacional Comunista (IC), levou à derrota da revolução e da guerra. Não podia ter havido medidas contra a reacção, porque o poder era burguês e a classe operária não tinha assegurada a sua hegemonia, limitando-se à insubordinação.
Nos dias que se seguiram à vitória eleitoral da Frente Popular, manifestações de massas libertaram milhares de presos. Desencadearam-se greves generalizadas em todo o país. Os patrões recorreram ao lock-out e as lutas radicalizaram-se. Desde o fim de Fevereiro, a situação no campo também é revolucionária: os camponeses pobres ocupam os latifúndios, e apesar dos enfrentamentos violentos com os guardas civis, todos os dias ocupam mais terras.
Um pouco por toda a parte, as massas levantam-se também contra o poder da Igreja, que sempre tinha sido aliada dos grandes senhores e patrões. Assaltam conventos, queimam igrejas e fecham escolas religiosas.
O governo, formado a 20 de Fevereiro, alarma-se com este movimento revolucionário que violava as regras da propriedade privada e da ordem estabelecida. Sem exército e forças policiais (que estavam do lado dos fascistas) só contava com a simpatia da ala direita da Frente na condenação aos excessos e à anarquia. Por seu lado, todos os monárquicos, conservadores e capitalistas esperavam ser salvos pelo exército, que se preparava para intervir à vista de todos e sem qualquer gesto de protesto do governo.
Alguns meses depois das eleições, as Cortes já não representavam nada. Os deputados de direita estavam com os ultras que se agrupavam em volta de Franco, e os de esquerda não conseguiam acabar com as acções espontâneas e a violência revolucionária das massas. O parlamento e o governo corriam o risco de serem ultrapassados, ou pela reacção militar e fascista, ou pela revolução operária e camponesa.

ANTECEDENTES

Em 1933, após eleições em Novembro, tinha-se dado o triunfo da reacção. Seguiu-se o Biénio Negro, como lhe chamaram: vigorava o estado de excepção, as conquistas do período revolucionário de 1931-33 foram perdidas, a imprensa operária foi ilegalizada, bem como as reuniões e comícios. O movimento insurreccional dos mineiros das Astúrias (Outubro de 1934) foi esmagado e afogado em sangue (5.000 mortos).
Nesses dois anos, pronunciaram-se 100 condenações à morte, foram presas e torturadas 30.000 pessoas e desterrados muitos milhares. Os salários e jornas baixaram, as rendas de casa subiram, o desemprego aumentou e deu-se uma ofensiva geral dos patrões contra operários e camponeses. Havia fome e miséria em todo o país.
Procurando opor-se a esta situação, o PCE vinha preconizando desde 1934 uma política de amplas alianças entre os sectores antifascistas, sem êxito inicialmente.
As contradições agudas que se tinham acumulado na sociedade espanhola, no entanto, já não podiam ser resolvidas no quadro da república burguesa. Tornava-se cada vez mais evidente a sua impotência para conter o ascenso do movimento popular, que se agitava sob a tremenda pressão a que o sujeitavam. As forças conservadoras faziam-se de dia para dia mais arrogantes, moralizadas pelos exemplos fascistas da Itália e da Alemanha. No fim do biénio, as crises governamentais sucediam-se umas às outras.
Os sectores liberais burgueses, isolados e incapazes de pôr em prática o seu programa, viam-se entre a espada e a parede. Não queriam nem fascismo nem revolução, queriam uma república moderna, respeitadora da propriedade privada e dos “direitos humanos” que, pela concertação social e pela reconciliação nacional, tirasse a Espanha do caos e a salvasse dos dois perigos.
Por seu lado, o PCE, ainda pequeno e disputando influência no campo popular aos socialistas e anarquistas, não via possibilidades de sozinho acumular forças e conquistar a hegemonia.
O ambiente revolucionista pequeno-burguês que dominava as massas trabalhadoras obrigou finalmente a burguesia liberal a aceitar o pacto pelo qual o PCE se vinha batendo insistentemente. Em 2 de Junho de 1935, José Díaz referia-se uma vez mais ao Bloco Popular Antifascista que poderia fazer frente á grande burguesia e aos latifundiários, caracterizando-o deste modo:

“O Bloco Popular pode e deve formar-se em ligação com as Alianças Operárias e Camponesas [Órgãos de massas criados pelos socialistas, mais tarde apoiados pelo PCE]. Mas todos os camaradas devem compreender que este bloco, esta ampla frente de luta antifascista não deve apenas abranger os operários e camponeses, os empregados e os funcionários, mas também os intelectuais honrados, os artesãos, os pequenos industriais e os comerciantes.”

E quais as forças políticas que enquadrariam tal bloco? Explicava José Diaz:

“Essas forças são o PC e o PS, as Juventudes Comunistas e Socialista, os anarquistas, os sindicalistas e os republicanos de esquerda, todas as organizações populares de massas que estejam dispostas a lutar contra o fascismo.”

O 7.° CONGRESSO DA IC

Entretanto, em Agosto de 1935, realizou-se o 7.° congresso da IC. Em discurso de 3 de Novembro, José Díaz referia-se-lhe entusiasticamente, dizendo:

“O 7.º Congresso da Internacional Comunista estabeleceu as normas, definiu a táctica que deve orientar a acção não apenas dos comunistas, mas também de todos os trabalhadores, e muito em especial os camaradas socialistas. (...) Corno já afirmei, este congresso não foi unicamente o congresso dos Partidos Comunistas, mas também o de todos os antifascistas.”

É interessante notar aqui que as propostas do bloco popular que o PCE vinha fazendo desde 1934 já não tinham nada a ver com as orientações do 6.° Congresso da IC (a política de “classe contra classe”), mas estavam em sintonia com as ideias de frente popular que o 7.° Congresso viria a aprovar em 1935. De resto, o PCE não era exemplo único. Também o PCF se batia por um projecto idêntico, e esse esforço dos comunistas franceses de levantar uma frente ampla interclassista foi inclusive elogiado nesse congresso como exemplo a seguir. Isto é: o 7.° Congresso produziu inegavelmente uma profunda inflexão da linha da IC, que vinha sendo ensaiada e preparada de trás, por vários partidos.
Animado pela resposta favorável da ala esquerda do PSOE às suas propostas de frente popular, José Díaz encarava mesmo a fusão dos dois partidos:

“Esta resposta é de tal natureza que, digo-vos, camaradas, ela abre um caminho e representa o passo mais formidável que até hoje se deu, não só no sentido da realização da Frente Única, como também no sentido da unidade orgânica, até à formação de um único partido revolucionário do proletariado.”

A justificação mais próxima para esta viragem tão contraditória da linha da IC foi encontrada num facto muito concreto: a subida ao poder do fascismo na Alemanha, que é atribuída pelo 7.° congresso essencialmente à desunião das massas operárias alemãs. Embora faça recair a responsabilidade principal dessa desunião sobre a social-democracia daquele país, o congresso não deixa de atribuir uma quota-
parte de responsabilidade aos comunistas alemães, e abstém-se de classificar de social-fascistas os chefes social-democratas colaboracionistas, fazendo propostas de unidade que poriam de lado as acusações do passado. No seu discurso, José Díaz não se esquece de referir os prejuízos dessa desunião e salienta uma suposta deslocação à esquerda dos “operários e militantes social-democratas”. E explica: “Os camaradas não podem portanto tratar os socialistas do mesmo modo que o faziam antes.”
E para tornar ainda mais claras as inovações do 7° congresso, José Diaz ia mais longe:

“Os comunistas lutam pelos sovietes, mas compreendem que neste momento a luta não se põe em termos de ditadura do proletariado, mas de luta pela democracia, contra o fascismo”.

Era o abandono dos princípios mais caros aos comunistas, e por isso se tornava necessário fazer tantos apelos à “compreensão” dos camaradas. Este discurso que ainda aprofundava mais os compromissos que antes o PCE se mostrava disposto a fazer, terá certamente causado surpresa e descontentamento entre os militantes que estavam pouco ao corrente das novas evoluções da IC. Mas nem por isso a nova política deixou de se pôr em prática: o perigo do fascismo era muito real, o PCE muito fraco, e a plataforma de unidade muito ampla terá parecido naquele momento, aos olhos da maioria, como a coisa mais sensata a fazer.

A FRENTE POPULAR

Finalmente, e depois das necessárias parlamentações, forma-se a Frente Popular, segundo um programa comum que já pouco tem a ver com a proposta do PCE em 1935. Nele se assinala que não haverá expropriação de terras e, “em contrapartida”, proclama-se o “saneamento da indústria” e a protecção da pequena indústria e do pequeno comércio, a par de variadas promessas gerais aos camponeses e operários. Fala-se do “controle sobre a banca”, sem especificar como, e rejeita-se o controle operário. Na política externa, a Espanha seguirá “os princípios e os métodos da Sociedade das Nações”. No fundo, estava reduzido a um programa liberal no quadro burguês, como aliás especifica o seu texto:

“A República que os republicanos concebem não é uma república animada do intenções sociais e económicas de classe, mas um regime de liberdade democrática movido por razões de interesse público e de progresso social.”

Este programa, acordado quando em França, na Checoslováquia, no Brasil e na China os respectivos partidos comunistas já tinham posto em prática uma política que seguia a mesma linha de orientação, dada pelo 7.° Congresso, tinha em relação aos outros a particularidade de ter reunido um apoio muito mais amplo de forças partidárias, que iam desde o PSOE até aos anarquistas e trotskistas, o que tinha permitido a formação de um governo de Frente Popular.

POLÍTICA OPORTUNISTA

Manobrando entre estas forças, o PCE digladiava-se com uma contradição: os parceiros socialistas da coligação pareciam renitentes em aceitar a proposta de fusão partidária total e não viam com bons olhos a movimentação popular cada vez mais radicalizada. Os sectores republicanos de direita procuravam desligar-se do pacto da Frente Popular, que quanto a eles já tinha cumprido a sua função eleitoral. O PCE insistia junto da ala esquerda republicana para que ela prosseguisse para lá das eleições, oferecendo em troca o seu apoio ao governo se este realizasse o programa da Frente.
Na concepção de José Diaz e do 7.° Congresso, a frente ampla tinha que ser conseguida à custa de um contrato com as direcções dos partidos burgueses. Ora isso punha em causa a própria combatividade dessa frente. Pondo-se no papel de negociador, o PCE desistia de lutar ao lado das massas, e com isso cortava as pernas ao movimento revolucionário.
Numa primeira fase, o PCE teve de passar à ofensiva e acompanhar a radicalização, para não deixar escapar as massas à sua influência e para ficar com poder de regateio junto dos socialistas. Assim, exigiu a unidade sindical (integração da CNT anarquista na UGT unificada), o castigo dos responsáveis pelo massacre da insurreição asturiana, a expropriação dos latifúndios, subsídios aos desempregados, jornada de 44 horas para os metalúrgicos, etc.
Mas como todos os objectivos se deviam subordinar à táctica do governo da Frente Popular, por outro lado era necessário não deixar o movimento ultrapassar os limites aceitáveis pelos parceiros de direita da coligação. No fundo, a opção que se apresentava ao PCE resumia-se a desistir da revolução socialista para não romper a unidade com a social-democracia.
Para dar corpo a esta política centrista, o PCE desenvolveu junto ao movimento popular uma campanha pela unidade sindical e política da classe operária. Mas que efeitos práticos teve essa campanha? O PCE dissolveu os poucos sindicatos que controlava, e que até aí se agrupavam na CGTU (Confederação Geral de Trabalho Unificada) filiada na Internacional Sindical Vermelha, e convidou os seus membros a aderir à UGT (dominada pelos social-democratas). Subjugou assim o movimento operário à direcção reformista amarela, com o único intuito de ganhar a confiança dos liberais no projecto da Frente Popular, obter crédito político na formação do futuro governo e dar garantias de boa-fé quanto às suas propostas de unidade política.
Também na organização partidária se fizeram sentir os compromissos que esta política envolvia: na Catalunha, os restos do PC (destroçado pela cisão de Maurín) unificaram-se com os grupos socialistas catalães e formaram o PSUC (Partido Socialista Unificado da Catalunha). As Juventudes socialista e comunista fundiram-se nas Juventudes Socialistas Unificadas. O argumento que justificava estas fusões era o de que a acção antifascista seria concertada. Mas, de facto, o resultado mais assinalável foi que o PCE, ao mesmo tempo que aliciava para as suas fileiras uma parte considerável dos militantes jovens do PSOE, também abria as suas portas, sem qualquer entrave, a todas as concepções reformistas que eles transportavam e que iriam dar uma nova cor, cada vez mais moderada, à sua política.
As concepções revolucionárias não tinham já nada a ver com a linha do PCE, que perdeu uma oportunidade histórica de, apoiando e impulsionando o movimento operário, tomar o comando dos acontecimentos. Pelo contrário, pela sua insistência em atrelar o movimento ao pacto com a burguesia, colocava-se à direita dos socialistas de esquerda, dos trotskistas e dos anarquistas, e fazia com que a classe operária, apesar de ter sido a força propulsora principal do fluxo revolucionário, nunca pudesse dirigir o processo.
Por isso não lutou pela ditadura do proletariado, mas defendeu activamente a “democracia de tipo novo”. Por isso apelou essencialmente à defesa dos interesses populares em geral, sem demarcar os interesses próprios das classes exploradas. Por isso não defendeu intransigentemente as nacionalidades oprimidas e dependentes e apelou ao sentimento nacionalista da pátria espanhola. Por isso não denunciou o colonialismo espanhol nem tomou posição firme a favor da autodeterminação de Marrocos.
Ao aceitar e promover o pacto da Frente Popular, que se comprometeu a honrar, o PCE amordaçou o ascenso do movimento operário, e passou a combater as suas características mais radicais de contestação do poder burguês, em nome da defesa da pátria e da tarefa de vencer a guerra, que contrapôs à tarefa de fazer a revolução, como se fossem incompatíveis.
Procurou instaurar um tipo de governo que não fosse nem operário nem burguês, uma democracia que não fosse nem tradicional nem revolucionária, um meio-termo ou compasso de espera entre o capitalismo e o socialismo.

A CAMINHO DA GUERRA CIVIL

Depois da vitória eleitoral dos republicanos, as massas populares, entendendo o governo como um governo popular e democrático – pois não era isso que lhe repetiam incansavelmente os partidos integrados na Frente Popular? – formaram conselhos operários, destituíram as antigas autarquias e elegeram juntas revolucionárias, organizaram milícias operárias e camponesas para defender a República e os bens comuns dos ataques e sabotagens fascistas. O movimento, entusiástico e muito participado, exercia uma formidável pressão sobre as forças burguesas. Surgiu uma verdadeira dualidade de poderes em todas as regiões em que os republicanos tinham obtido a maioria.
Ao mesmo tempo, uma outra coligação, também ela muito ampla, agrupava os partidos de direita. O país dividia-se praticamente em dois blocos: dum lado os sectores mais reaccionários da burguesia, dispostos a recorrer a todos os meios para recuperar o seu domínio; do outro, um bloco integrando forças antifascistas com interesses de classe diferenciados, com hegemonia dos socialistas de esquerda, convencidos de que podiam suster a ameaça fascista por se apoiarem em largas camadas populares, nos sindicatos e nos partidos operários, todos eles dispostos a defender a República.
A pequena burguesia republicana procurava dirigir a sua frente em dois sentidos: poupar o país a uma revolução radical que não teria em conta os seus interesses de classe; e vencer o fascismo com o apoio dessa força explosiva das massas, que tinha de ser contida e moldada de forma a servir de base à política moderada.
A guerra civil era inevitável. Tornava-se necessário centralizar para resistir ao avanço fascista. Esse passo poderia ter-se dado de duas formas: ou com base nas comissões operárias, reunidas num órgão supremo de poder que varresse o pacto da Frente Popular, ou pela reconstituição do poder da República burguesa. Era para esta última saída que apontava a tendência geral, porque o movimento, revolucionário e criador como era, estava, apesar de todo o seu vigor, dominado pela divisão e rivalidade, e aceitava sem contestação a direcção pequeno-burguesa dos chefes sindicais e partidários.
Os comunistas criticavam já o “infantilismo esquerdista” dos socialistas mais radicais e preocupavam-se com a legalidade burguesa. Apegavam-se às velhas instituições republicanas, ultrapassadas pelos próprios acontecimentos, e concebiam a Frente Popular como órgão supremo de unidade, que tinha que dirigir a guerra e a revolução.
Mas a reconstituição da ordem republicana e a táctica do governo de Frente Popular – de se apresentar aos olhos das potências ocidentais como respeitador dos valores “democráticos”, para evitar o isolamento – acabaram por condicionar todos os factores internos e a própria concepção da política de guerra.
Por outro lado, favorecem o renascer de forças internas que pareciam liquidadas pelas jornadas revolucionárias que se seguiram à vitória eleitoral.
Todo este peso se vai exercer contra as tendências mais radicais do movimento popular, e o governo tende cada vez mais a combater tudo quanto extravase os parâmetros consentidos por este equilíbrio que procura manter. É também segundo esta lógica que evolui a táctica do PCE.
Assim, apesar de toda a aparência de radicalismo da Frente Popular, a guerra civil inicia-se com as forças populares em posição de desvantagem, com a agravante de estarem na ilusão de que vitória seria certa e rápida.
Às vésperas da guerra civil, o PCE, persistindo em tentar deter o fascismo com uma política moderada, aniquilou a única força que lhe podia fazer frente. A guerra civil estava perdida, mesmo antes da intervenção alemã e italiana.

"Política Operária" nº 4, Março/Abril 1986



Guerra Civil de Espanha
DERROTA DE UMA REVOLUÇÃO
Ana Barradas
A luta heróica dos trabalhadores espanhóis não pode continuar a servir de cobertura ao oportunismo do PCE e da Internacional Comunista. Adiando a revolução por causa da guerra, perdeu-se a revolução e a guerra.
Pode resumir-se assim o tom geral dos comentários, neste cinquentenário da Guerra Civil de Espanha: a guerra, como todas as outras, foi horrível; as partes envolvidas têm ambas por igual culpas no cartório no que toca a violências e excessos; os espanhóis estão todos muito pesarosos e arrependidos por terem passado por esta experiência de luta de classes e no fundo, ninguém desejou a guerra nem se sabe muito bem como é que ela surgiu.
Quanto a nós, só nos interessa a Guerra de Espanha no sentido em que a sua evocação sirva, não para concluir que se tratou de um grande equívoco, mas para retirar desse acontecimento lições de classe actuais. A complexidade dum período histórico como foi este não pode ser abarcada num artigo, nem é essa a intenção. Pretende-se essencialmente mostrar que a táctica da Frente Popular levou à derrota da revolução e da guerra, e que os comunistas têm pesadas responsabilidades no processo. A ideia de que o Partido Comunista de Espanha e a Frente Popular, pelo facto de terem chefiado o povo na luta contra o assalto fascista, não deveriam ser criticados, é uma armadilha. Mais do que derramar lágrimas pelo meio milhão de mortos na guerra, interessa-nos saber porque foi ela perdida.
O QUE FOI AFINAL A GUERRA?
A Espanha de 1936-39 era o elo mais fraco da cadeia imperialista na Europa, e a Guerra Civil foi o primeiro combate armado da II Guerra Mundial, o culminar lógico da agudização da luta de classes e do amadurecimento de uma situação revolucionária, com a intervenção de todas as grandes potências.
Por estas razões, a análise deste período, em que os comunistas procediam à aplicação a fundo da linha do 7.° Congresso da Internacional Comunista é de grande importância.
A crítica que aqui fazemos à Frente Popular não deve ser entendida como uma forma de minimizar a ferocidade da agressão fascista e os crimes cometidos pelos franquistas, com o apoio das tropas ítalo-alemãs. O que se pretende contestar é a posição “progressista” vulgar de que a luta foi entre dois campos: o da República e o do franquismo. Porque a verdade, e é isso que interessa realçar, é que estiveram em confronto três campos: o da burguesia republicana, o da burguesia fascista e o do proletariado. A tragédia do campo proletário foi ser o único que não dispôs dum sólido partido político, nem de um programa nem do apoio de qualquer regime no poder. Por isso foi esmagado pela reacção fascista, por um lado, e pela burguesia liberal, pelo outro. A derrota não podia ter sido pior, e os resultados provam que a experiência da Frente Popular não valeu a pena. Ao apostar a cem por cento na capacidade antifascista da burguesia liberal — esperança inadmissível que não se apoiava em nenhum elemento palpável – a política de frente popular abriu fissuras na luta interna de classes que deram azo à intervenção externa e à internacionalização do conflito.
Não será determinismo dizer-se que o desfecho da Guerra Civil condicionou os acontecimentos futuros. De facto, se os republicanos tivessem assegurado a vitória, a evolução histórica teria sido outra bem diferente, em todo o mundo. Esta nova etapa do ascenso fascista, a saldar-se em derrota para eles, teria modificado o curso da história e o proletariado estaria em posição bem mais vantajosa para enfrentar o grande conflito que se avizinhava.
SUBLEVAÇÃO E RESISTÈNCIA
A 18 de Julho de 1936, dá-se a sublevação militar dirigida pelos franquistas. Estes, e com eles a burguesia fascista, já não acreditavam que os republicanos pudessem conter a revolução, e recorriam agora às armas e ao terror.
Grande parte dos órgãos do poder passou-se para o campo dos insurrectos. O movimento operário reagiu, enquadrado sobretudo pelos sindicatos e partidos operários, e criou novas formas de poder local. Esses comités revolucionários eram organizações paralelas ao poder burguês impotente e paralisado. Como órgãos de vontade popular permitiram que se organizasse a resistência ao golpe fascista, quer pelas armas, quer pelo controle dos sectores estratégicos e das indústrias vitais. Embora incompleta e parcelarmente, exprimia-se um poder embrionário que procurava as suas formas próprias.
Esses órgãos atribuíam-se funções legislativas e executivas, e a eles se submeteram o que restava das forças do antigo Estado: guardas-civis, guardas de assalto e funcionários públicos. Decidiam sobre problemas que iam desde a manutenção da ordem e controle dos preços, até às tarefas revolucionárias imediatas, como socialização das fábricas, expropriação dos bens da Igreja, dos “facciosos” e dos grandes proprietários, distribuição ou colectivização das terras, confiscação das contas bancárias, municipalização da habitação, organização da informação, do ensino, da assistência social, etc.
A sua autoridade baseava-se na força dos operários em armas: as milícias operárias, que se substituíam ao exército desmantelado, as comissões operárias e camponesas, que tinham patrulhas de controle e administravam as aldeias e cidades, as comissões de fábrica, que tomavam posse das empresas, e os sindicatos, que controlavam os transportes, os abastecimentos e os serviços públicos.
Mas esse movimento popular via ainda na República a imagem da sua libertação. Assim como soube estancar a sublevação militar, também confirmou a autoridade do governo de Madrid. Este reconheceu – porque a situação assim o impunha – a existência legal dos conselhos e comités revolucionários, mas rapidamente se esforçou por os enquadrar debaixo da sua autoridade. Essa foi a primeira grande prova de menoridade do movimento operário cuja expressão mais acabada se pode encontrar nas posições então adoptadas pelo PCE.
A DEMOCRACIA NOVA
Concebendo a Frente Popular como órgão supremo de unidade, o PCE tinha adoptado como principal palavra de ordem a consigna: ‘Tudo pela Frente Popular, nada contra a Frente Popular”. Nela estava resumida a sua oposição às forças mais radicais que se manifestavam no movimento, e que resistiam a submeter-se ao governo instituído.
A 6 de Agosto de 1936, o Mundo Obrero afirmava:
“É absolutamente falso que o actual movimento dos operários tenha por objectivo o estabelecimento de uma ditadura proletária depois de terminada a guerra. Não se pode dizer que temos um motivo social para a nossa participação na guerra. Nós, comunistas, somos os primeiros a repudiar essa suposição. O nosso único motivo é o desejo de defender a república democrática.”
Os PCs francês e italiano faziam-se eco desta nova concepção estranha ao marxismo:
“A luta actual em Espanha não é entre capitalismo e socialismo, mas entre fascismo e democracia. O único objectivo possível não é realizar a revolução socialista, mas defender, consolidar, desenvolver a revolução democrático-burguesa”.
“Os esforços dos comunistas espanhóis foram dirigidos para manter o máximo equilíbrio possível entre a exigência de desenvolver o processo revolucionário e a necessidade de não alienar deste modo o apoio à república da burguesia democrática no interior e a neutralidade benevolente das potências não fascistas no exterior.”1
“A república democrática que se está a estabelecer em Espanha é um novo tipo de república democrática, uma democracia nova.”2
Em 18 e 19 de Setembro de 1936, ao discutir a situação em Espanha, Dimitrov achou necessário definir o carácter da revolução espanhola em curso, opinando que, dada a correlação de forças de classe no mundo, a existência da União Soviética por um lado, e da ditadura fascista em alguns grandes Estados por outro, o problema da revolução democrático-burguesa não podia já enunciar-se como dantes.
Pronunciando-se contra a velha tese de que, pelo seu conteúdo, o Estado é sempre capitalista ou socialista, Dimitrov anunciou que estava a nascer um Estado democrático, no qual “a Frente Popular exerce uma influência decisiva”, e se “tenta organizar a produção sem abolir definitivamente a propriedade capitalista privada”... “forma peculiar de ditadura democrática da classe operária e do campesinato”. A República em Espanha não seria uma república burguesa do velho tipo mas “um Estado especial, com uma autêntica democracia popular”, “não ainda um Estado soviético, mas um Estado antifascista, de esquerda, com a participação da parte realmente de esquerda da burguesia”.
Apesar de estarem perante um movimento popular com uma enorme dinâmica revolucionária, os comunistas abdicavam de o conduzir à revolução socialista, e por isso travavam-lhe o ímpeto que o poderia levar a entrar em contradição antagónica com a burguesia. A luta de classes interna em Espanha era submetida aos ditames da política internacional e, em particular, a uma errada concepção de defesa da União Soviética contra a agressão fascista. Em vez de dar tudo por tudo por mais uma república soviética, os comunistas procuravam ganhar as boas graças das democracias no apoio à República.
Estas posições eram produto da nova linha, que tinha sacrificado a táctica de frente única leninista – como forma de ganhar as massas para a luta revolucionária pelo derrube do poder burguês – à concepção reformista de busca de compromissos com as direcções social-democratas.
Estavam postas de lado, e pela voz autorizada da própria IC e dos PCs mais influentes na época, as teses do 6. ° Congresso sobre o crescimento orgânico do fascismo nas democracias burguesas e sobre o carácter social-fascista da colaboração dos chefes social-democratas com a burguesia. A hegemonia do proletariado deixava de ser o princípio orientador da acção dos comunistas, substituído pela subordinação aos interesses da pequena burguesia. Embelezava-se a democracia burguesa chamando-lhe de “nova” por ter o apoio da classe operária e do campesinato, e inventava-se um novo tipo de Estado, a meio caminho entre o capitalismo e o socialismo.
Mas a realidade encarregou-se rapidamente de pôr de lado essa utopia.
A RESTAURAÇÃO DO ESTADO E A “NÃO-INTERVENÇÃO”
A primeira tarefa do governo da Frente Popular foi a de acabar pacificamente com a dualidade de poderes. Os sindicatos e os partidos procuravam convencer os seus activistas de que os órgãos populares autónomos já tinham cumprido as funções para que tinham sido criados, e que constituíam agora obstáculos à governação popular.
Ao mesmo tempo, o governo legalizou certas conquistas revolucionárias de que o movimento não abdicava, e neutralizou sob o seu comando alguns dos organismos e chefes do poder revolucionário, integrando-os no velho aparelho de Estado. Decreta-se a intervenção do governo nas empresas sob controle operário, indemnizam-se os accionistas estrangeiros e admite-se a indemnização dos nacionais. Suspende-se o crédito às indústrias colectivizadas, admite-se a entrega das terras ocupadas a alguns dos antigos proprietários.
As milícias são postas sob comando militar, os conselhos dos operários e soldados são suprimidos, e a chefia das unidades entregue a oficiais. Os vários organismos de manutenção da ordem criados pelo poder popular são reunidos num corpo único de polícia e colocados sob autoridade do Ministro do Interior, sendo os seus membros proibidos de aderir a partidos ou sindicatos.
Procurava-se deste modo restaurar os mecanismos tradicionais do poder de Estado. O governo lutava por criar um exército, uma polícia e uma economia controladas directamente sob o seu comando incontestado, e ganhar assim o reconhecimento das potências ocidentais. Mas em vão, porque a República continuou a sofrer os efeitos da hipócrita política de “não-intervenção”. A URSS foi a única das grandes potências que tomou partido activo pelos republicanos, inclusive fornecendo quantidades de armamento, para fazer face aos aviões e tanques alemães e italianos. É um facto embaraçoso para os actuais defensores das “democracias ocidentais”, que procuram fazer esquecer as cumplicidades da Inglaterra, França e EUA na vitória do fascismo em Espanha. Só que esse apoio da URSS foi orientado para a preservação da República burguesa em Espanha, quando a situação requeria um apoio directo ao campo revolucionário popular.
A conhecida carta que Staline, Molotov e Vorochilov dirigiram a 21 de Dezembro de 1936 ao governo Caballero é exemplo dessa cegueira política. Em vez de se dirigirem ao PCE e ao proletariado, incitando-os ao prosseguimento do processo revolucionário, dirigiam-se à burguesia republicana, e apostavam tudo nela. Aconselhavam as autoridades a promulgar decretos agrários que satisfizessem os camponeses, a proteger a pequena e média burguesia urbana da ameaça de expropriação, a assegurar nos limites do possível a liberdade do comércio, a declarar que não seriam tolerados atentados contra “a propriedade e os legítimos interesses (...) dos cidadãos dos países que não apoiam os facciosos” – era o caso, por exemplo, dos capitalistas ingleses que investiam e exploravam muitas das indústrias espanholas – e a “atrair, aproximar e associar ao esforço comum do governo os dirigentes do Partido Republicano”. “Isto é necessário também para impedir que os inimigos de Espanha vejam nela uma república comunista e para evitar assim uma intervenção declarada da sua parte, que representa o perigo mais grave para a Espanha republicana.”
O PCE E O FIM DE CABALLERO
Prestigiado pelo apoio material da URSS, apoiado pelos delegados da IC que acompanhavam in loco a sua acção, interveniente activo no governo e no movimento operário, o PCE aumentava rapidamente os seus efectivos. Ele era sobretudo a força que, no quadro da República, aparecia mais à esquerda, e também a mais organizada e eficaz.
A linha da Frente Popular parecia ser um êxito. A política realista e moderada do partido ajuda-o a alargar influência e os seus apelos à ordem e à disciplina encontram eco na pequena burguesia e nos sectores operários mais atrasados. Nesse período, agrupou por sobre a base operária uma camada de funcionários, oficiais do exército, jovens, intelectuais e membros da pequena burguesia.
A notável capacidade de dedicação, sacrifício, organização e controle impunham-se face aos outros partidos. Mas o êxito da nova política do PCE não estava completo: faltava-lhe a unidade orgânica com o PSOE. A absorção total da ala esquerda da social-democracia nos partidos comunistas era, segundo Dimitrov, o fim último dos compromissos e alianças, mas o PCE encontrava dificuldades em levar a sua política até a esta última consequência, sobretudo pela oposição que Caballero mantinha a esta ideia.
Entre Dezembro de 1937 e Março de 1938, e em resultado da importância cada vez maior do PCE nos destinos do país, dá-se um novo realinhamento de forças, todo ele dirigido para o afastamento de Caballero. Os republicanos aproximam-se dos comunistas, e vão-se juntar à grande coligação entre estes e os socialistas moderados (encabeçados por Negrín), todos eles unidos na necessidade de um governo de guerra muito centralizado, sem o empecilho das tendências populistas. Do outro lado estavam os “caballeristas”, os chefes sindicais e a maioria da CNT e UGT, que se opunham à colaboração com estes sectores e insistiam agora em que a guerra não podia ser ganha sem a revolução proletária.
A penetração dos comunistas nas fileiras socialistas; o peso dos comunistas nos comandos do exército e os constantes atritos com o Ministério da Guerra, detido por Caballero, sobre a táctica militar; a insistência que o PCE punha na fusão e na necessidade de reprimir as actividades e críticas dos anarquistas e trotskistas tinham vindo a tornar cada vez mais tensas as relações de Caballero com os comunistas e a empurrá-lo para posições formalmente mais à esquerda. Já não era um aliado, passara a ser um obstáculo.
Às vésperas da queda do seu governo, Caballero procurou demarcar-se das medidas antipopulares que ele próprio sancionara, e distanciar-se do rumo que os comunistas procuravam a todo o custo imprimir à revolução declinante. Mas inutilmente. A queda de Málaga e os incidentes de Barcelona de 3 de Maio serviram de detonadores à sua derrota. O governo cai em 13 de Maio de 1937 e é formado um outro sob a direcção de Negrín.
Caballero tentara reavivar junto dos operários descontentes a velha imagem de lutador radical e chamar a si o apoio de massas que lhe permitisse combater os comunistas. Mas a sua inconsequência reformista e a oscilação permanente de que dera provas já não resistiam aos ataques do PCE.
Também os anarquistas traídos pelos seus chefes, que tinham aceitado integrar-se no governo – e os trotskistas, incapazes de se nortear por uma linha coerente – acabaram por se isolar do movimento e ceder cada vez mais terreno ao PCE.
O DECLINIO DA REPÚBLICA
Como democrata moderado, Negrín estava numa posição difícil: os restantes partidos da Frente Popular viam com maus olhos a sua confiança e convergência com os comunistas, e por seu lado ele via-se cada vez mais obrigado a depender do PCE e da URSS, dada a situação internacional. Embrenhados nos compromissos constantes duma Frente Popular contraditória e incoerente, com opositores à direita e à esquerda, os socialistas moderados e os comunistas só viam uma saída: fazer ainda cedências à burguesia para ganhar a guerra.
Os comunistas estavam no auge da sua influência, mas ao serviço da burguesia reformista em pânico e tentando ganhar uma causa já perdida, à custa de todo o tipo de concessões políticas, e em luta desenfreada contra os partidos “esquerdistas”, que identificavam com a reacção. José Díaz, secretário-geral do partido, comentaria alguns meses mais tarde este período da seguinte forma:
“Depois da queda do governo de Largo Caballero manifestou-se a tendência para a formação de um bloco de oposição ao Governo da Frente Popular. O eixo deste bloco era o grupo derrotado de Largo Caballero, que caiu sob a influência do trotskismo, e que por um lado se ligava ao trotskismo contra-revolucionário, enquanto pelo outro fazia esforços para atrair a CNT (anarquista) a uma política antigovernamental.” (...)
“Nalguns camaradas formou-se então a opinião falsa de que o nosso Partido se pode converter no único factor da situação actual, o que significava entrar em contradição com a nossa linha política fundamental, que é uma linha de aliança firme, de colaboração estreita, até à fusão, com o Partido Socialista, e de consolidação e extensão da Frente Popular.”
O PCE enredava-se inelutavelmente nas malhas da sua própria política de Frente Popular: vituperava contra os “esquerdistas”, recusava-se a assumir posições independentes e sacrificava tudo à fusão (impossível) com a ala moderada do PSOE e aos desígnios do governo cada vez mais dominado pelos reformistas.
Quando a ofensiva republicana do Ebro se deteve, a 1 de Agosto de 1938, precipitou-se nova crise governamental: Negrín formou novo governo, alargado mais à direita, aos republicanos, e sempre com os comunistas. O exército travava as últimas batalhas, já com sabor a derrota, e a Espanha republicana assumia finalmente a imagem completa de democracia burguesa moderada, com instrumentos administrativos e militares totalmente controlados.
No seu livro O único caminho, Dolores Ibarruri retrata bem os compromissos que o PCE na altura assumira quanto à guerra:
“Se o Governo estivesse disposto a continuar a resistência, o Partido Comunista apoiá-lo-ia, se estivesse disposto a entabular negociações de paz, o Partido não seria um obstáculo.”
No entanto, a mesma Ibarruri tinha baptizado o novo gabinete de “governo da vitória”. Tratava-se de provar que o fim da guerra estava iminente, e que os comunistas, libertos das peias que Caballero lhes impusera, seriam os impulsionadores da vitória.
O PCE estava irremediavelmente amarrado aos destinos do regime. Ao erigir a colaboração com os liberais pequeno-burgueses em linha geral, tinha aderido às perspectivas reformistas e interesses de classe das forças no governo, e subordinado a sua intervenção na luta de massas e na guerra àquilo que os reformistas considerassem como aceitável. É este o verdadeiro sentido do “único caminho” de que falava a Pasionaria. Em nome da nova linha proclamada pelo 7.° Congresso da IC, o PCE tinha deixado passar a oportunidade criada pelo impetuoso movimento de massas revolucionário, ao atrelá-lo à aliança com a pequena burguesia. A política de preservar a ordem institucionalizada, alimentar a confiança das massas na República burguesa e evitar quaisquer excessos que assustassem os seus aliados conduziu-o ao mais completo desastre. Na realidade, participava e dava aval com a sua colaboração ao “governo da derrota”.
O GOVERNO DA DERROTA
O último governo republicano, na sua ânsia de respeitabilidade, deu as últimas machadadas a tudo quanto de novo e criador as massas populares em Espanha tinham conquistado:
O SIM (Serviço de Informações Militares) acabou com toda a oposição “esquerdista” (“incontroláveis”, trotskistas e anarquistas, classificados de espiões e fascistas).
Negrín negociou com os católicos um acordo para a restauração do culto público, fingindo esquecer que a Igreja tinha sido o sustentáculo da monarquia, da reacção do Biénio Negro e o bastião da sublevação fascista.
O Ministério do Interior procedeu ao saneamento da polícia, excluindo os trabalhadores que para ali tinham sido enviados pelas suas organizações após a sublevação. Os conselhos de segurança (para saneamento dos elementos fascistas) foram dissolvidos.
O crédito às cooperativas agrícolas foi suspenso e as terras começaram a ser devolvidas aos antigos proprietários, que foram libertados. A resistência violenta dos camponeses foi reprimida pelos guardas de assalto.
O governo determinou que o controle dos trabalhadores sobre as indústrias se devia limitar à salvaguarda das condições de trabalho e ao incentivo à produção. Aos antigos donos foi reconhecido o direito de indemnização completa. Os comités de abastecimento dos trabalhadores, que serviam as aldeias num regime de preços controlados, foram dissolvidos e o comércio entregue a intermediários.
A 1 de Outubro, os comunistas e socialistas moderados convocaram uma assembleia de sindicatos que procedeu à destituição do Comité Executivo da UGT presidido por Caballero, desmoralizando por completo o movimento operário.
Em Outubro foram também dissolvidas as Brigadas Internacionais. O grande entusiasmo internacional pela defesa da República tinha vindo a desvanecer-se a partir de 1937, quando os PCs renunciaram à mobilização de voluntários em nome do “antifascismo”.
É restabelecida a hierarquia dos soldos, os oficiais operários são proibidos de ultrapassar o posto de comandante, e é proibida a participação de militares em manifestações públicas.
A justificação que se apresentava para estas medidas era o estado de guerra e a necessidade de conquistar vitórias militares a todo o preço. Mas foi precisamente esta política liquidadora que destroçou todos os planos militares: os trabalhadores já não lutavam para defender as suas conquistas, que estavam deitadas por terra, a derrota estava à vista e a guerra já não fazia sentido para os soldados.
Não se podia levar mais longe a política de contenção da revolução para tirar pretextos à contra-revolução. E no entanto, isso não serviu para ganhar a guerra e salvar a República, antes pelo contrário. Os operários e camponeses que tinham pegado em armas espontaneamente em 1936 continuavam a bater-se, mas sem o entusiasmo antigo, e sob as ordens dos oficiais “democráticos”.
Os rios de sangue, o sacrifício de mais de meio milhão de mortos e a resistência heróica de todo o povo tinham sido em vão. A 1 de Abril de 1939, dá-se a rendição total das tropas republicanas. A República cai, exangue, vencida pelo exterior mas sobretudo golpeada de morte no interior, por não ter sabido preservar a sua conquista mais preciosa: a revolução.
Os comunistas no governo
O PCE foi um dos instrumentos mais eficazes da restauração burguesa, e um parceiro preponderante dessa política. Os discursos de José Díaz a 2 e 8 de Fevereiro de 1937 dão-nos indicadores claros desse empenho dos comunistas em apoiar a ordem republicana, a defesa da propriedade e da legalidade. Transcrevemos algumas passagens.
“Comunismo libertário, ditadura do proletariado, República Federal: mais tarde falaremos de tudo isso. Agora, vamos ganhar a guerra. (...)
Se queremos ganhar a guerra e fazer todos os possíveis por isso, absolutamente todos, indivíduos e partidos, organizações e massas, devemos obedecer como um só homem às ordens que emanam do Governo, porque este é um dos postulados fundamentais para ganhar a guerra. (...)
Que ninguém fale nestes momentos de aumentos de salário, nem de batalhas de/ornadas de trabalho, pois, hoje, não trabalhamos para nenhum explorador. trabalhamos para ganhar a guerra e esmagar todos os nossos exploradores. (...)
Há que dar ao Governo da Frente Popular a confiança ontem pedida nas Cortes. (...)
Aqueles que não estejam dispostos a caminhar nessa direcção há que começar a apontá-los como elementos que ajudam, que favorecem, directa ou indirectamente, os interesses dos nossos inimigos. (...)
Que os Comités (de fábrica) desapareçam e os Sindicatos tenham um controlo, sob a direcção do Governo legítimo da República. (...)
Estão a constituir-se, em Espanha, as Juntas, às quais há que dar todo o poder municipal, porque nelas está representada toda a força dos partidos políticos e organismos sindicais, e a partir do momento em que se constituam as Juntas do povo (...) ficam a mais todos os Comités. (...)
Se temos um governo reconhecido pelo povo, há que acabar com todos os governozinhos.”
1 André Marty, L’Humanité, 4 de Agosto de 1936.
2 P. Togliatti, “Sobre as particularidades da revolução espanhola”, Novembro de 1936.
Política Operária, nº 6, Setembro/Outubro 1986.