segunda-feira, 12 de novembro de 2018


terça-feira, 30 de outubro de 2018

BOLSONARO OU LE PEN

Sérgio Martins


BOLSONARO OU LE PEN – EU COMPREENDO O APOIO DE TRABALHADORES A BOLSONARO OU LE PEN1. Poucos irão ler este escrito até ao fim. Hoje lê-se menos. Hoje o tempo livre e mesmo parte do restante tempo é ocupado maioritariamente no facebook e noutras redes sociais olhando para uma imagem e duas linhas de texto entre fotografias, fofocas, sensacionalismos e noticias falsas (fake news). E temos ainda as séries da televisão. Mais à frente, no ponto 6 irei abordar como as redes sociais e a televisão reduzem a nossa informação e formação. Poucos irão ler este escrito até ao fim mas alguém há-de ler.2. Bolsonaro tem mais apoiantes nas classes altas mas eu compreendo a atracão de alguns, julgo mesmo que muitos, TRABALHADORES, inclusivamente IMIGRANTES PORTUGUESES, no Brasil por BOLSONARO e na França por LE PEN.2.1. Estou a falar de trabalhadores, desde não qualificados até técnicos superiores, que construiram um pensamento ou, melhor, que foram enquadrados para construir esse pensamento.2.2. Não estou a falar de quem é de naturalmente de direita ou extrema-direita porque é e sem saber porque é. Não estou a falar dos pobres de direita que são de direita porque pensam que os ricos é que desenvolvem a sociedade ou que os pobres são quase todos uns malandros que querem direitos e recusam deveres. Não estou a falar de uma baixa burguesia que pouco mais tem que os trabalhadores mas pensa que é e comporta-se como a alta burguesia. Todos estes têm um pensamento feito e poucos poderão mudar. Estou a falar de outros que se pensavam de esquerda ou que não tinham opinião ou que não pensavam como Bolsonaro ou Le Pen mas que agora apoiam.3. As razões do BRASIL e da FRANÇA têm uma raiz comum.3.1. No BRASIL é o CRIME vindo das favelas. A CORRUPÇÃO veio por arrasto porque não se resolve o crime. Apesar de nos dados oficiais o PT não ser o partido mais corrupto. Apesar de Bolsonaro e o seu partido estarem acusados de corrupção. Apesar BOLSONARO NÃO IR RESOLVER a corrupção porque tem corruptos a apoiá-lo e a corrupção já é uma forma de funcionamento do Brasil há muitas décadas (até na ditadura militar).3.2. Como é possível que Bolsonaro diga que as MULHERES porque podem engravidar devam ganhar menos que os homens e que haja mulheres e até homens a apoiá-lo? Porque muitas e muitos estão dispostos a abdicar da justiça social e da liberdade perante a possibilidade de se livrarem do crime.3.3. Apesar de BOLSONARO NÃO IR RESOLVER o crime porque não vai acabar e o seu programa até vai agravar as desigualdade entre pobres e ricos no Brasil. Nos países capitalistas com grandes desigualdades entre pobres e ricos existe a tendência para elevada criminalidade. Bolsonaro até poderia cercar e invadir as favelas que não conseguiria acabar com o crime, que arranjaria outros territórios. No máximo o que poderá fazer é arranjar umas (poucas) zonas fortemente patrulhadas e seguras para os brancos e os ricos mas isso não acabará com o crime na maior parte do Brasil, nem sequer acabará com o crime sobre a maior parte dos brancos.3.4. Na FRANÇA é o CRIME dos JOVENS ISLÂMICOS. É terrível uma pessoa ter de trabalhar no duro e 8 horas por dia mais 2 horas de deslocação para poder comprar uma casa e um carro e depois vir uma onda de jovens islâmicos dar fogo ao carro. Pior ainda é se esses jovens islâmicos não trabalharem e receberem SUBSÍDIOS enquanto “nós” temos que trabalhar.3.5. Nem sequer interessa refletir os reflexos do comportamento radicalizado dos “ARABES” pelas bombas que Israel, os EUA ou França lançam sobre o território santo da Palestina, sobre os irmãos muçulmanos do Iraque, da Siria ou da Líbia. Mais os “arabes” que se sentem discriminados porque devido à sua origem só poderem aceder a trabalhos de salário mínimo ou ocupações em programas estatais com subsídios abaixo do salário mínimo.4. Ao entrarmos na parte dos SUBSÍDIOS cruzamos a FRANÇA com o BRASIL e PORTUGAL. Cruzamos os subsídios aos “ARABES”, com a Bolsa Família nas FAVELAS e o rendimento mínimo dos CIGANOS.4.1. No tema dos subsídios considero que A ESQUERDA ESTÁ ERRADA por considerar que por se ser pobre, discriminado ou refugiado tem naturalmente direito a um subsídio sem se preocupar se o subsidio vai fazer com que deixe de ser pobre ou que vá integrar-se na sociedade.4.2. Em Portugal, a maior parte recebe mas nem todos os ciganos recebem o RENDIMENTO MÍNIMO e a maioria que o recebe não são ciganos. O Rendimento Mínimo de uma família de 2 adultos e 2 crianças é de 500 EUROS POR MÊS. A primeira reação de alguns será dizer “TANTO?” mas sejamos realistas 500 euros para 4 pessoas é uma miséria, é menos de 1 salário mínimo para dar casa, de comer, de vestir a 4 pessoas. Não vai tirar as pessoas da pobreza.4.3. Alguns governantes para tratar da inserção põem-nos a fazer cursos de jardineiros ou em estágios de jardineiros a ganhar menos que o salário mínimo. Isto não adianta nada, não os tira da pobreza e nem os motiva.4.4. Sou favorável a que se dê uma oportunidade a sério a um CIGANO, um “ARABE” ou FAVELADO. Em Portugal, se tens 20, 30, 40 ou 50 anos, terás um contrato para cumprir de um ano para jardinagem por 620 euros por mês e para a tua mulher um contrato para cumprir de um ano para uma cozinha por 620 euros por mês. É aprender e trabalhar para se ter uma oportunidade real no futuro e realmente se integrar na sociedade. Não se tenta que trabalhem em troca de um subsídio baixo e dá-se uma verdadeira oportunidade. Terá principalmente de ser o Estado a fazer isto porque muitos falam mas não dariam trabalho a um cigano ou um “arabe”.4.5. Uma sociedade verdadeiramente de esquerda, no limiar até socialista ou comunista, é solidária e socorre as pessoas em momentos de adversidade mas NÃO É LAXISTA e pouco rigorosa.5. Uma sociedade verdadeiramente de esquerda, no limiar até socialista ou comunista, é uma sociedade rigorosa, promotora da lei e DEFENSORA dos seus cidadãos.5.1. À esquerda temos medo que as FORÇAS POLICIAIS atirem sem perguntar antes, que julguem no lugar dos juízes, que prendam sem provas e que prendam e torturem comunistas. Temos medo e com razão porque a história demonstra quanto é fácil a extrema-direita, os fascistas, os nazis, os rambos, os racistas ou os homofóbicos atuarem dentro das forças policiais.5.2. Mas o nosso medo não pode impedir que à esquerda uma das medidas verdadeiramente prioritárias é que sejamos os primeiros defensores e impulsionadores do reforço das FORÇAS POLICIAIS na prevenção e combate ao crime. Não é tornar as forças policiais em carrascos e juízes mas é dar proteção aos cidadãos.5.3. NÃO CONTAM os nossos discursos e textos sobre a necessidade de mudança de sistema para combater o crime. Não vamos conseguir mudar a sociedade nos próximos tempos e as pessoas precisam de proteção agora.6. NÃO CONTAM os nossos discursos e textos sobre como temos de acabar com o sistema capitalista para se combater o crime porque a esmagadora maioria não vai compreender. Os maiores sucessos do capitalismo foram um sistema de ensino que ensina a trabalhar e a consumir para o capitalismo mas não ensina o pensar e o pensamento critico, uma televisão que nos entretém adormecendo o pensamento e encaminhando-nos para a sociedade de consumo, as redes sociais que reduzem a informação a uma fotografia e 2 linhas sem contraditório, sem fundamentação e suscetíveis à manipulação das noticias falsas (fake news).6.1. O capitalismo conseguiu fazer VENCER o individualismo, o egoísmo, o pensamento acrítico e também violência com o ensino, a televisão e a sociedade de consumo, agora tudo amplificado pelas redes sociais. E nem sequer conseguimos explicar ou que nos entendam que tudo isto – BOLSONARO, LE PEN, FASCISMO, EXTREMA-DIREITA, FACEBOOK, REDES SOCIAIS, NOTICIAS FALSAS - é para os ricos ficarem mais ricos à conta de todos os outros, à conta da maioria de nós.6.2. Lamento mas acusamos e explicamos mas NÃO NOS ENTENDEM. A informação hoje é uma fotografia e 2 linhas ou 1 minuto de uma acrítica reportagem televisiva. É isso que a maioria quer aceitar e consegue entender. As nossas explicações e teorias não cabem numa fotografia e 2 linhas ou 1 minuto de televisão.6.3. Dizemos que a LUTA DE MASSAS é o caminho e assim foi durante toda a histórias mas cada vez temos menos massas para mobilizar face à alienação e manipulação crescentes e esmagadoras.6.3. Mais abertura para o ganho de consciência e para a formação social e política tinham os operários e camponeses ANALFABETOS OU INCULTOS do século passado do que temos nós agora anestesiados e entretidos pelas redes sociais, televisão e consumo.7. Uma política verdadeiramente de esquerda tem que oferecer de imediato SEGURANÇA, integração, educação, saúde, cultura e justiça social. Não se pode ignorar a segurança porque senão não teremos a quem oferecer integração, educação, saúde, cultura e justiça social.8. O combate nas REDES SOCIAIS tem de ser feito ao nível e com a linguagem da maioria da audiência e não com a nossa linguagem que a maioria não consegue descodificar.

quinta-feira, 22 de março de 2018

A dissolução do PCUS Novembro de 1991


“Os militares adeptos de Iéltsin apresentaram-se no Comité Central de deram-nos dez minutos para evacuar o edifício, proibiram-nos de levar connosco o que quer que fosse – a não ser objectos de puro uso pessoal. Eramos cerca de dois mil. Toda a gente saiu sem dizer uma palavra. Estávamos desmoralizados, terrificados. Não houve um só que protestasse. Quando cheguei a casa e contei à minha mulher o que acontecera, ela ficou embasbacada e ao mesmo tempo, indignada: “ Quê? Estavam lá dois mil comunistas e não resistiram?”. Esta observação deixou-me envergonhado.
«Tinha razão. Sim, por que motivo não tínhamos nós resistido? Esperávamos ordens! Ordens de Gorbatchov, que continuava a ser o Presidente da URSS e secretário-geral do PCUS, que podia ter reagido, que podia ter apelado aos militantes para resistirem à decisão de Iéltsni. Não sei quantos membros do Partido teriam respondido a esse apelo, nem como, pois tudo nos parecia já perdido e estávamos completamente desmoralizados. Mas o facto é que nada fizemos. Esperávamos pela decisão de Gorbacthov quando, na realidade, fora ele próprio, com as suas hesitações, os seus compromissos e, por fim, as suas sucessivas traições, quem preparara a capitulação e se aprestava a assiná-la. Que ingenuidade! Mas que havíamos de fazer? Estávamos habituados a não tomar a iniciativa.» Pág. 81
«Mas, mesmo discordando profundamente da política que estava a ser posta em prática, toda a gente se calou. Não por medo de passar por «inimigo do Partido» e de ficar sujeito a sanções mais ou menos graves – esse receio havia-se atenuado pouco a pouco, especialmente depois do XX Congresso -, mas porque, qualquer que fosse a sua opinião, os militantes tinham conservado o hábito de aceitar sem discussão todas as directivas vindas de cima.»
« Os simples cidadãos – comunistas ou não - , quando se referiam aos que ocupavam os lugares de direcção à frente do Partido e do Estado, haviam ganho o hábito de dizer «eles», como se falassem de uma categoria  de pessoas à parte, situadas a grande distância da população, lá no «alto», nas quais se tinha fraquíssima influência. Para que serviria, então, exprimir desacordo em voz alta? Apenas para passar – o que não convinha – por indisciplinado? Pag. 203
“Livro O Grande Salto Atrás de Henri Alleg”

Solidariedade/Fraternidade


“A «nostalgia» de Tânia…terminara a sua carreira de professora primária e vivia com as dificuldades de todos os reformados, mas o que mais a preocupava não eram esses problemas nem as comparações que, nesse domínio, poderia fazer com a sua antiga vida. Ainda adolescente, vivera em Leninegrado durante o cerco da cidade: as pessoas caíam na rua, mortes de fome, de frio ou esgotamento, mas os outros continuavam a lutar»
«Vinham-lhe as lágrimas aos olhos ao recordar a solidariedade e a fraternidade desses tempos: As pessoas privavam-se do último naco de pão para dar a alguém que dele necessitasse mais: a uma criança doente, a um soldado ferido. E, quando lho davam, sabiam muito bem que alguém da sua família podia estar também, em qualquer sítio da União Soviética, com fome, ferido ou doente, mas receberia da mesma maneira iguais dádivas de solidariedade e de efecto de compatriotas desconhecidos. Uma fraternidade que se estendia também a todos os seres humanos e a todos os povos que em qualquer canto do mundo nos pedissem ajuda. Orgulhávamo-nos de ter podido ajudar Cuba, o Vietname, Angola, a Argélia, o Egipto e todos os que combatiam pela liberdade. E agora tudo isso está perdido. Já não podemos fazer nada pelos outros povos. Estamos incapazes de ajudar-nos a nós próprios!»
Do livro "O grande salto atrás de Henri Alleg, pag, 82"

Este relato da Tânia faz com que meus olhos humedeçam ao recordar os tempos idos da Reforma Agrária, em Portugal, e a fraternidade e solidariedade que muitos de nós, “sacrificando” o lazer, os fins-de-semana, o bem-estar pessoal, dedicamos apaixonadamente muitas horas de trabalho concreto, sem recebermos nada mais que o carinho e estima dos trabalhadores Alentejanos.
Faz-me lembrar os tempos em que muitos camaradas abriam as suas portas, colocavam mais um lugar na mesa, disponibilizavam um sofá ou uma cama extra, lá naquele quarto destinado a um filho vindouro mas que de momento era de grande utilidade para um descanso merecido.
Foram tempos de solidariedade e fraternidade entre homens e mulheres que lutavam por uma nova sociedade livre da exploração e onde todos os seres humanos se reconhecem como fazendo parte do mesmo ideal. Sem cansaços, sem vacilações todos davam o seu contributo, voluntário, nas variadas tarefas que se nos colocavam diariamente.
Pela manhã o bilhete em cima da mesa da cozinha dizia – amigo: tens o pequeno-almoço na mesa, quando saíres puxa a porta, abraço! -




domingo, 18 de março de 2018

PCB

Unir a esquerda socialista com as pré candidaturas populares de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara!
por PCB
Guilherme Boulos e Sônia Guajajara. O Comitê Central do PCB vem a público anunciar a decisão de promover a coligação com o PSOL para as eleições deste ano. Declaramos o apoio político à pré candidatura à presidência da República dos companheiros Guilherme Boulos e Sônia Guajajara , aprovada na Conferência Eleitoral do PSOL. Trata-se de uma ampla aliança política e social entre o PCB, PSOL, MTST, os movimentos dos povos indígenas, movimentos feministas, negros, LGBTs, intelectuais progressistas, trabalhadores urbanos e rurais em torno de um programa que expresse a unidade mais consequente e combativa nas lutas contra os ataques da burguesia e do imperialismo aos direitos sociais, trabalhistas e democráticos desferidos pelo governo golpista.

O atual quadro histórico de aprofundamento da crise capitalista, acirramento das disputas inter-imperialistas no mundo e crescimento da extrema direita, com a continuidade da acumulação capitalista e suas expropriações, impõe cada vez mais limites e restrições às liberdades democráticas historicamente conquistadas pela classe trabalhadora. Nesse sentido, é fundamental que as pré candidaturas de lideranças dos trabalhadores sem teto e indígena também apontem para a necessária reconstrução e fortalecimento das organizações populares e suas lutas, antes, durante e depois das eleições.
O PCB construirá esta campanha nestes termos, ombro a ombro junto aos companheiros e companheiras. Somando-se às importantes iniciativas da plataforma Vamos, aos acúmulos das lutas dos movimentos populares e do PSOL, temos a apresentar o programa político do PCB, construído junto com a nossa militância, por meio de eixos programáticos de cunho popular, anticapitalista e anti-imperialista.
Para os comunistas brasileiros, na atual conjuntura, qualquer conquista política, social e econômica para as classes populares necessariamente irá contrariar os interesses das classes dominantes. Nesse sentido, a construção de candidaturas radicalmente populares passa longe de qualquer ilusão com a conciliação de classes. Igualmente devemos continuar a participar ativamente das lutas e resistências, para além das eleições, na Frente Povo Sem Medo , nos sindicatos, diretórios e grêmios estudantis, associações e movimentos populares.
O PCB conclama a sua militância partidária e dos coletivos, amigos e simpatizantes a não medirem esforços em participar da construção de uma ampla e combativa campanha na base da sociedade, capaz de se apresentar como alternativa a velhas ilusões estratégicas que permearam grande parte da esquerda brasileira até a história recente do nosso país.
Pelo Poder Popular! Pelo Socialismo!
São Paulo, 10 de março de 2018, 
Comitê Central do PCB

O original encontra-se em pcb.org.br/...
Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .

Bertolt Brecht

«Os 120 anos do «Pobre B. B.»
16.03.18
José Carlos Faria

«REVOLUCIONAR A ARTE. Quando, às 4.30 da madrugada de 10 de Fevereiro de 1898, veio ao mundo na cidade alemã de Augsburgo Eugen Bertold Friedrich Brecht, filho de um próspero industrial, Marx (falecido em 1883) tinha nascido há 80 anos, o Manifesto Comunista, com o espectro que percorria a Europa, fora editado há meio século e, na Rússia czarista, Konstantin Stanislavsky e Nemirovitch-Dantchenko fundavam o Teatro de Arte de Moscovo.
O jovem, criado no seio da burguesia, viria mais tarde a mudar o seu nome para Bertolt Brecht, assinando, por vezes, Bert Brecht ou mesmo b. b. (em minúsculas).
Num poema, relata:

Eu cresci como filho
De gente abastada. (…)
Quando era já crescido e olhei à minha roda,
Não me agradou a gente da minha classe;
Nem o mandar nem ser servido.
E eu abandonei a minha classe e juntei-me
À gente pequena.
Assim criaram eles um traidor, educaram-no
Nas suas artes, e ele
Atraiçoa-os ao inimigo. (…)
Desmonto a balança da sua justiça
E mostro os pesos falsos.
Os espiões deles informam-nos
De que estou com os espoliados
A preparar a revolta.
Admoestaram-me e tiraram-me
O que ganhei com o meu trabalho. Como não me emendei
Deram-me caça. (…)
Perseguiram-me com um mandato de captura
Que me acusava de opiniões baixas, isto é:
Das opiniões dos de baixo.
Aonde chego, fico marcado
Pra todos os possidentes, mas os que nada têm
Lêem o mandato e
Dão-me abrigo. «A ti» – ouço eu dizer –
«Expulsaram-te eles, e
Com razão».
«O pobre B. B., vindo das negras florestas para o asfalto das cidades», poeta, dramaturgo, encenador, ensaísta e teórico, viria a revolucionar a arte teatral, propondo e definindo o modelo de uma nova concepção estética, materialista e dialéctica, de empenhamento político visando a transformação da realidade social, operada pela superação da alienação e pelo incremento da consciência crítica dos espectadores.

Dizia:
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não houve, não fala, nem participa nos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
da renda de casa, do sapato e do remédio dependem das decisões
políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e incha o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, reles, o corrupto e lacaio das empresas
nacionais e multinacionais.

Em 1917, Brecht é incorporado no exército, como enfermeiro num hospital da rectaguarda e rapidamente desmobilizado devido à sua frágil saúde, aliada a uma evidente desmotivação. Escreve depois «Tambores na Noite», que virá a ganhar o Prémio Kleist em 1920. A experiência vivida no período de contacto com a realidade da I Guerra Mundial e da derrotada Revolução Espartaquista que se seguiu, viria a ter influência na sua adesão ao marxismo, ao qual atribuiu enorme importância:
«Tenho de confessar que foi só depois de ler “O Estado e a Revolução”, de Lenine, e, em seguida, “O Capital”, de Marx, que compreendi a minha posição no plano filosófico». «Lendo “O Capital”, compreendi as minhas peças. Bem entendido, não descobri que tinha escrito involuntariamente um monte de peças marxistas. Mas este Marx era o único espectador que eu conseguia conceber para as minhas peças. Só um homem com tais preocupações podia interessar-se por peças como as minhas. Não por serem inteligentes, mas porque ele o era. Elas ofereciam-lhe materiais de observação».
Vai então escrever as chamadas peças didácticas sobre as contradições da engrenagem capitalista, as quais irão ser montadas quer em regime profissional quer em grupos de amadores estudantis ou ligados aos sindicatos. 1928 é o ano da estreia de «A ópera dos 3 Vinténs», que põe em causa todo um sistema social, toda uma ordem, a da sociedade burguesa (O que é o assalto a um banco, comparado com a fundação de um banco?), e que, com a música de Kurt Weill, irá obter um retumbante sucesso mundial.

A verdade está na vida real :
O crash da Bolsa de Nova Iorque e as suas repercussões, em 1929 (ano do casamento com a actriz comunista Helen Weigel), suscitar-lhe-á um processo de análise e desmontagem: Sou um autor de peças. Mostro aquilo que vi. Nos mercados dos homens vi como o homem era negociado. Isso é o que eu mostro, eu, o autor de peças. A barbárie não provém da barbárie, mas dos negócios – surge quando os homens de negócios deixam de poder negociar sem ela.
Brecht iria então elaborar a teoria do Teatro Épico, concretizada no «Pequeno Organon para o Teatro» e na «Compra do Latão», através de alguns pontos fundamentais: a forma épica faz do espectador um observador mas desperta-lhe a consciência crítica e exige-lhe decisões; visão do mundo; o espectador é colocado diante de alguma coisa e os sentimentos são elevados a uma tomada de consciência; o ser social determina o pensamento.
Insistindo que o texto não deve ser sentimental ou moralizante, mas sim mostrar a moral e a sentimentalidade, cabe pois ao público reflectir e agir fora do teatro. A verdade não está no palco mas na vida real. Compreender a realidade e, se possível, transformá-la. Tal tarefa não pertence ao teatro – que ele se contente, pelos seus meios, em nos fazer ver essa necessidade; já não será pouco. Um teatro que mostre a realidade mas que, de igual modo, esteja apto a transformar o espectáculo num prazer.
A ferramenta para o trabalho do actor vai ser o Verfremdungseffeckt, também por muitos designado Efeito V, que preconiza a distanciação, o estranhamento, a não identificação – aos actores cabe então uma dupla função: representar as suas personagens e, em simultâneo, serem os juízes críticos dessas mesmas personagens através do gestus social, ou seja, a expressão e gestos que acontecem entre pessoas de uma determinada época. A historicização, próxima das formulações sobre o condicionamento histórico da Arte em Marx, assume um carácter decisivo, em que os acontecimentos, mesmo os quotidianos, devem ser apresentados como transitórios. Todavia Brecht não deixou de alertar para os perigos desse Efeito V ser tomado como um fim em si mesmo, isto é, o espectador fascinado pelo processo da crítica sem ser tocado pelo significado da crítica.

Quando Hitler sobe ao poder, a 30 de Janeiro de 1933, tem início um período extremamente conturbado. O parlamento é dissolvido de imediato e a 27 de Fevereiro, incendiado. No dia seguinte, Brecht abandona a Alemanha, com a sua mulher e os dois filhos, Stefan e Barbara, escapando assim à vaga de enorme repressão, com prisões e assassinatos, que se vai abater sobre antifascistas, em especial sindicalistas, intelectuais, estudantes e membros de partidos de esquerda. Tempos sombrios em que falar sobre uma árvore é quase um crime, porque equivale a calar tantas perfídias, como deixará patente num lamento magoado. O exílio, para Brecht, a quem os nazis retiram a cidadania alemã, vai fazer-se, trocando de país como de sapatos, através das guerras de classes, numa rota que passa pela Checoslováquia, Suíça, Dinamarca, Suécia, Finlândia, União Soviética, para se concluir nos EUA. Fixa-se na Califórnia, tentando trabalho como argumentista em Hollywood, escreve peças de resistência à ofensiva nazi-fascista («As espingardas da Senhora Carrar», a propósito da Guerra Civil de Espanha e «Terror e Miséria do III Reich»), poemas introduzidos e distribuídos clandestinamente em território alemão e ainda outros textos teatrais que virão posteriormente a ser estreados após o final da II Guerra Mundial.
A 30 de Outubro de 1947 é intimado a comparecer perante a Comissão de Actividades Anti-Americanas, criada com o objectivo de conduzir uma caça às bruxas contra as «actividades subversivas». Brecht considera este interrogatório como «uma execução fria, como lá se chama guerra fria a uma certa forma de paz. O delinquente não é privado de vida, mas de qualquer meio de vida; o seu nome não aparece nas listas cronológicas mas figura nas listas negras». Despistando os seus juízes, recorrendo à astúcia e à ironia, uma vez mais, logo no dia seguinte, parte rumo à Europa num voo da Air France. Curiosamente, sete meses depois, a Academia Americana de Artes e Letras iria anunciar o seu nome como um dos 15 autores contemplados com um prémio de mil dólares por mérito artístico.

Fidelidade ao ideal comunista
Para construir o socialismo não bastam decretos e proclamações
Com o surgimento da RDA, em 1949, Brecht vai viver em Berlim-Leste e funda, com Helen Weigel, o Berliner Ensemble.
A 17 de Junho de 1953, fortes convulsões sociais ocorrem devido à urgente necessidade de bens de consumo e alimentação provocadas por um plano ocidental, que, por via do mercado negro, pretendia destruir o valor da moeda da RDA, arruinando a sua estrutura financeira. Brecht, numa longa carta ao 1.º Ministro com críticas e sugestões, de que os jornais só publicariam a parte final, na qual exprimia identificação com o Partido e o regime, escrevia:
«Espero agora que os provocadores sejam isolados e que as suas redes sejam destruídas; mas também que não se coloque no mesmo nível estes provocadores e os operários que se manifestaram para exprimir o seu justo descontentamento, a fim de não perturbar no futuro a discussão tão necessária sobre os erros cometidos pelos dois lados».
O governo dava conta de que para construir o socialismo não bastam decretos e proclamações e Brecht chamava a atenção para isso:
Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário da União de Escritores
Fez distribuir panfletos na Avenida Stáline
Em que se lia que, por culpa sua,
O povo perdera a confiança do governo
E só à custa de esforços redobrados
A poderia recuperar. Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?
Porém, a fidelidade ao ideal comunista permanecia firme:

LOUVOR DO COMUNISMO
É razoável, quem quer o entende. É fácil
Tu não és nenhum explorador, podes compreendê-lo.
É bom para ti, informa-te dele.
Os estúpidos chamam-lhe estúpido e os porcos chamam-lhe porco.
Ele é contra a porcaria e a estupidez.
Os exploradores chamam-lhe crime
Mas nós sabemos:
Ele é o fim dos crimes.
Não é nenhuma loucura, mas sim o fim da loucura.
Não é o enigma
Mas sim a solução.
É o fácil que é difícil de fazer.
Assim como está não fica

Em 1954, a digressão parisiense do Berliner Ensemble ao festival do Théâtre des Nations, com «A Mãe» e «Mãe Coragem e os seus filhos» resulta num êxito estrondoso.
Brecht, entretanto, com a figura do sr. Keuner, o seu irónico alter ego filosófico, e também através da poesia de sarcasmo e erotismo, prosseguia a crítica da moral burguesa a que se entregava desde a juventude.
A 14 de Agosto de 1956, a meio dos ensaios de «A Vida de Galileu», Brecht morre com um enfarte de miocárdio. Pouco tempo antes tinha escrito:

«Dispenso a pedra tumular, mas
Se fizerem questão de me dar uma
Gostaria que nela fosse escrito:
Ele deu sugestões. Nós aceitámo-las.
Tal inscrição
A todos honraria.»

No dia 17 é enterrado junto ao túmulo de Hegel, filósofo que tanto apreciava pelos seus estudos sobre a Dialéctica, cujo louvor Brecht tinha celebrado:
A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz dos dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.
Quem ainda vive, que não diga nunca!
O certo não é certo.
Assim como está não fica.
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute!
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz: Hoje ainda!»

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

GORBACHEV _ RÙSSIA

Gorbachev aos 81 anos de idade, em 2012, lança um livro em que lamenta não ter sabido levar a URSS a um 'bom porto'
'Cara a cara comigo mesmo'.
Ele acusa o seu sucessor Yeltsin de ter desmembrado e destruído a união soviética.
O último líder soviético, Mikhail Gorbachev, lamenta não ter conseguido levar a União Soviética "a bom porto", em livro publicado em Moscovo, o qual também critica o governo dos Estados Unidos pelo apoio dado a seu rival Boris Yeltsin, "que desejava destruir a URSS", segundo o laureado com o Nobel da Paz de 1990.
"O objetivo dele - desmembrar e destruir a União Soviética - coincidia com o da administração americana", afirma Gorbachev, em referência a Yeltsin, que, eleito presidente da Rússia, deu o golpe de misericórdia no regime soviético, depois da tentativa frustrada de golpe de Estado conservador de agosto de 1991.
"Continuo lamentando não ter conseguido levar a bom porto o barco, cujo timão haviam colocado em minhas mãos", escreve o Nobel da Paz em livro de memórias de 600 páginas. que tem como título "Cara a cara comigo mesmo".
"Aconteceram erros na direção, no meio a um fogo cruzado entre conservadores radicais e nacionalistas, que, por fim, formavam uma frente unida com o objetivo de derrubar o poder soviético", completa.
"Não reformamos a tempo a União. Não transformamos a tempo o Partido Comunista em um partido democrático moderno. Foram os dois principais erros", afirma Gorbachev.
Nota:
Vá lá saber-se o que pensa Gorbachev do que é a democracia em socialismo, mais ainda quando não existem antagonismos de classe.
Não quer assumir aqui a verdade, que foi o desvio à conduta leninista do partido, após a morte de Estaline em 1953, pela traição do revisionista Nikita Khrushchov, que em fevereiro de 1956, por altura do XX Congresso do PCUS, iniciou o assassinato do regime e do poder soviético, através de uma intensa campanha anti-Estalinista, dando inicio ao reformismo político na URSS e à ingénua, ou má fé mesmo, da ideia da possibilidade da realização do socialismo no Mundo, através da política de coexistência pacifica.
E que o governo de unidade popular de Salvador Allende no Chile, se encarregou de desmistificar em absoluto em setembro de 1973.
Se queria aprender sobre democracia e socialismo, poderia ir a Cuba aprender com Fidel Castro, para saber que democracia é sobretudo participação a todos os níveis do partido e do Estado - O socialismo de democracia participativa, como acontece na pequena ilha de Cuba, que nas barbas do império, construiu o socialismo assente na democracia, e que por isso, resiste à barbárie, apesar de sofrer com o embargo imoral e terrorista dos USA, há mais de 60 anos.
António Jorge