As causas da fome na Ucrânia (O tal Holodomor é uma palavra ucraniana que quer dizer “deixar morrer de
fome”, “morrer de inanição”.)
Em 1932-1933 houve fome na Ucrânia. Mas foi provocada
principalmente pela luta de morte que a extrema-direita ucraniana moveu contra
o socialismo e contra a coletivização da agricultura.
No decurso dos anos
30, esta extrema-direita ligada aos hitlerianos já tinha utilizado a fundo o
tema da «fome provocada deliberadamente para exterminar o povo ucraniano».
Após a II Guerra
Mundial esta propaganda foi «ajustada» com o objectivo principal de encobrir os
crimes cometidos pelos nazis e mobilizar as forças do Ocidente contra o
comunismo.
Com efeito, desde o começo dos anos 50, a realidade do
extermínio de seis milhões de judeus impôs-se ante a consciência mundial. A
extrema-direita mundial tinha necessidade de uma quantidade superior de mortos
«vítimas do terror comunista». E, em 1953, o ano do macartismo triunfante,
assistiu-se a um crescimento espectacular do número de mortos na Ucrânia
durante a fome ocorrida 20 anos antes.
Como os judeus tinham sido mortos de forma deliberada,
científica, era necessário que «o extermínio» do povo ucraniano tomasse também
a forma de um genocídio cometido a sangue frio. A extrema-direita, que nega com
convicção o holocausto dos judeus, inventa então o holocausto ucraniano!
A fome de 1932-1933 na Ucrânia teve quatro causas:
·
Antes
de mais foi provocada pela verdadeira guerra civil desencadeada pelos kulaques
e os elementos reaccionários contra a coletivização da agricultura. (Frederick Schumann
viajou como turista pela Ucrânia durante o período da fome. Já como professor
do Williams College, publicou, em 1957, um livro sobre a União Soviética. Nesta
obra fala-se da fome.)
A oposição (dos
kulaques) manifestou-se de início pelo abate do gado bovino e cavalar, que
consideravam preferível a vê-los coletivizados. Dado que a maioria das vacas e
dos cavalos pertencia aos kulaques, o resultado foi terrível para a agricultura
soviética. Entre 1928 e 1933, o número de cavalos passou de cerca de 30 milhões
para menos de 15 milhões; de 70 milhões de cabeças de gado bovino, das quais 31
milhões vacas, passou-se para 38 milhões, das quais 20 milhões de vacas; o
número de carneiros e cabras diminuiu de 147 milhões para 50 milhões e o de
porcos, de 20 milhões para 12 milhões. Em 1941, a economia rural soviética
ainda não tinha recuperado completamente destas perdas terríveis (...)
Alguns (kulaques) assassinaram Funcionários, incendiaram propriedades
colectivas e chegaram a queimar as suas próprias colheitas e sementes. Um
número ainda maior recusou-se a semear e a colher, talvez na convicção de que
as autoridades lhes fariam concessões e lhes assegurariam de qualquer forma a
alimentação. O que se seguiu foi a “fome” de 1932-1933. (...) Relatos macabros,
fictícios na sua maior parte, apareceram na imprensa nazi e na imprensa de
Hearst nos Estados Unidos (...). A fome, nas suas fases ulteriores, não foi o
resultado de um défice de alimentação, apesar da redução importante das
sementes e das colheitas, consequência das requisições especiais na Primavera
de 1932, motivadas aparentemente pelo receio de uma guerra com o Japão.
A maior parte das
vítimas foram kulaques que se haviam recusado a semear os seus campos ou que
tinham destruído a sua colheita.
É
interessante constatar que este testemunho é confirmado por um artigo publicado
em 1934, de Isaac Mazepa, chefe do movimento nacionalista ucraniano e antigo
primeiro-ministro de Petliúra em 1918. Na altura, gabou-se de a direita ter
conseguido em 1930-1932 sabotar em grande escala os trabalhos agrícolas.
«Começou por haver distúrbios nos kolkhozes, noutros lugares foram mortos
funcionários comunistas e seus colaboradores. Mas depois desenvolveu-se
sobretudo um sistema de resistência passiva que visava entravar
sistematicamente os planos dos bolcheviques para as sementeiras e colheitas. Os
camponeses faziam parte da resistência passiva; mas, na Ucrânia, a resistência
adquiriu o carácter de uma luta nacional. A oposição da população ucraniana
provocou o descalabro do plano de colheitas de 1931 e, sobretudo, de 1932.
A catástrofe de 1932 foi o golpe mais duro que
a Ucrânia soviética suportou depois da fome de 1921-1922. As campanhas das
sementeiras falharam tanto no Outono como na Primavera. Vastas áreas foram
deixadas incultas. Ainda por cima, no ano anterior, no início das ceifas, em
várias regiões, sobretudo no Sul, 20, 40 e mesmo 50 por cento dos cereais foram
deixados nos campos, não foram colhidos ou foram destruídos durante a malha.
·
A
segunda causa da fome foi a seca que atingiu grandes zonas da Ucrânia em 1930,
1931 e 1932.
Para James E. Mace, de Harvard,
trata-se de uma história inventada pelo regime soviético. No entanto, Michail
Kruchevski, um dos principais historiadores nacionalistas, na sua História da
Ucrânia, refere-se ao ano de 1932 nos seguintes termos: «Este novo ano de seca
coincidiu com condições agrícolas caóticas. O professor Nicholas Riasnovsky,
que leccionou no Russian Research Center, em Harvard, escreve que os anos 1930
e 1931 foram marcados por condições de seca. O professor Michael Florinsky, que
lutou contra os bolcheviques durante a Guerra Civil, assinala: «Secas severas
em 1930 e 1931, especialmente na Ucrânia, agravaram a situação da agricultura e
criaram condições próximas da fome.
·
A
terceira causa da mortalidade foi uma epidemia de tifo que assolou a Ucrânia e
o Cáucaso do Norte. Hans Blumenfeld, um arquitecto canadiano de renome, que se
encontrava na época na cidade de Makaiévka, escreveu: «Não há dúvida de que a
fome tem feito muitas vítimas. Não disponho de dados para calcular o seu
número. (...) Provavelmente a maior parte das mortes de 1933 foi causada por
epidemias de tifo, de febre tifóide e de disenteria. Doenças transmitidas pela
água eram frequentes em Makaiévka; eu próprio sobrevivi à justa de um ataque de
febre tifóide. Horslet Grant, o homem que inventou a estimativa absurda de 15
milhões de mortos pela fome (isto é, 60
por cento da população ucraniana, que contava 25 milhões de pessoas em 1932),
assinala, todavia, que «o pico da epidemia de tifo coincidiu com o da fome».
(...) É impossível separar estas duas causas que foram as mais importantes em
número de vítimas.
·
·
A
quarta causa da fome foi a inevitável desordem provocada pela reorganização
total da agricultura e igualmente profunda transformação de todas as relações
económicas e sociais: a falta de experiência, a improvisação e confusão nas
directivas, a falta de preparação, o radicalismo esquerdista de determinadas
camadas mais pobres e de alguns funcionários.
O número de um a dois milhões de
mortos da fome é importante. Estas perdas humanas foram largamente causadas
pela oposição feroz das classes exploradoras à organização e à modernização da
agricultura numa base socialista. Mas a burguesia inscreverá estas mortes na
conta de Stáline e do socialismo. Este número, de um a dois milhões, deve ser
comparado com os nove milhões de mortos causados pela fome de 1920-1921. Esta
foi essencialmente provocada pela intervenção militar de oito potências
imperialistas e pelo apoio que prestaram aos grupos armados reaccionários.
A fome não foi além do período que precedeu a
colheita de 1933. Medidas extraordinárias tomadas pelo governo soviético
garantiram o sucesso da colheita desse ano. Logo na Primavera, 16 mil toneladas
de sementes, alimentos e forragens foram enviados para a Ucrânia. A organização
e a gestão dos kolkhozes foram melhoradas e vários milhares de tractores, de
debulhadoras e de camiões suplementares foram fornecidos. Hans Blumenfeld
apresenta nas suas Memórias um resumo da experiência que viveu durante a época
da fome na Ucrânia. «Uma conjunção de um número de factores (a causa).
Em
primeiro lugar, o Verão quente e seco de 1932, que já tinha visto no Norte
de Viátka, fez fracassar a colheita nas regiões semi-áridas do Sul.
Depois, a luta pela colectivização
tinha desorganizado a agricultura. A colectivização não era um processo que
seguia uma ordem e regras burocráticas. Consistia em acções dos camponeses
pobres, encorajados pelo Partido. Os camponeses pobres revelavam grande
entusiasmo em expropriar os kulaques, mas mostravam menos fervor na organização
de uma economia cooperativa. Em 1930, o Partido já tinha enviado quadros para
combater e corrigir os excessos. (...) Depois de, em 1930, ter dado provas de
prudência, o Partido desencadeou nova ofensiva em 1932. Como consequência, a
economia dos kulaques deixou de produzir nesse ano e a nova economia colectiva
ainda não estava a produzir em pleno. Com uma produção insuficiente,
assegurava-se, em primeiro lugar, as necessidades da indústria urbana e das
forças armadas; não era possível fazer de outro modo, já que o futuro de toda a
nação, inclusive dos camponeses, dependia delas (...) Em 1933, as chuvas foram
suficientes. O Partido enviou os seus melhores quadros para ajudar no trabalho
organizativo dos kolkhozes. Tiveram êxito. Após a colheita de 1933, a situação
melhorou radicalmente e com uma velocidade impressionante. Tive a impressão de
que havíamos puxado uma carroça muito pesada através de uma montanha na
incerteza de o conseguirmos, mas, no Outono de 1933, tínhamos ultrapassado o
cume e a partir daí podíamos avançar em ritmo acelerado.
Hans Blumenfeld sublinha que a fome
atingiu tanto as regiões do Baixo Volga e a Região do Cáucaso do Norte como a
Ucrânia. «Isso refuta o “facto” de um genocídio anti-ucraniano similar ao
holocausto antisemita de Hitler. Para os que conheceram bem o défice
desesperado de força de trabalho que havia na altura na União Soviética, a
ideia de os seus dirigentes reduzirem deliberadamente esse recurso raro é
absurda.»
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