quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Esquerda a serviço da direita: depois de incentivar fuga de Jean Wyllys, Mujica apoia golpe contra Maduro


A Venezuela é objeto de desejo e efetiva exploração dos norte-americanos pelo menos desde 1883, quando o governo do país outorgou a Horácio Hamilton, a concessão para explorar o lago de asfalto Guanoco, então o maior depósito natural daquela substância. O cidadão norte-americano cedeu seu contrato para a empresa The New York and Bermudez Company, um trust do asfalto com sede na Filadélfia. A empresa explorou o asfalto e o exportou sem jamais cumprir com as contrapartes exigidas.

Mais tarde, diante dos conflitos com o general Cipriano Castro, que tomou o poder em 1899, a empresa decide apoiar financeiramente o movimento armado para derrubar o governo. Assim, em 1902, teve lugar uma revolução armada, batizada de ‘libertadora’, totalmente financiada pelos norte-americanos. Após a derrota da ‘revolução’, a própria admitiu sua participação, mas o novo governo apenas exigiu uma indenização, o que foi recusado pela empresa. A seguir, a pressão aumentou, com navios dos EUA, Alemanha e Inglaterra adentrando em águas venezuelanas e bombardeando portos do país, motivo pelo qual foram presos cidadãos ingleses e alemães radicados no país.

A empesa New York and Bermudez Company foi acionada judicialmente, mas estava claro que o governo de Cipriano Castro buscava repor recursos que havia saqueado do erário público. Washington aproveita o momento para preparar o terreno e atacar Caracas: “O governo dos Estados Unidos pode, com muita propriedade, tomar as medidas necessárias para oferecer à companhia americana toda proteção que precise” (John Hay, Secretário de Estado)

Assim, preparam-se para colocar em ação o Plano Parker: desembarque dos infantes da marinha, captura de Cipriano Castro, ocupação dos portos, estabelecimento de um governo provisório made in U.S.A. Não foi preciso, mais tarde o presidente foi traído, enquanto ausentou-se do país para cuidar da saúde, e o novo governante, Juan Vicent Gómez, fez uma composição com os norte-americanos. Castro nunca mais pode voltar ao seu país, porque lhe impediam navios norte-americanos.

É em 1909, o governo entreguista de Vicent Gómez faz a primeira concessão para exploração e exportação de petróleo no país à The Venezuela Development Company Ltda. O contrato era generoso para a companhia e abrangia um território enorme, permeando 13 (treze) estados. Isso se deu após visita de Frank Knox que, ao regressar a Washington, estava exultante e empolgado com as possibilidades de exploração do país, principalmente porque seu governante mostrou-se absolutamente submisso à “diplomacia do dólar”.

Não à toa, em 1930, o ministro de Fomento da Venezuela escrevia: “As leis venezuelanas sobre o petróleo são as melhores do mundo para as companhias”. Em 1931, a Venezuela já era uma país de primeira categoria na exploração de petróleo, com projeção de 120 milhões de barris para aquele ano.

O país receberá muitas empresas para explorar seu petróleo, mas permanecerá pobre, e os norte-americanos nunca mais permitirão de bom grado um governo que ameace seus interesses comerciais, nem permitirá que o povo se organize, sem repressão, contra a cada vez mais clara exploração abutre que o país sofre, sem retorno para o povo e para o desenvolvimento.

O ódio a Hugo Chavez e todos os recursos utilizados para afastá-lo do poder e agora a Nicolás Maduro são apenas uma nova roupagem para uma velha política. É o imperialismo norte-americano que não admite que a Venezuela explore suas riquezas e cresça. Os norte-americanos vem financiando políticos e fornecendo material bélico e suporte estratégico desde o final do século XIX, tudo para manter seu domínio sobre os governos venezuelanos. Hoje não é diferente. O fato de Hugo Chavez ter conseguido permanecer no poder e fazer seu sucessor é motivo de desespero para os EUA e para sua investida cada vez mais dura para derrubar o governo de Maduro.

Assim, quando ouvimos Pepe Mujica bajular o imperialismo, afirmando que a saída para a Venezuela são eleições gerais, estamos diante da mais absoluta capitulação da esquerda, ou de uma certa esquerda no Continente. Lembrando que no Brasil também temos personagens de ‘esquerda’ que fazem coro ao Império satanizando Nicolás Maduro e apoiando a queda do governo democraticamente eleito.

Mujica sempre foi o mais moderado dos presidentes de esquerda da América Latina, com claros sinais de simpatia ao imperialismo. O Império, por sua vez, tem simpatias pelo ‘Pepe’, uma vez que sua política nunca foi efetivamente contra os interesses da burguesia, ou do imperialismo mesmo. Esse tipo de “esquerda” é tolerável, pois serve à direita, como contraparte à esquerda mais decidida e operária da região, que é o caso de Nicolás Maduro na Venezuela, que enfrenta o imperialismo.

Talvez por isso mesmo Mujica incentivou o deputado psolista Jean Wyllys a fugir do Brasil, posição covarde e que leva à desmoralização da esquerda e consequentemente ao fortalecimento da direita. Isso ajuda a desorganizar o movimento de luta contra o golpe e o fascismo.

Mas, não bastasse isso, agora faz eco, melhor, uma frente única com o imperialismo e pede novas eleições na Venezuela, ou seja, considera Maduro um presidente ilegítimo. Esse não é o comportamento de um militante de esquerda, que deveria apoiar o presidente Maduro e o povo venezuelano em sua luta contra o imperialismo. Na prática, e ele já afirmou isso em outras ocasiões, considera a Venezuela um mal exemplo, motivo pelo qual deseja sim a queda de Maduro e do chavismo. Torna-se um porta-voz do imperialismo, para impor um regime fascista e neoliberal à Venezuela, e ao país, destruir toda a esquerda venezuelana e latino-americana.

NOTA:
Este nunca me enganou. A divulgação da " humildade" em que vivia nao passava de uma capa populista. Esquerdista de origem não fugiu à regra da traição onde caem todos os esquerdismos.

Ver aqui:

A SOLIDARIEDADE EM PORTUGAL:

“Quando as bombas começarem a cair não serão apenas chavistas a morrer”


Várias organizações promoveram em Lisboa uma sessão de apoio ao Governo venezuelano e de condenação do que dizem ser um golpe dos EUA. Embaixador disse que “há luso-venezuelanos que dão a vida pela revolução”
O ex-presidente uruguaio José "Pepe" Mujica defende que, para evitar que a crise na Venezuela termine em uma guerra, é preciso haver eleições gerais no país, com um forte monitoramento internacional que garanta a participação de todas as correntes políticas.
Em entrevista à BBC Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, Mujica afirmou acreditar que os Estados Unidos estão dispostos a intervir na Venezuela para viabilizar uma vantagem geopolítica em relação à China. A intenção do governo americano seria impedir que o gigante asiático controle o petróleo do país da América do Sul.
Embora o ex-guerrilheiro tupamaro tenha mantido uma relação próxima como o ex-presidente da Venenzuela Hugo Chávez, que morreu em 2013, ele evita se posicionar sobre Nicolás Maduro.
Mujica reconhece, porém, que "o regime venezuelano" prejudicou a esquerda na América Latina. "Parte da esquerda não aprende as lições da história", criticou.

Mujica: ‘Parte da esquerda não aprende as lições da história’

Venezuela recebe equipamentos militares russos do mais alto nível, afirma Maduro

Presidente venezuelano afirmou que pediu apoio a Putin para "proteger a verdade venezuelana a nível internacional"; Rússia, China, Irã e Turquia reafirmaram seu apoio a Maduro



O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou nesta quarta-feira (30/01) que recebe equipamentos militares de alto nível da Rússia com regularidade, e destacou a parceria de seu governo com o presidente russo, Vladimir Putin.

Em entrevista exclusiva à agência Sputnik, Maduro afirmou que "o presidente Vladimir Putin sempre nos forneceu assistência da Rússia em todos os sentidos, e nós a aceitamos com gratidão. O que pedi ao presidente Putin foi que nos mantivéssemos em contato constante, para termos todo o apoio diplomático e político da ONU e para proteger a verdade venezuelana a nível internacional".

Maduro afirma que, durante seu diálogo com o presidente russo, Putin disse que ambas as nações reforçariam a cooperação nos setores econômico, comercial, petrolífero, militares e em todas as áreas.

"Em termos de cooperação militar, temos equipamentos russos do mais alto nível, na Venezuela se encontram os sistemas de armas mais avançados, eles estão bem posicionados, todo o nosso pessoal está trabalhando, eles foram treinados na Rússia. Temos uma relação muito boa em termos de cooperação militar com Putin", disse Maduro.

Ao ser perguntado sobre a proposta de novos pedidos de armamentos, o líder venezuelano alega que a estratégia é sempre melhorar a cooperação para que se avance na segurança do país.

"Sempre temos planos para avançar na cooperação para melhorar a defesa aérea, a artilharia e os sistemas de mísseis. Nós sempre avançaremos aqui. A Venezuela receberá os armamentos mais avançadas do mundo", disse Maduro, adicionando que as armas chegam ao país todos os meses.

O mandatário ainda afirmou que a Venezuela possui "boas relações financeiras com a China e a Rússia, e elas irão se desenvolver, relações sobre o financiamento da cooperação no setor do trigo, por exemplo. [A China e a Rússia] estão financiando e nós estamos pagando no prazo", disse.

Maduro declarou ainda que o "trigo russo tem sido muito bem sucedido na Venezuela", e que essa colaboração garante ao país latino-americano independência alimentar e segurança.

"A China está financiando a produção de petróleo e espera aumentar o financiamento nos próximos meses. Contamos com o forte apoio da China e da Rússia para o desenvolvimento econômico da Venezuela", afirmou o presidente.

A situação política venezuelana se tornou mais tensa após a tentativa de golpe de Estado no dia 23 de janeiro, quando o chefe da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, se autodeclarou presidente interino do país durante um ato realizado nas ruas de Caracas e contou com apoio de países como Estados Unidos, Brasil, Colômbia e Canadá.

A Rússia, China, Irã e Turquia reafirmaram seu apoio ao atual governo venezuelano de Maduro, enquanto vários países latino-americanos expressaram seu apoio a Guaidó. O México e o Uruguai, no entanto, oferecem assistência para mediar uma solução política para a crise.


NOTA: 
Este gajo é um populista, convencido e demagogo. O Kadaffi, o Sadan também afirmavam que estavam preparados para enfrentarem o imperialismo americano e caíram sem quase resistência. Acabaram os dois mortos em público de uma forma indigna para qualquer cidadão, sem honra, sem resistência, sem combate.
Se está bem armado só tem de posicionar os meios de forma a fazer frente a qualquer tentativa de invasão, organizar a população e as forças armadas para o combate sem grande alarido, tudo o resto é fanfarronice.

*Com SputnikAqui
Aqui também:

Bruno Carvalho publicado no faceboock em 2.02.2019
1 h
Foi neste dia, há 20 anos, que Hugo Chávez tomou posse como presidente da Venezuela. Fê-lo em directo para todo o país e disse que jurava sobre aquela "moribunda constituição". Dez anos antes, o povo levantava-se contra o aumento de preços imposto pelo FMI numa revolta que resultou em milhares de mortos às mãos do exército. Governavam na altura os que agora dizem que antigamente é que era bom. Um sector das forças armadas jurou vingança. À frente dos soldados progressistas estava Hugo Chávez. Depois de se tornar presidente, sofreu um golpe de Estado pelos que hoje são promovidos por televisões, jornais e rádios como se fossem democratas. A Venezuela avançou muito. Conheci gente que só viu um médico na vida quando chegaram os cubanos às favelas de Caracas. Outros aprenderam a ler e a escrever numa campanha que erradicou o analfabetismo. Milhões de venezuelanos receberam apartamentos novos e proliferaram durante anos os supermercados do Estado com produtos a preços regulados para fazer frente à guerra contínua de especulação e açambarcamento da distribuição privada. A primeira vez que fui à ópera na minha vida foi em Caracas. Milhares de venezuelanos humildes acediam ao que dantes lhes estava vedado. Ao contrário do meu país, Portugal, democratizava-se a comunicação social. As favelas enchiam-se de rádios e jornais locais. Da trabalhadora doméstica ao vendedor de frutas, todos tinham algo para dizer porque os silenciaram durante décadas. Eu era testemunha dessa vertiginosa democracia em que Hugo Chávez declarava como objectivo o Estado comunal. E, repente, as comunas começaram a surgir como cogumelos. A ideia de construção de um poder autónomo que desarticulasse o aparelho do velho Estado capitalista dando mais poder ao povo. É fácil ser-se europeu quando durante séculos evoluímos sobre a riqueza espoliada de outros países. A nossa evolução é também um reflexo disso. Queremos que a Venezuela seja como as grandes potências mundiais quando os Estados Unidos trataram de a desindustrializar quando fizeram com esta um tratado de livre comércio que, no fundo, foi como a União Europeia. Países ricos ficam com o aparelho produtivo dos países pobres. E uma e outra vez tentamos dar-lhes lições. Civilizá-los como no tempo do colonialismo, diriam alguns. Mas a Venezuela, com Cuba e a Nicarágua, faz hoje parte daquilo a que o imperialismo chama troika da tirania. É o novo eixo do mal. E há quem não perceba, quem não entenda, que hoje são eles e que amanhã podemos ser nós. Que todo aquele que ouse projectar um modelo social e económico alternativo está sujeito a ser esmagado pelos poderosos. Como o heróico povo haitiano que um dia ousou desafiar o colonizador e foi condenado ao ostracismo eterno. Há que ler As Veias Abertas da América Latina uma e outra vez e entender porque corre no sangue daqueles povos a rebeldia. Não é porque sejam violentos. É porque a liberdade só se conquista de pé e com a dignidade à esquerda, como o coração. É o povo venezuelano que nos deve servir de exemplo. Nunca os Estados Unidos e a União Europeia. Devem rir-se aqueles que nos governam e nos mantêm na pobreza de verem trabalhadores, explorados, defenderem o mesmo que eles. Eles querem-nos escravos e nós devíamos querer-nos rebeldes.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Guilherme Antunes
O QUE ELES ESQUECEM
(por Romain Migus)
O presidente francês, Emmanuel Macron, ordena a Nicolas Maduro que não reprima a oposição, MAS ELE ESQUECE as 3.300 prisões e os 2.000 feridos ligados à repressão do movimento dos "coletes amarelos".
O presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez, dá 8 dias a Nicolas Maduro para organizar eleições, MAS ELE ESQUECE que não está no seu posto senão graças a uma moção de censura e não por eleições livres.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusa Nicolas Maduro de não ser o legítimo presidente venezuelano por ter sido eleito apenas por 30,45% dos inscritos, MAS ELE ESQUECE que apenas 27,20% dos eleitores estadunidenses o escolheram.
O presidente colombiano, Ivan Duque, grita à "narco-ditadura venezuelana", MAS ELE ESQUECE que 65% da cocaína no mundo é fabricada na Colômbia, sob o olhar complacente das autoridades do país.
O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preocupado quanto aos direitos humanos na Venezuela, MAS ELE ESQUECE ter declarado que os movimentos sociais que se opusessem à sua política seriam considerados como organizações terroristas.
O presidente argentino, Maurício Macri, acusa Nicolas Maduro de ser um corrupto MAS ELE ESQUECE que só o seu nome aparece nos "Panama Papers", não o do presidente venezuelano.
Portugal deplora a crise venezuelana que, segundo a ONU, empurrou 7,2% dos venezuelanos para os caminhos da emigração MAS ESQUECEM que 21% dos portugueses tiveram de abandonar o seu país e vivem no estrangeiro, segundo as mesmas fontes.
O presidente peruano, Martin Vizcarra, grita que há ditadura na Venezuela, MAS ELE ESQUECE que foi nomeado, sem o menor voto popular, apenas em substituição do presidente anterior destituído por corrupção.
Na Inglaterra, os dirigentes denunciam os atentados à liberdade de expressão na Venezuela, MAS ESQUECEM que mantêm, sem nenhum motivo válido, o jornalista Julian Assange em reclusão.
A Bélgica alarma-se com a situação da economia venezuelana, MAS ESQUECE que em Bruxelas a empresa Euroclear retém 1,25 mil milhões de dólares pertencentes ao Estado venezuelano.
Estas inversões acusatórias, próprias desta "Escola do mundo invertido" descrita por Eduardo Galeano, fazem parte do "modus operandi" da propaganda contra a Venezuela.
Elas visam preparar a opinião pública internacional para a legitimidade de uma acção violenta contra o Povo venezuelano. As bombas mediáticas já começaram a chover.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Partido Comunista Chileno

[Breno Altman] Após o golpe de Estado ocorrido em 1973, os comunistas tiveram a coragem política e a honestidade de fazerem uma profunda autocrítica de sua política anterior, atribuindo a essa orientação – em grande medida – as fragilidades da esquerda local em resistir à insurgência militar dirigida por Pinochet, o imperialismo e a burguesia chilena.
A decorrência disso foi a chamada linha de rebelião popular, vigente nos anos 70 e 80, com a construção da Frente Patriótica Manuel Rodriguez (braço armado do PCCh até 1987), a formação de uma frente com o MIR e a esquerda do PS, além de setores católicos e independentes, o esforço em todas as trincheiras por uma alternativa democrático e popular à ditadura pinochetista.
Nos anos 90 e no início do século atual, com a debandada dos socialistas para um acordo com a democracia-cristã, sob a égide da Concertação, o PCCh manteve a estratégia de construir um bloco popular independente, inclusive no plano eleitoral, apresentando candidaturas próprias a presidente.
Mas há alguns anos, possivelmente esgotados do longo período de marginalização institucional, pois o sistema eleitoral binominal herdado da ditadura interditava a vitória de candidatos comunistas ao parlamento, os herdeiros de Recabaren deram um giro em sua política e ingressaram na coalizão centrista de socialistas e democratas-cristãos, denominada Nova Maioria, que elegeu Michelle Bachelet para um segundo mandato como presidente.
Os comunistas puderam, então, eleger uma meia dúzia de deputados, pela aliança a qual se somavam, mas se comprometeram com um governo atolado nos marcos do neoliberalismo, incapaz de enfrentar com firmeza os entulhos da ditadura e amarrado aos interesses do grande capital.
Mesmo que, verdade seja dita, Bachelet tenha tentado ir algo além de políticas compensatórias, com o apoio dos comunistas, incluindo acenos para a convocação de uma Assembleia Constituinte (a Constituição chilena ainda é a da era Pinochet, imposta em 1980!), sua administração é ancorada em uma aliança político-social aprisionada pela lógica do capital financeiro e suas expressões políticas, como a própria DC e setores socialistas alinhados ao ex-presidente Ricardo Lagos, uma espécie de FHC local.
Próximos a novas eleições presidenciais, os chilenos assistem o crescimento de uma candidatura que, pela esquerda, ameaça romper com a polarização entre a direita e o campo da antiga Concertação.
Trata-se de Beatriz Sánchez, da Frente Ampla, apoiada por vários dos antigos aliados comunistas anteriores à adesão do partido ao esquema de poder do PS com a DC.
Mas o PCCh, que poderia ser uma força decisiva para ampliar as chances de uma alternativa progressista, segue amarrado a Nova Maioria, como uma corrente secundária e subordinada, passando ainda a vergonha de pertencer a um governo que ataca diuturnamente a revolução bolivariana e o governo venezuelano.
O partido ganhou algum conforto depois do rompimento da DC com a antiga coalizão, ocorrido há alguns meses, o que permite vender a hipótese de que a Nova Maioria poderá sair do pântano e assumir posições mais à esquerda.
Mas o fato triste é que o heroico PCCh, coluna vertebral do governo Allende e da resistência, novamente atolou em uma política que retira da classe trabalhadora independência, protagonismo e capacidade de confrontação.
O erro é novo, de fato, mas a matriz talvez seja antiga. A mesma que foi severamente criticada depois da derrota de 1973.
Após o golpe de Estado ocorrido em 1973, os comunistas tiveram a coragem política e a honestidade de fazerem uma profunda autocrítica de sua política anterior, atribuindo a essa orientação – em grande medida – as fragilidades da esquerda local em resistir à insurgência militar dirigida por Pinochet, o imperialismo e a burguesia chilena.
A decorrência disso foi a chamada linha de rebelião popular, vigente nos anos 70 e 80, com a construção da Frente Patriótica Manuel Rodriguez (braço armado do PCCh até 1987), a formação de uma frente com o MIR e a esquerda do PS, além de setores católicos e independentes, o esforço em todas as trincheiras por uma alternativa democrático e popular à ditadura pinochetista.
Nos anos 90 e no início do século atual, com a debandada dos socialistas para um acordo com a democracia-cristã, sob a égide da Concertação, o PCCh manteve a estratégia de construir um bloco popular independente, inclusive no plano eleitoral, apresentando candidaturas próprias a presidente.
Mas há alguns anos, possivelmente esgotados do longo período de marginalização institucional, pois o sistema eleitoral binominal herdado da ditadura interditava a vitória de candidatos comunistas ao parlamento, os herdeiros de Recabaren deram um giro em sua política e ingressaram na coalizão centrista de socialistas e democratas-cristãos, denominada Nova Maioria, que elegeu Michelle Bachelet para um segundo mandato como presidente.
Os comunistas puderam, então, eleger uma meia dúzia de deputados, pela aliança a qual se somavam, mas se comprometeram com um governo atolado nos marcos do neoliberalismo, incapaz de enfrentar com firmeza os entulhos da ditadura e amarrado aos interesses do grande capital.
Mesmo que, verdade seja dita, Bachelet tenha tentado ir algo além de políticas compensatórias, com o apoio dos comunistas, incluindo acenos para a convocação de uma Assembleia Constituinte (a Constituição chilena ainda é a da era Pinochet, imposta em 1980!), sua administração é ancorada em uma aliança político-social aprisionada pela lógica do capital financeiro e suas expressões políticas, como a própria DC e setores socialistas alinhados ao ex-presidente Ricardo Lagos, uma espécie de FHC local.
Próximos a novas eleições presidenciais, os chilenos assistem o crescimento de uma candidatura que, pela esquerda, ameaça romper com a polarização entre a direita e o campo da antiga Concertação.
Trata-se de Beatriz Sánchez, da Frente Ampla, apoiada por vários dos antigos aliados comunistas anteriores à adesão do partido ao esquema de poder do PS com a DC.
Mas o PCCh, que poderia ser uma força decisiva para ampliar as chances de uma alternativa progressista, segue amarrado a Nova Maioria, como uma corrente secundária e subordinada, passando ainda a vergonha de pertencer a um governo que ataca diuturnamente a revolução bolivariana e o governo venezuelano.
O partido ganhou algum conforto depois do rompimento da DC com a antiga coalizão, ocorrido há alguns meses, o que permite vender a hipótese de que a Nova Maioria poderá sair do pântano e assumir posições mais à esquerda.
Mas o fato triste é que o heroico PCCh, coluna vertebral do governo Allende e da resistência, novamente atolou em uma política que retira da classe trabalhadora independência, protagonismo e capacidade de confrontação.
O erro é novo, de fato, mas a matriz talvez seja antiga. A mesma que foi severamente criticada depois da derrota de 1973.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

«Quintal das traseiras» a ferro e fogo

Os EUA parecem ter pressa em juntar à guerra económica e à conspiração interna uma agressão militar formal contra a Venezuela. Podem continuar a ressuscitar a velha “doutrina Monroe”, mas talvez se enganem se julgarem que o seu “quintal das traseiras” ainda é o mesmo de há cem anos.

 José Goulão     23.Ene.19 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

ECONOMIA DO SOLAVANCO

Vitor Lima
3 h
CONHECEM A ECONOMIA DO SOLAVANCO ?
Na paróquia lusa vive-se de surtos investidores, do para-arranca ou do arranca para logo parar. O que não para é o crescimento da punção fiscal enquanto os rendimentos do trabalho patinam
1 - No surto do final dos anos 90 foi a Expo-98. E o Parque das Nações que estava projetado para ser um negócio lucrativo conduziu ao fecho da Parque-Expo, recentemente com um prejuízo superior a 200 M; e que entretanto cobrava o abastecimento de água aos moradores, com taxas exorbitantes.
2 - A construção da Ponte Vasco da Gama, fora do local mais conveniente (Barreio-Chelas) e sem ferrovia, por influência de um motard e colecionador de mapas antigos travestido de ministro (Ferreira do Amaral). Ficou célebre e com direito a Guiness a grande feijoada inaugural. Feijão e circo, uma inovação lusa.
3 – Seguiu-se a febre investidora dos dez estádios de futebol para ancorar a economia do evento – um campeonato de futebol - e eles aí estão, muitos deles imprestáveis, com relva não pisada.
4 – Também aconteceu a penúltima dança em torno dos locais para o novo aeroporto de Lisboa, da Ota para Alcochete e de Alcochete, num voo curto que durou uns dez anos, para o Montijo; dentro da lógica improvisada que carateriza as governanças. E a plataforma logística do Poceirão.
Agora vive-se a euforia dos portos e das dragagens
5 - Sines, não fora a visão dos singapuranos continuaria sem contentores. Agora projeta-se uma ligação ferroviária a Madrid, na esperança que os madrilenos esqueçam Algeciras, Bilbao, Valência ou Barcelona; tudo isso, num contexto global que se avizinha, algo depressivo, em torno do Brexit e das sanções que Trump vai distribuindo, como as cartas de um baralho.
6 - Em Setúbal vão dragar junto à margem norte do estuário 6 M m3 para albergar dois enormes Panamax em simultâneo; à parte os enormes efeitos ambientais, não sabemos que crescimentos de tráfego (e quais) justificam tal obra. A megalomania tem uma longa história; em tempos houve um plano para que Faro movimentasse 500000 t de carga!
7 - Como as dragagens estão na moda e, depois de abandonada a ideia peregrina de movimentar contentores na Trafaria, os ditos irão ser transferidos para o Barreiro, ao fundo do mar da Palha.
Com tanta fartura, o pobre – que irá pagar a euforia - desconfia. Alguns empresários da obra pública, bem instalados no municiamento das governanças, rejubilam. Talvez se deva incluir na festa a empresa de consultadoria que tem como sócias Ana Paula Vitorino (ministra) e Lídia Sequeira (chefe do porto de Setúbal)
E assim vai Portugal – diz o Fausto – uns vão bem e muitos mal

domingo, 20 de janeiro de 2019

GUE/NGL É O QUÊ?

GUE/NGL É O QUÊ?

Recentemente tiveram lugar em Nicósia [Chipre] os chamados "Dias de Estudo", organizados pelo grupo euro-parlamentar de "esquerda" denominado European United Left/ Nordic Green Left (GUE/NGL). Como é bem sabido, o KKE retirou-se deste grupo em 2014 uma vez que é – na sua essência – o "braço" parlamentar da estrutura oportunista do chamado "Partido da Esquerda Europeia" (PEE). O KKE na Europa coordena a sua acção com 30 Partidos Comunistas e Operários que participam na "Iniciativa Comunista Europeia". 

(…) É certamente, audacioso da parte do GUE/NGL organizar uma discussão "sobre a luta contra a extrema-direita" e designar para apresentar este tópico o representante do SYRIZA o qual já há 4 anos co-governa a Grécia com o partido de extrema-direita Gregos Independentes (ANEL).

(…) Esta política anti-popular que foi implementada pelo governo "de esquerda" do SYRIZA também levou 46,3% da população a viver abaixo da linha de pobreza. 

(…) O GUE-NGL participa na "celebração" dos "Prémios Sakharov" anti-comunistas que foram instituídos pelo euro-parlamento. 

(…) Anti-comunismo e anti-sovietismo, combinados com revisão da História e justificação dos nazis, juntamente com o refutar de esperanças que foram semeadas pelos governos sociais-democratas (velho e novo), são factores que "preparam o terreno" para o desenvolvimento de forças nacionalistas de extrema-direita e fascistas.

(…) Brecht escreveu que "o fascismo só pode ser combatido como o capitalismo, na sua forma mais crua e opressiva"

(…) Só os comunistas que mantêm uma frente contra o capitalismo, os monopólios, as uniões imperialistas, que travam uma batalha para a formação da aliança social da classe trabalhadora com os outros estratos populares e que enviarão para o caixote do lixo da História o ventre de onde nasce o fascismo, o sistema capitalista. Só com esses se fará futuro

(extracto do texto de um membro do CC e responsável das relações internacionais do PCG) —