sábado, 2 de julho de 2022

Soros lança uma mensagem perturbadora sobre o futuro da civilização

Soros lança uma mensagem perturbadora sobre o futuro da civilização

– Fórum globalista de Davos



Catastrofista? Não necessariamente. Para Yuval Harari, o 'filósofo' não oficial do fórum, pode ser uma solução. Harari não se cansa, com uma frieza de gelar o sangue, de discursar sobre essa enorme massa de humanos “inúteis” que constituem um peso morto para o planeta, ainda mais agora que a mecanização e a inteligência artificial os tornaram supérfluos para a produção.

Uma boa guerra atómica poderia ajudar a aliviar o problema, e não é como se algum "deles", em todo o caso, sofresse as consequências: como ele mesmo disse publicamente com uma sinceridade desarmante, "se o pior acontecer e o 'dilúvio' se der, os cientistas construirão uma Arca de Noé para as elites, deixando o resto afogar-se”. «Os outros», caso não se entenda, somos nós, os que nunca vão receber um convite para ir a Davos.

Harari não tem a certeza, observando que a grande questão do nosso tempo é o que fazer "com todas essas pessoas inúteis". «O problema é o tédio, porque lhes falta valor. Eu apostaria numa combinação de drogas e jogos de computador». Que alívio.

Artigo Completo aqui:

sexta-feira, 1 de julho de 2022

“Há um contexto histórico que explica o encurralamento da Rússia”

 

Annie Lacroix-Riz [*]

 “Há um contexto histórico que explica o encurralamento da Rússia”

Publicado por António Jorge 30.06.2022 

Annie Lacroix-Riz [*]
Uma análise da situação na Ucrânia à luz da história dos imperialismos do início do século XX e da sua perduração. Com efeito, o que nos é dito, vezes sem conta, nos meios de comunicação social, não nos permite compreender o conflito e, por conseguinte, impossibilita-nos de procurar uma solução para a paz. Nesta entrevista, Annie Lacroix-Riz oferece um olhar para além do que é aparente, o qual é extremamente útil para entender os acontecimentos e a história recente da região.
Nos meios de comunicação social, fica-se com a impressão de que a guerra na Ucrânia aconteceu a partir do nada. O que nos pode dizer sobre o contexto histórico desta guerra?
Em primeiro lugar, os elementos históricos estão praticamente ausentes daquilo que nos é frequentemente descrito como uma "análise" da situação. No entanto, há dois aspetos importantes a ter em conta nos acontecimentos atuais. Em primeiro lugar, existe uma situação geral, ou seja, uma agressão da NATO contra a Rússia. Depois, há uma espécie de obsessão contra a Rússia – e até contra a China. Esta obsessão não é nova e, portanto, permite relativizar o atual frenesim anti-Putin. A essência da alegada "análise ocidental" assenta na ideia de que Putin é um lunático paranóico e/ou um novo Hitler. Mas o ódio contra a Rússia, assim como o facto de não se suportar que esta possa ter um papel mundial, são tão velhos quanto o imperialismo americano.
Como é que explica esta obsessão?
É uma obsessão característica de um imperialismo dominante que foi hegemónico durante, praticamente, todo o século XX. Este imperialismo não quer perder a sua hegemonia, ainda que, na realidade, a esteja a perder. Com efeito, hoje já não estamos na mesma situação em que estávamos na década de 1950, quando os Estados Unidos representavam 50% da produção mundial. A China está a aproximar-se do primeiro lugar, no mundo, e isso não agrada aos Estados Unidos. Nos últimos anos, atingimos um momento particularmente agudo neste confronto, marcado por uma série de ataques surpreendentes.
Neste confronto, a Rússia também é um alvo. Temos a impressão de que haveria uma espécie de rancor contra os bolcheviques, mas é preciso saber que esta Russofobia do imperialismo americano remonta à era czarista, e continuou depois, incluindo após a dissolução da União Soviética. Os compromissos assumidos pelos Estados Unidos de não avançar militarmente na zona ex-soviética foram, desde então, todos violados. De 1991 a fevereiro de 2022, a NATO estabeleceu-se nas fronteiras da Rússia e a nuclearização da Ucrânia tornou-se numa realidade imediata.
Qual é o lugar da Ucrânia nos conflitos entre potências imperialistas?
A Ucrânia é inseparável da história da Rússia, desde o início da Idade Média. A Rússia, com toda a sua riqueza natural, é uma gruta de Ali Baba e a Ucrânia foi a sua mais bela jóia: é uma fonte extraordinária de carvão, de ferro e de tantos outros recursos minerais, e um formidável depósito de trigo e de outros cereais – o que, aliás, atraiu a cobiça de muitos, desde há muito tempo. Para nos mantermos no período imperialista (desde a década de 1880), podemos dizer que foi a Alemanha que, num primeiro momento, se interessou pela Ucrânia. Antes da guerra de 1914, o Reich alemão tinha decidido, a fim de controlar o Império Russo, garantir o controlo dos seus "mercados" mais desenvolvidos: a Ucrânia e os Estados bálticos. Durante o conflito, a Alemanha fez destes Estados e da Ucrânia um verdadeiro reduto militar, a base do seu ataque ao Império Russo. Durante a Primeira Guerra Mundial, se a Alemanha falhou na Frente Ocidental, logo em 1917, o mesmo não se pode dizer da Frente Oriental, a qual foi dominada pela Alemanha até à sua derrota. E, apesar de, desde janeiro de 1918, a recém-soviética Rússia estar a sofrer uma agressão adicional de todas as outras potências imperialistas (14 países invadiram a União Soviética, sem que tenha havido uma declaração de guerra), Berlim conseguiu impor-lhe, em março de 1918, o Tratado de Brest-Litovsk, confiscando-lhe a Ucrânia. A derrota da Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial não fez com que a Ucrânia fosse devolvida à União Soviética, dada a guerra travada no seu solo pelos "Aliados", apoiada por todos os elementos anti-bolcheviques, russos e ucranianos.
A Ucrânia conheceu, então, uma curta independência...
De 1918 a 1920, houve, de facto, um curto período de "independência" folclórica, tendo como pano de fundo a agressão dos exércitos brancos (pogromistas) de Denikin, e do pogromista Petlyura, oficialmente "independentista" e aliado da Polónia (que pretendia, para si, toda a Ucrânia ocidental). A Ucrânia continuou, então, a ser alvo do Reich, o qual sucedeu ao império austríaco, depois "austro-húngaro" dos Habsburgos (possidentes da Galicia oriental, a oeste da Ucrânia, depois de dividida a Polónia[1]). Esta tutela germânica constituiu, assim, desde o tempo dos Habsburgos, uma base preciosa para o enfraquecimento da Rússia e do Eslavismo Ortodoxo, tendo-se baseado, sobretudo, no Uniatismo[2], liderado pelo Vaticano.
Que papel tinha o Vaticano?
O Uniatismo Católico constituiu o apoio ideológico da conquista germânica, tendo seduzido parte das populações do oeste da Ucrânia, graças à sua aparência formal, muito próxima da Ortodoxia. Este instrumento da conquista austríaca foi tomado em mãos pela Alemanha, na era imperialista: o Vaticano, compreendendo que já não podia contar com o moribundo império católico, submeteu-se, definitivamente, ao poderoso Reich protestante, no início do século XX, incluindo na Ucrânia. No período entre-guerras, a Ucrânia desempenhou, assim, um papel decisivo na aliança entre a Alemanha e o Vaticano, a quem Berlim confiou a espionagem militar, realizada através dos clérigos uniatas. Podemos observar, deste modo, como foi organizada a tentativa de conquistar a Ucrânia, consagrada, aliás, na Concordata do Reich de julho de 1933, assinada entre Berlim e o Vaticano. Um dos seus dois artigos secretos estipulava que a Alemanha e o Vaticano seriam aliados na tomada de posse da Ucrânia, que era um dos principais objetivos da guerra da Alemanha, tanto durante a Primeira Guerra Mundial, como durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a militarização, a ocupação e a exploração económica estariam sob a alçada da Alemanha, a "recristianização" católica seria entregue ao Vaticano.
Os Estados Unidos também estavam interessados…
A Ucrânia é, não apenas um elemento importante no quadro mundial, como a porta de entrada para o Cáucaso, rico em petróleo. Os Estados Unidos juntaram-se ao imperialismo alemão para penetrar na Rússia e, em especial, na Ucrânia, após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1930, todos os imperialismos sonhavam em devorar a rica Ucrânia. No meu livro Aux origines du carcan européen [Sobre as Origens do Colete-de-Forças Europeu], mostrei como Roman Dmovski, um político polaco de extrema-direita, tinha analisado na perfeição, em 1930, "a questão ucraniana". Roman Dmovski escreveu que todos os grandes imperialismos queriam devorar a Ucrânia, sendo que, no topo, dois se atarefavam febrilmente para o conseguir: o alemão e o americano. Este autor disse, também, que, se a Ucrânia fosse arrancada da Rússia, tornar-se-ia num país puramente "consumidor", obrigado a comprar os seus produtos industriais fora. Ela nunca poderia suportar tal perda, acrescentou.
Isso não funcionou, pois a Ucrânia continuou no seio da União Soviética. Ainda assim, havia, ou não, um nacionalismo ucraniano?
O nacionalismo ucraniano foi, primeiro, alemão e, depois, americano (ou melhor, ambos), porque não tinha capacidade real de independência: o Reich financiou-o antes de 1914, e nunca mais cessou de o fazer. Na verdade, estas pessoas que diziam querer uma Ucrânia "independente" (como Bandera e os seus seguidores) pertenciam ao inatismo que, no período entre-guerras, e durante toda a Segunda Guerra Mundial, se confunde com o nazismo.
É difícil não fazer a ligação com estes movimentos que hoje encontramos: o batalhão Azov, Pravy Sektor, etc., são os herdeiros diretos que se reivindicam do movimento autonomista ucraniano do período entre-guerras, que viu a criação, em 1929, do movimento banderista. Denominado "Organização dos Ucranianos Nacionalistas" (OUN), foi inteiramente financiado pelo Reich de Weimar e, depois, por Hitler (depois de o "autonomismo" ter sido subsidiado pelo Reich wilhelminiano).
Como é que este movimento se desenvolveu?
O movimento de Stepan Bandera, o agora "herói nacional" oficial do Estado ucraniano, e ao qual o batalhão Azov e outros grupos pró-nazis constantemente prestam homenagem, desenvolveu-se a partir de 1929, na Ucrânia polaca e na Ucrânia eslovaca. Não estava, contudo, presente na Ucrânia soviética e ortodoxa. Os "banderistas", como as outras correntes do "nacionalismo ucraniano", eram anti-judeus, anti-russos e, também, violentamente anti-polacos. Atacavam de forma igualmente radical ucranianos não-autonomistas e ucranianos que tinham permanecido próximos da Rússia.
Estas bandas de auxiliares da polícia alemã, já em 1939, na Polónia ocupada, e, depois, a partir de 22 de junho de 1941, na URSS ocupada, formaram um autodenominado “exército de insurreição”, a UPA. Estes 150.000 a 200.000 criminosos de guerra massacraram, indiscriminadamente, centenas de milhares dos seus "inimigos": judeus, ucranianos leais ao regime soviético, russos e polacos, os quais odiavam indistintamente. Tomando, apenas, o exemplo dos polacos, é importante referir que entre 70.000 e 100.000 civis foram mortos pelas milícias banderistas, durante a guerra. O argumento de propaganda popular de que o Estado polaco acolheu calorosamente os "vizinhos" ucranianos, sentimentalmente tão perto, é, à luz desta longa história criminosa (iniciada antes da guerra), grotesco.
Em 1944, quando a União Soviética recuperou o controlo de toda a Ucrânia, incluindo Lvov (em julho), 120.000 destes criminosos de guerra fugiram para a Alemanha. Os Estados Unidos usaram-nos, ao chegar, na primavera de 1945.
Um livro sobre o assunto, disponível online em inglês, Hitlers Shadow, foi publicado por dois historiadores americanos. É ainda mais interessante é o facto de os seus dois autores serem historiadores acreditados pelo Departamento de Estado, com quem trabalham oficialmente sobre a história do extermínio dos judeus: Richard Breitman e Norman J.W. Goda. Estes autores mostram como os Estados Unidos, assim que chegaram à Alemanha, na primavera de 1945, recuperaram todos os criminosos de guerra, alemães ou não. Alguns dos banderistas permaneceram na Alemanha, nas zonas ocidentais, principalmente na zona americana, sobretudo em Munique. Outros banderistas foram recebidos de braços abertos nos Estados Unidos, através da CIA, em detrimento das leis de imigração, enquanto outros permaneceram na Ucrânia Ocidental.
Este último grupo, com dezenas de milhares de homens, travou uma guerra inexpiável contra a União Soviética: entre o verão de 1944 e o início da década de 1950, assassinou 35.000 funcionários civis e militares, com o apoio financeiro alemão e americano, o qual foi particularmente elevado em 1947-1948. Um excelente historiador germano-polaco, Grzegorz Rossolinski-Liebe, demonstrou que o banderismo continua a ser, hoje, um terreno de reprodução pró-nazi inextinguível: os inúmeros herdeiros de Bandera têm igual ódio por polacos, russos, judeus e ucranianos que não são fascistas. Escusado será dizer que este investigador tem tido grandes problemas de censura, desde a Revolução Laranja de 2004, e, sobretudo, na era Maidan, especialmente desde que estudou como, desde 1943, os banderistas fabricaram a lenda de "resistência aos nazis", tal como a vermelhos e judeus. Uma lenda muito útil para que aqueles grupos possam ser incluídos na lista de grupos "democráticos", apoiados por Washington.
Quais foram as consequências desta colusão?
Entre os criminosos de guerra calorosamente acolhidos pelos Estados Unidos, os intelectuais tiveram um acolhimento particular. Desde 1948, foram recrutados em grande número por universidades americanas, sobretudo as da Ivy League, incluindo Harvard e Columbia. Nos "Centros de Investigação sobre a Rússia", que proliferam desde 1946-1947, aqueles intelectuais participaram, juntamente com os seus prestigiados colegas americanos, numa frenética guerra ideológica contra a Rússia. É neste contexto que é difundida a lenda do "Holodomor", cujas aventuras pontuaram, desde então, as etapas decisivas da conquista da Ucrânia. Esta "investigação" e este "ensino", implantados há mais de 70 anos, e espalhados massivamente, com a ajuda dos principais meios de comunicação social, ao longo de décadas na Europa americana, literalmente "apodreceram" os conhecimentos "ocidentais" sobre a história da Ucrânia (e, mais amplamente, sobre a da URSS).
Os apoios políticos do Euromaidan, avatar destas inúmeras revoluções coloridas dos últimos vinte anos, formaram a espinha dorsal de 2014, fazendo uma aliança com oligarcas que, desde 1991, monopolizam toda a riqueza da Ucrânia. Note-se que este tipo de saque não é exclusivo da Rússia de Putin, sendo observado em quase todos os países da ex-União Soviética. Na Ucrânia, os oligarcas confiaram nestes elementos herdeiros do banderismo. O Estado ucraniano de Poroshenko e os seus sucessores, desde 2014, confiaram abertamente nestes movimentos nazis que os Estados Unidos alimentaram, incansavelmente, desde 1944-1945.
Os Estados Unidos tinham como programa explícito, codificado em junho de 1948, no âmbito da CIA, a liquidação, pura e simples, não só da zona de influência soviética, mas o próprio Estado soviético. Foi sob a administração democrata que foi posta em prática a política de repulsão ou de "retrocesso", com o objetivo de esmagar o comunismo onde quer que fosse que este se encontrasse instalado (e impedindo-o de se instalar em zonas de influência americana). Como uma série de trabalhos históricos têm demonstrado, incluindo o trabalho de investigadores americanos com uma forte ligação ao aparelho de Estado, e muito antissoviéticos, este programa foi definitivamente implementado pela CIA, desde o seu nascimento, em julho de 1947.
Podemos compreender a sua extensão graças ao texto de fevereiro de 1952 de Armand Bérard, um diplomata francês, em Bona, a quem cito em Aux origines du Carcan européen. Bérard profetizava que a Rússia, tão enfraquecida pela guerra alemã travada contra ela, entre 1941 e 1945 (27 a 30 milhões de mortos, com a URSS da Europa devastada) capitularia sob os golpes dos Estados Unidos e da Alemanha de Adenauer, oficialmente perdoado pelos seus crimes e rearmado até aos dentes. Moscovo acabaria por ceder toda a Europa Central e Oriental, que era a sua "zona de influência" e que tinha sido alvo de "mudanças fundamentais, de natureza democrática, que, desde 1940, ocorreram na Europa de Leste". Estas são as palavras deste diplomata "ocidental". E a data de 1940 refere-se à então sovietização dos Estados bálticos e de uma parte da Roménia e da Polónia, cada um destes países mais fascista do que o outro.
Foi, no entanto, necessário, esperar alguns anos.
Depois de 1945, este tipo de projeto exigia tempo, uma vez que o governo soviético era menos antipático aos olhos do seu povo, assim como dos povos vizinhos, do que a história de propaganda "ocidental" nos quer fazer crer. Mas foi conduzido com uma notável continuidade e enormes meios financeiros. Toda a população foi visada, ainda que tenha sido dada uma especial atenção ao Estado e às elites intelectuais do país, as quais constituíam uma questão prioritária, procurando-se separá-las do Estado soviético. O esforço acelerou-se consideravelmente após a vitória dos EUA de 1989, e com uma maior eficiência, num momento em que a Rússia conhecia uma década de decadência total. Recorde-se que, sob Ieltsin, as potências estrangeiras, com os Estados Unidos em primeiro lugar, impuseram a sua lei, a economia russa foi vendida por um nada e entrou em colapso, a população caiu 0,5% por ano (de forma especialmente dramática na Sibéria e no Extremo Oriente), sendo que, em 1994, a esperança de vida da população russa diminui drasticamente (de quase dez anos, para os homens).
Durante estes anos, o trabalho de formiga germano-americano, que Breitman e Goda descreveram para os anos 1945-1990, obviamente intensificou-se. Certamente, a National Endowment for Democracy (NED), querida a Victoria Nuland, a eminência das administrações Bush e, depois, de todos os seus sucessores democratas, Biden incluído, acaba de apagar do seu site os seus ficheiros de financiamento, até agora públicos (pelo menos, em parte), da secessão da Ucrânia e da sua inserção no aparelho de agressão contra a Rússia. Mas o site do Departamento de Estado não censurou as declarações, de 13 de dezembro de 2013, da subsecretária de Estado Nuland, a senhora das boas obras de Maidan, tão presente em Kiev em fevereiro de 2014, perante o Congresso: Nuland orgulhosamente declarou que, desde a queda da URSS (1991), os Estados Unidos tinham investido mais de 5 mil milhões de dólares para ajudar a Ucrânia. Tratava-se, naturalmente, de assegurar o controlo definitivo da agricultura e da indústria ucraniana, o objetivo final desta longa cruzada. Mas também trazer este país para a NATO, da qual são membros quase todos os países da antiga zona de influência soviética e várias das antigas repúblicas soviéticas. Isto foi admitido há muitos anos. Isto foi, aliás, claramente reafirmado pela “Carta de Parceria Estratégica EUA-Ucrânia”, assinada em 10 de novembro de 2021 pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba: o seu conteúdo consta, aliás, da redação da "Resolução de 16 de dezembro de 2021 sobre a situação na fronteira ucraniana e nos territórios da Ucrânia ocupados pela Rússia", orgulhosamente exibida pelo Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
A partir de então, tornava-se necessário colocar Moscovo a, pelo menos, 5 minutos das bombas atómicas armazenadas, desde as origens do Pacto Atlântico (por vezes, desde o início dos anos 50), nos países membros da NATO. Bastava exacerbar a disputa da miséria infligida pela Ucrânia de Maidan ao povo de Donbass, em flagrante violação dos acordos de Minsk. Sobre estas misérias e sobre a violação dos acordos de que Paris e Berlim foram "garantes", a propaganda ocidental manteve-se silenciosa de 2014 a fevereiro de 2022.
A conjuntura histórica e os desenvolvimentos desde 1989, seriamente agravados desde 2014, têm encurralado a Rússia. Todos os observadores razoáveis apontam que a Rússia iniciou a guerra contra a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, uma vez entrincheirada contra a sua vontade. Este passo faz lembrar o que a União Soviética deu no final de 1939.
O que quer dizer com isso?
Este é um elemento essencial. No final de 1939, a União Soviética tentou, com sinceridade, negociar com a Finlândia, apresentada pelos arquivos históricos e militares como um aliado puro e simples da Alemanha Nazi. Desde 1935, esta última havia instalado, na Finlândia, uma série de aeródromos militares e de bases para atacar a URSS – que, na realidade, foram cedidas à Alemanha, tendo sido, de facto, usadas, durante a guerra de agressão alemã à URSS. Moscovo falou, em vão, durante semanas, com a Finlândia, anteriormente parte do Império Russo, mas que em 1918-1919 se havia tornado num país-chave do "cordão sanitário" anti-bolchevique. Os soviéticos pediram-lhe que trocasse parte do seu território, para criar uma zona tampão de defesa sólida em torno de Leningrado, por um território maior (soviético). As discussões falharam, sob pressão da Alemanha e de todos os países "democráticos" que, como um diplomata fascista italiano declarou na altura, sonhavam com uma "Aliança Sagrada" geral contra os soviéticos.
A URSS invadiu a Finlândia em 30 de novembro de 1939. Teve, então, de enfrentar uma propaganda do mesmo tipo daquela que, atualmente, é difundida, assim como sanções (incluindo uma exclusão da Liga das Nações, unanimemente acordada em 14 de dezembro). Tratava-se, no discurso em vigor, de combater o monstro soviético e de proteger a pobre Finlândia, e o Vaticano do pró-nazi Pio XII ficou tão incomodado como o atual papa com os "rios de sangue" ucranianos. A "guerra de Inverno", num país-chave do "cordão sanitário", no qual a população tinha sido "preparada" incansavelmente contra o comunismo e a URSS, durante mais de vinte anos, foi terrível.
Com dificuldade, o Exército Vermelho conseguiu derrotar a Finlândia. Em 12 de março de 1940, o acordo alcançado deu a Helsínquia exatamente o que Moscovo havia proposto em 1939 – o que, sem dúvida, permitiu proteger Leningrado da invasão. É significativo que a atual campanha de propaganda pregue o longo período de neutralidade que a Finlândia no pós-guerra observou, isto, contudo, depois de a Finlândia pró-nazi, como se esperava, ter feito a guerra ao lado da Alemanha.
Isto relembra, então, a situação atual da Ucrânia?
Sim, se nos cingirmos a factos históricos, e não nos limitarmos a dizer que estamos perante um monstro louco. Leio, hoje, em petições ou em jornais de referência, que Putin está a incendiar e a incitar um derramamento de sangue numa Europa, até agora, calma e tranquila. Mas não ouvimos estes intelectuais, recrutados maciçamente pela imprensa mainstream, e revoltados contra o "novo Hitler", manifestarem-se contra as centenas de milhares de mortes dos bombardeamentos americanos e europeus no Iraque, na Líbia, no Afeganistão, na Síria. As mesmas pessoas que amaldiçoam Putin acharam magníficos os 78 dias de bombardeamentos contra Belgrado e contra o "novo Hitler", Milosevic. A comparação, refira-se, tem sido aplicada a todos os "inimigos" que o Ocidente forjou, desde a nacionalização de Nasser do Canal do Suez.
Também não me lembro de nenhuma importante indignação destes novos anti-nazis por causa das 500.000 crianças que morreram no Iraque, por falta de comida e de cuidados médicos, como consequência imediata do bloqueio anglo-americano; crianças, aliás, cujo sacrifício "valeu a pena", segundo as declarações recentes da ex-secretária de Estado democrata Madeleine Albright. Porquê esta sistemática aplicação de dois pesos, duas medidas, também usada no que concerne as populações martirizadas de Donbass (e que Putin é acusado de ter instrumentalizado durante oito anos contra a tão simpática Ucrânia)?
Esta guerra, por mais lamentável que seja, foi anunciada há muito tempo, e as razoáveis vozes de militares, diplomatas, académicos, a Oeste, que não têm acesso a nenhum órgão importante dito de "informação", privado ou estatal, são categóricas sobre as responsabilidades exclusivas, e de longa data, dos Estados Unidos, no desencadear de um conflito que eles próprios tornaram inevitável.
Na sua opinião, como é que será o futuro?
Não me pronuncio sobre o futuro, pois os historiadores não têm de desempenhar o papel de meteorologistas, especialmente tendo em conta a informação execrável a que, atualmente, têm acesso. Mas posso afirmar que os Estados Unidos são o poder imperialista cujas guerras de agressão acumularam, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, milhões de mortes. Recomendo, aliás, o livro traduzido de William Blum, um antigo funcionário da CIA (estes são os melhores analistas), que estabeleceu uma estrita cronologia dos crimes cometidos pelos Estados Unidos contra uma série de Estados qualificados de "bandidos".
A Rússia nem sempre foi considerada como tal pelo "Ocidente", na época da "Grande Aliança" e do "Tio Joe" (José Estaline). Até às últimas décadas de propaganda unilateral "ocidental" sobre a libertação da Europa – segundo a qual, a libertação teria ocorrido graças, unicamente, ao desembarque americano, em junho de 1944 –, havia sido amplamente reconhecido que só o Exército Vermelho é que tinha conseguido derrotar a Wehrmacht, e a que custo! De acordo com estimativas recentes, os Estados Unidos têm a deplorar, durante a Segunda Guerra Mundial, um total inferior a 300.000 mortes (todas, de militares), nas frentes do Pacífico e da Europa. Nesta entrevista, há pouco, já havia referido o monstruoso número de perdas soviéticas: 10 milhões de baixas militares e 17 a 20 milhões de vítimas civis.
Até agora, a Rússia, soviética ou não, não semeou ruínas em guerras externas. Tem sido objeto de uma ininterrupta agressão das grandes potências imperialistas, desde janeiro de 1918. Não digo isto porque sou uma seguidora de Putin. Todos os documentos de arquivo apontam nesta direção, diplomatas ocidentais e militares são os primeiros a sabê-lo e a admiti-lo, na sua correspondência não destinada a publicação: ou seja, o tipo de documentação que tenho vindo a estudar, há mais de cinquenta anos. Com o meu trabalho, e graças a uma reflexão sobre a conjuntura atual, estou, apenas, a exercer a minha profissão de historiadora.
03/Junho/2022
NT
[1] A Galicia foi uma província do Império Austríaco, formada em 1772, a partir dos territórios polacos anexados durante a primeira divisão da Polónia. Permaneceu austríaca até ao final da Primeira Guerra Mundial.
[2] Uniatismo: conjunto de comunidades cristãs, de rito oriental, que reconhecem a autoridade papal ou que se encontram ligadas à Igreja Católica.
[*] Professora Emérita de História Contemporânea da Universidade Paris VII-Denis Diderot, Annie Lacroix-Riz escreveu numerosos livros sobre as duas guerras mundiais e as dominações políticas e económicas.
Esta entrevista encontra-se em resistir.info


sexta-feira, 24 de junho de 2022

Exílio na rua principal: o som do mundo unipolar desaparecendo


 

Exílio na rua principal: o som do mundo unipolar desaparecendo

24458 Visualizações22 de junho de 2022 62 Comentários

A futura ordem mundial, já em andamento, será formada por Estados soberanos fortes. O navio partiu. Não há como voltar atrás.

Por Pepe Escobar, postado com a permissão do autor e amplamente publicado

Vamos direto ao ponto e entrar no Top Ten de Putin da Nova Era, anunciado pelo presidente russo ao vivo no fórum de São Petersburgo  para o Norte e o Sul Global.

A era do mundo unipolar acabou.

A ruptura com o Ocidente é irreversível e definitiva. Nenhuma pressão do Ocidente vai mudar isso.

A Rússia renovou com sua soberania. O reforço da soberania política e económica é uma prioridade absoluta.

A UE perdeu completamente a sua soberania política. A crise atual mostra que a UE não está pronta para desempenhar o papel de um ator independente e soberano. É apenas um conjunto de vassalos americanos privados de qualquer soberania político-militar.

A soberania não pode ser parcial. Ou você é um soberano ou uma colônia.

A fome nas nações mais pobres estará na consciência do Ocidente e da euro-democracia.

A Rússia fornecerá grãos para as nações mais pobres da África e do Oriente Médio.

A Rússia investirá no desenvolvimento econômico interno e na reorientação do comércio para nações independentes dos EUA

A futura ordem mundial, já em andamento, será formada por Estados soberanos fortes.

O navio partiu. Não há como voltar atrás.

Como se sente, para o Ocidente coletivo, ser pego em um furacão de fogo cruzado? Bem, fica mais devastador quando adicionamos ao novo roteiro o que há de mais recente na frente da energia.

O CEO da Rosneft, Igor Sechin, em São Petersburgo, enfatizou que a crise econômica global está ganhando força não por causa das sanções, mas exacerbada por elas; A Europa “comete suicídio energético” ao sancionar a Rússia; as sanções contra a Rússia acabaram com a tão elogiada “transição verde”, já que ela não é mais necessária para manipular os mercados; e a Rússia, com seu vasto potencial energético, “é a Arca de Noé da economia mundial”.

Por seu lado, o CEO da Gazprom, Alexey Miller, não poderia ser mais contundente sobre o declínio acentuado no fluxo de gás para a UE devido à recusa e/ou incapacidade da Siemens em reparar o motor de bombeamento Nord Stream 1: “Bem, é claro, a Gazprom foi forçada reduzir o volume de fornecimento de gás para a Europa em mais de 20%. Mas você sabe, os preços aumentaram não mais de 20%, mas várias vezes! Portanto, desculpe se digo que não nos sentimos ofendidos por ninguém, não estamos particularmente preocupados com essa situação”.

Se essa sobrecarga de marcação de dor não foi suficiente para arremessar o Ocidente coletivo - ou OTANstan - no Terminal Hysteria, então o comentário afiado de Putin sobre possivelmente permitir que Sarmat apresente seu cartão de visita aos "centros de tomada de decisão em Kiev", aqueles que estão encomendando o atual bombardeio e morte de civis em Donetsk, definitivamente funcionou:

“Quanto às linhas vermelhas, deixe-me mantê-las para mim, porque isso significará ações bastante duras nos centros de tomada de decisão. Mas esta é uma área que não deve ser divulgada a pessoas de fora da liderança político-militar do país. Aqueles que merecem ações apropriadas de nossa parte devem tirar uma conclusão por si mesmos – o que podem enfrentar se cruzarem a linha”.

Baby, por favor, pare de quebrar

Alastair Crooke descreveu magistralmente  como o zugzwang do Ocidente coletivo o deixa vagando, atordoado e confuso. Agora vamos examinar a situação do lado oposto do tabuleiro de xadrez, com foco na cúpula do BRICS nesta quinta-feira em Pequim.

Tanto quanto a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), a União Econômica da Eurásia (EAEU) e a ASEAN, agora é hora de um BRICS revigorado intensificar seu jogo. Em conjunto, essas são as principais organizações/instrumentos que estarão abrindo os caminhos para a era pós-unipolar.

Tanto a China quanto a Índia (que entre elas foram as maiores economias do mundo durante séculos antes do breve interregno colonial ocidental) já estão próximas e se aproximando da “Arca de Noé da economia mundial”.

O G20 – refém do golpe FIRE definido por Michael Hudson, que é o núcleo do cassino neoliberal financeirizado – está desaparecendo lentamente, enquanto um potencial novo G8 aumenta: e isso está diretamente ligado à expansão do BRICS, um dos principais temas do cimeira desta semana. Um BRICS expandido com uma configuração paralela do G8 está fadado a ultrapassar facilmente o centrado no Ocidente em importância, bem como o PIB por paridade de poder de compra (PPP).

O BRICS em 2021 já adicionou Bangladesh, Egito, Emirados Árabes Unidos e Uruguai ao seu Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Em maio, nos debates em nível de chancelaria, Argentina, Egito, Indonésia, Cazaquistão, Nigéria, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Senegal e Tailândia foram adicionados aos 5 membros do BRICS. Os líderes de algumas dessas nações estarão ligados à cúpula de Pequim.

O BRICS joga um jogo completamente diferente do G20. Eles visam as bases, e é tudo uma questão de “construir confiança” lentamente – um conceito muito chinês. Eles estão criando uma agência de classificação de crédito independente – longe da raquete anglo-americana – e aprofundando um arranjo de reservas cambiais. O NDB – incluindo seus escritórios regionais na Índia e na África do Sul – esteve envolvido em centenas de projetos. O tempo dirá: um dia o NDB tornará o Banco Mundial supérfluo.

Comparações entre o BRICS e o Quad, uma mistura dos EUA, são bobas. Quad é apenas mais um mecanismo bruto para conter a China. No entanto, não há dúvida de que a Índia pisa no território da corda bamba, pois é membro do BRICS e do Quad, e tomou uma decisão muito equivocada de sair da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) - o maior acordo de livre comércio do planeta - optando em vez disso, aderir ao Indo-Pacific Economic Framework (IPEF) americano.

No entanto, a Índia, a longo prazo, habilmente guiada pela Rússia, está sendo orientada a encontrar um terreno comum essencial com a China em várias questões-chave.

O BRICS, especialmente em sua versão expandida do BRICS+, deve aumentar a cooperação na construção de cadeias de suprimentos verdadeiramente estáveis ​​e um mecanismo de liquidação para o comércio de recursos e matérias-primas, que inevitavelmente deve ser baseado em moedas locais. Então o caminho estará aberto para o Santo Graal: um sistema de pagamento do BRICS como uma alternativa confiável ao dólar americano armado e ao SWIFT.

Enquanto isso, uma torrente de investimentos bilaterais da China e da Índia no setor manufatureiro e de serviços em torno de seus vizinhos deve elevar os participantes menores no Sudeste Asiático e no Sul da Ásia: pense no Camboja e em Bangladesh como engrenagens importantes em uma vasta roda de suprimentos.

Yaroslav Lissovolik já havia proposto um conceito BEAMS como o núcleo dessa unidade de integração do BRICS, unindo “as principais iniciativas de integração regional das economias do BRICS, como BIMSTEC, EAEU, o acordo de livre comércio ASEAN-China, Mercosul e SADC/SACU”.

É apenas (BRICS) rock'n roll

Agora, Pequim parece ansiosa para promover “um formato inclusivo de diálogo abrangendo todas as principais regiões do Sul Global , agregando as plataformas de integração regional na Eurásia, África e América Latina. No futuro, esse formato pode ser expandido para incluir outros blocos de integração regional da Eurásia, como o GCC, EAEU e outros.”

Lissovolik observa como o caminho ideal a partir de agora deve ser “a maior inclusão do BRICS por meio da estrutura BRICS+, que permite que economias menores que são parceiras regionais do BRICS tenham voz na nova estrutura de governança global”.

Antes de se dirigir ao fórum de São Petersburgo em vídeo, o presidente Xi ligou pessoalmente para Putin para dizer, entre outras coisas, que apoia a China em todos os temas de “soberania e segurança”. Eles também, inevitavelmente, discutiram a relevância do BRICS como plataforma chave para o mundo multipolar.

Enquanto isso, o Ocidente coletivo mergulha mais fundo no redemoinho. Uma massiva manifestação nacional de sindicatos na segunda-feira passada paralisou Bruxelas – a capital da UE e da OTAN – quando 80.000 pessoas expressaram sua indignação com o aumento e aumento do custo de vida; exortou as elites a “gastar dinheiro em salários, não em armas”; e gritou em uníssono “Pare a OTAN”.

É zugzwang tudo de novo. As “perdas diretas” da UE, como destacou Putin, provocadas pela histeria das sanções, “podem ultrapassar US$ 400 bilhões por ano”. Os ganhos de energia da Rússia atingiram níveis recordes. O rublo está em alta de 7 anos em relação ao euro.

É uma explosão que, sem dúvida, o artefato cultural mais poderoso de toda a era da Guerra Fria – e da supremacia ocidental –, os perenes Rolling Stones, está atualmente em turnê por uma UE “apanhada em um furacão de fogo cruzado”. Em cada show eles tocam, pela primeira vez ao vivo, um de seus primeiros clássicos: 'Out of Time'.

Soa muito como um réquiem. Então vamos todos cantar "Baby baby baby / you're out of time", como um Vladimir "é um gás, gás, gás" Putin e seu ajudante Dmitry "Under My Thumb" Medvedev parecem ser os caras realmente se divertindo desligado. É apenas (BRICS) rock'n roll, mas nós gostamos.


São Petersburgo prepara o cenário para a Guerra dos Corredores Econômicos

Em São Petersburgo, as novas potências do mundo se reúnem para derrubar a “ordem baseada em regras” inventada pelos EUA e reconectar o mundo à sua maneira

18 de junho de 2022







 O Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo  foi configurado há anos como absolutamente essencial para entender a dinâmica em evolução e as provações e tribulações da integração da Eurásia.

São Petersburgo em 2022 é ainda mais crucial, pois se conecta diretamente a três desenvolvimentos simultâneos que eu havia descrito anteriormente , sem nenhuma ordem específica:

Primeiro, a chegada do “novo G8” – quatro países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China), mais Irã, Indonésia, Turquia e México, cujo PIB por paridade de poder de compra (PPC) já supera o antigo, dominado pelo Ocidente. G8.

Em segundo lugar, a estratégia chinesa dos “Três Anéis” de desenvolver relações geoeconômicas com seus vizinhos e parceiros.

Terceiro, o desenvolvimento do BRICS+, ou BRICS estendido, incluindo alguns membros do “novo G8”, a ser discutido na próxima cúpula na China.

Dificilmente havia dúvidas de que o presidente Putin seria a estrela de São Petersburgo 2022, fazendo um discurso afiado e detalhado na sessão plenária.

Entre os destaques, Putin esmagou as ilusões dos chamados 'bilhão de ouro' que vivem no oeste industrializado (apenas 12% da população global) e as “políticas macroeconômicas irresponsáveis ​​dos países do G7”.

O presidente russo observou como “as perdas da UE devido a sanções contra a Rússia” podem ultrapassar US$ 400 bilhões por ano, e que os altos preços da energia na Europa – algo que realmente começou “no terceiro trimestre do ano passado” – são devidos a “acreditar cegamente em energia renovável”. fontes."

Ele também rejeitou devidamente a propaganda ocidental de 'aumento de preços de Putin', dizendo que a crise alimentar e energética está ligada a políticas econômicas ocidentais equivocadas, ou seja, “grãos e fertilizantes russos estão sendo sancionados” em detrimento do Ocidente.

Em poucas palavras: o Ocidente julgou mal a soberania da Rússia ao sancioná-la e agora está pagando um preço muito alto.

O presidente chinês Xi Jinping, dirigindo-se ao fórum por vídeo, enviou uma mensagem a todo o Sul Global. Ele evocou o “verdadeiro multilateralismo”, insistindo que os mercados emergentes devem ter “uma palavra a dizer na gestão econômica global” e pediu “melhor diálogo Norte-Sul e Sul-Sul”.

Coube ao presidente cazaque Tokayev, o governante de um parceiro profundamente estratégico da Rússia e da China, entregar a piada pessoalmente: a integração da Eurásia deve progredir de mãos dadas com a Iniciativa do Cinturão e Rota da China (BRI). Aqui está, círculo completo.

Construindo uma estratégia de longo prazo “em semanas”

São Petersburgo ofereceu várias discussões interessantes sobre temas-chave e subtemas da integração da Eurásia, como negócios no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) ; aspectos da parceria estratégica Rússia-China ; o que está por vir para os BRICS ; e perspectivas para o setor financeiro russo .

Uma das discussões mais importantes concentrou-se na crescente interação entre a União Econômica da Eurásia (EAEU) e a ASEAN , um exemplo chave do que os chineses definiriam como 'cooperação Sul-Sul'.

E isso conectado ao caminho ainda longo e sinuoso que leva a uma integração mais profunda da própria EAEU.

Isso implica passos para um desenvolvimento econômico mais autossuficiente para os membros; estabelecer as prioridades para substituição de importações; aproveitamento de todo o potencial de transporte e logística; desenvolvimento de corporações trans-eurasianas; e imprimindo a 'marca' da EAEU em um novo sistema de relações econômicas globais.

O vice-primeiro-ministro russo Alexey Overchuk foi particularmente perspicaz nos assuntos urgentes em questão: implementação de uma união econômica e alfandegária de livre comércio – além de um sistema de pagamento unificado – com pagamentos diretos simplificados usando o cartão de pagamento Mir para alcançar novos mercados no Sudeste Asiático, África e o Golfo Pérsico.

Em uma nova era definida pelos círculos empresariais russos como “o jogo sem regras” – desmascarando a “ordem internacional baseada em regras” cunhada pelos EUA – outra discussão relevante, com o principal conselheiro de Putin, Maxim Oreshkin, focada em quais deveriam ser as prioridades para grandes empresas e o setor financeiro em relação à política econômica e externa do estado.

O consenso é que as 'regras' atuais foram escritas pelo ocidente. A Rússia só poderia se conectar a mecanismos existentes, sustentados por leis e instituições internacionais. Mas então o Ocidente tentou “nos espremer” e até “cancelar a Rússia”. Então é hora de “substituir as regras sem regras”. Esse é um tema-chave subjacente ao conceito de 'soberania' desenvolvido por Putin em seu discurso em plenário.

Em outra importante discussão presidida pelo CEO do Sberbank Herman Gref, sancionado pelo ocidente, houve muita preocupação sobre o fato de que o “salto evolutivo russo em direção a 2030” deveria ter acontecido mais cedo. Agora, uma “estratégia de longo prazo deve ser construída em semanas”, com as cadeias de suprimentos quebrando em todo o espectro.

Uma pergunta foi feita ao público – o crème de la crème da comunidade empresarial russa: o que você recomendaria, aumentar o comércio com o leste ou redirecionar a estrutura da economia russa? Um gritante 72 por cento votou para o último.

Então agora chegamos ao ponto crucial, pois todos esses temas interagem quando olhamos para o que aconteceu apenas alguns dias antes de São Petersburgo.

O corredor Rússia-Irã-Índia

Um nó-chave do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INTSC) está agora em jogo, ligando o noroeste da Rússia ao Golfo Pérsico através do Mar Cáspio e do Irã. O tempo de transporte entre São Petersburgo e os portos indianos é de 25 dias.

Este corredor logístico com transporte multimodal tem um enorme significado geopolítico para dois membros do BRICs e um potencial membro do “novo G8” porque abre uma rota alternativa fundamental para a rota de carga usual da Ásia para a Europa através do canal de Suez.


Corredor Internacional de Transporte Norte Sul (INSTC)

O corredor INSTC é um projeto clássico de integração Sul-Sul: uma rede multimodal de 7.200 km de rotas marítimas, ferroviárias e rodoviárias interligando Índia, Afeganistão, Ásia Central, Irã, Azerbaijão e Rússia até a Finlândia no Mar Báltico .

Tecnicamente, imagine um conjunto de contêineres indo por terra de São Petersburgo a Astrakhan. Em seguida, a carga navega pelo Cáspio até o porto iraniano de Bandar Anzeli. Em seguida, é transportado por via terrestre para o porto de Bandar Abbas. E depois no exterior para Nava Sheva, o maior porto marítimo da Índia. O principal operador é a Islamic Republic of Iran Shipping Lines (o grupo IRISL), que tem filiais na Rússia e na Índia.

E isso nos leva ao que as guerras a partir de agora serão travadas: corredores de transporte – e não conquista territorial.

O BRI acelerado de Pequim é visto como uma ameaça existencial à 'ordem internacional baseada em regras'. Desenvolve-se ao longo de seis corredores terrestres na Eurásia, além da Rota da Seda Marítima do Mar da China Meridional e do Oceano Índico, até a Europa.

Um dos principais alvos da guerra por procuração da OTAN na Ucrânia é interromper os corredores da BRI em toda a Rússia. O Império fará de tudo para interromper não apenas os nós do BRI, mas também do INSTC. O Afeganistão sob ocupação dos EUA foi impedido de se tornar um nó para o BRI ou INSTC.

Com acesso total ao Mar de Azov – agora um “lago russo” – e sem dúvida toda a costa do Mar Negro mais adiante, Moscou aumentará enormemente suas perspectivas de comércio marítimo (Putin: “O Mar Negro era historicamente território russo”) .

Nas últimas duas décadas, os corredores de energia foram fortemente politizados e estão no centro de implacáveis  ​​competições globais de gasodutos – de BTC e South Stream a Nord Stream 1 e 2, e as intermináveis ​​novelas, Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão. Gasodutos Índia (TAPI) e Irã-Paquistão-Índia (IPI).

Depois, há a Rota do Mar do Norte ao longo da costa russa até o Mar de Barents. A China e a Índia estão muito focadas na Rota do Mar do Norte, não por acaso também   discutida em detalhes em São Petersburgo.

O contraste entre os debates de São Petersburgo sobre uma possível religação do nosso mundo – e os Três Patetas tomando um trem para lugar nenhum para dizer a um comediante ucraniano medíocre para se acalmar e negociar sua rendição (conforme confirmado pela inteligência alemã) – não poderia ser mais austero.

Quase imperceptivelmente – assim como reincorporou a Crimeia e entrou no teatro sírio – a Rússia como uma superpotência militar-energética agora mostra que é potencialmente capaz de conduzir grande parte do oeste industrializado de volta à Idade da Pedra. As elites ocidentais são simplesmente impotentes. Se ao menos pudessem percorrer um corredor no trem de alta velocidade eurasiano, poderiam aprender alguma coisa.